Sine Cordi
17 CAPíTULO 17 - יז
Notas iniciais
"O tolo tem sede no meio da água."
– Ditado Popular -
Rachel ficou desconcertada. "Quinn?!", praticamente gemeu o nome da ex-namorada. "Sim, baby! Ela está logo ali, concentrada no notebook e em anotações que não para de fazer", retorquiu Jesse. A atriz se virou na direção discretamente apontada pelo companheiro e a imagem da advogada mergulhou por suas retinas com tal potência que sentiu o mundo girar e o chão quase fugir de sob os pés.
Kurt percebeu o impacto da atriz ante a advogada e cuidou de falar: "por favor, Barbra! Não dê pinta! E não vá até ela. A 'Rainha de Gelo' sabe muito bem como magoar uma pessoa"; a cantora não respondeu, porém perguntou, curiosa, "o que o faz pensar que ela irá me destratar? O que eu fiz no passado, quando não dei o devido valor que ela merecia? Sabe, Kurt? Com todas as minhas faltas, e a correr o risco de ela não me recepcionar bem, preciso falar-lhe. Eu a amo! E o meu querido amigo e companheiro sabe muito bem disso! Então, eu irei até lá cumprimentá-la. Ache você esta atitude boa ou ruim, não me importo!"; o empresário meneou a cabeça e guardou silêncio. Entretanto, Blaine avisou "seja cuidadosa, Berry". A atriz nada disse, apenas caminhou em direção à advogada. Porém, antes de alcançar a mesa em que estava a ex-namorada, viu uma mulher morena, elegante e sorridente alcançar a loira e pegá-la desprevenida, beijando-a na face direita. Quinn ergueu os olhos para a figura feminina e meneou a cabeça, a dizer "tinha que ser você, Alex! Como me encontrou?". A morena sentou ao lado da advogada e Rachel viu-lhe a face bem talhada e os olhos azuis que mais pareciam o oceano mais límpido da face da Terra. E ouviu a resposta dela à pergunta da Fabray e quase teve uma síncope: "eu farejo você! Sempre!"; a loira a mirou e debochou ao retorquir que "eu não sabia que transava com um cão", e Alex, completamente sem nenhum pudor, atalhou "estou mais para cadela...". E Quinn riu, para espanto total de Rachel, sincera. Esta era a primeira vez, entre os encontros que tiveram, que viu a advogada rir com aparente sinceridade.
Kurt e Blaine pensaram em ir socorrer a estrela, parada no meio do café, chocada com o que viu. Mas, Jesse avisou para que a deixassem, pois "não será Alex Bishop a impedir a minha 'star' de ter com a Fabray". Blaine atalhou, sério, "você conhece a Bishop. Sabe a fama de ciumenta que ela tem. Não ficaria bem para a maior estrela da Broadway e do cinema atual um escândalo..."; o empresário de gel nos cabelos e terno com gravata borboleta foi interrompido por St. James, muito franco, "Alex não fará cena. Ao contrário, encantar-se-á com a minha Rach-Rach. Bishop é amante de musicais da Broadway e saber que a Fabray conhece a melhor, adorará". O Hummel estreitou os olhos e inquiriu de onde o cliente e amigo tirou tanta certeza. "Eu conheço a Alex. Há muitos anos", revelou o cantor. Blaine ergueu as sobrancelhas, claramente surpreso. "Você conhece Alex há muito tempo?"; Jesse sorriu. "Sim. Muito tempo. Trabalhamos juntos algumas vezes, assim que ela ingressou na 'Models'. Fui modelo dela e, em alguns musicais que estrelei, chamei-a para preparar os figurinos. Foi perfeito. Afastamos-nos quando ela cresceu na revista e eu e Rach-Rach viajamos em turnê pela Europa", explicou. Kurt pediu um chá gelado para si e para o marido. Jesse preferiu esperar pela ex-esposa, ainda que soubesse que ela pediria café, ainda mais se soubesse dos detalhes que a advogada lhe deu há pouco.
Rachel respirou fundo e reiniciou os passos até a mesa de Quinn. Parou em frente a ela e cumprimentou, gentil, "Quinn! Que bom vê-la aqui"; a loira ergueu os olhos verdes para a judia e devolveu o cumprimento, polida, mas fria, "bom dia, Srta. Berry! Vejo que quase todo o...", estancou o que iria dizer e a apresentou à amante, "esta é Alex Bishop, uma amiga...". A jornalista sorriu e murmurou, ao se erguer para cumprimentar a cantora, "eu sou um pouco mais que amiga, mas isto não vem ao caso agora, o que importa é a surpresa em saber que a minha amante nunca comentou que conhecia a maravilhosa Rachel Berry! Acho que ela merece um castigo por ocultar informação tão preciosa", brincou e puxou a pequena cantora pelos ombros e a osculou nas faces, a confessar sem a menor timidez o quanto adorava o trabalho dela. "E onde se meteu o gostoso do seu marido? Nós somos amigos há anos! ". A artista apontou a mesa em que o ex estava e a editora de moda demonstrou contentamento e, com o belo sorriso aberto de pura satisfação ao rever o amigo, indagou à Berry se ela se importaria se fosse falar com o cantor. Rachel sorriu, contente, pois teria um tempo a sós com a advogada e exclamou um "à vontade" com a fenda oral cheia. Antes de se dirigir ao amigo, se voltou para Quinn e avisou, séria, ainda que só tirasse um sorriso divertido da amante, "nem pense em fugir, Fabray! Eu vou atrás de você!". A loira apenas meneou a cabeça. A judia deu um sonoro suspiro ao perceber que a advogada se voltou para o notebook. Perguntou, um pouco aborrecida, se podia se sentar. "Uhum...", foi a resposta da loira. A pequena puxou a cadeira e se colocou em frente a ex. Ouviu, surpresa, "o que deseja, Srta. Berry? Pelo que os meus olhos e ouvidos puderam perceber, o seu 'marido' está em uma mesa um pouco mais à frente, em dulcíssimas e delicadas, porém não menos satíricas, companhias", e ergueu as orbes verdes da tela e a fitou. Um brilho brincalhão resplandecia nos olhos. Rachel, surpresa, cuidou de se recompor e questionar "eu pensei que a 'Rainha de Gelo' fosse inalcançável! Mas, surpresa! Ela tem uma amante linda e aparentemente muito ciumenta. Diga-me, Quinn, o que mais falam de você que não condiz com a verdade?"; a advogada franziu o cenho e, sorridente, retorquiu, segura, que "eu não faço ideia do quê ou de quanto mistificam a minha existência. E também não me recordo de, alguma vez, ter-lhe dito qualquer cousa sobre a minha vida particular". A atriz perdeu a cor. Porém, justificou, muito persuasiva, "quase todas as pessoas que, por acaso, sabem que nos conhecemos, lançam comentários a seu respeito". A expressão da Fabray ficou deveras brincalhona. "Nossa! Eu não sabia que despertava tanto interesse e curiosidade, além, é claro, da criação de histórias fictícias a meu respeito nas pessoas!", e, no auge do cinismo, completou "vê-se que há muitos desocupados neste mundo!"; a cantora observou a bela face da ex-namorada e tal ato fez a advogada questionar "algo errado, Srta. Berry?". Esta pareceu voltar à realidade e exprimir, grave, "você nunca irá me perdoar, Quinn? Eu reconheci, reconheço e reconhecerei sempre o meu erro, o sofrimento que lhe impus! E reconheci, ainda que deslocada do tempo certo, que eu sempre a amei, amo e amarei! O que posso fazer para obter o seu perdão?"; Quinn bebeu um pouco do quase escasso café em sua xícara e, após colocar o recipiente cuidadosamente sobre o pires, atalhou, calma, segura e sem emoção que "eu não tenho que lhe perdoar, Srta. Berry! Você, sim, precisa se perdoar. O que aconteceu não faz diferença alguma em minha existência. Na verdade, é como um fato nulo! Eu estou muito bem. E, espero, que você fique tranquila sobre o que ocorreu..."; "mas eu amo você! Nunca deixei de amar! O que eu faço com todo o meu amor por você? Finjo que ele não existe?", a pequena cortou a fala disciplinada e hipnótica da outra. Porém, ela estava a ter um embate verbal, ainda que pequeno, com a loira. E a resposta chegou rápida e direta: "Srta. Berry, eu sou da opinião que, se amo alguém e tenho certeza deste sentimento, o ato de traição é um contrassenso, ele vai na contramão de todas as declarações de fidelidade, pureza e confiança que o enamoramento possui intrinsecamente. Assim, baseada nesta proposição, que não posso afirmar ser verdadeira ou falsa, porém é a mais lógica ao meu ver, eu posso afirmar que a senhorita nunca, em momento algum de sua vida, amou-me. Logo, não há o que ser perdoado! Você seguiu o seu coração, o seu desejo. Na época, eu realmente não entendi o porquê do seu ato, entrementes, atualmente e com mais maturidade, compreendo. Faça um favor a nós duas, ao seu marido e filho: reconheça que essa coisa que insiste em chamar de amor nada mais é que uma ideia fixa. Ajude-se! Você me pareceu bastante esperta desde que a vi. Prove que eu não errei quanto a sua perspicácia", sorriu ao terminar a explanação e deixou a judia completamente desconcertada, a menear a cabeça completamente sem palavras e com um grau de incredulidade hiperbólico.
"Do atrito de duas pedras chispam faíscas; das faíscas
vem o fogo; do fogo brota a luz"
– Victor Hugo -
"Quinn, o que eu senti por Jesse, quando pequei contra a sua confiança e o seu amor por mim, foi pura atração física, desejo, tesão e... E eu fiquei muito confusa! Eu a amava e estava a desejar outra pessoa! E eu quis reencontrar o meu equilíbrio, saber exatamente o quê ou quem eu queria. E quando a vi naquela situação indesculpável, eu percebi o enorme erro que cometi. Sempre foi você o meu verdadeiro amor! Sempre, Quinn! E eu morrerei afirmando isso", a atriz falou completamente isenta de simulação. A advogada sorriu. E havia incredulidade no sorriso. Respondeu, como se as palavras de Rachel fossem vazias de significados e sentimentos, "Srta. Berry, eu admiro a sua coragem ao se expor de forma aparentemente sincera, todavia os fatos desmentem o seu verbo. Vejamos: disse que me amou e que sempre fui o objeto de tão profundo sentimento, mas se casou com o Sr. St. James e dessa união nasceu um filho. Afirmou que, ainda que unida ao seu atual ex-marido pelos laços do matrimônio, continuou a me amar. Porém, o seu casamento durou um pouco mais de cinco anos, um tempo significativo para uma união baseada, segundo suas palavras, apenas pelo efêmero desejo. Divorciou-se, entretanto continua a dividir o mesmo teto com o Sr. Seu ex-marido, agem como se ainda estivessem casados e ainda usa a inocente figura de seu filho como desculpa a fim de justificar essa relação distinta. Achou, mesmo, que conseguiria convencer a mim ou qualquer outra pessoa da verdade em suas palavras? Tudo o que disse não passou de um discurso falacioso e muito bem interpretado. É, realmente, uma atriz excepcional Rachel. E tenho certeza de que ganhará o Tony para o qual foi indicada", concluiu com os olhos cravados nos da estrela da Broadway.
A cantora sentiu um aperto na garganta, uma vontade de chorar quase incontrolável e, também, uma inexplicável raiva da mulher que a olhava com uma indiferença mortal, e desejou intensamente saltar sobre ela e a tomar num beijo faminto, apaixonado, desenfreado para que ela pudesse sentir a sinceridade de sua confissão e a força de seu sentimento. Mas, não poderia fazer o que gritava todo o seu ser. Não neste momento, local e com uma plateia tão distinta. Por isso, respirou profundamente e expeliu o ar bem calma. Este era um exercício que sempre a relaxou. Então, um pouco mais controlada, contra-argumentou, corajosa, "você não sabe tudo, Quinnie! E não está dentro de mim para saber como me sinto!". A loira deu um sorriso maledicente e respondeu num tom de voz baixo, apenas para a cantora escutar: "isso era tudo o que você queria, não é, Berry"; a surpresa da pequena diante do comentário malicioso e surpreendente da advogada foi único. 'Como?... Como ela ousava?...'. "Você realmente sabe como humilhar as pessoas", cuspiu a judia, tomada de um sentimento de dor e arrependimento que a fez se erguer abruptamente, a causar um barulho que chamou a atenção das pessoas que ali estavam, inclusive o grupo de amigos. E Kurt comentou à boca pequena, certeiro, "Quinn Fabray causou o primeiro e indesejado golpe para machucar em Rachel"; Alex olhou confusa do empresário para a cena entre a amante e a estrela da Broadway, sem entender de pronto o comentário. "Do que está a falar, Kurt", questionou. O empresário apenas disse "assuntos mal resolvidos do passado. Só uma coisa me deixou cismado: o quê, exatamente, a Quinn usou como argumento para deixar a Rachel tão abalada". Após ouvir o homem de pele de alabastro, foi a vez de Jesse não compreender o comentário. Afinal, o que mais a Fabray poderia usar como "arma" para fustigar a cantora a não ser a traição que sofreu?
Antes de deixar a advogada, a cantora comentou, voz a demonstrar o quanto estava abalada, "isso não acabou aqui, Quinn! Você conseguiu me cacetear, mas não me causar dano que me faça desistir do 'nosso' amor. E saiba, também, que a sua forma de pensar é lamentável!".
Já enfadada com o assunto, a advogada comentou "e por falar em 'lamentável', este seu comentário não contribui em nada para a temática da nossa conversa". Rachel teve ímpetos de pular no pescoço daquela mulher que, reconheceu, desconhecia totalmente. A advogada que estava diante de si não parecia ser nem a sombra da fotógrafa sensível e amorosa com quem dividiu a vida no passado, uma mulher de voz doce, quente e cheia de sentimentos que em dia algum deixou de dizer "eu te amo" com profundo e sincero afeto. Agora, mais do que em qualquer outro momento, entendeu o porquê de Santana, Blaine e todos os que as conheciam lhe avisarem que Quinn sabia como abrir feridas e causar dor. Entendeu que o aviso de "manter distância" dela era algum tipo de "medida de segurança" contra sofrimentos. E, mais do que nunca, compreendeu que, de um jeito inexplicável, "matou" a mulher que lhe amou um dia e que trazê-la de volta à vida seria uma tarefa hercúlea. Porém, Rachel Berry nunca desistia. E não seria agora que o faria. Pelo menos, esperava que o amor de sua vida não fosse o seu primeiro e único objetivo perdido.
"Nosso amor não é possível terminar assim
eu penso no que foi que eu fiz, eu quis achar motivos seus
pra tudo se acabar assim,
pra tudo terminar assim.
Meu amor, meus olhos teimam em não
querer chorar, mas não conseguem dominar
a lágrima de amor que cai
causada pela angústia de um vazio (...)"
– Roberto & Erasmo Carlos -
CONTINUA.
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