Sine Cordi
92 CAPÍTulo 92 - ץב
Notas iniciais
“Me aproximei de você
Para dizer que lamento.
Você não sabe o quanto é encantadora,
Eu preciso lhe encontrar
E dizer que preciso de você.
Eu lhe diferenciei dos outros;
Me conte os seus segredos,
Faça as suas perguntas.
Oh, vamos voltar ao princípio”.
— The Scientist— Coldplay -
Holmes está aí fora… Quinn veio buscá-la.
Quinn veio buscá-la…
Quinn veio buscá-la…
Veio buscá-la…
Buscá-la…
Quinn…
A voz de Blaine ressonava dentro da cabeça de Rachel uma e outra vez, uma e outra vez, quase como aqueles antigos vinis arranhados onde a agulha da vitrola voltava a faixa até alguém ir até lá e ajeitar a coisa.
“Rach! Rachel!”, o agudo de Kurt a tirou do transe momentâneo e, sacudindo um pouco a cabeça, a fim de tentar encaixar os pensamentos e o raciocínio, mirou Blaine e Kurt e lhes pôs a atenção que se havia esvaído, após escutar as palavras do homem de gravata borboleta, que de imediato lhe percebeu uma pequena sombra de incredulidade. Ele sorriu e ergueu os ombros e as mãos com as palmas para cima, em sinal de que estava tão surpreso quanto ela.
A morena então sorriu e com voz que continha uma emoção única pediu a Blaine se ele poderia pedir que a aguardassem por um instante, que estava apenas arrumando suas coisas para sair.
Enquanto o empresário de olhos que cambiavam de cor saiu para passar a mensagem ao cuidador, Rachel compenetrou-se em terminar de se arrumar, sob o concentrado olhar de Kurt, que observava-a ajeitar os cabelos e, em seguida, passar um batom discreto para dar um up no semblante cansado.
Esperou que o empresário de tez pálida a acusasse de cometer a burrice do século, mas ele somente a observava com atenção.
“O quê?”, perguntou, já amolada pela concentração dos olhos azuis sobre si.
Kurt suspirou e foi até ela e a tomou num abraço, deixando-a aturdida.
“Kurt…”, ela não sabia como reagir.
“Perdoe-me por esconder de você o que aconteceu com ela…”, a voz falhou ao primeiro homossexual assumido do McKinley.
“Kurt…”, Rachel o abraçou, pois o homem começou a soluçar, num choro que parecia colocar para fora um peso há muito resguardado.
“Eu… Eu não dei uma oportunidade a vocês… Eu afastei você, porque eu achei que não aguentaria saber o que causou em Quinn. Ela nunca mais foi a mesma, Rachel…”, afastou-se e enxugou as lágrimas com os punhos do paletó do terno de dois mil dólares da Book’s Brothers, combinado com uma gravata estilo florido de Christian Lacroix e respirou fundo, recobrando a compostura, embora algumas lágrimas lhe escapassem.
“Eu meio que forcei a barra ente você e o Jesse, quando estávamos na Itália… No seu momento frágil”, confessou.
Rachel ainda seguia aturdida.
“E a Quinn…”, enxugou outra vez os olhos com os punhos do paletó, quase assando-os ao esfregar, deixando marcas róseas sob os orbes azuis, mais claros e brilhantes a causa das lágrimas, “a Quinn perdeu quase toda a memória em que você esteve presente, ou seja: quase vinte anos de existência! E é tão estranho você olhar pra essa pessoa que fez parte de sua vida por tanto tempo e ver no que ela se transformou… Quinn sempre foi astuta… Se fazia de durona, mas sabemos que era por pura insegurança. Entretanto, depois do acidente… Havia momentos que ela era atroz de cruel. E outras, dispersa, indiferente… Eu não soube lidar… E, apesar de alguns poréns, eu acho que, no apagar das luzes, você teria algum efeito sobre ela. Enfim… Seja forte e…”, deu um risinho sem mostrar os dentes, “boa sorte!”, afagou a face de Rachel e a tomou em outro abraço, enquanto a judia agradecia o apoio que lhe brindava enquanto amigos que se tornaram e informava ao homem que não guardava rancor. E indagou, interessada:
“Por que não tentou construir novas memórias com ela?”.
Kurt suspirou e meneou a cabeça em negativo. Não era capaz. Não sabia como lidar com uma Quinn Fabray que deixou de ser uma moça sem escudos para uma mulher cheia de veneno e uma armadura que mantinha todos a distância.
“Talvez você se surpreenda ao ver que Quinn pode ser acessível…”, mirou-o nos olhos e ficou um pouco decepcionada ao ver a negativa teimosa do contratenor.
“Kurt…”.
“Rach, eu entendi uma coisa com tudo isso: por mais que a vida as afaste, de alguma maneira, acabarão se encontrando… Foi o que eu disse: você sempre terá efeito sobre ela. Então…”, meneou a cabeça, “apenas vá e seja cuidadosa… Ok?”, ele a beijou na testa e se retirou.
A judia suspirou e se voltou para o espelho. Sorriu, pensando em como Quinn estava se tornando uma surpresa que a confundia e enchia de esperança. Apenas queria olhar para ela, ou M, ou Lucy… Quinnera todo um mistério. Ansiava saber a razão de a esposa buscá-la. E, apesar de saber que deveria ser atenta, havia mais de alegria no peito do que temor.
Havia amor!
§§
Quinn se removeu no banco do carro, esperando por Holmes.
“Por que demoram tanto?”, indagou-se, sentindo-se estranhamente ansiosa para ver Rachel. Precisavam, realmente, tentar acertar o curso de suas vidas. Ela precisava colocar alguma ordem na desordem que, sabia, sua mente adoecida causou. Tentaria o seu melhor…
Riu-se!
“Tentar o meu melhor… Como se eu fosse boa nisso”, murmurou, aborrecendo-se pela espera que não chegava a dez minutos.
Bufou e pegou o telefone para verificar se havia alguma mensagem de Mary sobre a Fabray&Advogados. Três batidas no vidro da porta ao seu lado a fez mirar fora e franzir o cenho ao dar com um Kurt Hummel que sinalizou para que baixasse o vidro.
“Era só o que me faltava…”, mastigou mau humorada e apertou o botão que fez o vidro polarizado descer até a metade e cravou os olhos num tom verde-escuro, quase parecendo negros, nos azuis e brilhantes do ex-colega de colégio, olvidando por completo o telefone.
“O quê?”, perguntou, sem nenhuma delicadeza.
“Eu só…”, Kurt tentou falar, mas nada saiu. Ele queria conseguir não se sentir tão pequeno diante dela. Ela o fazia sentir insignificante, com aquela maneira de olhar, cheia de enfado e impaciência. Cheia de altivez e beleza… Meneou a cabeça e, após um suspiro e olhar ao redor para ver se Rachel saia, voltou para a loira que ainda tinha o olhar cravado nele.
“Hummel?”, ela o chamou. O comportamento do homem a estava deixando curiosa. “Aconteceu alguma coisa com a Rachel?”, quis saber, com um jeito cheio de desconfiança.
Kurt sorriu e perguntou, num afã de audácia:
“Você se importa se Rachel está bem?”.
Quinn rolou os olhos e levantou o vidro e retornou a atenção para o telefone.
Kurt achou um absurdo o comportamento dela. Era por isso que não insistia em se aproximar! Ela era insensível, cruel, debochada e…
“Talvez…”, ela baixou o vidro e o surpreendeu com a resposta.
“Talvez…”, Kurt sussurrou, ainda chocado com o fato de Quinn voltar a lhe falar. E prosseguiu:
“Eu espero que o seu ‘talvez’ signifique um sim, Q. Eu… Eu impedi a Rachel de voltar quando soube que você… O que eu quero dizer, Quinn, é que eu…”.
“Rachel está vindo…”, ela falou e o homem virou o pescoço para vislumbrar a judia ao lado de Holmes. “Fique tranquilo, porcelana”, ela deu um sorriso que não comunicava honestidade, entretanto a voz…
“Eu não tenho a intenção de arrancar pedaço de sua estrelinha”, falou com a tranquilidade de uma divindade iluminada e o deixou confuso, porque o apelidava e tinha um verbo que parecia cruel, mas o tom das palavras era manso.
“Certo…”, murmurou desconcertado e se retirou, passando pela cantora e o cuidador e acenando com a cabeça. Desapareceu para dentro do teatro.
Rachel viu o homem sumir às pressas e voltou-se para a porta do carro, de onde, pelo vidro, a loira a avaliava com o cenho franzido. Haveria algo de errado com seu jeans skinny qualquer marca, sapatilhas rasteiras e um sobretudo negro de corte refinado? Mirou-se e procurou o que tanto Quinn olhava com atenção e, aparentemente, estava tudo bem… Então…
“O quê?”, perguntou tão depressa quanto se aproximou do automóvel, levantando a cabeça e mirando-a inquisitiva.
A loira piscou algumas vezes, como se tivesse saído de um estado de transe e sorriu forçadamente, enquanto se afastava para Holmes abrir a porta para a cantora embarcar.
Rachel entrou no carro e o cheiro de Quinn a impregnou. Era um misto de âmbar com um leve olor de tabaco e menta… Provavelmente a loira fumou uma de suas cigarrilhas, analisou a judia, observadora. Fitou o perfil pálido da esposa, procurando descobrir se Quinn ainda era dona de sua consciência ou uma das personalidades a tomou. Decidiu se aventurar e quebrou o silêncio:
“Aonde vamos? O que falou para o Kurt? O que o Kurt falou com você?”.
A advogada virou a face para a cantora, surpresa com todas as perguntas que a morena foi capaz de atirar.
“Não precisa se preocupar com o porcel…, digo, com o Kurt”, corrigiu-se porque sabia que poderia ferir os sentimentos de Rachel.
O quê?
Voltou-se devagar para a frente e tesa, ficou pensativa, analisando como expressar-se.
“O-kay…”, a palavra escorreu pela língua da cantora e soou rara. Aliás, a judia pensou que a esposa estava atuando de maneira raríssima.
“Quinn…”, murmurou o nome loiro.
A advogada respirou fundo e adotando uma postura de indiferença, que para Rachel pareceu apenas uma armadura meia boca da qual a loira se revestiu, verbalizou:
“Bom… Eu conversei com Eleanor…”, por que estava usando o nome da médica? Ela não vinha ao caso!
“Sim?…”, a cantora estava atenta.
“Rachel…”, parou outra vez, quase fazendo que a morena tivesse um piripaque pela dúvida que cruzava a face loira uma e outra vez.
“Quinn… Pode falar… Eu não irei lhe machucar…”, sussurrou e juntou a lateral da mão com a da esposa, que descansava sobre o banco.
Os olhos verdes pousaram naquele toque e ficaram ali, como se pelo olhar fosse capaz de intensificar aquela sensação dentro de seu estômago, como umas cócegas que causavam uma onda de prazer e desejo…
Prazer e desejo…
“Desejo…”, sussurrou quase inaudível e Rachel ficou preocupada.
“Quinn, você está se sentindo bem?”.
‘Não, eu realmente não estou bem…’, pensou e afastou a mão.
“Rachel”, a ex-fotógrafa retomou a voz, “eu pensei e… Bom, estamos casadas e…”, respirou fundo e observou a face judia, avaliando que tipo de emoção perceberia na face morena após expressar sua decisão. Retomou a fala:
“Enfim, o caso é que, mesmo que eu não queira… Não…”, tentou rearticular o pensamento. “Não me tome a mal…”.
O cuidador mirou a cena pelo retrovisor, com os olhos mais abertos do que o normal, realmente perplexo por escutar o quanto a patroa parecia perder toda a linha de raciocínio diante da cantora e tentava não soar rude.
A loira continuou:
“Não quero fazê-la se sentir mal, porém sabemos que vou mais até o seu apartamento levada pelas minhas personalidades que por… Por…”.
“Eu sei que você não se importa, Quinn… E eu sou consciente de que são suas personalidades que a levam até mim e eu vou repetir sempre que necessário: só quero estar ao seu lado, não como um incômodo ou alvo das cruezas de M, mas como a pessoa que só deseja recomeçar com você, a pessoa que não se importa em quantas outras personalidades você possa ter porque eu realmente amo cada uma delas, de formas distintas, mas eu amo porque todas elas são uma parte de você e eu só quero você”, adiantou-se a morena, a fim de facilitar as coisas para a esposa.
Quinn deu um risinho divertido e comentou, distraidamente:
“Cristo, Berry! Você tem fôlego! Disse tudo isso quase sem respirar…”.
A morena não apreciou o comentário da ex-fotógrafa.
E a ex-fotógrafa percebeu e, reposicionando-se com altivez, foi ao ponto:
“O fato é que não quero mais ficar morando em uma casa enquanto você mora em outra. Pensei e avaliei a situação e concluí que, já que estamos na chuva e desprovidas de proteção, acredito que o melhor seja nos molharmos, ou seja, assumirmos de vez este casamento. Assim que: onde você deseja morar? No seu apartamento ou no meu?”
Rachel ficou petrificada. O que Quinn estava sugerindo?
“Co… Como assim no meu ou no seu… apartamento?”, a voz saiu mais surpresa do que desejou.
“Eu prefiro o meu, na verdade. E ele também fica perto da Broadway. Na realidade, seu apartamento é muito bom, mas eu não gosto muito de lá”, a loira comentou, parecendo não escutar ou perceber o espanto na judia. “Não me sinto muito bem lá… Porém, se for o caso, poderemos escolher um outro…”.
“Quinn… Eu… Você quer que moremos juntas? Quero dizer… Eu não consigo…”, riu com incredulidade. Quinn estava falando sério? E era mesmo Quinn! Não era M ou Lucy…
“Eu pensei que já havíamos conversado sobre esse assunto… Por que a surpresa?”, o tinido da voz loira não saiu para nada satisfeito. Rachel a estava rechaçando?
‘Não. Ela não está’, escutou a voz tranquila de Lucy Quinn e sacudiu a cabeça, a fim de fazê-la parar.
‘É muito tonta…’, e essa era a mordaz M assomando-se também.
Quinn respirou fundo e focou a atenção na morena, embora se sentisse como se estivesse fora do próprio corpo, vendo a si mesma observando a cantora.
‘Oh, merda… Não posso me perder agora…’, respirou fundo e sentiu-se retornar ao corpo.
“Bom…”, Rachel sentiu um sorriso de contentamento e esperança tomar-lhe a face, “eu nunca pensei que você fosse realmente levar a cabo essa ideia de morarmos na mesma casa”.
“Oh…”, a loira pensou (com alívio?) que ficou claro para a cantora que elas teriam uma vida em comum. Não foi específica quanto a isso?
“Eu pensei que tudo havia ficado exposto”, comentou, recomposta e percebendo o olhar de Holmes pelo retrovisor. Franziu o cenho quando o homem fingiu que observava o trânsito.
“Algum problema?”, ela perguntou ao cuidador, que respondeu – muito seguro – que apenas percebeu que eram seguidos pelo carro de Marco, o motorista de Rachel.
“Dispense-o”, a loira não fez um pedido à judia.
A cantora, sem querer desentendimento, porém se impondo em relação ao comando nada gentil da esposa, informou, enquanto pegava o próprio telefone:
“Eu o dispensarei. Mas apenas porque estou com você e acho pertinente”.
Quinn assentiu e se bateu mentalmente pelo tom que parecia mais de alguém com ciúmes do que qualquer outra coisa.
“Merde…”, murmurou em aborrecimento para si mesma, enquanto a cantora dispensava o motorista e a mirava.
Após, com o sorriso de volta ao rosto e uma emoção que não queria deixar sair por completo, a fim de pensar com coerência, a cantora arquejou:
“Eu sei que você foi clara… Aliás, não só você. M também”, riu ainda sem acreditar na proposta de Quinn. Aliás, era uma proposta ou uma decisão? Soava mais como uma determinação, um juízo… Quinn era tão mandona! Tão “malditamente” sexy…
“Por quê?”, voltou das nuvens e indagou, fitando o perfil loiro.
Quinn se voltou para a cantora e, sem alcançar a questão, lançou outra:
“Por que o quê?”.
“Decidiu que será…”, que palavra deveria usar para descrever a decisão de Quinn? Positiva? Saudável?…
“Está com medo?”, a advogada indagou, atenta.
Rachel negou. Não estava com medo. Apenas… Foi pega de surpresa.
“Surpresa…”, a loira repetiu num murmurar, o cenho franzido.
“Eu só peço, Quinn…”, a judia foi sincera, “que seja o menos brusca possível comigo. Lembre-se: suavidade”.
A loira riu com descrédito e soltou:
“Acha que eu esqueci disso? Estou me esforçando…”. Estancou e se dando conta do que lhe escapuliu, porque não era da conta de Rachel o que lhe acontecia, tornou o corpo para a frente outra vez e, quase que automaticamente, fico tensa.
“Está tudo bem, Quinn. Eu sei que está fazendo o que pode… Só não se distraia quanto a isso”.
“Estou certa que você me recordará isso todos os dias”, bufou, exagerando no tom de enfado.
“Talvez você goste…”, Rachel sorriu e tomou a mão da loira entre as suas e a levou aos lábios, depositando um beijo na palma.
O olhar verde escorreu para ela e Quinn sentiu outra vez a sensação agradável do que parecia um misto de prazer e desejo que remexiam na barriga, perto do ventre.
Não era ingênua.
Sabia o que significava…
A boca lhe secou.
Os olhos desviaram da ação de Rachel para os lábios dela, onde fez pousada. E achou que eram beijáveis…
A cabeça deu uma pontada que lhe revirou o estômago e a fez fechar os olhos.
“Quinn!”, escutou a voz da morena distante, porque parecia que havia sido levada para outro lugar, outro tempo.
Estava sentada ao volante de um carro amarelo, mas não sabia que marca ou modelo era. Estava atrasada para alguma coisa… O que era mesmo?
Ela e Rachel estavam no auditório do colégio e mirando a pequena, perguntou sobre Finn:
“Ele faz você feliz?”…
O tom de mensagem do telefone, largado no banco carona, soou e ela o pegou para ler. Era de Rachel… Ela se casaria com Finn Hudson, o quarterback do time de futebol do colégio. Disse para Rachel não se casar… Entretanto, era consciente de que deu um motivo que considerou mais valioso do que o sentimento que nutria por ela: Rachel foi feita para brilhar! Ela era maior que Lima, Ohio. Ela era Nova Iorque, Paris, Roma, Tóquio… Ela era o mundo! Pegou o aparelho e respondeu que estava a caminho e…
Sentimentos por Rachel? Tinha sentimentos por ela… Ela era a pessoa por quem… Um som de buzina, pneus gritando na pista, um som abafado, vozes e…
Os ouvidos zumbiam, ao passo que escutava M e Lucy gritarem entre si, em um acalorado debate e uma dor lhe apertou o peito.
“Dor…”, conseguiu soltar, enquanto tentava se manter ao pé da consciência.
Os braços de Rachel enlaçaram a esposa, enquanto Holmes buscava um lugar para estacionar e sacar do porta-luvas a bolsinha com a seringa que continha o calmante que faria a loira se sentir melhor.
“Quinn… Eu estou aqui com você… Não vou a lugar algum”, Rachel suspirou e beijou a testa da mulher que amava e desejou ser ela a sentir tanto desconforto em lugar da loira. “Eu te amo, Quinn! Eu juro pela vida do meu filho que eu te amo demais e não quero magoar você nunca mais”.
A loira sentia-se asfixiar. Estava morrendo? Estava se perdendo? Sentia que ligava e desligava, ligava e desligava, como quando se está num quarto escuro e alguém acende e apaga a luz rapidamente e repetidas vezes.
“Running in circles
Coming up tails
Head on a science apart…”.
A voz doce e sussurrada em seu ouvido conseguiu lhe prender a atenção… Quem estava cantando? Conhecia essa voz…
Rachel…
“Nobody says it was easy
No one ever said it would be this hard
Oh, take me back to the start…”.
A respiração errática de Quinn apaziguou-se aos poucos, enquanto Rachel começou a lhe sussurrar palavras de carinho e fazia promessas de amor e cuidado direto no ouvido.
Foi retornando à realidade. O som da voz de Rachel era tão suave… As palavras tão doces… O abraço tão acalentador… O olor da pele morna… Num ato quase onírico, mirou os lábios morenos e aproximou o rosto do de Rachel e roçou os lábios nos dela.
“Aleluia!”, gritou M, afastando-se da cantora, que se assustou com a radical mudança da esposa e levou a mão ao peito, “pensei que ela não teria coragem…”, M considerou e repetiu o ato de Quinn, porém passeando a língua ao redor dos lábios judios e sussurrou, indecorosa, “espero que ela tenha vontade de follar você como eu tenho…”.
Quando Holmes conseguiu estacionar, olhou para trás e escutou da loira, que se aprumou:
“Eu… Eu acho que me perdi…”, comentou Quinn, já de volta, sem recordar a última coisa que fez antes de apagar e menos ainda do amontoado de recordações emboladas que teve. Apenas sabia que tinha a face bem perto da face de Rachel antes de cair na escuridão.
“Eu acho que você… Eu ainda estou confusa, mas M apareceu e desapareceu”, Rachel sussurrou, com um sorriso inseguro nos lábios e o cuidador assentiu, sorrindo em agradecimento à cantora. E pensou que a patroa sabia exatamente qual era o seu melhor remédio. O que a faria voltar à realidade.
Um pouco atontada, Quinn se afastou lentamente do calor moreno e aceitou o enlaçar de dedos da esposa, mirando-a e tendo quase certeza de que quase a havia beijado.
Voltou-se para Holmes e pediu que ele colocasse o carro em movimento e perguntou à esposa, tentando parecer distante:
“Você deseja passar em na sua casa e ver o seu filho antes de sairmos para conversarmos?”.
“Oh… Eu… Eu posso pedir para os meus pais cuidarem de Spencer… Embora ele já esteja dormindo a essa hora… Vamos voltar muito tarde?”, Rachel ainda estava atordoada.
“Façamos assim: você avisa aos seus pais e eu prometo que não tomarei muito do seu tempo”, a loira sorriu polida.
Rachel assentiu, enquanto o coração rateava dentro do peito, resultado do mix de emoções que a esposa acabou de lhe causar: surpresa, fragilidade, medo, desejo, insegurança, anelo, amor.
“Precisamos comprar alianças…”, comentou a loira, pensativa, “mas não acredito que hoje e a essa hora encontraremos a Tiffany& Co da 5ª Avenida aberta”.
Rachel pensou que desmaiaria.
O que estava acontecendo mesmo?
“Diz que me ama,
Volte e me persiga.
Oh, e eu corro de volta ao começo”.
— The Scientist— Coldplay -
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