Sine Cordi

87 CAPÍTulo 87 - סז


Notas iniciais
Ok, desculpem por demorar 1000 anos para postar. O tempo está curto, realmente. E eu, particularmente, achei o cap. difícil de escrever. Estou há dias ruminando o texto e... Não sei. Deixo pra vcs. JCap, obrigada por recomendar a fic!

“Dame tus manos ven tomas las mías

Que te voy a confiar las ansias mías

Son tres palabras

Solamente, mis angustías

Y essas palabras son…”.

Tres Palabras por Julio Iglesias em Latino -

Rachel suspirou e rolou os olhos. Mirou a Srta. M e perguntou, querendo compreender o que aconteceu:

“O que faz aqui?”.

Os olhos verdes tinham um brilho galhofeiro e a loira mordeu o lábio inferior, a fim de suprimir uma risadinha. Zombou:

“Estou aqui porquê…”, arrastou a última sílaba, ainda com a mão da morena segura conscientemente pela sua, “senti saudade da minha esposinha?”, sorriu, com malícia.

Rachel meneou a cabeça e tentou soltar a mão, mas percebeu um sutil agarre da parte da loira e aquietou. A Srta. M continuou, como se nada tivesse acontecido:

“Eu estou aqui porque você anda espalhando amor e Quinn é alérgica a esse tipo de coisa e então ela não suporta a pressão e eu apareço para segurar a barra”.

A cantora analisou as palavras da personalidade alternativa da ex-namorada e interiorizou o que já fazia sentido. Ela, a Srta. M, retinha as lembranças de Quinn. E, talvez um gesto ou palavra de sua parte, Rachel, poderia causar alguma sensação que não fosse boa para a loira. Então ela se distanciava do fato e uma das personalidades tomava o controle da situação, combatendo o alcance emocional do momento.

“E por que você e não a Lucy Quinn?”, questionou a judia, realmente curiosa.

A loira ergueu a sobrancelha direita e falou, roçando o indicador sobre o de Rachel, causando uma torrente de ondas de prazer na morena, fazendo-a incômoda consigo mesma:

“Eu sei que você tem uma quedinha pela loirinha com jeitinho de anjo caído, mas pode ser que a Parker esteja conseguindo ligá-la a Quinn… Então, ela aparece menos… Para a nossa sorte”, levou a mão morena até os lábios e começou a distribuir beijinhos ali.

A judia meneou a cabeça, atordoada com o prazeroso revoltar das borboletas no baixo-ventre que os beijos lhe causavam e com a justificativa que lhe foi brindada. O que a explicação de M significava? Era bom? Lucy era o lado mais doce de Quinn… Seria essa a razão de ela aceder aos encontros? Não era ainda muito cedo para a terapia começar a dar frutos?

“Tem algum café com álcool neste lugar”, a pergunta da Srta. M tirou a morena das divagações e a fez puxar a carta de pratos e bebidas da mão da loira com a sua mão livre:

“Você não vai beber álcool!”, asseverou.

A maneira pouco cordial e bastante ousada de Rachel tomou a M de surpresa. Ela franziu o cenho e perguntou, inclinando o corpo para frente e levando a mão que há pouco segurava a carta de bebidas até a nuca da cantora, alcançando-a e puxando-a para si, com a devida força para não machucar, apenas sujeitar. Ficaram bem perto e Rachel precisou conter a respiração. A Srta. M possuía a maldição de deixar Quinn ainda mais bela… E quando ela inclinou um pouco a face, a Judia pensou que estavam na posição ideal para se beijarem. E se bateu mentalmente diante de tal pensamento.

“Você realmente acredita que o álcool que colocam numa xícara de café será o bastante para causar uma overdose em mim e em Quinn?”, soltou a nuca da esposa, roçando devagar os dedos por ali, arrepiando a morena, e retornou à posição anterior, porém, sem soltar a mão presa a sua e pensando que poderia ter beijado a cantora. Estava gostando da situação… E tinha desejos e segundas intenções com Rachel… Queria colocá-la em sua cama… E não necessariamente para niná-la. Desejava-a como mulher. Sabia o quão saborosa ela era, o quão excitada poderia deixá-la… Lamentou a mesa ser um empecilho por não deixá-la aperciar o corpo moreno no tamanho certo para ser apertado contra uma parede e beijado até fazê-lo sem resistência às suas investidas. Desejava e odiava tanto àquela maldita judia de nariz grande que não abriria mão. De nada! Nem de possuir; nem de causar dor.

“Conversou com a Quinn sobre eu e você termos um contato mais íntimo?”, indagou, a fim de incomodar, porém cuidou de justificar sua questão, “porque tecnicamente você não a trairá se fizermos sexo”.

Rachel achou aquela mulher tão ordinária que não conteve a resposta:

“Eu não faço sexo. Faço amor. E será, se acontecer, com a Quinn”.

A Srta. M soltou uma risadinha e comentou, divertida:

“Querida esposa, se continuar mantendo essa linha de pensamento você terá teia de aranha justo lá. Se eu fosse você, já que está tão presa à convenções tolas, começaria a fazer pompoarismo, ou os músculos da sua vagina ficarão atrofiados”.

A cantora odiou o comentário:

“Por que você é tão grosseira?”, não baixou a guarda.

“Eu sou sincera. Há diferença”, retornou a mão da morena aos lábios e voltou a espalhar beijinhos por ela, causando um irritamento débil na morena, “e você sabe que eu serei só um pouquinho sacana… Nada hard core. Pode confiar”, sorriu sátira e roçou os lábios sobre a pele morna da Judia, que pestaneava e sentia o coração bombear mais rápido dentro do peito como reação de seu corpo traidor.

“Rach-Rach, por que você não nos dá uma chance?”, perguntou em tom quase infantil, “eu prometo que serei muito, muito atenta às suas necessidades matrimoniais. Acho que ambas sairemos satisfeitas”, voltou a espalhar beijinhos pelo pulso moreno.

“Você acha que eu não teria coragem de ir para a cama com você?”, a atriz questionou, querendo entender qual era o objetivo daquela mulher que lhe causava ondas de arrepio e prazer pelo corpo a cada roçar de lábios que descaradamente dava em sua mão.

“Conto com a sua bravura!”, sorriu e arrastou os lábios e o nariz do pulso até a palma da mão morena, que se abriu sem resistência para a loira explorar melhor. “Estou aguando só de sentir o seu cheiro, Rach-Rach”, maliciou e a cantora arregalou o par de olhos percebendo que o “aguar” da loira não estava ligado apenas à boca.

“Se você pudesse ser menos inconveniente, talvez eu até pensasse na possibilidade…”, Rachel se liberou do agarre da Srta. M.

A loira observou a maneira como a cantora tentou se resguardar dela e falou, surpreendendo a morena:

“Eu adoro o cheiro da sua pele… Suave, levemente doce… Adoro a quentura que libera…”.

Rachel emudeceu. Aquela persona estava falando a verdade? Ou era só mais um de seus jogos?

“Não acredita em uma só palavra minha…” atestou M, com um sorrisinho de lado.

A cantora não desviou o olhar da loira e tentou ir além dos muros erguidos por ela:

“O que quer dizer com isso?”.

“Quero dizer que eu lembro de como costumava ser o seu sabor, o seu cheiro… Está tudo aqui…”, levou o indicador da mão direita até a cabeça, apontando-a como o lugar de suas lembranças resguardadas em seu cofre muito particular e pessoal.

“E por causa disso você me odeia…”, comentou a morena. “Como posso saber que não vai me machucar?”, Rachel questionou, pois precisava confiar naquela mulher, porque sabia que ela era uma parte de Quinn. E amava Quinn! Precisava confiar em M e, para isso, ela precisava ser menos sátira.

A loira colocou os cotovelos na ponta da mesa, juntou as mãos e apoiou o queixo nelas. Indagou, ignorando a pergunta de Rachel, apenas para atormentar:

“Sabe que terá que avisar a Quinn sobre mantermos relações sexuais? Pode ser que eu durma com você, mas ela acorde…”.

Rachel suspirou profundamente. Não esperaria menos daquela persona tão cheia de perversidade.

Até aonde M queria ir? Seria capaz de acompanhá-la? E como seria conversar sobre esse tema em particular com Quinn? Não conseguiria esquivar da loira má a sua frente por muito tempo, era consciente disso.

Quando aconteceu entre ela e Lucy Quinn, quando se amaram, Quinn não lembrava, mas sabia que algo aconteceu e não tocou no tema. E com a parte mais gentil da esposa tudo foi tão natural… Nada forçado. E parecia que Quinn estava lidando bem com esse ocorrido. Entretanto, com a Srta. M… Ela parecia querer jogar. Somente isso. Principalmente ao sugerir que poderia, após estarem juntas, dar vez à ex-fotógrafa.

Como Quinn reagiria?

“Como eu reagirei?…”, murmurou para si mesma, preocupada e pensativa. Seria embaraçoso? Seria… Estranho? Seria…

“Oh, meu Deus! Pode ser tanta coisa…”, suspirou e se voltou para M:

“Você tem prazer em complicar as coisas”, acusou.

“Nah… Só um pouquinho…”, sorriu com candura.

A cantora mordeu o lábio inferior, achando-a linda. Por que tinha que ser tão ordinária?

Mujer, si puedes tú com dios hablar

pregúntale se yo alguna vez te he dejado de adorar

Y tú, quién sabe por dónde andarás, quién sabe qué aventuras tendrás.

Qué lejos estás de mi”.

Perfidia por Julio Iglesias em Latino -

“O fato de eu falar com a Quinn sobre isso…”, Rachel voltou a falar, cortada pelo tom de correção da loira:

“Falar sobre sexo!”.

“Como eu dizia…”, a Judia retomou num tom acima, a fim de fazer a outra mulher silenciar, “o fato de eu falar sobre sexo com a Quinn não significa que eu vá ceder as suas investidas”, sentenciou.

“Tudo bem! Por que não invertemos a coisa?”, propôs aquela personalidade que se divertia com a situação, “você investe em mim… Eu cedo”, sorriu brincalhona.

Rachel deu um riso mudo, de pura incredulidade. Haveria alguma forma de fazer com que a Srta. M desse o verdadeiro peso ao fato de terem intimidade?

“Qual a diferença?”, perguntou a loira, fazendo a Judia colocar a atenção nela.

“O quê?”.

M se encostou no respaldo confortável do assento que ocupava no café e pousou os olhos, agora num tom de verde-musgo, sobre a cantora e ponderou:

“Acho que já falamos acerca disso”, o tom era calmo e didático e a expressão facial uma máscara sem emoção, embora ela continuasse a se regozijar, “mas creio que terei de repetir. Por que trair com o Jesse era correto e fazer sexo com a sua esposa não é?”.

Rachel piscou algumas vezes.

A loira continuou, a fim explicar seu ponto:

“Quando eu for pagar a conta sobre o nosso consumo neste estabelecimento, você acha que será com o cartão de quem. Meu? Não. Será com o de Quinn. Se formos a Fabray&Advogados amanhã, você verá que todos ali me tratarão por Quinn Fabray. Inclusive o Russel e a Santana. Então, explique para mim qual a sua dificuldade?”, ergueu a sobrancelha direita de maneira automática.

“Talvez porque eu saiba que você e Quinn não são a mesma pessoa?”, colocou, não deixando de perceber os seus sentidos apitando sobre a mulher a sua frente citar que pagaria a conta. Isso significava que ela estenderia aquele embate ou terminaria tão logo destilasse a dose diária de seu cinismo a fim de causar dor?

“Também poderíamos dizer que Jesse e Quinn não eram a mesma pessoa e você sabia disso quando dormiu com ele”, M cravou em seco, desconcertando a judia.

“Por que ter sexo é tão importante pra você?”, a cantora conseguiu perguntar, com a voz falhada.

“Por que não ter é tão importante pra você?”, devolveu a loira, muito curiosa.

A morena meneou a cabeça. Por quanto tempo continuariam com essa discussão? Por quanto tempo M a fustigaria e se alegraria de maneira descaradamente prazerosa com a dor que lhe estava ofertando?, indagou-se.

“Podemos, por favor, mudar de assunto?”, pediu, com a voz outra vez firme e aborrecida por Quinn não estar presente.

“Ok…”, murmurou M.

Rachel franziu o cenho e ficou com as antenas em pé. Por que a loira concordou com tanta facilidade? O que ela estava tramando?

“Acho que o meu encontro com a Quinn acabou”, sentenciou.

“Só porque eu apareci?”, M fez cara de decepção, “assim você magoa o meu coração, Rach-Rach. Eu não quero que a sua noite acabe… Termine essa…”, inclinou o corpo para a frente e viu o prato de salada diante da morena. Meneou a cabeça e levantou-a, perguntando:

“Você não está comendo nenhuma carne?”, a pergunta saiu como se aquilo fosse o maior absurdo da face da terra. E era só para esticar o tempo com a judia.

“Eu não como carne e você sabe muito bem disso”, Rachel mastigou a resposta.

M sorriu e voltou a encostar o corpo no respaldo de seu assento. Comentou, como se não percebesse o quão tensa Rachel estava:

“Pensei que, com o passar dos anos, seu ‘veganismo’ estaria caduco. Mas… Por que não pediu um suco verde, no lugar do chá?”, estava realmente curiosa. Pensava que aquela mistura de folhas com chá quente era meio radical.

“Por que você não pede o seu café sem álcool e fica quieta?”, Rachel indagou, tentando manter a calma. Entretanto, a cantora sabia, aquela persona de Quinn era enervante. Ela deveria estar ali apenas para proteger a Quinn, mas aproveitava cada momento para espetá-la com o que aconteceu no passado. Entendia o fato de ela aparecer. Mas, por que não ia embora e deixava Quinn? Precisava conversar com a loira! E não estava “espalhando amor”. Estava tendo uma conversa coerente, ou isso pensava. Suspirou, recobrando um pouco de calma.

“Desculpa”, a cantora sussurrou e olhou para a mulher que era sua esposa e não era, “eu estou frustrada”, não mentiu, “porque não sei o que devo falar ou não com a Quinn para que ela sustente uma conversa sem evadir”, explicou.

M franziu o cenho e ficou séria. Rachel Berry estava preocupada por Quinn? Não acreditou. Ela poderia escolher uma desculpa melhor. E não se esforçou para ser mansa ao lembrar:

“O problema não é você, esposa. O problema é a Quinn. E continuará a ser”.

A Judia não entendeu.

“Pode ser mais clara, por favor?”, pediu.

A loira sorriu grande, ficou séria e falou, seca:

“Claro que não… Eu acho tão óbvio”, e observou atentamente a reação silenciosa da cantora, expressa apenas pela linguagem corporal e com a maneira em como suas expressões faciais mudavam. Agora, ela parecia numa luta interna. O que a deixava assim?

Amapola

mi única Amapola

será siempre mi alma tuya sola

si quisieras, si un día fueras mía

la luz para mi sombras tú serías

Amapola

lindíssima Amapola,

no seas tan ingrata, quiéreme

Amapola, Amapola

como puedes tú vivir tan sola”.

— Amapola por Julio Iglesias em Latino -

Rachel teve vontade de se levantar e ir embora, deixar aquela pessoa ali, plantada. Era o que ela, M, merecia! Mas não podia! E se Quinn voltasse? E se Quinn voltasse confusa? Havia Holmes a esperá-las, mas a Srta. M conseguia enganá-lo com facilidade, por mais que o cuidador tentasse perceber quando não era a patroa que falava com ele. Além de ser consciente que o cuidador, se ficasse sozinho com M, poderia passar por alguma situação que o deixaria deveras atontado.

“O que você quer?”, a cantora resolveu se dirigir à personalidade que se apresentava. Talvez ela pudesse ser menos exasperante e falar a verdade. Ela ainda mantinha a ideia de lhe beber as lágrimas de dor?

“Você quer me humilhar de alguma maneira? É isso?”, Rachel queria uma resposta. “Não gastaria o seu tempo apenas para beber as minhas lágrimas… Aliás, você já fez isso”, lembrou.

“Rach-Rach!”, a loira suspirou, enfadada, “eu já disse o que quero antes: levantar a bandeira da paz entre nós e um casamento de fato. Você de aliança e eu também. Morando na mesma casa, dormindo sob o mesmo teto, preferencialmente na mesma cama”, olhou atentamente a morena engolir a saliva. E acrescentou, como conhecedora de causa:

“Quinn vai propor quartos separados. Mas não se preocupe. À noite eu fujo para lhe aquecer com beijinhos e a gente finge que ela nem percebeu”.

Rachel apenas a mirou, sem nada para falar. Estava confundida, num grau bem alto. Apesar de ser sarcástica e pouco gentil, M queria mantê-la ao pé de si. Não era muito cortês, mas ela havia, aparentemente, alterado a sua rota de vingança. Ou talvez não… Se o objetivo dela era causar tormento, ela possuía vária formas para isso. Então, por que escolheu esta, especificamente? Seria isso importante para Quinn? Não seria “forçar” uma situação que poderia causar mais transtorno para a advogada?

“Não sei se a Quinn seria capaz de suportar uma situação como essa… um ‘morar’ juntas”, verbalizou, a fim de compreender a motivação do desejo da personalidade que agora falava pela boca da ex head cheerio, “conviver comigo pode não ser muito bom pra ela. Acho que as coisas não podem ser tão imediatas”, opinou.

A loira a observou e deu um riso magoado. E, tão fria como podia ser, troçou:

“Oh! Meu. Deus! Rach-Rach está preocupadinha com o bem-estar da Quinnie!”. Ficou séria e destilou:

“Se não fosse patético, eu quase acreditaria nesse seu sentimentalismo”.

“Não é patético”, defendeu-se, “você pode menosprezar o quanto quiser chamando o amor que sinto por Quinn de ‘sentimentalismo’, mas não é a verdade. Eu amo a Quinn. Incluindo você no ‘pacote’. E, aceitando ou não, acreditando ou não, vai ter que conviver com isso!”, avisou Rachel e a loira lhe estudou a face. Contestou, com autossuficiência:

“A sua sorte, amor, é a de que eu sou adepta da filosofia que diz que ‘não se pode amar a quem não se conhece’, o que invalida todo esse seu texto, porque você não me conhece. E, além disso, eu sei quem está no comando aqui”, observou, enfastiada. Continuou:

“Já disse que se esse casamento não funcionar como eu quero, farei você magoar. E não vai ser gostoso, porque eu quero mais é vê-la pagar pela traição. E dane-se se foi há muito tempo! Para mim, amor com amor se paga! Então, se ainda quer ter alguma oportunidade com a Quinn, dance a minha música. Ou realmente vou fazer você chorar. E eu sei como, acredite-me”, avisou num comedimento gélido e sem nenhuma intenção de ser agradável.

Rachel analisou a loira. Ela pensava que não a conhecia? Poderia não entendê-la em toda a sua totalidade, porque M tinha um quê obscuro que não permitia alcançar e refletir luz, mas a conhecia.

“Por que mudou de opinião? Antes, queria que eu me mantivesse afastada. Agora, me quer por perto”, inquiriu a Judia. “É tudo um jogo pra você! Um jogo onde apenas você se diverte”, acrescentou, sentindo-se esvair.

M suspirou e passeou os olhos pelo café. Quando Rachel entenderia que não estava ali para se explicar? E menos ainda para jogar.

“Quanto lhe custa ser inteligente, Berry?”, perguntou, arrogante, escolhendo bem qual caminho seguir, “se me der na telha, causarei dor de cabeça para você. Nem que para isso eu precise montar um espetáculo e surtar em plena Times Square para que a Quinn seja levada em camisa de força para o manicômio”, cravou o olhar na morena. Continuou, sem comiseração:

“O casamento secreto de vocês será o assunto do momento. Você sairá em todos os programinhas de fofoca e tabloides com títulos de chamada do tipo: ‘viúva de St. James casada com advogada doente em segredo’”, percebeu o empalidecer de Rachel e seguiu, “e eu já posso vislumbrar as pessoas cavucando o seu passado e o de Quinn, descobrindo que a atriz e cantora modelo de heterossexualidade e família da Broadway e de Hollywood também gosta de beijar mulheres, entre outras coisas, além de especulações que surgirão. Talvez a imprensa sensacionalista seja informada por uma fonte segura que Quinn sofre de alguma doença mental, que tentou se matar, e você se aproximou dela por interesse; talvez lhe dê muita dor de cabeça a mídia a favor de um Russel Fabray fingindo ser um pai zeloso e sofredor porque Rachel Berry, a ex-namorada que enfeitou a testa da advogada insana e suicida com lindos cornos…”.

“Eu já entendi!”, Rachel a fez parar quase num grito e tentou conter a tremedeira que a tomou diante do quanto aquelas palavras se tornavam estocadas em seu peito quando saídas daquela boca que desejava, no instante, estapear. Aquela mulher, M, era o mais dolorido que Quinn levava dentro. Ela era a dor personificada e machucaria, ainda que não desejasse. E ela seria áspera e Rachel entendeu que precisaria ter nervos e paciência. Teria que ter coerência! E resistência.

“Eu só quero entender você”, murmurou, sincera e abatida.

A loira riu-se. Achava Rachel uma atriz excepcional! Ela, sem dúvida, merecia o Oscar de melhor interpretação de “ex-noiva arrependida”. Ela teria que suar muito a camisa se achava que poderia convencê-la de que não estava blefando! Rachel era boa em dissimular. Dissimulou uma vez. Por que não o faria de novo? Rachel era infame! E desejável. Poderia trabalhar com as duas coisas sem problema. A questão era convencer Rachel a fazer o mesmo…

“Então”, retomou, satisfeita por ver o quanto conseguiu atingir a morena com suas palavras, “não pergunte sobre o que me motiva, Rach-Rach. Apenas colabore…”, estudou a face morena antes de prosseguir, com um sorriso arrogante, “e eu sei que você, uma hora ou outra, ficará enfadada disso e desejará retirar o seu time de campo”, passeou os olhos pelo rosto judio, que agora amainava a dor e era tomado pela confusão. Continuou, consciente do resultado que cada uma de suas palavras causava na mulher que dizia amar Quinn de verdade:

“Mas eu não facilitarei as coisas, só para lhe fustigar. Então, seja paciente, Rachel. Você quer me entender? Não vejo a relevância. E acho melhor não tentar. Poupe os seus neurônios, amor! Em alguns momentos dessa relação, você precisará pensar. Será bom estar preparada. Como, por exemplo, começar a se planejar para falar com a Quinn que nós moraremos todas juntas. Nós quatro: Quinn, eu, Lucy e você. Todas na mesma cama, entretanto, não ao mesmo tempo. Acho que seria muito pra você, nenê”, gargalhou da própria piada, enquanto Rachel decodificava a mensagem e repetia uma e outra vez para entender o que estava claro.

“Você me dá medo”, murmurou a cantora, ainda atordoada.

A loira suspirou. Rachel estava com medo? Por que ela era tão complicada? Por que resistia?

“Sabe, Berry, a minha paciência não é muito longa”, suspirou benevolência, “entretanto, eu não quero que fuja de mim ainda. Então, eu tentarei ser menos ofensiva, menos inflexível. Serei, inclusive, boazinha ao lhe dizer que você terá que cuidar de suas palavras, porque a Quinn ainda não está apta para se deixar levar por você”, informou e Rachel franziu o cenho. O que M queria dizer? Haveria algum momento em que a ex-namorada estaria “apta” para se deixar amar, ou amar outra vez? E amaria a ela, Rachel Berry?

“Você não faz ideia das coisas que diz, faz?”, questionou a judia. Ou essa era uma pergunta tola, porque M sabia exatamente cada passo que dava?

“Oh, Rach-Rach!”, a loira sorriu orgulhosa, “eu faço muita ideia de cada palavra que sai da minha boca. Por isso, acredite quando eu lhe digo que a levarei para casa daqui a pouco e você aceitará o meu beijo de ‘boa noite amor’”, retorquiu, observando a cantora com atenção.

Rachel pestanejou algumas vezes. M faria o quê?

“Por quê?”, foi a única coisa que conseguiu verbalizar diante de todos os questionamentos que, apesar de informada que não deveria fazer, faria mesmo assim.

“Porque eu sou alta e positivamente beijável”, respondeu a loira, com displicência, como se essa justificativa fosse bastante.

A Judia riu diante da situação. O riso pequeno foi se estendendo e tornou-se gargalhadas que viraram aquele riso solto e frouxo, que consegue paralisar algumas pessoas quando elas não sabem se o outro ser está chorando de rir ou rindo enquanto chora. Rachel estava justo assim agora. Porque a mulher com quem casou era completamente fora de eixo! Porque foi ela, Rachel, que danou dessa maneira a pessoa a quem deveria cuidar, porque foi tonta o bastante para se sentir confusa em algum ponto de sua vida sobre a ex-fotógrafa e o que sentia por ela. E agora, o resultado estava diante dela, ameaçando-a, fazendo-se valer usando de uma força bruta desnecessária. Se M somente baixasse a guarda um pouquinho, poderia sentir o quanto estava sendo sincera. Ela era o empecilho que a mantinha longe de Quinn. Mas era um empecilho que se não se debatesse tanto como um bicho raivoso, sentiria um pouco do afago que tinha a oferecer e talvez percebesse que era apenas amor. Um amor que nunca deixou de existir. E talvez isso a fizesse amena para devolver as lembranças de Quinn e torná-la menos dura e quase inalcançável.

“Quando eu me exasperar”, informou Rachel, em luta para se manter firme, “você saberá, esposa”, sorriu com um cinismo que mereceu todo o seu talento de atriz no momento para sair tão perfeito.

Tão perfeito que fez M observá-la com uma acuidade maior. E não conseguiu deixar de se perguntar: Rachel estava fingindo? Rachel estava sendo sincera? Rachel se importava? Rachel não se importava?

“Aha…”, soltou a loira, como se fosse uma risada que estancou na largada e informou, “gosto dessa postura”, inclinou o rosto para o lado e pensou antes de continuar, “esse seu talento de parecer vulnerável uma hora e tão mortal na outra me deixa tão sedenta de você, Rach-Rach! Você não faz uma puta ideia”, exclamou, sincera.

A judia emudeceu. Odiava a maneira como aquela personalidade se impunha. E se perguntou se ela seria assim sempre, irascível!

“Eu lamento não me sentir lisonjeada nesse momento”, a Judia foi capaz de expressar, firme.

“Exatamente disso que estou falando”, apontou a loira, com olhos de zombaria, “agora você parece tão forte e poderosa que… Tenho pensamentos muito impuros. Porém, como disse, não corra ainda. Eu prometo tentar me comportar”, e sorriu com candura.

Rachel respirou fundo e soltou o ar devagar, porém ruidosamente. M parecia não levar nenhuma de suas palavras a sério. Como trabalhar com alguém tão descrente? Como provar que estava arrependida do que fez e só queria uma pequena oportunidade com Quinn?

“Eu não sei o que fazer”, confessou e cruzou os braços na frente do corpo, mirando a loira.

M assentiu. Rachel estava se debatendo à toa! Bastava se deixar levar… Nada mais.

“Não se preocupe quanto a isso, Rach-Rach. Talvez a sua pena seja menos dura se fizer o que eu disser. Ou o que a Quinn disser…”.

“Ela nunca aceitará que moremos juntas! Quando entenderá isso?”, a judia sentia como se corresse atrás do vento, numa quase insana tentativa de agarrá-lo.

“Querida esposa, apenas faça o que tiver que fazer”, a loira falou como se essas palavras pudessem esclarecer toda a situação.

“E o que eu terei que fazer”, questionou a cantora, já cansada e apenas desejando poder ir para casa, deitar na cama e chorar. Neste momento odiava tanto aquela pessoa que usava a mente de Quinn e lhe impunha situações completamente sem nexo que desejava não saber da loira tão cedo! Nem de encontros para se conhecerem, coisa alguma! Precisava descansar, porque estes embates, a incerteza, a cobrança sobre sua falta a castigavam um pouco demais agora.

“Hoje, eu a levarei para casa e você aceitará o meu beijo”, M mordeu o lábio inferior para suprimir um sorriso, observando como Rachel parecia vulnerável e cansada. A cabeça baixa, os olhos agora pousados sobre as próprias pernas. Até quando ela suportaria?, a loira queria saber. Talvez Rachel não conseguisse ir muito longe nessa relação que as amarrava com nó-cego. “Depois, Rach-Rach”, continuou, vendo como a cantora ainda não levantava os olhos, “apenas siga a corrente. Já que morre de amor por Quinn, acho que não será difícil, no final das contas”, sugeriu.

A morena levantou a cabeça e mirou a loira. Assentiu, porque nesse momento, não encontrava forças para um levante.

“Podemos ir?”, perguntou, comedida e querendo ver M pelas costas.

A loira concordou com um aceno de cabeça, e escutou o “obrigado” afogado de Rachel. Sabia que a morena estava perto de estalar. Faltava apenas um pouquinho para a cantora se desfazer e um mar de lágrimas desesperadas. Era um panorama atraente, mas não queria chegar a tanto! E, por isso, pagou a conta como se fosse Quinn. E saiu do café segurando a mão de Rachel como se ela lhe pertencesse.

Luna que se quiebra

sobre las tinieblas de mi soledad

adonde, adonde vas

dime si esta noche tú te vas de ronda

como ella se fue

¿Con quién, com quién estas?

dile que la quiero

dile que me muero de tanto esperar

Que vuelva ay, que vuelva ya

Que las rondas non son buenas

que hacen daño, que dan pena…”.

Noche de Ronda por Julio Iglesias em Latino -

Holmes dirigiu para o penthouse da cantora observando vez ou outra, pelo retrovisor, a silenciosa e quase nula interação entre a Srta. M e Rachel.

Afogou um suspiro. Percebeu, tão logo as fitou, que algo não estava certo. A atriz estava cabisbaixa e monossilábica. E Quinn não era Quinn, era aquela parte dela que ele, particularmente, tinha certo temor. Ela era uma incógnita. E enganadora. E o fez passar por mau bocados quando resolveu fazer um escândalo… Se Wilhelm não estivesse por perto, não saberia como agir. Sem contar que ela também exalava uma espécie de opressão quando desejava, que fazia todo o ar do lugar pesado e quase irrespirável.

Rachel analisava a posição em que se encontrava. Era louco e atordoava. Estava, justo agora, descendo pela montanha-russa que a esposa construiu somente para ela e estava em um declive acentuado.

“Por quanto tempo?”, murmurou para a loira ao seu lado, que lhe segurava a mão com aperto seguro.

“Quanto tempo?…”, M não entendeu a indagação da judia.

“Por quanto tempo vai me querer na sua cama? Até enjoar de mim e me mandar às favas?”, inquiriu, prendendo o ar para escutar qualquer atrocidade maldosa sair pelos lábios de M. Uma hora, pensou, a esposa cansaria e terminaria com a farsa toda, deixando-a com as feridas a serem curadas.

A loira meneou a cabeça e, sem dirigir o olhar para a cantora, respondeu, tranquila:

“Não entendo a sua preocupação”.

Rachel estreitou os olhos. Era óbvio que a loira entendia! Por que não respondia?

“A única pessoa que terminará com esse casamento será você, Rach-Rach”, afirmou e sentiu o corpo pequeno ao lado do seu retesar.

“E se eu não fizer isso?…”, arriscou perguntar.

M sorriu com divertimento e respondeu, num tom indolente:

“Então viveremos felizes para sempre”.

Rachel não soube o que retrucar. Não nesse instante, porque havia muitas perguntas lhe rondando a cabeça agora.

Apenas travou.

§*§

Holmes aguardou na copa, enquanto Rachel era levada pela loira até a sala, após exigência dela e a qual não quis contrariar.

“Acho que já pode ir…”, Rachel se virou para a personalidade que tomava sua ex-namorada agora, a fim de despedi-la sem problemas.

A loira assentiu e se aproximou da judia, que não recuou, sabendo claramente o que viria a seguir: M a beijaria.

Especificou, porque também não facilitaria as coisas para aquela personalidade amargurada:

“Um beijo de boa noite, M. Apenas um”.

A efígie de Quinn suspirou, pensando que Rachel sabia ser teimosa. E isso apenas a fazia querer mais e mais tudo o que dizia à dualidade que levava dentro: a cobiça e a ira.

“Rach-Rach, por que tão rigorosa?”, sorriu e encostou o corpo, devagar e com cuidado, ao da morena e a enlaçou pela cintura com o braço esquerdo, trazendo-a bem ajustada. Percebeu que a esposa retesou-se e a estudou. Ela estava tensa porque desejava a aproximação ou estava tensa por que repelia a aproximação? Continuou o movimento e levou a mão direita até a nuca da judia e enredou-lhe os cabelos com dedos destros e firmes, sujeitando-a sem causar dano. Umedeceu os próprios lábios e correu os olhos pela face impassível de uma Rachel que resistia de maneira quase inconsciente. Murmurou, realmente aborrecida pelo comportamento da judia:

“Eu só quero um beijo de verdade, Rachel. Não vou lhe arrancar um pedaço fora”, amenizou o tom, quase num pedido, “não seja resistente”, e aproximou o rosto do moreno, “estou a noite inteira querendo sentir o gosto de sua boca…”, confessou, com um brilho de desejo nos olhos. Apertou-a um pouco mais contra si e, devagar, aproximou os lábios dos de Rachel e os roçou.

A cantora começou a sentir toda a decepção que levava dentro ir às favas com a maneira como aquela mulher brusca em palavras, gestos e atitudes era cuidadosa.

E M era cuidadosa porque ela queria sentir o gosto de Rachel. Não da maneira como antes, tomando-a de forma súbita apenas para atormentá-la. Até poderia causar tormento agora, mas não deixaria de aplacar o desejo de possuir aquela maldita traidora de nariz grande e voz de um anjo sem bênção, por pecadora que era. E roçou a língua úmida pelos lábios de Rachel, fazendo-a entreabri-los lentamente. E então tomou-a num beijo largo, que liberava milhares de correntes pelo cérebro, que a faziam reconhecer aquele gosto que há muito não sentia. Então, cortou o beijo e mirou a morena com frieza, porque aquela que lhe fazia desejar tanto era a pessoa com a adaga nas mãos, a maldita arma de corte profundo e que sangrou o coração de Quinn.

“Eu odeio tanto você”, murmurou e voltou a capturar a boca da cantora num beijo agora que, não apenas experimentava, mas tomava de maneira que a atordoava, porque era como uma bebida de gosto viciante e que causava adição, e quanto mais aprofundado o contato, maior o prazer que causava.

Rachel sentia-se num emaranhado de sentimentos juntos e misturados muito conhecido como confusão, porque aquela personalidade a tomava de uma maneira que fazia seu corpo trazer à tona muitas sensações há muito adormecidas.

Estava tão débil que se deixou ser empurrada de maneira lenta e cuidadosa por M até a parede, onde a loira a prendeu com o próprio corpo e, devagar e atenta a todos os seus sentidos, desceu a mão esquerda até a nádega de Rachel e a apertou.

O gemido de surpresa da judia foi afogado pela boca loira e a morena, parecendo despertar de um afogamento em prazer, tentou afastá-la.

“Chega…”, pediu, tentando escapulir dos lábios que a perseguiam e voltavam a tomá-la, fazendo-a sentir-se fraca e refém da satisfação e do desejo que a boca daquela mulher que era Quinn e não era Quinn lhe proporcionava. Ela era exigente e parecia que queria bebê-la, porque era sedenta.

“M…”, gemeu, fugindo outra vez mais do avanço daquela mulher que a estava fazendo perder o juízo e sentir o ventre contrair, numa demonstração violenta que se a loira persistisse, cederia.

Estava tão atordoada que demorou a escutar uma voz de homem chamá-la de maneira forte.

“Rachel e Quinn!”, LeRoy e Hiram Berry falaram em uma só voz, fazendo a loira estancar devagar e, recompondo-se lentamente, afastar-se dois passos atrás do corpo de Rachel, que se apoiou na parede, ainda mantendo uma distância curta, porque sentiam como suas respirações vertiginosas se chocavam.

“Eu sei que vocês são casadas”, repôs LeRoy, “mas acredito que estão envolvidas numa relação um pouco… Distinta…”, olhou de uma para outra e estancou quando Quinn meneou a cabeça e respirou fundo, mirando-o e a Rachel e ao redor, parecendo deslocada.

M não ficou para o sermão.

Adiós

me voy linda morena lejos de ti

y el alma se me quiebra

con tanta pena

tú ya no quieres saber de mi

Me voy

me voy linda morena, me voy de aquí

a llorar mis tristezas lejos de ti”.

Adiós por Julio Iglesias em Latino -

Notas finais
É isso... Até o 88 (quase acabando...). OBS.: sigo firme que responderei aos antigos reviews, mesmo que a resposta não faça mais sentido... Obrigada pela paciência e continuarem a ler SC. — Cal. *-*