Sine Cordi
91 CAPÍTulo 91 - ץא
Notas iniciais
“Você nunca saberá quanto eu te amo
nunca saberá o quanto me importo com você.
Ouça, quer saber um segredo?
promete não contá-lo?”.
— ‘Do You Want To Know A Secret?’, The Beatles -
Quinn suspirou devagar e pensou que perdeu um longo espaço de tempo e consciência. Sabia quem era a mulher em cujo ombro sua cabeça descansava. Suspirou outra vez, com um desejo de mirar a face de Rachel que a desarmonizava. E, apesar de sua parte coerente lhe alertar que esta não era uma boa ideia, um desejo maior, uma vontade insana a venceu e lenta, silenciosa e sutilmente ergueu a face e o olhar para o rosto da judia, ansiando para que ela não despertasse e a flagrasse acossando-a.
A imagem da face adormecida de Rachel Berry penetrou-lhe a retina e ela lhe pareceu completamente indefesa e… Linda! Cerrou os olhos numa tentativa de não se deixar à mercê daquela mulher que a estava desconcertando ultimamente. Voltou o rosto à posição inicial e, tomada por uma incômoda curiosidade, indagou a si mesma se Rachel estava definitivamente nua como parecia, ou levava calcinha. Era uma das coisas mais incoerentes que já lhe havia passado pela cabeça. Sabia-se vestida, embora bastante amarrotada e despenteada e… Sem calcinha?
“Oh, isso é mais embaraçoso do que imaginei…”, murmurou para si mesma e sabia que o ventre estava encaixado na coxa da morena. Com o plus de ter o seio judio bem perto de sua face.
E boca…
E…
“Oh, merda…”, maldisse, pensando em como se levantar sem acordar a cantora, que tinha um braço que dormia sobre seu ombro, ao passo em que tal intimidade se sentia boa.
“É irracional, Quinn. Totalmente irracional…”, reclamou consigo mesma.
Queria sair dali e recuperar sua calcinha. Passeou os olhos pelo espaço e lembrou que a porta estava na direção dos pés. Suspirou. Fechou os olhos por um momento e começou a planejar algumas formas de sair sem acordar Rachel.
Rachel…
O nome repetido mentalmente, o olor da pele dela tão próxima, o contato físico que lhe concedia a sensação de conforto desencadeou outra vez a curiosidade acerca do corpo da judia. Estaria nua? Levaria ao menos a parte de baixo da roupa íntima?…
Questionamentos…
“Não pense nisso, Quinn… Esse não é o bom caminho…”, sussurrou. E mordeu o lábio inferior, suspirou devagar, achando a ideia péssima, e segurou a borda do lençol gentilmente e foi erguendo-o, ao tempo em que o escorregava para baixo e mirava com toda a atenção o corpo que se revelava aos poucos para o regalo dos verdes olhos. Passou de olhar a contemplar uma e outra e outra vez o corpo desnudo, embevecida pelo que viu. Achou Rachel tão bela! Tão sua… Tão…
“Eu sabia que era uma péssima ideia”, suspirou e cobriu a morena até o pescoço com certa ansiedade e respirou fundo. Precisava sair dali antes que a judia acordasse. Nem com todo o seu cinismo seria capaz de mirá-la, embora não se lembrasse patavinas do que, sabia, aconteceu entre uma de suas personas e a cantora.
Reconhecer que o fato de acordar sobre o corpo nu da esposa e perceber o quanto ela lhe era desejável era desconcertante e interrompia sua linha de raciocínio. E o vigor desse reconhecimento fez com que mareasse. Não sabia como lidar com tanta informação e o cheiro e o calor do corpo moreno não ajudavam. Sentiu o coração acelerar dentro do peito e, sem ter controle sobre o que lhe acontecia, caiu em escuridão e Lucy Quinn veio à luz.
A loirinha de sorriso terno suspirou em satisfação por estar deitada com os olhos pregados nos seios morenos. E riu-se ao sentir que estava sem calcinha. Murmurou, enquanto erguia a face e os olhos para admirar a face da esposa adormecida.
“Acho que Quinn ficou traumatizada…”, sorriu, à vontade na posição em que se encontrava.
Displicentemente, Lucy ergueu-se sobre o cotovelo e saiu do encaixe no corpo da esposa, que murmurou alguma coisa que não era possível entender. Observou-a em seu sono. Rachel parecia tão inocente… Debruçou-se sobre ela e a beijou delicadamente na testa. Olhou a hora no celular da esposa. Quase meio-dia! Analisou as possibilidades que tinha diante de si para levar Quinn em segurança para casa e soube que M não saiu sem dinheiro e o carro. Com um suspiro de lamento, voltou a mirar Rachel, deu um cheirinho no pescoço moreno e sussurrou para a inconsciência judia:
“Preciso levar Quinn pra casa… Mas eu voltarei”, prometeu. Ergueu-se, ajeitou os cabelos mais ou menos, abotoou a blusa, pegou o paletó do terninho no chão e o jogou sobre um ombro. Os sapatos levou entre os dedos indicador e médio da mão. Reconheceu as chaves do carro e da cobertura de Rachel e as tomou. Viu a calcinha ao pé da cama, olhou de uma mão para outra, ambas tomadas, e decidiu que pessoa alguma pensaria que ela estava sem calcinha. Assim que deixou a peça para trás.
§§
Holmes e Wilhelm se ergueram do sofá que ocupavam assim que a loira apareceu, quebrando a conversa que mantinham com Maria e os Berry, que contaram que Rachel estava, definitivamente, decidida a lutar por Quinn. E que, ainda que amassem estar perto do neto, precisavam voltar para Lima.
Os Berry acompanharam os olhares dos visitantes e franziram o cenho ao dar com a loira.
Lucy Quinn passeou os olhos pelos presentes. Deu boa tarde a todos com um lindo sorriso que deixou claro que aquela não era M. E nem Quinn. Ela, consciente, nunca estaria tão relaxada e tranquila após uma noite passada com Rachel, e nem apareceria tão amassada, o que fez que todos os olhos a recorressem de cima até embaixo, incomodamente conscientes sobre a razão para ela estar tão descomposta. A loira gentil mirou o cuidador e o detetive ao lado deste e avisou que estava pronta para ir a casa, embora não precisassem ter se molestado para irem buscá-la, pois M estava com o carro e dinheiro.
Holmes foi o primeiro a se manifestar:
“Eu me preocupei porque… Porque”, ‘M não é nada confiável’, pensou o cuidador, porém não verbalizou.
Lucy Quinn não quis explicações. Estava tudo bem para ela que os dois homens estivessem ali. Após tranquilizar Holmes e Wilhelm, dirigiu-se aos Berry e lhes avisou que Rachel seguia adormecida e que não teve coragem de despertá-la. Os homens assentiram, de maneira débil, impressionados com a radical mudança que acontecia com Quinn quando suas personalidades alternativas apareciam.
“Claro…”, murmurou Hiram, claramente o mais espantado dos pais de Rachel. Ele conheceu M, mas essa outra pessoa era uma assombrosa novidade.
Lucy ainda lançou um sorriso para Maria e, pouco depois, deixou o lugar junto ao cuidador e o detetive, que sentiram intimamente enorme alívio por não ser M a personalidade que tomou a advogada. Passaram por muita tensão durante a noite e a madrugada para ainda terem de lidar com a exasperante loira.
Estavam dentro do carro, a caminho de casa, no trânsito atolado da Big Apple quando Quinn olhou ao redor e sentiu a cabeça dar uma pontada. Levou a mão a testa e a afagou, a fim de aliviar.
Wilhelm percebeu. E como não sabia com quem falava, perguntou:
“Tudo bem?”.
A advogada suspirou e, sabendo que o corpo reclamava o medicamento, indagou a hora ao detetive, que informou que era quase uma da tarde.
“M voltou a aparecer?”, mirou o loiro, que percebeu que falava com Quinn.
“Não. Foi a sua parte boazinha e lindinha que fez o favor de nos acompanhar”.
“Ah…”, a ex-fotógrafa poderia jurar que M foi a personalidade que passou a noite com Rachel… Rachel… Ela teria acordado?
“E ela?”, perguntou e Holmes, via retrovisor, e Wilhelm, via olho no olho, colocaram a atenção nela.
“Ela?”. Nenhum dos dois sabia a quem a advogada se referia. Ela perguntou sobre M? Sobre Lucy Quinn?
“Qual delas?”, inquiriu o policial.
“Rachel…”, respondeu, não alcançando o porquê de perguntarem por mais de uma pessoa.
“Ah! Rachel!”, os dois homens exclamaram em uníssono, como se tivessem ensaiado.
“E quem mais?”, a voz da loira saiu em tom de desagrado.
“Bom…”, Holmes começou, sentindo a face ferver diante do embaraço que a resposta lhe causava. Era estranho imaginar a intimidade da patroa, embora fosse consciente de que isso era sem sentido, E que talvez apenas estivesse pensando demais. Entretanto, trocou um olhar com Wilhelm, numa clara tentativa de passar para ele dizer que a morena ficou dormindo. O detetive se fez de desentendido e ignorou o pedido de ajuda do cuidador.
Quinn, atenta, percebeu a troca de olhares entre os dois homens e, fria e distante, informou:
“Uma das personalidades fez sexo com Rachel Berry… Ou isso parece”, soltou em tom aborrecido. Aliás, como uma personalidade que a deixava sem a roupa íntima poderia ter fama de “boazinha”?, perguntou-se. M, ao menos até o momento, apresentava bom senso. No mínimo, analisou, Lucy Quinn deveria ter vestido a lingerie! Continuou, encarando de maneira seca os olhos de Holmes pelo retrovisor:
“Então, o que eu quero saber sobre Rachel é: como ela ficou? Estava triste? Chocada? Alguma outra coisa?”, a exasperação fez a advogada perceber que estava demonstrando se importar com Rachel. E, pela lógica reinante, não deveria se importar… Entretanto, importava-se. Era incômodo, tolo e inquietante. Talvez devesse voltar ao apartamento da cantora e esperar que ela acordasse, a fim de conversarem. Não… O melhor era dar um pouco de tempo a si mesma, porque era o que necessitava. E, talvez, Rachel também. Molestou-se diante do fato de que havia algo na judia que estava lhe removendo por dentro. Um tipo de sentimento, quiçá. E Quinn Fabray não sentia coisa alguma por outro ser… Mas Rachel… Ela invertia essa lógica e exasperava e deixava a loira confundida.
“Aparentemente ela… A Srta. Berry ficou dormindo…”, a voz de Holmes saiu baixa.
“O quê?”, a advogada escutou o que o homem disse, mas queria uma resposta segura, “fale para fora, homem! Não estou escutando”, exigiu.
“Acho que ela ficou dormindo”, ele falou forte, mas inseguro.
“Você acha? Como assim? Onde vocês estavam?”, encarou o detetive e voltou os olhos para o retrovisor, entornando:
“Como eu cheguei aqui? Você não subiram até o apartamento? Lucy Quinn não conversou com vocês? Eu quero saber o que aconteceu”, ela claramente externalizava toda frustração que sentia sobre os dois homens, que se sentiram coibidos com a fúria dela.
Holmes e o detetive se entreolharam outra vez e Wilhelm resolveu auxiliar o cuidador:
“Quinn, acalme-se, por favor!”, pediu e ela o mirou com atenção. O detetive prosseguiu:
“Rachel ficou dormindo”, verbalizou a informação que Lucy lhes premiou, “e a sua doce personalidade não quis acordá-la…”.
“Ah…”, Quinn assentiu, pensativa. Por que suas personalidades desejavam tanto a Rachel? Por que estava começando a sentir coisas que não queria por ela?
“Ok…”, murmurou e se entregou aos próprios pensamentos. Inclusive, pensou em como Rachel reagiria quando encontrasse a calcinha dela sabe-se lá em que lugar. E se fosse um dos pais dela? Franziu o cenho e meneou a cabeça desaprovando a si mesma: por que se incomodava com isso? Que pensassem o que quisessem! Não se incomodaria com hipóteses baseadas numa realidade que era ato comum em casais sexualmente ativos. Ainda que não soubesse o que aconteceu… Mas imaginou. E até sentia… E esse fato lhe fez a boca secar num sutil anseio que tratou de não analisar.
Não ainda…
“Aproxime-se
deixe-me sussurrar no seu ouvido,
dizer as palavras que deseja escutar
estou apaixonado por você”.
— ‘Do You Want To Know A Secret?’, The Beatles -
Rachel tateou, de olhos fechados e ainda meio dormida, o lado da cama. Sabia que teve um encontro nada puro com M e como ela a esgotou e quase a levou a se desfazer em prazer. M era tão boa na cama! Tão firme, possessiva… Suspirou e sorriu. Ser casada com três mulheres diferentes não lhe pareceu tão mal. Então, recordou que talvez Quinn tenha sido a pessoa que despertou. Arregalou os olhos de par em par e sentou na cama em um só movimento.
“Quinn!”, murmurou, preocupada. Como ela estaria?
“Preciso falar com Holmes…”, enrolou-se no lençol e saiu desvairada do quarto, esquecendo por completo que o telefone estava em sua mesinha de noite. Freou na sala, ao dar com os pais a conversarem com Maria, em voz baixa.
“Pa… Pai”, gaguejou, atordoada pelo mau despertar e a ausência de Quinn.
Os olhares se volveram para ela com admirável sincronia e a cantora sentiu a face queimar. Abaixou os olhos porque estava em lençóis apenas, mas o abraço de Hiram a fez mirá-lo, enquanto o homem exclamava:
“Minha estrelinha! Você está bem? Estou admirado em como Quinn muda da água para o vinho e para o suquinho de morango logo em seguida… É incrível como cada personalidade é distinta entre si. É como se cada parte da personalidade dela, a enamorada e a que odeia, representassem a separação entre o bem e o mal nela; o yin e o yang, as duas energias opostas”.
A cantora se deixou sentar ao lado do pai, confusa sobre o que ele discorria. Não conseguiu concatenar as ideias. Yin? Yang? Opostos? Sua única vontade era saber de Quinn, por isso ignorou por completo a fala de Hiram e se dirigiu a LeRoy e Maria:
“Como Quinn estava? Ela saiu muito confusa daqui? Ela estava bem? Vocês conseguiram saber se foi Quinn ou M que foi embora? Vocês a viram? Sabem a que horas se foi?…”.
“Rachel Barbra Berry! Respire, por Deus!”, advertiu LeRoy, atontado diante do despejo acelerado de sua filha.
A cantora se calou, prendeu o lençol sobre os seios e cobriu o rosto com as mãos, tentando retomar o equilíbrio. Talvez estivesse se preocupando à toa.
“Não foi Quinn que saiu daqui… E nem aquela outra que vive a lhe agarrar cada vez que aparece…”, Hiram tratou de tranquilizar a filha. “Por isso”, o advogado prosseguiu, “eu estou espantado. A Quinn de hoje era diferente da própria Quinn e daquela outra”.
A morena assentiu, ainda muda. Lucy Quinn apareceu. Ela era a parte mais relax da loira; era gentil porque era de sua natureza, ao contrário de Quinn, reta e racional. Oposta a M, fria e com ímpetos complexos. Não estranhava o pai estar surpreendido diante das personas alternativas de sua esposa.
Assentiu e soube que Lucy estava bem, muito tranquila e à vontade com…
“Seja lá o que aconteceu com vocês…”, Hiram encerrou o tema e a judia sorriu para o pai e, algumas horas depois, após um brunch, foi buscar o filho na escola com um sorriso enamorado na face e, após deixá-lo em casa na companhia dos Berry, foi para o teatro.
Sentia-se feliz.
Isso era coerente?
Não se importou! De forma distorcida, Quinn a queria.
“Eu te amo, Quinn Fabray…”, murmurou para si mesma.
"Você nunca saberá quanto eu te amo
nunca saberá o quanto me importo com você.
Ouça, quer saber um segredo?
promete não contá-lo?”.
— ‘Do You Want To Know A Secret?’, The Beatles-
Quinn caminhava de um lado para outro no consultório, perdida em si mesma e em todas as coisas que Rachel Berry lhe despertava. A lembrança do corpo judio, desnudo, vez ou outra a assolava e lhe deslocava o eixo.
O olhar atento da Dra. Parker a acompanhava. A médica sabia que a qualquer momento, assim que se sentisse muito pressionada sobre o tema Rachel Berry, umas das personalidades alternativas apareceria.
“Quinn, por que não se senta e tentamos conversar sobre o que lhe incomoda”, sugeriu, atenta e cuidadosa.
A loira estancou e a fitou. O que Eleanor lhe falou? Não ouviu…
“Eu…”, respirou fundo e caminhou até o sofá, onde se deixou sentar como se fosse um saco de batatas, ajeitou a postura, cruzou a perna direita sobre a esquerda, segurou-a pelo joelho com os dedos das mãos entrelaçados e encarou a médica. Ordenou:
“Despeje doutora e vejamos até onde eu vou”, a fala saiu seca.
A médica se removeu na poltrona e assentiu.
“O que a incomoda tanto?”, foi a pergunta que não a deixava em paz e Quinn evitava responder.
A loira piscou algumas vezes e permaneceu atenta à face da psiquiatra.
“Quinn?”, a mulher chamou.
“Eu… Não sei… Eu não…”, murmurou, tentando concatenar o pensamento.
“É algo sobre Rachel? Rachel lhe incomoda?”, insistiu a médica, mais direta.
Para surpresa da Parker, a advogada respirou fundo e se colocou a pensar em como poderia externalizar o que a inquietava nas últimas semanas. Mirando algum ponto qualquer da sala, tentou colocar a razão em linha, a fim de tentar compreender e se fazer compreensível.
“Rachel…”, murmurou o nome da cantora e revelou, ainda sem olhar para a médica, “é capaz de fazer eu querer saber se ela está bem. Se alguma das minhas outras personalidades foi cruel com ela… Ultimamente eu sonho quase todas as noites com ela… Sonhos que não fazem sentido, que são confusos e picados e em todos eles eu sei que não devo confiar nela…”, olhou a médica. Seguiu:
“E quando acordo, apesar do alerta de que preciso ser cuidadosa com ela, tenho ânsias de vê-la e, em meio a isso, acabo por perder a realidade, o tempo, porque o fato de ela ser tão arrebatadora comigo me deixa sem resistência e uma das personalidades aparece e me leva para ela. Eu… Eu estou confusa porque… Porque a quero por perto… E não sei se devo querer…”, confessou num respirar e esperou a médica dizer alguma coisa.
“Acha que pode estar se enamorando de Rachel?”, Eleanor lançou a pergunta.
Quinn emudeceu.
Estava se enamorando de Rachel? Nunca amou antes… Não que se lembrasse. Era tão distante das pessoas… Como a judia conseguiu colar-se nela e atontá-la? Como ela conseguia fazê-la querer estar ao redor?…
“Eu não sei…”, murmurou.
“Não sabe ou não quer aceitar essa possibilidade?”.
Quinn emudeceu.
Emudeceu porque sabia que, vez ou outra, o silêncio era o porto mais seguro.
Porém, também vez ou outra, o silêncio falava mais do que as palavras.
§§
Rachel acabou de se trocar após todo o furor que era cada final de apresentação: fotos com fãs, autógrafos, suportar os convites para trabalhos no cinema e teatro e um ou outro diretor que não apenas desejavam ouvi-la cantar ou atuar, mas tê-la em suas camas. Estava exausta e Kurt sabia.
“Parece um pouco distante…”, comentou.
Ela o mirou. E franziu o cenho. Depois de receber uma enxurrada de agrados, pedidos de fotos, autógrafos e que cedesse a jantares e pensasse uma volta ao cinema em outra comédia romântica e ser cortês durante todo o tempo, o empresário era capaz de dizer que parecia distante?
“O certo seria dizer que eu estou cansada…”, respondeu.
Kurt percebeu que ela não aprovou o comentário, entretanto, ela realmente estava distraída. E estava assim porque não conseguia tirar Quinn, M ou Lucy da cabeça. Sentia o corpo pedir por mais de qualquer uma delas.
“Nah!”, o empresário insistiu, “você parece desligada… Cansada, também… Porém, definitivamente, está bastante desligada”, insistiu e silenciou. E como a judia não fez nenhum adendo à fala do homem de olhos claros, este não conseguiu continuar quieto:
“Preocupada com a loucura que fez ao aceitar se casar com Quinn?”, indagou por fim, mirando-a de esguelha.
A judia encarou-lhe o perfil, séria. Por que parecia que o homem de tez pálida estava descrente de que sua relação com Quinn, talvez, pudesse dar certo? Por que era tão estoico e duro sobre a advogada? Por que ela não se lembrou dele? Ela também não lembrava que, no passado, ambas foram quase noivas! Não era um bom motivo!
“Kurt, eu e Quinn estamos nos encaixando. Deixe que eu cuido da minha vida”.
“Sabe que ela não suporta musicais? Provavelmente porque o inconsciente dela ligue musical a Rachel Berry. Por que alguém que não se lembra de você quereria um casamento?”, ele teimou.
A cantora o fitou e respondeu sem titubear:
“Provavelmente porque o inconsciente dela ligue amor a Rachel Berry”.
Ele riu.
“Você tem humor! E deve estar mais pirada do que ela!”.
“Eu sei”, concordou. E suspirou, pensando em como se sentia bem com o fato de que Quinn parecia estar mais ao alcance do que sequer imaginou.
“Eu só quero o seu bem, Barbra! Cuidado com Quinn. Ela é mordaz”.
“Quantas vezes você e ela conversaram após o acidente?”, questionou. “Ela o tratou mal?”.
O homem suspirou e meneou a cabeça de forma negativa. Murmurou, como se tocar no tema o fustigasse:
“Quinn não é mais a Quinn, Rach. Ela mal sabe o meu nome…”.
“Não é verdade”, ela cortou, “Quinn sabe quem você é”.
“Sabe, mas não sente quem eu sou”, foi seco.
“Talvez porque você também não sinta quem ela é”, rebateu, “eu sei que você deu as costas pra ela…”.
Kurt ia responder que não era bem assim, que se assustou quando a viu ainda no hospital, mas emudeceu quando ouviu três batidas na porta e a voz de Blaine a perguntar se a cantora estava composta, porque precisava lhe dar um recado.
Ela respondeu que sim e deu permissão para o moreno de olhos verdes entrar. Percebeu que ele parecia meio desencaixado e se preocupou.
“Aconteceu alguma coisa?”, Kurt tocou o esposo no ombro, enquanto este apenas mirava Rachel.
O moreno de cabelos encaracolados, domados com um corte bem feito e um pouco de gel, informou:
“Holmes está aí fora… Quinn veio buscá-la”.
“Aproxime-se
deixe-me sussurrar no seu ouvido,
dizer as palavras que deseja escutar
estou apaixonado por você”.
— ‘Do You Want To Know A Secret?’, The Beatles -
Segue…
Fale com o autor