Sine Cordi
15 Capítulo 15 - יח
Notas iniciais
"Não corrigir nossas falhas é o mesmo que
cometer novos erros."
– Confúcio -
O relógio marcava onze horas e dez minutos. Lembrava-se vagamente de terem adormecido quase às cinco da manhã. Não tinha absoluta certeza. "Você é linda, Rach...", murmurou, encantado com a agora ex-mulher. E a imagem de Quinn lhe veio à mente, ao se lembrar do que dissera no café: "muito interessante! Um divórcio apenas no papel... O vínculo entre os dois é real e visível. Por que cometerão um equívoco tão primário?... Eu acredito que o casal deveria rever essa decisão...".
Rachel piscou algumas vezes e, preguiçosamente, despertou. Ao vê-lo, sorriu. "Bom dia, ex-marido! ", murmurou, com a voz sensualmente rouca pelo sono. "Bom dia, ex-esposa!", ele sorriu de volta. Então, ficou sério, a fitá-la. A cantora cerrou o cenho. "O que foi?", perguntou, à vontade com a situação inusitada. Jesse foi direto, pois sentia a cabeça cheia de nós, "o que seremos daqui para frente, Star, além de ex-casal? Amigos já somos há muito tempo! Com todos os meus tropeços, temos um filho lindo..."; a cantora respondeu, para surpresa dele, "não pense muito, Jesse! Foi uma noite maravilhosa, uma madrugada deliciosa, você foi maravilhoso! E não foi a primeira vez que fizemos amor. Por que deseja tanto categorizar as coisas", questionou. O ator meneou a cabeça e retorquiu: "baby, nós não dormíamos juntos, ou melhor, não nos relacionávamos sexualmente há meses! E, mal assinamos o divórcio e já viemos para a cama! Você está gostosa demais e eu muito confuso! E você não quer categorizar ou definir esta situação? E, por Deus, amor! Você ainda ama a Quinn e nunca deixou de amar!"; ela suspirou e pediu "Jesse, eu sei que... Que eu pensei nela uma vez equanto nos amávamos e falei o nome dela e peço, outra vez, perdão por isso. Mas, vamos deixar a Quinn fora disso? O momento é sobre nós dois...". Ele a cortou, incrédulo, "sobre nós dois?! Não, baby! Isto é sobre a Quinn também! Afinal, para que nos divorciamos?". A resposta dela saiu de pronto. "Para que você não vivesse à minha sombra..."; o cantor não se deu por satisfeito. "Star, este foi um dos motivos. O mais importante tem a ver com você nunca deixar de amar a Fabray. E me deu prova disso esta madrugada. Eu não estou chateado com você... Mas...". Rachel suspirou e respondeu, muito calma, "ainda vivemos sob o mesmo teto. E sentimos tesão e transamos! E foi delicioso! Não significa que vá ou não acontecer de novo! Vamos...", ela acariciou a mão dele, "relaxe! E vamos, também, levantar. Estou a morrer de fome. O senhor meu ex-marido drenou toda a minha energia". O homem ficou incrédulo com a desfaçatez da judia e a segurou pelo braço, impedindo-a de sair da cama, “eu drenei toda a sua energia? Eu ou a sua imaginação? Eu não vou negar que fazer amor com você, após tanto tempo, foi bom. Porém, seu primeiro gozo foi dedicado à Quinn! Não brinque com o que temos, Rachel!”. Os olhos dela se tornaram maiores e ela ficou grave. “Não estou a brincar, Jess! Eu amo você! Amo a Quinn, mas você a viu! Eu... Eu fico insegura em relação a ela!... Porque eu não sei como fazer para tê-la de volta. E sei que não será traindo-a antes mesmo de reconquistá-la. Entretanto, ainda que eu a ame, nós duas não temos nenhum compromisso... Eu mal posso me aproximar dela! Ela sente prazer em me espezinhar... É como diz o ditado: “um dia da caça e outro do caçador”! Estou a receber o castigo pelo que fiz e tenho plena consciência disso! Mas... Culpar-nos pelo momento de fraqueza que tivemos?”; Jesse deu uma sonora gargalhada. Rachel possuía o dom de responsabilizar os outros por suas escolhas e opções. E, em meio aquela situação conflituosa, em que a pessoa mais confusa era ele, acabaram por tomar banho juntos e, sem conseguirem refrear os desejos da carne, transaram outra vez sob a água e ambos chegaram ao prazer juntos. Gentil, ele sustentou a ex-mulher nos braços, pois após o orgasmo forte, ficou num estado tal de relaxamento que, não fosse a água a lhe cair por sobre a cabeça e o restante do corpo, adormeceria. Docemente, o homem perguntou se ela estava bem. A resposta foi um ronronar...
"Uhum..."
"Vamos, após o café você estará mais restaurada", abalizou. E, para sua surpresa, escutou da voz arrastada de sua Star a lhe questionar "eu não traí a Quinn, certo? Nós não somos mais namoradas..."; ele sorriu e avaliou, sério, "acho que não, baby!". De que adiantaria dizer o contrário? Rachel estava certa, apesar de tudo. E ouviu dela "eu amo a Quinn de verdade, Jess! Eu sei que fizemos amor, porém o meu sentimento por ela não mudou". O cantor assentiu. "Eu sei disso, Star! Este foi apenas um delicioso 'alívio de pressão'". Ela levantou os olhos para o ex-marido e sorriu, cálida. "Éééééé..."; ele saiu do amplo boxe, levando-a agarrada ao corpo. Após colocar os pés sobre o felpudo tapete que "morava" à entrada do espaço do qual saíram, Jesse depositou a ex-esposa delicadamente sobre o mesmo e perguntou, a sorrir, "quer que eu a enxugue". A morena agradeceu e meneou a cabeça em negativa. "Você já fez muito por mim", retorquiu.
Meia hora depois, o ex-casal apareceu na sala de refeições de mãos dadas e a sorrir, em sussurros de colóquio. A judia não viu o filho e olhou confusa para Maria, que pareceu ler o pensamento da patroa e respondeu, séria, "Marco llevó el pequeño a la escuela". A cantora não conseguiu esconder a própria decepção ao proferir "Deus! Estou a me tornar uma mãe relapsa!"; St. James sorriu com o exagero da "ex" e pegou o celular, que sinalizou a chegada de um SMS. Leu e, se sorria já por causa do drama de Rachel, a ação aumentou ainda mais. E justificou, maravilhado, "é uma mensagem do Kurt! Eu consegui o papel principal no musical 'This is Rock'n Roll' e preciso ir ao encontro dele, de Blaine e do produtor, a fim de legalizarmos o contrato", exultou. Rachel deu um gritinho de felicidade e pulou no pescoço do cantor, a parabeniza-lo. "Eu sempre soube que você conseguiria" e aplicou um selinho nos lábios dele, que agradeceu. Saiu sem mesmo tomar café. A empregada o viu desaparecer pela porta e tornou o olhar confuso para a patroa. A cantora, que tomou um gole do fresco café, fitou a outra e questionou "¿ Qué pasa, Maria? "; a mulher meneou a cabeça em negativa espantada e respondeu:"!nada, señora!" — sem, no entanto, convencer a patroa. A atriz avisou que precisava sair e se retirou do olhar escrutinador da serviçal, que se voltou para a pia, onde pôs a louça de molho antes de coloca-la na máquina. Ao se ver sozinha, a mulher sussurrou para si mesma "¿ Qué pasa María? ¡ Entonces están separados y duermen juntos! ¡ No comprendo estes artistas!¡ No mismo!"
A atriz foi para o escritório que possuía no grande apartamento que habitava. Sentou-se à mesa e ligou o computador pessoal. Conectou-se e entrou na Rede. Foi para o site do New York Times e, de imediato, deu com a manchete "A Famosa Advogada Quinn Fabray, Conhecida Como a 'Rainha de Gelo' dos Tribunais Aceitou Auxiliar o Promotor J.J. Lancaster no caso do 'Estado Contra Raul Steven Street', Acusado de Assassinar a Socialite e Amante Linda Power Wood. O Advogado de Defesa, Anthony Mathews, Disse que Será um Prazer Ter a Bela Advogada Como Adversária. Diga-se de Passagem que o Caso — Por Causa de Provas Apenas Circunstanciais — Está Praticamente Vencido Pela Defesa. Acostumada a Reverter Situações Como a do Julgamento do Sr. Street, Pergunta-se: Será Que a 'Rainha do Gelo' Conseguirá Mais um Feito Extraordinário Para o Seu Currículo Cem por Cento Positivo?"
Rachel se pôs a ler toda a reportagem, em que havia uma declaração de Russel Fabray, que disse que este era um caso difícil, mas tinha absoluta certeza e confiança no inegável talento e gênio da filha para lidar com processos complicados e vencê-los. A judia sorriu. Iria assistir ao julgamento, aberto ao público. Quis ver a ex-namorada, não como profissional somente, da maneira como Santana e outros descreveram: uma mulher completamente oposta a que conheceu. Não que ignorasse as vezes que a encontrou e o jeito com o qual ela agiu. Apenas precisava de mais do que testemunhou até o momento. O que teve foi pouco. Quinn tornou-se uma incógnita que necessitava desvendar para que, uma vez a reconhecendo, pudesse saber como reconquistar o amor que ainda — tinha absoluta certeza — era seu e de mais ninguém. “Deus! Essa mulher está a me enlouquecer! Uma hora eu tenho certeza de que ainda me ama; na outra, já não sei se este fato é mesmo real. O que você fez, Rachel Berry, com a vida que teriam juntas? E o que fará se ela não abrir espaço para que possam se aproximar, o pouco que seja?”, e segurou a cabeça entre as mãos, em clara demonstração de dúvida. Sim! Ela, Rachel Berry não tinha certeza de cousa alguma quando o assunto era Lucy Quinn Fabray! Aliás, alguém tinha?
"Sou escravo do dever por
amor à liberdade."
– Cícero -
Russel quase soltou foguetes quando viu Quinn adentrar à firma. Sem pensar duas vezes, foi recebê-la, porém não ousou tocá-la. Sabia o quanto ela era avessa ao contato físico. E se perguntou várias e várias vezes como Alex conseguiu a façanha de se fazer amante dela. "Quinnie, finalmente! Eu estava preocupado", exclamou. A advogada estava vestida com um elegante e clássico terno Giorgio Armani preto, com uma blusa feminina branca que lhe deixava o belo colo à mostra, assim como o crucifixo que era o seu fiel companheiro. O cabelo amarrado num rabo de cavalo perfeito; nas delicadas orelhas discretos brincos de brilhantes. Nos pés, sapatos femininos pretos e fechados. A saia do Armani ía à altura dos joelhos. Na mão direita, a pasta de trabalho e nada mais. A maquiagem leve. Os olhos num tom de verde bem acentuado.
Mary perdeu-se em tamanha beleza fria.
A advogada fitou Russel com a indiferença costumeira e perguntou, também indiferente, "preocupado por quê? Minha saúde vai bem, obrigada". A fala da Fabray fez o homem se envergonhar. Ele não estava preocupado com a saúde dela. E Quinn sabia. Por isso tocar em tal ponto. "Vamos conversar na minha ou na sua sala", questionou, a desconversar. A advogada deu um sorriso de canto, cínico, e retorquiu "tanto faz. Eu não me importo". O genitor, então, optou ao decidir "vamos para a minha".
Santana a viu e observou. Sentiu um estranho sufocar. Se fosse em outros tempos, ao invés de ir até Russel cuidar de "negócios", iria até ela para colocarem o assunto em dia. E Matt Robinson, o belo rapaz de cabelos negros e lindos olhos verdes claros, ao avistar a loira, objeto de seu desejo, comentou com a latina "verei se ela aceitará tomar um café comigo. Faz tempo que não consigo chegar até ela", exclamou. A advogada morena o encarou e respondeu "yo voy querer mirar esto. Problablemente llevarás un grande no en medio a la cara". O moço a fitou sem entender patavina. "Pode traduzir, por favor?", pediu.
"¡ No!", sorriu e se encaminhou para dentro da sala que ocupava, a deixar o jovem e bonito advogado confuso.
Russel puxou a cadeira para a filha sentar. Ela o fez e agradeceu friamente, porém educada. O homem se colocou do outro lado da escrivaninha e, a mira-la, falou "suponho que já decidiu a linha de trabalho em relação ao caso em que auxiliará a promotoria". A moça não respondeu, pois se distraiu com o porta clipes que havia sobre a mesa e o tomou nas mãos, a estuda-lo com cuidado. Murmurou, diante do objeto de acrílico que era uma caixinha com gavetinha, "bonito...". "Quinn, por favor!", Russel a chamou. "Onde conseguiu? Quem comprou?", indagou, a ignorar o pai, que, paciente, respondeu "acho que foi a Mary..."; a advogada sorriu como uma criança e pediu para que o homem chamasse a secretária. "Quero o endereço do lugar onde ela comprou", justificou. O homem passou as mãos pelos cabelos sem conseguir acreditar no que acabou de ouvir. Retorquiu "Já há uma na sua sala", foi sereno e paciente. Sem desviar os verdes olhos da caixinha, ela observou que "é para o escritório do meu apartamento"; "poderemos fazer isso quando você for embora", tentou tomar a atenção da caçula para si, mas... "Não... Eu posso esquecer...", murmurou. O Fabray contou até dez e chamou a secretária a fim de fazer a vontade da filha, ou ela — certamente — não falaria sobre o caso que tanto o interessava. E, para a sorte dele, Mary informou que havia um pequeno estoque no almoxarifado. O homem pediu dois, entrementes Quinn só quis um e não houve como convencê-la a pegar o excedente. "Ok, Mary! Obrigado, mas minha filha ficará apenas com um". A moça segurou o riso, pois percebeu o quanto o patrão ficou sem jeito. Se ele pensou que compraria a loira, era muito tonto! A advogada, quando se decidia, não arredava um só milímetro de sua escolha. Pediu licença e se retirou. Ouviu a bela loira agradecer pelo "mimo" antes de examinar a própria caixinha, a fim de ver se havia algum defeito. Por menor que fosse, ela não iria querê-la. Coisas com falhas a deixavam aborrecida. O Fabray deu um suspiro e pediu, a manter a calma, "Lucy, você pode me dar um pouco da sua atenção agora?"; sem olhar para a figura paterna, respondeu, "o senhor a tem, Dr. Fabray". O patriarca suspirou e voltou a perguntar, de maneira quase tola, "você já tem alguma estratégia pronta para o julgamento?"; ainda com os olhos fixos no objeto que ganhou, respondeu com voz monótona "acho que sim...". O homem só faltou socar a mesa. Porém, mordeu a própria língua, fechou os olhos e contou de dez até um. Decidiu não se irritar com a filha, até porque faria papel de idiota e ela se retiraria como já o fizera antes. E esta era uma sensação terrível. A advogada o deixou no "breu". E só não sofreu uma síncope porque Judy o alertou para o fato de que a filha era muito responsável e prezava por demais a imagem de "Rainha de Gelo" que acabou por conquistar. "Quinn...", buscou a 'Santa Paciência' nas entranhas, "você acha?"; não houve resposta. Voltou a perguntar, numa falsa tranquilidade que a advogada percebeu, ainda que nada demonstrasse, "você, ao menos, já esteve com o promotor". Dessa vez os olhos dela correram da caixa para os do pai, que ouviu um cínico "é óbvio, Sr. Fabray". Russel não se importou. Era mister saber o que a filha já havia traçado! "Conversaram?", interrogou. E ela, com todo o enfado existente sobre a face da Terra, "não. Ficamos a olhar um para a cara do outro. Foi bem interessante". O homem desejou se bater. 'Por que ainda fazia este tipo de pergunta para ela? Afinal, perguntas idiotas mereciam respostas ainda mais idiotas', pensou. E também pensou que não seria bom abrir debate. A advogada estava exatamente onde ele queria que estivesse. E uma só palavra fora do contexto seria o bastante para ela se levantar e ir embora. Puxou o máximo de oxigênio possível e, calmo, expirou. O alívio foi imediato. Assentiu sobre a resposta que recebeu e continuou, cuidadoso, "certo. É claro que conversaram! E você expôs tudo para ele? A proporcionalidade em reverter o caso ou...".
"Sr. Fabray, eu pensei que, se vou colaborar com o Sr. Lancaster, o lógico seria eu passar todos os dados que eu e 'Leo' conseguimos, até o momento, para o conhecimento dele, inclusive a tese da acusação e como tal será feito. D'accord?", ela o cortou e, nesses momentos, o patriarca tinha ímpetos de se autoflagelar. O talento de Quinn para fazê-lo se sentir um idiota era brilhante. Ele deu um sorriso pequeno e assentiu sob o verbo afiado e se ergueu. Caminhou até o pequeno bar e se serviu de uma dose de uísque, que bebeu de uma só vez. E quase quebrou o copo na própria cabeça ao ouvir da filha que "cirrose mata". Retorquiu com toda a calma que conseguiu reunir, num tom de voz baixo, "é... Eu sei...".
"Bom, Sr. Fabray...", ela começou, porém, dessa vez, o genitor a cortou quase aos berros de "pai, Quinn! Pai! Eu sou o seu pai e quero ser tratado como tal! "; sem alterar a voz e nem demonstrar susto com o corte repentino que teve, fitou-o e, sem desviar, questionou "sei... E como seria isso? Quer que eu o chame de 'pai, papai, paizinho ou papaizinho'? Confesso que nenhuma das opções me agrada. Porém, se faz tanta questão de exercer este papel social que não lhe cai bem, posso me esforçar um pouco. Que tal?". O homem perdeu a cor. A face contorceu-se de algum sentimento que, para a advogada, pareceu dor. Mas sua sensibilidade estava afetada, de forma que não conseguiu chegar a uma conclusão. Assim, restou-lhe somente interrogar se "está a sentir-se mal?"; Russel respirou fundo e foi direto, pois sentiu-se ferido realmente, "responda-me, doutora: é capaz de sentir alguma coisa? Há algo que consiga incomodá-la ou aborrecer? Diga-me, Lucy Quinn Fabray! O que a faz realmente humana? Porque você consegue ser tão cruelmente fria e prática que eu chego a duvidar de sua humanidade?! Fale-me! Há alguém ou alguma coisa que a faça sentir incomodada?". Ela não se desviou. Respondeu calma e controlada que "a dor. Eu odeio senti-la. E, se o senhor realmente faz tanta questão em bancar o pai, deveria saber disso e não me fazer perguntas tão cheias de falsa dramaticidade. Já pensou na hipótese de fazer aulas de interpretação? Suas cenas dramáticas certamente ficarão melhores", findou, a enfrentar o olhar de Russel. E os olhos dele estavam decepcionados. Ela estava coberta de razão... Como exigir que o tratasse de pai se era — ainda — desatento com fatos tão claros como o exposto naquele momento? Silenciou. E a filha ainda o encarava, certamente a espera de alguma objeção. Só que não haveria tal cousa. Como sempre e com quase todas as pessoas, ela o fez engolir a capacidade de pensar. Não conseguiu que seus neurônios fizessem as conexões necessárias para uma defesa. Fato que o deixou famoso: ter o verbo afiado. Mas Quinn estava desse jeito. Conseguia neutralizar qualquer tipo de argumento e desequilibrar o oponente. "Se espera que eu me retrate, peço que se lembre de quem começou este debate", ela avisou. Russel suspirou, cansado. Derrotado. "Não, Quinn. Eu não espero que se retrate... Você sabe que está certa. Eu falhei e continuo a falhar miseravelmente com você", concluiu.
A ex-namorada de Rachel Berry completou, afinal, se era para golpear, que o golpe fosse forte o suficiente para nocautear, "não falhou somente comigo, senhor. Falhou com Judith também. A diferença entre mim e ela está no fato de eu ser particularmente insensível e cruel. Tem sorte de sua ex-esposa ser uma boa pessoa. Já imaginou contar apenas com Frannie?" — sorriu em escárnio — "estaria literalmente 'ferrado'. Sua filhinha do coração é imprestável. Talvez vocês se pareçam mais do que imagina", concluiu e se ergueu diante de um pai que mal se mexeu, ainda sob o efeito das palavras duras e sinceras do seu fruto. "Bom, Dr. Fabray, já que está informado sobre o processo, espero que se tranquilize e beba menos. E obrigada pela caixinha", verbalizou e se voltou para a saída. Estava à porta quando ouviu "Quinn, eu só queria que você fosse como antes. Porquê, apesar de eu não aceitar suas escolhas, hoje eu percebi que era feliz e não sabia". Ela não respondeu. Saiu e fechou a porta atrás de si.
Quinn passou por Mary e, polida, agradeceu pelo porta clipes. A secretária respondeu que não havia necessidade de agradecimento. A advogada não a contradisse. Retomou o caminho para os elevadores e ouviu uma voz masculina chamá-la. Estancou os passos, ainda no hall da firma e se virou para mirar quem a chamou. Não sorriu ou demonstrou qualquer outro tipo de reação ao ver o jovem e bonito Dr. Matt. "Pois não, Dr. Robinson? ", questionou, porém sem estender a mão para um cumprimento. O homem se aproximou mais e sorriu. O terno estava impecável e ele tinha as mãos nos bolsos da calça. "Por favor, apenas Matt", pediu, gentilmente. Ela não desviou os verdes dos próprios olhos dos verdes dele e retorquiu, pragmática, "veja bem, Dr. Robinson: se eu o chamar pelo seu primeiro nome, sem o uso de pronome de tratamento ou título, estarei a lhe dar o direito de fazer o mesmo em relação a mim. E creio que não seria bom, pois somos, mal e parcamente, colegas de trabalho". O rapaz conseguiu sorrir, apesar de estar a sentir o chão fugir-lhe de sob os pés. Mary, ainda que um pouco distante, foi testemunha muda. O advogado não se deu por vencido e indagou "se somos colegas de trabalho, qual o problema?"; a loira respondeu, tranquila e educada, que "somos, Dr. Robinson, 'mal e parcamente' colegas de trabalho. Quer que eu lhe explique o significado das palavras que modificaram o substantivo? E, além disso, o que sabe sobre mim? Que sou filha do Dr. Fabray? Que sou conhecida pela alcunha de 'Rainha do Gelo'?". Matt se mostrou insistente ao retorquir "engano, doutora! Sei que é bonita, inteligente e que, vez ou outra, vai até uma discreta cafeteria que fica próxima ao Central Park e, também, do prédio em que mora. Eu só gostaria de convidá-la para um café". Ela meneou a cabeça, sem tirar os olhos dele, e falou "que bom, Sr. Advogado, que usou o verbo no tempo certo". O homem ficou confuso. Ela não conteve o sorriso divertido e explicou que "o doutor disse que 'gos-ta-ri-a' de me convidar para um café. Gostaria! Não gosta, não deseja, não quer mais. Por isso tenho um pequeno apreço pelo senhor: sabe como se colocar. Tenha um bom dia, Sr. Robinson", finalizou e se voltou para os elevadores, a retomar a caminhada. "Não tire conclusões por mim, Dra. Fabray!", Matt voltou à carga, "não vejo mal em aceitar tomar um café comigo e conversar um pouco"; ela não se voltou, mas parou em frente a um dos elevadores, apertou o botão e respondeu, segura, "não tirei conclusões pelo senhor, Dr. Robinson. O senhor se expressou de maneira que deu a entender que perdeu a pretensão de me levar para tomar o café. Talvez se dissesse 'eu só quero levá-la', sua mensagem ficasse mais clara. Entrementes, não foi assim. E, para ser sincera, tenho muito trabalho e nenhum interesse em perder tempo com conversas que não nos levarão a lugar algum". O elevador chegou e ela entrou, a desejar "tenha um bom dia!". O advogado engoliu seco e olhou ao redor. Coçou a nuca, embaraçado. Mary, discreta, seguiu a trabalhar e fingiu que nada viu ou ouviu. Mas nem todos eram como a secretária. Santana, encostada no batente da porta do próprio escritório, braços cruzados sob os seios, tinha um sorriso divertido na face. Alguns estagiários estavam corados, a se imaginarem no lugar do Robinson e Russel, que por acaso viu a cena, meneou a cabeça e voltou para dentro de sua sala, a se perguntar quando o rapaz perceberia que nem em uma realidade alternativa Quinn daria a chance para alguém se aproximar. A única coisa que não entendeu, até então, foi como Alex conseguiu adentrar à fortaleza da filha. Como ela fez o impensável? Este era um mistério que nunca ousou perguntar para Quinnie. E a latina, sem perder o sorriso debochado falou “eu lhe avisei, 'por favor apenas Matt'!”, imitou o rapaz, que a fuzilou com os olhos. Porém, ela, assim como Quinn, “passeou” para ele.
"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos
por aqueles que não podiam escutar a música."
– Nietzsche -
CONTINUA.
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