Sine Cordi
20 Capítulo 20 - כ
Notas iniciais
"UM ANÚNCIO TRANQUILIZADOR
Por favor, mantenha a calma, apesar da ameaça anterior.
Sou só garganta...
Não sou violenta.
Não sou maldosa.
Sou um resultado."
– Markus Zusak in The Book Thief–
Quinn gemeu, a despertar lentamente. Sentiu a cabeça dar uma forte pontada desagradável e outro gemido lhe escapuliu por entre os lábios. Encontrou-se, ainda, atordoada com o branco que se tornou sua mente afiada. Suspirou tão forte que Alex despertou também confusa, entrementes as lembranças do dia anterior lhe vieram à mente num "flash". Olhou para a namorada e, sem nenhuma dúvida, reconheceu nela a confusão que era um castigo para o brilhantismo da mente excepcional da qual era dotada.
"Quinnie, como você se sente?", questionou cheia de cuidado. A última coisa que desejava era a amante aborrecida por achar que estava a sofrer com um dos apagões que vez ou outra a tomavam. Mas...
"Eu...", o mirar confuso dela confirmou a desconfiança da editora de moda.
"Você não se lembra do que ocorreu ontem?"
A advogada meneou a cabeça bem devagar e murmurou "e... Eu não... Sei... Não sei bem. Você...", o modo como fitou Alex fez a mesma se quedar ainda mais preocupada. E cuidou de esclarecer, a fim de ajudar a moça loira e, também, a si mesma, "sou Alex! Eu e você... Você e eu... Nós somos namoradas. Recorda-se? Ontem, você e Rachel Berry conversaram e parece que o colóquio não foi muito positivo... Você se fechou em seu escritório e bebeu um pouco além da conta e, parece, também abusou dos fortes analgésicos que deveriam aliviar a dor de cabeça que lhe persegue há alguns anos. Consegue se recordar", indagou, preocupada. E, para seu total espanto, ouviu da advogada, "quem é Rachel Berry?"; tal questionamento quase causou uma síncope na editora de moda, que observou, espantada, "você não se lembra de Rachel Berry? Vocês foram colegas na High School! Ela é uma das melhores cantoras e atriz dos últimos anos! Tudo o que toca vira sucesso! Quinnie, assim você me assusta além da conta!", concluiu.
A advogada franziu o cenho e quis saber "por que eu espanto você?"; a morena, com ar decepcionado, confessou, "porque eu amo você além da conta e o seu modo de me olhar é estarrecedor! Eu tenho a impressão que também não sabe quem sou eu...".
A loira sorriu ao murmurar "você... Eu sei quem você é. Você é a biruta que gosta de me acordar de maneira meio... Estranha", explicou e a editora de moda tomou-lhe a boca em um beijo completamente possessivo e cheio de amor. A Fabray tentou escapulir, mas se sentiu fraca quando a língua da morena invadiu-lhe por completo. E só conseguiu soltar um fraco gemido. Alex afastou-se um pouco, preocupada. "Eu machuquei você? ", inquiriu e ouviu a resposta mais inesperada que imaginou: "não... É só que a sua boca tem um gosto delicioso e a maneira como a sua língua inva...", não terminou de explicar, pois a namorada tomou-a em outro beijo apaixonado e ainda mais ardente que o anterior. Murmurou, entre os assaltos aos lábios da loira, "eu... Eu amo... Tanto, tanto você, Quinnie! Amo... Tanto!". Porém, a advogada conseguiu afasta-la ao gemer. E não era de prazer. Era de dor. Uma dor aflitiva que a tirou, mais uma vez, de órbita.
A jornalista cuidou de se erguer de sobre a mulher, vestir um chambre que deixava ali e correu a chamar por Holmes. Encontrou-o a preparar a bandeja com o que seria o café da manhã servido às mulheres na cama. Porém, interrompeu o gesto cheio de preocupação. Ouviu de uma Alex nervosa que "Quinn está a ter uma crise... E parece... Parece séria!".
Imediatamente o cuidador largou o que fazia e os dois foram a passos largos até a suíte da loira, mas — para total espanto da morena — estancou à porta e perguntou, meio fora de hora, para a mulher que o acompanhava, "ela está composta?". Alex desejou pular no pescoço dele e, entre dentes, exprimiu "por que acha que corri até você? É óbvio que está composta", quase gritou e o mulato sempre cavalheiro agradeceu pela informação e adentrou ao quarto.
Quinn parecia recobrar a consciência e se espantou ao perceber Holmes e a jornalista a lhe olharem preocupados. Ele sacou o celular do bolso e já iria apertar a tecla de discagem rápida quando ouviu, ainda que baixa e meio rouca, a voz imperativa da patroa em "nem... Pensar em chamar... Quem quer... Que seja!"
O indicador dele ainda apontava para o teclado e era seu dever socorrer a advogada quando ela sentia tais dores.
"Srta. Fabray, sabe muito bem que eu tenho..."
"Não! Você não tem!", ela o cortou, com a fala mais alta e direta.
Alex se meteu, sem saber o porquê do impasse entre patroa e empregado, "os dois podem, por favor, parar o debate e me dar um pouco de atenção?". Foi a advogada que respondeu, a recostar-se com certa dificuldade nos travesseiros arrumados às costas, à cabeceira, pelo homem que ainda possuía o aparelho aberto, e em suspensão.
"Está tudo bem..."
A morena franziu o cenho e retorquiu, aborrecida, "não está não! Você desmaiou!". Quinn deu um profundo suspiro e puxou a amante pela mão, fazendo-a sentar ao seu lado e explicou, a cabeça a explodir, "Alex, eu não desmaiei...", tomou novo fôlego, a dor não a deixava ter muita coerência na fala, por isso, escolhia bem o que dizer, "acredite... Eu estou, mesmo, com... Com uma dor... Infernal... Eu só preciso... Preciso...", começou a ver pontos brilhantes a dançarem diante dos olhos e os fechou, a deixar a cabeça tombar para trás.
Os dois que ali estavam pensaram que ela havia perdido os sentidos e, quando o cuidador pensou em apertar a discagem rápida, Quinn abriu o olho direito e avisou:
"nem pense nisto", fez uma pausa para colocar os pensamentos em ordem e falou que "eu só preciso... De uma boa xícara... Xícara de café, meus analgésicos que parecem valer nada e... E da Risperidona. Por favor, Holmes! Só isso! Eu... Eu confesso que abusei... Ontem. Mas, prometo...", os dois olhos voltaram a se fechar, "comportar-me melhor. Eu não tive o melhor dos meus dias ontem. Era tanta gente... Era o marido dela, ela, Kurt... Eu não consegui me concentrar! E eu ainda não sei o que ela quer de mim! Não há e nem haverá perdão. Por que ela não para?", mostrou-se profundamente confusa.
A editora de moda fitou Holmes e indagou quais eram as ordens. Ele fitou a patroa e, em baixo tom, respondeu, grave, "chamar alguém da família ou a Dra. Parker. Ou ainda, se necessário, a Dra. Tolkien ou o Sr. Slater". A jornalista indagou, a boca aberta em surpresa, "eu sei quem é a Dra. Parker, mas desconheço os outros dois nomes. Quem são?"
A loira tomou a resposta para si ao verbalizar "cópias da Dra. Parker. Têm a mesma... A mesma função...", e questionou ao cuidador, ainda atônito, "Holmes, porquê você ainda não foi pegar o café e os comprimidos?".
Observe-se que ela voltou a abrir somente o olho direito.
O cuidador fitou Alex, quase num pedido de socorro, entrementes quem lhe falou foi a "Rainha de Gelo":
"Não olhe para ela... Alex... Alexandra Bishop não me desautorizará. Então...", a dor era excruciante, mas Quinn era difícil de mostrar fraqueza. E segurava as lágrimas a duras penas e a consciência mais ainda.
A jornalista olhou para a mulher que tanto amava e falou para o homem, preocupada, "por favor, Holmes! Faça o que ela está a pedir. Rápido!".
Ele meneou a cabeça, contrariado, e obedeceu a morena. Esta sentou ao lado da namorada, à beira da cama, e lhe segurou a mão ao falar "eu sei que você está com uma crise daquelas em que a Dra. Parker lhe enviaria ao hospital. Mas, eu vou ficar aqui a cuidar de você. Se eu perceber que não houve melhora, saiba que farei questão de levá-la para os seus outros médicos. Entendeu?", o tom foi sereno, porém decidido. A advogada assentiu e conseguiu apertar a mão da mulher.
Cerca de cinco longos minutos depois, Holmes adentrou ao recinto com uma grande xícara de café preto puro e mais os remédios pedidos. Havia apenas uma distinção: ele colocou um comprimido a mais de analgésico. Com certo esforço, Quinn tomou todos os comprimidos de uma só vez com um gole de água e Alex tomou da xícara e a ofereceu, cuidadosa, para a mulher que era a sua perdição. A advogada agradeceu e tomou um gole do líquido e voltou a se recostar. Holmes, ainda que tivesse certeza de que o certo seria telefonar aos médicos e levar a patroa até eles, pediu licença para se retirar e ouviu da patroa, o que não o deixou nem um pouco aliviado, "obrigada, Holmes! Eu ficarei bem. Confie em mim!".
Ele a mirou nos verdes olhos e assentiu, a sair em seguida.
"Holmes se preocupa muito com você, Quinn", atalhou a editora de moda. E perguntou, confusa, "por que bebeu tanto? Você nunca foi de fazer isso!", e tornou a levar a xícara aos lábios da loira, que sorveu um gole bem generoso do café. Mas, como resposta recebeu o silêncio. Porém, não se deu por satisfeita ao perguntar "o que Rachel Berry tem a ver com a sua atitude e estado hoje? Você falou coisas como o porquê de ela não lhe deixar em paz, que nada há para ser perdoado... O que aconteceu entre vocês, de verdade? Aquela conversa de que vocês nunca se entenderam no colégio foi rasa demais. Eu percebi que havia uma enorme tensão nela em relação a você e de Kurt sobre vocês duas. Abra-se comigo, Quinn! Falar faz bem. Eu sei que há a Dra. Parker, porém, algumas vezes, um amigo ajuda mais! Pense sobre isso! Eu amo tanto você!".
A advogada resfolegou. Ainda sentia imenso cansaço. Só desejava dormir um pouco mais!
"Alex, eu... Preciso descansar... Entendeu?"
A morena assentiu, entrementes não pretendia esquecer as respostas que desejou saber e, no momento, desejava ainda mais! Ajudou a namorada a findar o café e a ajudou a se deitar. Percebeu que ela iria se encolher de modo que não pudesse ser tocada, porém a editora, conhecendo-a, tratou de se colocar ao lado e segura-la.
"Deixe-me...", pediu em tom quase choroso.
"Não, Quinn! Eu a amo e a quero junto ao meu corpo. Lute, mas eu não a soltarei", avisou.
A Fabray, no momento, não tinha forças para tal e acabou envolvida num abraço de pernas e braços da jornalista.
Enquanto a advogada adormeceu, Alex respirou fundo para conseguir controlar o desejo que o corpo preso ao seu despertava sem dó ou piedade. "Deus! Como você é linda!", sussurrou ao ouvido da mulher presa a si e ouviu somente um pequeno gemido de reclamação.
"Não se pode fazer regredir o relógio...
Mas pode-se tornar a dar-lhe corda."
– Bonnie Prudden -
Rachel olhou o jardim bem cuidado da janela. A vista agradável aconchegou-lhe o coração. Pensou no trabalho. Logo estaria a voltar ao palco, ao seu panteão particular, onde a tratavam como uma diva mais poderosa que as demais. Sorriu, amargamente. Se soubessem a verdade! Nunca passou de uma deusa de barro, que à menor queda se desfaria em pedaços... Riu-se. Já era uma deusa partida, quebrada à metade. Seu outro pedaço pareceu-lhe tão distante, embora perto.
"Até quando, Quinn, serei castigada com sua ausência? Quanto tempo para você voltar e sabermos o que será de nosso futuro? Por quanto tempo mais ainda terei de esperar?", perguntou. Sentiu a brisa fresca alcançar-lhe a face e o cheiro das flores as narinas. Respirou fundo e, após segurar o ar por dez segundos, soltou-o. A cabeça ficou leve, uma espécie de torpor a tomou. E este fez toda a insegurança que a tomou se tornar frágil. Insegurança esta que no atual contexto atendia pelo nome de Quinn Fabray. Sentiu enorme desejo de conversar sobre ela, lembrar... Porém, não se sentiu no direito de ocupar o tempo de Santana... Ela e Brittany eram boa companhia. Porém, falar de seu amor para elas... Não encontrou lógica. Pelo menos, não na atual conjuntura. A latina era ocupada... E Britt também! Kurt, além de empresário, também era seu amigo. Porém, também ocupado... E um forte defensor da ideia de que a Fabray não era mais "apta" para a compreensão, perdão e amor... Se ao menos seus pais estivessem por perto! Sentiu falta deles. Eles, que deveriam estar por perto desde o seu divórcio de Jesse... Meneou a cabeça ao reconhecer que muita gente lhe fez e fazia falta. E Quinn era a maior.
Jesse chegou ao teatro a fim de ensaiar para a peça que estrelaria. Encontrou Kurt sentado em uma das cadeiras da plateia e, como ainda faltavam quinze minutos para o início do trabalho, foi até o homem de olhos azuis e pele de leite.
"Kurt...", chamou-o em uma espécie de cumprimento.
O empresário o mirou e sorriu sem, no entanto, mostrar os dentes. E comentou:
"O produtor da peça está por demais animado com o seu talento. Fiquei muito orgulhoso! Você e Rach — Rach são os meus tesouros!".
O St. James sorriu e sentou ao lado do empresário e soltou, como um torpedo teleguiado:
"O que aconteceu com a Quinn depois que ela me flagrou na cama com a noiva dela e fugiu, sem dar tempo da minha Star se explicar?".
Kurt teve uma crise de tosse. Engasgou com a própria saliva.
O ex-marido da Berry se ergueu e desferiu fortes tapas, que poder-se-ía chamar de porradas mesmo, nas frágeis costas do Hummel. Este, por sua vez, olhou aterrorizado para o artista, a sentir a ardência dos tapas do outro.
"Melhor?", questionou o St. James, com um sorriso sádico no olhar.
Para sorte do homem de cútis de alabastro, um dos funcionários da produção apareceu com um copo de água e o ex de Rachel se viu obrigado a parar de sopapar o "amigo" e empresário. Assim que recuperou a respiração e tomar dois grandes goles de água, virou-se para Jesse e questionou, incrédulo, "você me bateu?! Por quê? Perdeu o juízo, St. James?".
O artista, que sentou ao lado de Kurt novamente, retorquiu, a representar com perfeição, "enlouqueceu, Kurt? Eu vez em quando não tenho medida de minha força! Quando eu o vi a perder o ar, meio que me desesperei e, na ânsia de lhe ver bem, talvez eu tenha exagerado."
O empresário assentiu com um meneio de cabeça e não falou nada mais. Todavia, Jesse estava louco por alguma informação que explicasse o comportamento da Quinn. E insistiu...
"Então, Hummel, o que aconteceu com a Fabray? Por que a certeza de que ela não é mais a mesma? E como soube que ela falaria algo que machucaria a minha star? O quê há de podre em 'nosso reino'?"
O empresário meneou a cabeça e suspirou. Porém, respondeu, "Jesse, o que achou que encontraria em Quinn Fabray depois de tudo o que aconteceu? Ela sofreu muito! E está a namorar a Bishop que, você sabe, tem fama de ser uma leoa de ciúme e posse."
O ator meneou a cabeça, sem acreditar no que ouviu. Insistiu, grave, "Hummel, eu conheço bem a Bishop. Este seu argumento está mais furado que peneira. Eu até admito que a Quinn sofreu, pois o que eu e Rachel fizemos não foi legal. Porém, sabe quantas vezes a minha pequena pediu perdão? E em todas elas a Fabray respondeu que não havia o que ser perdoado! Explique-me a contradição de uma mulher que todos chamam de "Rainha de Gelo" ser tão compreensiva? Tudo bem que ela não deixa transparecer emoção, entretanto, eu cheguei a conhecer a Quinn antes da coisa feia que eu e minha star fizemos. A advogada que ela se tornou é uma mulher completamente diferente da fotógrafa. Pessoa alguma muda tão radicalmente! Por isso, meu caro, eu afirmo que há algo mais neste enredo. E você, Anderson, Lopez, Pierce e os Fabray sabem. Porém, escondem à sete chaves. O que foi que aconteceu com ela? Por que vocês protegem tanto este segredo?".
Kurt olhou nos olhos do St. James e, num raro, porém não surpreendente, momento de indignação, cuspiu:
"Porque Rachel não terá estrutura emocional para sustentar a culpa do que aconteceu realmente. E, ainda que Santana fale que Rach não tem que se sentir culpada pelas escolhas da Quinn, eu sei que ela se sentirá por causa do amor que ainda nutre. E, creia-me, St. James, você também sofrerá um grande impacto. Então, ouça-nos e deixe o passado lacrado e enterrado, como todos nós nos esforçamos para fazer. Ou achou, em algum momento, que eu, Blaine, Santana, Britt e todos os que aqui ficaram não lamentamos o que aconteceu? Que não nos entristece olhar para a Quinn e não enxerga-la mais? Faça um favor a todos nós, principalmente para você e Rachel: pare de cutucar o que só poderá destruir sua vida e a de Rachel. Quinn, aquela Quinn Fabray que vocês conheceram, não existe mais! E nem voltará a existir!", findou o homem, de pé, com lágrimas a descerem rosto abaixo, sem controle e a procurar fugir da presença de Jesse com desespero. E conseguiu, a deixar o ex-marido da Berry completamente sem palavras e sem chão.
"É errado quando acreditas em cada um,
mas também é errado quando não acreditas em ninguém."
– Sêneca -
CONTINUA.
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