Sine Cordi

50 CAPÍTULO 50 - ן


A vida é aquilo que vai acontecendo enquanto você se empenha em fazer outros planos.”

– John Lennon -

Rachel estava mais agitada que o normal.

Havia dois dias que não tinha notícias de Quinn.

Havia dois dias que evitava uma conversa mais profunda com Jesse.

Havia dois dias que Hiram e LeRoy perceberam a ansiedade da filha.

O advogado, ao entardecer em que estavam reunidos os três, pais e filha, na sala, à espera do quarto e quinto elementos da família – marido e filho da atriz – resolveu averiguar:

“Estrelinha, percebemos – eu e o seu papai – que você está melhor, porém, um tanto inquieta”.

Ela suspirou antes de perguntar:

“Por que ela não telefonou? Por que não deu notícias?”.

Os homens se entreolharam.

“Quinn?”.

“Sim. Eu achei que ela quisesse que nos conhecêssemos e… Ela desapareceu!”, falou, decepcionada.

“Ela não desapareceu, Estrelinha”, Roy retorquiu, “ela tem a própria vida e interesses. O fato de ela querer lhe ‘conhecer’ não significa que estará ao seu lado todos os dias”.

“Por que não me contaram o que aconteceu com ela? Por que esconderam o que ela fez”, jogou a pergunta quase com desespero.

Os homens Berry suspiraram juntos.

O advogado resolveu falar…

“Soubemos o que realmente aconteceu dois dias depois, quando viemos de Lima para vê-la. Santana foi a pessoa que nos contou. Russel estava ocupado demais fazendo contatos para abafar a tentativa de suicídio da filha. Judith não estava bem. Frannie menos ainda… E, o que nos pareceu um acidente se transformou em algo muito maior cuja mola propulsora foi a nossa única filha. Como acha que nos sentimos, Rachel?”, a voz soou decepcionada, “Eu e seu papai ficamos humilhados. Você a enganou e foi para a Europa com o amante! Tente visualizar este quadro e se colocar em nossas posições. O que poderíamos fazer a não ser mantê-la longe? O Russel não fez caso das razões que levaram a filha ao ponto em que se encontrava, porém Judy… Ela sabia… Toda a mãe sabe!”, Hiram foi sincero.

Neste momento, a vergonha, crua e feia, tomou-a de chofre, como uma porrada de mão cheia.

A face ficou rubra.

Os olhos miraram o chão em covardia.

Encolheu-se porque, neste instante, desejou desaparecer.

LeRoy afagou-lhe as costas.

“Já passou muito tempo, filha”, tentou aliviar uma culpa há muito atrasada, “Quinn se recuperou…”.

“Não, papai”, cortou-o, “ela não melhorou…”, murmurou.

“Bom…”, o médico pensou, “ela teve sequelas. Há fatos que, infelizmente, não se podem mudar”.

“Ela não sabe que tentou… Morrer…”, o verbo era uma palavra difícil de ser proferida pela cantora.

“Não… Ela não sabe”, concordou.

“E se ela souber?”, indagou.

Os homens cravaram os olhos nela.

“Rachel”, Hiram retomou a palavra, “eu não sei se esta seria uma boa coisa para se contar a ela agora… Primeiro, eu acho que ela não acreditará. Segundo, o ideal seria ela lembrar. E, se não, as pessoas que estiveram ao lado dela deveriam ter falado quando ela ficou mais consciente. Ela teve e ainda tem toda uma estrutura para ampará-la em caso de se recordar e… Reagir mal… Eu não faço ideia de como ela reagiria se soubesse”, confessou, grave.

“Por que ela não se lembra de mim”, indagou.

Hiram fitou o marido. Ele era o médico ali! Então, era o melhor para esclarecer o que, possivelmente, fez com que a ex cheerleader não conseguisse recordar.

LeRoy suspirou. Osculou o alto da cabeça da filha e tentou ser o mais simples possível:

“O acidente dela foi grave. Estava desenganada. Ela deu ‘sorte’”, fez aspas com os dedos, “porque a família tinha meios, contatos e ela era a fotógrafa Quinn Fabray. Fizeram o que era possível e eu não duvidaria em acrescentar o vocábulo ‘impossível’ na equação para lhe salvarem a vida”, avaliou, “o mais provável, e creio um consenso entre os médicos, é a de que ela – além do trauma físico – sofreu um trauma emocional. O que, sabendo-se os acontecimentos e o histórico de vocês duas, não nos causa estranhamento. Então, a fim de se proteger, a mente dela blindou o que aconteceu… O resultado foi a Quinn que temos hoje. Ela não cria vínculos emocionais, Estrelinha. Nós estamos contentes por ela querer lhe conhecer outra vez… Talvez, lá no fundo da mente dela, haja alguma coisa, um sentimento, quem sabe, que possa faze-la ter interesse em você. Afinal, foram muito apaixonadas! Mas, eu lhe pediria, como pai, que não se atirasse numa esperança. Quinn pode não corresponder às suas expectativas e você poderá sofrer”, avisou.

Rachel suspirou. E soltou:

“Eu pensei… Estou pensando ainda… Que Jesse deve ter o espaço dele, haja vista que não estamos mais casados”.

As palavras dela caíram como uma bomba sobre a cabeça dos Berry.

Eles sabiam que os dois estavam divorciados. Acharam confuso o fato de ainda viverem sob o mesmo teto. Entretanto, souberam que a pessoa que deu o primeiro passo para o atual estado civil de ambos foi o ator. Pensaram: Rachel, provavelmente, ainda o ama. Ou eles não estariam a viver juntos. Ela usou Spencer como razão para a presença do homem. Eles acharam que era uma mentira bem pensada por uma mulher que ainda queria o marido. Afinal, ela foi capaz de deixar tudo por ele!

“Você tem certeza disso?”, Hiram perguntou devagar, como se – assim – a filha tomasse consciência do que estava a considerar.

“Tenho… Eu acho… Nós, eu e ele, precisaremos conversar”.

Hiram e LeRoy se miraram.

Acharam que a filha não lhes pareceu muito segura.

“Rachel”, o advogado recomeçou, “antes de qualquer atitude que deseje tomar, pense bem. Se isto for por causa da Quinn, lembre-se: ela tem uma namorada. E talvez ela não vá desfazer a relação dela”, tentou ser realista.

Rachel pesou as palavras dos pais.

Porém, não queria, de nenhuma maneira, abrir mão da oportunidade que a vida estava a lhe apresentar com o interesse de Quinn sobre si. Foi tudo o que desejou por muito tempo. Não retrocederia… Não estava disposta a isso!

Entrementes, procurou ser um pouco coerente…

“Eu sei… Eu não vou forçá-la ou exigir coisa alguma. Eu só a quero por perto… Talvez, assim, devagar, eu consiga que ela volte a me amar como antes”.

Hiram e LeRoy soltaram um suspiro estranho.

A morena olhou de um para o outro.

“Você acham que ela… Que ela, talvez, nunca mais volte a se apaixonar por mim”, era uma pergunta, mas saiu em tom afirmativo.

“Nós não podemos saber, Estrelinha…”, LeRoy a apertou pelos ombros, contra si, “a mente é território desconhecido. A forma como eu concebo o mundo e a realidade é diferente, por exemplo, da forma como o seu pai o faz… Há questões físicas, culturais… É um vasto campo”.

“Ou seja, eu posso, ainda, acreditar que ela pode me amar”.

Roy coçou a cabeça.

Havia uma possibilidade?

Não sabia…

“Eu não tive acesso ao prontuário médico dela e não sei se ainda faz análise… Assim, eu não me sinto preparado para lhe dar uma resposta objetiva. Eu posso lhe dar uma hipótese. E essa hipótese diz que sim, é possível – por que não? — que a Quinn possa amá-la outra vez… Porém, é apenas uma ideia. Nada palpável ou definitivo”.

“Isso já me parece bom”, murmurou a judia.

Os homens se olharam.

Eles não tinham a mesma certeza.

Sou o seu fado, sou o seu bardo

Se você quiser ouvir

O seu eunuco, o seu soprano

Um seu arauto

Eu sou o sol da sua noite em claro

Um rádio

Eu sou pelo avesso sua pele

O seu casaco”.

– Adriana Calcanhotto em Uns Versos (CD Público)

Quinn abriu a porta do pequeno estúdio que ficava dentro do escritório. Acendeu a luz. Sentou na cadeira giratória, confortável e de fina matéria-prima. Abriu a cigarreira em ouro presenteada por Alex, tirou uma cigarrilha, colocou-a entre os lábios e acendeu com o isqueiro delicado e discreto. Tragou, suspirou e soltou a fumaça. Prendeu a cigarrilha entre os dedos indicador e médio e a afastou da boca. Rodou a cadeira devagar, a observar as imagens presas aos quadros e penduradas em linha.

“Este é o Noah… Pai de Beth…”, sussurrou. Observou a foto do homem sorrindo, com um corte moicano que, particularmente, achou estranho. Como pode se interessar por alguém com um corte de cabelo assim?

Desviou os olhos para a fotografia ao lado. Uma mulher morena, que achou muito parecida com Rachel, abraçava uma adolescente que se parecia, em contraponto, consigo. Loira, olhos verdes, bonita… Quase uma cópia autenticada de si mesma. Beth! Sua filha! A mulher que a abraçava: Shelby Corcoran. A mãe de Rachel Berry!

Achou curioso o fato de a mãe da cantora adotar sua menina, quando tinha uma de seu próprio sangue.

“Por que ela fez isso?”, questionou.

E, claro, achou engraçado o fato de todos pensarem que ignorava o paradeiro da mulher e de sua filha.

“Ingênuos…”, murmurou.

Girou a cadeira.

Estancou na imagem de um grupo de adolescentes e um homem que parecia o professor, entre os quais reconheceu a própria imagem em roupa de líder de torcida, ladeada por Santana e Brittany e rodeada de outras pessoas… Não lembrava de todas… O rapaz de olhos puxados… Ele fazia o quê mesmo?

“Merda…”, sussurrou aborrecida por não se recordar. Porém, uma coisa era certa: ele não sabia cantar. Como poderia reconhecer isso e não saber o restante?

A negra corpulenta… Mercedes! Sim… Tinha a voz bonita, apenas exagerava nos gritos… Kurt…

“Voz de mulherzinha!”, comentou para si mesma.

Um reconhecimento curioso: por que não se lembrava da voz de Rachel Berry?

“Vai saber…”, pensou alto. E também reconheceu que não tinha a menor vontade de escuta-la cantar. Entretanto, tinha o desejo de saber mais dela…

Suspirou.

Levou a cigarrilha aos lábios e aspirou o fumo, soltando-o logo em seguida. O que poderia fazer sobre Rachel? Talvez convida-la para um jantar? Não… Poderia parecer estranho… E ainda era prematuro! Talvez, um café! Sim… Muito viável. Mas, para tal, era mister que a cantora ficasse melhor. Parecia-lhe, ainda, atordoada. Não sabia lidar muito com gente confusa. Se ela melhorasse logo…

“Uma visita seria educado?”, analisou. “Precisarei avisar antes, a fim de saber se ela estará bem para receber. Outra visita com ela meio aérea não será produtivo”, concluiu.

Ouviu três batidas na porta.

Holmes, certamente.

“E lá vamos nós”, tripudiou antes de se erguer e abrir a porta. Encostou-se no batente e ergueu a cabeça para mirar o gigante.

“Algum problema?”, indagou, visivelmente contrariada pela interrupção.

“Não, senhorita. Apenas o Sr. Berry ao telefone. Quer sabre se aceitaria estar com eles amanhã para uma happy hour”, informou.

Um sorriso se desenhou nos lábios dela e os olhos cintilaram.

“Claro”, exclamou e o homem assentiu e se virou para deixa-la, porém estancou ao ouvir “ela melhorou? Não quero ficar tentando decodificar as frases cortadas e atrapalhadas que solta”.

“Parece que está bem melhor”, disse.

“Parece?”.

“Eu acredito que esteja melhor, senhorita…”.

Quinn ficou pensativa sob o olhar do cuidador. Queria estar com Rachel, mas havia alguma coisa que a fazia desejar retroceder. Então, decidiu:

“Eu prefiro que este happy hour aconteça não amanhã, porém depois. Um tempo maior para a Rachel ficar melhor. Negocie isso, Holmes. E avise-me”.

O homem ficou surpreso.

“É um convite”, lembrou.

“Eu entendi isso. Eu só não poderei ir amanhã”.

Holmes franziu o cenho. Não lembrava de algum compromisso importante da patroa. Mas obedeceu.

Quinn voltou a se fechar no pequeno estúdio.

Sentou-se e girou a cadeira devagar, a observar as mesmas fotos outra vez e novamente. Tentou lembrar o nome de alguns daqueles seus “colegas”, lembrou de outros alguns colegas e até mesmo de fatos. Apenas uma questão que a incomodava: as lembranças eram reais ou apenas uma armadilha de seu cérebro? Merda! Essa incerteza lhe tirava a paciência… Tirava-lhe o sentido de ser “normal” e coerente. E colocava em xeque a sua mente que muitos consideravam brilhante. Como ter senso em meio a esta bifurcação mental, em meio à dicotomia que era?

Suspirou e meneou a cabeça.

Ergueu-se e achou melhor sair dali. Eram informações várias e certezas poucas. Nessas horas, preferia se afastar das dúvidas acerca do passado e ficar apenas com as certezas do presente.

Hiram Berry recebeu a resposta do homem e concordou em marcarem o encontro para o dia depois de amanhã.

Rachel ficou decepcionada.

O pai lhe repetiu a resposta do cuidador:

“Quinn terá compromisso amanhã”.

“Compromisso…”, sussurrou, “com Alex?”.

LeRoy e o marido se miraram.

O médico achou melhor ser direto:

“Talvez… São namoradas. Lembre-se, Estrelinha: Quinn tem uma vida! E ela não vai mexer na sua rotina organizada apenas para estar com você. Ela vai lhe encaixar, quando houver espaço, para se conhecerem. Assim como você fará, pois é uma mulher muito ocupada. Talvez a Quinn até esteja disposta a formar laços com você, mas – sinceramente, querida – não espere muito! Anos passaram. Vocês ficaram fora da vida uma da outra e, após o que aconteceu, não restou coisa alguma para ela do passado e do que você significou. Eu, em seu lugar, e a fim de ter uma convivência saudável, desconstruiria a imagem que tem dela, a imagem da mulher que lhe amou, e a reconstruiria sobre o que ela se tornou”.

A cantora pensou que as palavras de seu papai foram cortantes. Porém, não poderia discordar. O problema? Ainda amava Quinn e não sabia, precisamente, se lhe era possível desconstruí-la. Talvez com o passar do tempo e com a convivência isso fosse possível. Talvez…

Mas, neste instante, ainda não se sentia capaz disso. Desconstruir Quinn seria desconstruir toda a história que tiveram.

Todavia, uma questão: era necessário realmente desconstruir Quinn?

Ela já não fizera isso?

Quinn estava a ler mais uma das muitas reportagens que continuavam a sair sobre o caso de Raul Street quando ouviu seis batidinhas curtas e ritmadas na porta do escritório antes de esta se abrir.

Sorriu.

Abaixou o jornal e admirou a amante de cima a baixo, parada no meio do ambiente, mirando-a com olhos divertidos.

“Lendo jornal, Dra. Fabray? Pensei que havia esquecido este hábito”, brincou a fazer referência ao mergulho da namorada nos estudos e investigações sobre o julgamento que participou.

“E a senhorita? O que faz aqui a estas horas? Não deveria estar na revista, ditando ordens e fazendo da vida de seus convivas da moda um inferno?”, sorriu.

“Eu não sou a Miranda Priestly… E também, ao contrário de certas advogadas, eu não visto Prada”, riu e caminhou até a namorada.

Quinn admirou-a. Gostava quando a amante usava camisa social feminina e saia executiva, com saltos tradicionais. Os cabelos lisos e escuros soltos e macios, a maquiagem discreta, as sobrancelhas grossas arqueadas e bem desenhadas, cílios longos que destacavam os olhos azuis.

Um belo espécime feminino!

Alex sentou sobre as pernas de Quinn e passou-lhe os braços ao redor do pescoço, beijando-a com exigência. Estava, mesmo, a fim de borrar o batom!

Quinn colaborou para tal intento e enlaçou-a pela cintura.

O beijo foi cedendo aos poucos, com Alex afastando-se devagar, mirando a cara bonita da namorada. Murmurou:

“Tão receptiva! Tão saborosa…”.

A advogada apenas sorriu, sem desviar os olhos do rosto, também bonito, da mulher que lhe sorria com afeto, satisfação e um quê de desfaçatez na voz sensual.

“Eu só vim saber se está bem”, falou, afagando a face pálida e de traços harmoniosos da namorada.

“Estou bem”, Quinn confirmou.

Alex beijou-a com delicadeza e voltou a se afastar:

“Eu amo você”, falou.

A loira sorriu antes de responder:

“Eu sei… Eu sou, realmente, uma arraso. Impossível não se apaixonar”.

A jornalista deu uma gargalhada solta que contagiou a outra, fazendo-a esconder o rosto no vão do pescoço dela.

“Tão humilde”, riu mais.

Quinn aproveitou e passeou o nariz pelo pescoço da amante, sentindo-lhe o aroma da pele e arrepiando-a.

Alex afastou-a…

“Pode ir parando! Eu tenho que chegar a tempo no trabalho”.

“Mesmo?”, a loira duvidou.

“Mesmo, Quinn! Eu realmente preciso chegar a tempo e com imagem de mulher respeitável”.

Riram.

A advogada apenas observou:

“Melhor passar no banheiro antes, mulher ‘respeitável’, e limpar o batom que está, definitivamente, borrado. Parece uma pintura abstrata”.

Alex mordeu-lhe o lábio inferior e sugou dele.

Quinn suspirou.

A jornalista achou confiável se levantar e sair.

Quando Quinn suspirava, ela estremecia.

Amava-a e desejava!

Em certas horas, quando se trata de amor e desejo misturados, é melhor fugir!

Alex era muito boa em fugir.

Exceto quando perto de Quinn.

Como tudo, para toda regra, há uma exceção.

Quinn era a exceção de Alex.

E Alex sabia muito bem disso.

Talvez, por tanto saber, fugir-lhe vez ou outra era bom.

Corro perigo

Como toda pessoa que vive

E a única coisa que me espera

É exatamente o inesperado”.

– Clarice Lispector em Água Viva

Rachel estava inquieta.

Quinn deveria chegar em poucos minutos.

Uma coisa que agradou muito à pequena judia em relação à mudança de Quinn: ela se tornou pontual.

Jesse segurou-lhe a mão e apertou com afeto, a sussurrar-lhe no ouvido:

“Fique tranquila, Star! Vai ser uma tarde ótima! Você está linda! Ela vai ficar encantada quando a vir”.

A cantora o mirou com afeto.

Sorriu a assentiu.

Apertou-lhe a mão em silencioso agradecimento.

Palavras, entre eles, muitas vezes eram desnecessárias.

Quando da portaria chegou o aviso de que a tão ansiada visita estava no prédio, Maria cuidou de avisar que o elevador já esperava no térreo.

Romero, o porteiro que conheceu Quinn, avisou-lhe que poderia subir.

“Para mim isso pareceu óbvio…”, comentou a encara-lo.

“Como?”, ele não entendeu.

A advogada sorriu com desdém.

“Qual é mesmo o seu nome? Romeu? Ronald? Rosembaum? Romano?…”.

“Romero, senhorita”, avisou.

Quinn assentiu e informou, antes de se encaminhar para o elevador:

“Sabe, Romero? Eu não gosto de você”.

O homem arregalou o par de olhos.

O que fez para ela?

Sempre tratou a todos com educação e gentileza.

Mas ela… Ela era a moça que uma vez saiu chorando e lhe maldizendo. A moça que logo depois, soube, entrou com o carro sob a caçamba de um caminhão e nunca mais voltou.

“Talvez ela não tenha me desculpado…”, murmurou, antes de suspirar e voltar a atenção para a entrada do prédio.

A advogada foi recebida por uma afetuosa Maria, efusivos homens Berry, um polido Jesse St. James, um sempre sorridente (meio idiota?) Spencer e uma não menos sorridente e aliviada (?) Rachel Berry.

“É bom ve-la novamente”, confessou a cantora, doce.

Quinn a abraçou com gentileza e sorriu, respondendo-lhe com tranquilidade:

“Estou satisfeita por lhe encontrar tão disposta”, afastou-se e a mirou inteira, “e bonita”.

Rachel sorriu ainda mais largo (uma impossibilidade muscular a princípio, mas a felicidade que a cortava era tão grande que o sorriso tornou-se também).

A cantora também a estudou. Um vestido azul bebê de mangas longas, punhos com botões, um cinto que fazia parte do conjunto, comprimento acima dos joelhos apenas dois dedos, saltos e uma bolsa de mão. Os cabelos perfeitamente arrumados num coque que lhe deixavam nus a nuca e o pescoço sensual.

Imaginou como seria passear os lábios por ali outra vez, escorregar o nariz até sentir que a arrepiou por inteira, escutar-lhe a voz rouca num gemido incontido… Então lhe beijaria a curva da mandíbula e subiria até lhe chegar à boca…

“Rachel?”, Quinn a fitava com olhar divertido.

Piscou algumas vezes.

“Sim?”, perguntou, ainda meio perturbada com os pensamentos que a tomaram.

“Você está bem, Estrelinha?”, Roy perguntou, preocupado.

A cantora percebeu a quantidade de olhos sobre si.

“Sim! Estou! Eu só… Lembrei de uma coisa quando vi a Quinn”, justificou.

A advogada sorriu:

“Coisa boa ou coisa ruim?”.

Rachel desejou que o chão se abrisse, porque soube que corou violentamente. Suas bochechas ardiam como se expostas fossem ao sol de verão a pino.

“É melhor irmos nos sentar…”, conseguiu falar, com um autocontrole que não soube onde buscou e menos ainda encontrou.

Todos assentiram e fizeram o que a morena sugeriu, à exceção de Maria, que foi à cozinha pegar as bebidas.

Quinn avaliou a cantora.

Estava bem melhor… Articulada, apesar de não fazer ideia da razão pela qual ela se desligou da realidade. O que, analisou, demonstrava ainda certa fragilidade emocional.

Suspirou.

Desejou verdadeiramente que Rachel pudesse manter uma conversação coerente. Seria maçante ouvi-la falar silabicamente… Tão bonita e tão confusa!

LeRoy e Rachel – que tomou da mão de Quinn – sentaram num sofá, separados pela mesa de centro baixa onde já estavam servidos doces e salgados, além de frios e que apenas esperava pelas bebidas. No outro, em frente, colocaram-se Hiram, Jesse e o pequeno Spencer, ainda no colo do pai.

Quinn observou pai e filho.

O garoto era uma mescla perfeita e harmônica de traços dos pais. Era bonito.

Desejou que ele não ficasse feio quando crescesse. Quase todas as crianças bonitas que conheceu, quando cresceram, ficaram diferentes esteticamente. O que antes parecia harmonioso desencaixou um pouco. Seria uma tremenda falta de sorte do menino… Ele teria depressão por ter pais bonitos e não se parecer nem com um e nem com o outro no final das contas? Rebelar-se-ia contra os dois por terem lhe dado a vida, mas não um pouco da beleza que facilitaria sua carreira como ator ou cantor que vive à sombra dos pais? Um fracassado total, porém cheio de ilusões de estrelismo? Um pequeno viciadinho em drogas ilícitas com ficha na polícia por mau comportamento? Uma nova maneira de colocar os pais nas capas de revistas sensacionalistas e tabloides de meia tigela depois de aposentados com dignidade? Talvez… Era uma probabilidade real. Meio a meio!

Fifty, fifty!

“Quinn, o que você deseja beber?”.

A loira desviou os olhos de pai e filho e sorriu para Rachel:

“Café! Puro, por favor…”, correu os olhos para Maria, que enchia a xícara. Agradeceu e esticou o tronco para pegar o pires com a bebida. Aspirou a fumaça e suspirou. Bebeu um gole.

“Delicioso, Maria! Adoro café”, confessou.

Rachel mirou-a. Não! Quinn não adorava café. Ela, Rachel, adorava. Quinn não…

“O Café do Central Park serve cafés com grãos torrados na hora! É maravilhoso”, anunciou.

“Eu lembro de você comentar”, Jesse foi simpático.

A loira assentiu.

Os Berry quase cuspiram a bebida quando ouviram a visita perguntar ao ator:

“Como vai o casamento, Sr. St. James?”.

“Casamento?…”, ele realmente não entendeu.

“O seu casamento com a Rachel! Ainda vivem juntos, certo?”.

“Eu… É… Nós não estamos… Apenas…”.

Quinn sorriu diante da confusão do homem.

Rachel não entendeu a razão da pergunta de Quinn.

Na verdade, pessoa alguma naquela sala entendeu a pergunta!

A advogada olhou ao redor.

Tomou outro gole do café.

“Eu e Rachel falávamos, na última visita que fiz…”, mirou a atriz e franziu a testa, avaliando-a, “embora eu pense que ela ainda estava um pouco confusa, do quão vocês formam um bonito casal e a harmonia que possuem. E eu creio que expressei a minha confusão no momento, pois ainda não entendi a razão de se divorciarem”, explicou a volver o olhar para o ator.

Embora seja apenas uma teoria, alguns cientistas creem que – naquele instante – até os átomos pararam de pular de lá para cá. Houve uma espécie de suspensão espaço-tempo. Um apito mudo que desequilibra toda a lógica.

Um baque surdo.

Um agudo entontecedor.

A nota mais alta da escala musical.

Uma realidade paralela ou um truque da mente?

Havia controvérsias…

“É… Quero dizer, obrigado, Quinn. Eu e a Rach-Rach somos, antes de mais nada, amigos. Então, isso realmente deve causar alguma confusão nas pessoas”, conseguiu responder, embora ainda não tivesse a clara noção de que as palavras lhe saíram com coerência pela boca que forçava um sorriso que intrigou a advogada.

Ele estava embaraçado?

Confuso?

Meio imbecil, talvez.

Ou era assim o tempo todo?

“Rae-Rae?”, ergueu a sobrancelha direita e desviou os olhos do ator para a atriz, “apelido fofo, Rachel”, comentou achando a situação muito estranha, porém divertida.

Aliás, ela causou todo o estranhamento…

Então, era melhor aproveitar o resultado disso.

Nada de consertar ou quebrar as expressões chocadas em todas aquelas caras, menos a de Spencer.

Por que ele ria tanto?

Suspirou e comentou, muito à vontade:

“Você me parece mais corada, Rachel”.

Hiram e LeRoy a miraram ao mesmo tempo.

O que ela estava fazendo?

Rachel havia ido da sua cor natural ao rubro pimenta e, pouco depois, à palidez total! Como ela poderia achar que a Estrelinha estava corada?

Da maneira que a pequena Barbra se encontrava, desconfiaram seriamente de que ela tinha entrado em imersão novamente.

Acharam, como pais atenciosos, por bem conferir…

“Rachel”, chamaram em uníssono.

Quinn pensou que os dois eram afinados. Talvez viesse daí o talento da cantora? Era uma possibilidade, desde que ela fosse filha dos dois… Ou os dois tivessem misturado as suas sementinhas e preenchido o óvulo de Shelby…

Ainda assim…

Não tinha certeza!

Entretanto, eles eram afinados.

“Eu estou… Aqui”, a judia respondeu ao chamado dos pais.

“É claro que está, Rachel”, ela pensou que a cantora ainda não estava bem.

Por que foi até ali mesmo?

Ah! Para conversar com uma confusa Rachel Berry…

Estava sendo castigada por algum pecado que não se lembrava?

Deveria comungar e tomar a hóstia sagrada?

Afastar-se de Alex e toda a sua lascívia?

Fazer o bem, sem olhar a quem?

“Uma novena pelas almas no inferno, para suas absolvições, talvez… E da minha, quem sabe”, murmurou.

“Como?”, Rachel a olhou, um pouco recomposta.

“Eu estava pensando alto… Há algum tempo eu não me confesso. Farei isso na missa de domingo”, uma meia mentira nunca foi, realmente, pecado. Ela estava, mesmo, pensando que havia alguma dívida pendurada com o Sagrado!

“Você voltou a frequentar a missa como em Lima, quando morava com os seus pais?”, esta foi uma surpresa para a atriz. E – provavelmente – para os Berry também.

Jesse a conhecia menos. Não havia com o que se espantar ou coisa do gênero.

Quinn meneou a cabeça. Rachel também estava surda?

“Eu não disse que frequento a missa continuamente. Eu disse que preciso me confessar”, esclareceu.

A judia e os pais assentiram em compreensão.

Em que momentos todos ficaram imbecis, Quinn se perguntou.

Ah! Quando indagou sobre o casamento que parecia que era, mas não era, entretanto confundia toda gente porque parecia que era… Enfim, uma cama de gato!

“Como está… Alex?”, Jesse soube, pela cara de Rachel, que fez uma pergunta idiota, mas era melhor passar um embaraço do que escutar qualquer outra questão ou consideração de Quinn.

“Vocês se conhecem, certo?”, perguntou, interessada.

Bebeu outro gole do café.

“Sim. Eu fiz alguns trabalhos para ela como modelo em editoriais…”, sorriu.

Hiram e LeRoy Berry recobraram a consciência que não tinham certeza de haverem perdido.

Rachel suspirou e pediu a Maria, testemunha muda e ainda espantada, que lhe servisse um pouco de café, obrigada!

“Ela comentou algo assim…”, sorriu.

“Ela também foi modelo… Modelou para custear a faculdade”, ele continuou a conversa com o foco no tema errado, mas não estava muito preocupado. Todos pareciam muito mais à vontade. Inclusive a própria Rachel.

“Eu sei. Apesar de os pais serem abastados, ela meio que se rebelou contra eles… É muito independente, tranquila, segura e forte. Gosto disso nela. É direta, lógica e…”, pensou um pouco, “irritante vez ou outra, mas suportável”, concluiu com um sorriso.

“Eu imagino… Os caras babavam nela, mas ela fazia questão de avisar que da fruta que eles gostavam, ela comia até o caroço”, comentou.

“Mesmo? Isso é bem a cara dela”, a advogada atestou.

“Como se conheceram? Eu não me recordo”, LeRoy decidiu dar continuidade ao tema.

Aquilo estava começando a incomodar Quinn. Ela não apreciava muito a invasão a sua privacidade. Embora invadisse constantemente a alheia.

Como a de Rachel e Jesse, há pouco…

Suspirou antes de responder, polida:

“A Fabray&Advogados representa a revista. Houve uma festa e nós, sócios, fomos convidados. Foi lá que a conheci”, foi sucinta.

“Ela é muito bonita”, o papai da Estrelinha continuou.

“Acha?”, fez cara de surpresa.

O Berry assentiu:

“Claro! Ela é uma mulher muito bela”, atestou.

Quinn sorriu.

Rachel olhou para a mesa.

Onde estava a faca para começar a cortar os pulsos?

Por que estavam a falar de Alex Bishop?

Este era para ser um momento maior de aproximação entre as duas, ela e Quinn, e todos falavam da Bishop?

Odiou Jesse.

E quase repartiu o sentimento com os pais.

Quase…

“Quinn, por que não vamos até o meu quarto? Eu gostaria muito de conversar a sós com você”, a pergunta saiu sem freios.

Ela só precisava parar aquele assunto.

Ela queria a atenção de Quinn!

A advogada a mirou com seriedade.

“Acho que deveríamos mudar o tema de nossa conversa”, avisou sem delongas ou disfarces, a surpreender a cantora e os demais.

Aliás, quantas vezes mais ela faria isso ainda?

Uma conta difícil de se fazer.

Era menos trabalhoso não pensar.

“Você, Rach-Rach, não me disse como se sente. Eu pensei que estivesse melhor”, decidiu “resetar” o que aconteceu antes e começar novamente. E, dessa vez, ela encaminharia a conversa.

O apelido que Jesse lhe deu, expelido pela voz doce de Quinn, soou estranha aos ouvidos.

“Rachel, por favor”, a atriz pediu.

“E do que foi que eu lhe chamei?”, perguntou, como se não soubesse.

O curioso da situação foi que ela deixou toda a gente confusa. Eles realmente cogitaram a possibilidade de um lapso de memória… Um ato falho!

“Eu prefiro que me chame pelo meu nome”, a cantora não respondeu, apenas reforçou o pedido.

Quinn franziu a testa como se estivesse confusa.

Aliás, avaliou, Rachel estava melhor do que pensou.

Estava coerente, séria, objetiva e até mesmo autoritária, apesar da situação…

Sorriu com satisfação.

“Você é mais forte do que parece, Rachel”, atestou.

A cantora e os demais a fitaram em expectativa.

“Está reagindo bem! Quando voltará ao trabalho”, indagou, pescando um biscoitinho de nata e colocando-o na boca, deixando-o derreter na língua.

“Creio que logo”, pensou.

Estava realmente bem. Havia sustentado, até ali, alguns momentos embaraçosos que a ex-namorada lhe colocou.

Alguns momentos embaraçosos? Não! Assim que Quinn abriu a boca o caos se formou! Houve silêncio. Incômodo e barulhento silêncio.

Ela era uma metralhadora giratória. Porém, não desgovernada. Ela apontava para o alvo correto e atirava. E era muito precisa. Acertava direto na alma!

Estancou.

Uma ideia lhe ocorreu.

Mas, lhe pareceu tão… Possível?

Quinn a estava testando? Testando os seus limites? Por isso as perguntas e as considerações que a deixaram meio nocauteada?

Passou no teste?

Sim… Ao menos, de acordo com as palavras da advogada: “você é mais forte do que parece, Rachel”.

Meneou a cabeça e respirou fundo.

Um turbilhão lhe tomou.

Não sabia se ria ou chorava.

Se gritava ou permanecia silente.

Esbofeteava ou beijava Quinn.

Ao exalar, pensou que conseguir se manter em equilíbrio, mesmo que explodisse num choro convulsivo depois, seria o mais indicado.

“Sim”, retomou a fala, “acho que estou indo bem… Eu estou surpresa comigo”, confessou.

Quinn tomou um gole do café e, após, perguntou:

“O que gostaria de conversar mesmo, a sós?…”.

A cantora piscou algumas vezes.

Ficar sozinha com Quinn…

Já não estava tão certa deste desejo.

Temia surtar outra vez.

E, sozinha com a ex-namorada a probabilidade de isso acontecer era muito grande.

Limpou a garganta antes de falar:

“Eu acho que poderemos fazer isso depois… Pai e papai gostam de compartilhar da sua atenção”, tentou uma desculpa até coerente.

Mas, não para Quinn.

Quinn não acreditou nas boas intenções de Rachel porque viu e ouviu, e se lembrava com muita clareza, da fala que ela fizera há pouco, ao dizer, cheia de incômodos e ciúmes que precisavam ficar a sós.

Ficou assustada diante da real possibilidade?

A advogada sorriu.

Rachel era muito dúbia!

“Pensei que soubesse o que realmente quer, Rachel”, murmurou no ouvido da pequena.

O som da voz sussurrada de Quinn ao pé do ouvido arrepiou a cantora e lhe roubou o sopro.

Deus! Quinn era muito intensa!

Muito grande e espaçosa! Ela envolvia todo o ambiente e asfixiava as pessoas ao redor.

Sem dó.

Piedade?

Ela conhecia essa palavra?

“Eu pensei melhor…”, murmurou e ergueu os olhos.

Encontrou os verdes que lhe passeava por toda a face e paravam por tempo demais sobre sua boca.

Nunca pensou que agradeceria tanto por jamais relaxar em seus treinos no elíptico. Seu coração era forte! Ou já teria parado…

Quinn mordeu o lábio inferior.

Os olhos da judia estacionaram naquele movimento.

A boca de Quinn era tão fodidamente beijável!

Por que mesmo não queria ficar a sós com ela?

Não conseguiu atinar um bom motivo agora…

“Mas…”, acrescentou, “acho que, após o café, poderemos, sim, conversar um pouco”.

A loira sorriu.

Rachel era tão adorável!

Ser profundamente amado por alguém nos dá força; amar alguém profundamente nos dá coragem”.

– Lao-Tsé -

CONTINUA.

Notas finais
Aviso aos navegantes: antes de se atirarem ao mar e tentar morrer por acharem a narrativa confusa, lembrem-se de um detalhe: a Quinn não se lembra. Então, fica complicado colocar flashbacks dela. Sem mais, obrigada por tudo. - Cal. *-*