Sine Cordi

77 CAPÍTulo 77 - עז


A boiada seca

Na enxurrada seca

A trovoada seca

Na enxada seca

Segue o seco sem sacar que o caminho é seco

Sem sacar que o espinho é seco

Sem sacar que seco é o Ser Sol

Sem sacar que algum espinho seco secará

E a água que secar será um tiro seco

E secará o seu destino seca”.

— Marisa Monte em Segue o Seco de Brown, Carlinhos

Quinn parou diante da porta de entrada do consultório que a Dra. Eleanor Parker lhe escancarava. Odiava a situação. Odiava falar com a mulher que a mirava expectante... Temia o que a conversa com ela poderia lhe trazer. E era consciente de que, apesar de seu mau humor em estar ali, após uma noite de sonhos confusos com Rachel Berry, o porteiro do prédio da cantora, um banho de sluschie na manhands (foi assim que a chamou no sonho), precisava fazer exatamente o que fazia. Para seu próprio bem.

“Quinn...”.

Escutou a voz da médica e adentrou ao recinto. Do lado de fora ficaram Wilhem e Holmes, seus pretensos carcereiros. Caminhou com calma até o sofá e escutava as vozes murmurantes que lhe perturbavam. Por que não se haviam recolhido? Por que ainda a atormentavam? Precisava pará-las!

Ajeitou a saia e sentou-se no sofá, cruzou a perna direita sobre a esquerda e cruzou os braços sob os seios. Escutou quando a porta foi delicadamente fechada e a médica passou a chave.

Suspirou silenciosamente. Foi trancada. Não apreciava a sensação de se sentir presa, sem um escape, uma rota de fuga... Queria fugir para casa agora e se fechar e nunca mais escutar ou falar com qualquer pessoa. Recolher-se ao esquecimento. Afastar os pesadelos, a noite escura, o temor da loucura. Precisava se recompor. E sabia que essa recomposição lhe faria sentir dor. Muita dor. E não gostava da dor. Nenhuma dor. Mas sua imunidade parecia estar se fragilizando. E isso era aterrador! Só queria seguir anestesiada, segura. Mas desde que Rachel Berry apareceu isso ficou dificil. Ela era a o botão vermelho que nunca deveria ser apertado. O botão do desastre. Mas sentia que era tarde para recuar.

O mover da poltrona da Parker, que se sentava em frente, despertou a atenção loira.

“Quinn, Holmes me colocou a par do que vem ocorrendo com você, assim como a Srta. Berry”, a médica começou a conversa.

“Ótimo!”, ela comentou, “assim já sabe que não deveria se trancar com uma mulher que tem uma personalidade autodestrutiva e nem fazer perguntas do tipo 'o que você se lembra' ou 'o que você sentiu', porque eu não saberei como lhe responder”.

Quinn não parecia muito satisfeita.

E não estava.

Eleanor a observou em silêncio.

“Poderemos ir com calma, Quinn”, achou por bem aclarar, a fim de que a advogada ficasse menos retesada.

A loira mirou a mulher morena e apenas escutou, enquanto uma pontada a atingia em cheio o crânio.

“Tem alguma coisa incomodando-a?”, a médica indagou.

A advogada suspirou. Sim, havia sussurros de duas vozes que não calavam. Isso incomodava e a deixava insegura. E, claro, havia as pontadas na cabeça.

“Quinn?”.

“Eu, se fosse você”, a loira voltou a alertar, “destrancaria a porta...”.

A médica ponderou. Quinn, apesar de parecer distante, estava realmente preocupada com o fato de a personalidade que se apresentou para Rachel brincando de roleta-russa voltasse a aparecer. Assentiu com um leve balanço de cabeça e se ergueu, destrancando a porta.

A loira respirou com alívio, enquanto as fisgadas de dor atormentavam-lhe a cabeça, quase tirando-a de foco.

Eleanor voltou a sentar em frente a ela e percebeu-lhe a palidez.

“Quinn?”.

“Acho que estou começando a ter uma crise horrível de dor de cabeça”, ela confessou, escondendo o rosto entre as mãos.

A psiquiatra analisou o quanto a dor de Quinn, real e quase palpável, era providencial à psique da advogada, impedindo-a de participar ativamente da sessão que deveria começar a colocar para fora os tormentos dela e, assim, tentar, de pouco a pouco, devagar e sempre, desconstruir essa Quinn cheia de feridas abertas e reconstruí-la, com cicatrizes, mas sem as dores da inflamação que a carne lacerada exposta trazia.

“Quinn”, a médica instou, “preciso que me auxilie nisso. Eu sei que é difícil falar sobre coisas que machucam... A dor que está lhe atormentando agora me fará mandá-la para casa já medicada e pronta para dormir até amanhã. E então, tentaremos outro encontro novamente. E pode ser que você sinta a mesma dor de cabeça e eu a medique outra vez e assim sucessivamente, até que você não suporte mais e se afogue. Eu só quero ajudá-la”, falou bem baixinho, sabendo o quanto o barulho incomodava a sua paciente nesses momentos.

“Eu acho que sonhei que a Quinn... Eu visitava a Rachel, não sei bem...”, a advogada falou, resferindo-se a si mesma como se fosse outra pessoa, esforçando-se para ser coerente, tentando juntar os fragmentos do que não lhe comovia, mas incomodava e a fazia pensar que poderia ter relação com o que estava acontecendo, “eu entrava no apartamento da Rachel... E estava tudo silencioso. Quinn só percebia que havia sons... Gemidos e...”, estancou, perturbada pelo incômodo daquelas imagens despedaçadas e soltas em sua mente.

Eleanor sabia que era a primeira vez que a paciente lhe falava sobre algo sem precisar ser “motivada”. E, mais, era a primeira vez que ela realmente se esforçava em busca de ajuda.

“E?”, a médica insistiu.

“E então a Quinn sente uma dor grande... E a dor me alcança e eu só quero que pare. Mas não lembro a causa da dor, embora eu ache que seja a traição da Rachel”, analisou.

A conclusão da advogada fez a médica se surpreender. O sonho era uma memória. E a memória do que não estava resolvido dentro de Quinn. A memória do que lhe causava decepção, tristeza, desamor, distanciamento, solidão. Falta de razão para seguir adiante. O seu desespero que se vestiu de desesperança e a fez buscar o não sentir, o não existir e, assim, fazer que toda dor ou lembrança dolorida e dolorosa desaparecesse.

“Você já considerou que o sonho possa ser uma lembrança?”

A paciente piscou algumas vezes, erguendo a cabeça e descobrindo o rosto. Tentou enfocar a imagem da médica, porém imagens começaram a pipocar na mente dela, acompanhadas pela voz que as descrevia, de maneira fria a crua:

Quinn foi fazer uma surpresa para Rachel”.

A loira respirou fundo. Queria afastar as lembranças, a voz.

“Quinn voltou mais cedo da viagem. E aquele porteiro, o que você tem antipatia, tentou interfonar para avisá-la e acabar com a surpresa que você ía fazer para ela. Você lembra o nome dele? Qual é mesmo o nome dele, Quinn? Ah! Romero. Agora você saberá como chamá-lo. E então você subiu e não a encontrou. Mas escutou os gemidos. E os seguiu. E então, eu vi...”.

Escondeu a face entre as mãos outra vez. Sentiu-se escorrer. A dor na cabeça quase ficando longe demais para ser sentida. Então, já não era mais ela.

Um riso de desagrado.

Um menear de cabeça como se fosse uma autocrítica debochada.

Um murmurar inalcançável.

Ergueu a face para Eleanor e os olhos frios como uma lápide atingiram a médica e ela não reconheceu mais Quinn. Era uma das personalidades... E, pela forma como ela reagiu a pergunta, era a mesma que se apresentou para Rachel Berry como a mulher de coração de ferro e entranhas de bronze. Ela luzia profunda e impenetrável.

“É claro que é uma lembrança”, murmurou uma ira contida. Então Eleanor soube que ela era realmente a mesma Quinn que aterrorizou Rachel na tarde do dia anterior.

Pensou se não havia se precipitado em marcar consulta para Quinn. Talvez ela precissasse de mais descanso. Ou talvez isso não fizesse diferença, sempre e quando as personalidades seguissem se alternando com frequência cada vez maior.

“Quem é você?”, perguntou com cuidado, entretanto, com certo fascínio. Era tão interessante observar as mudanças em Quinn! A linguagem corporal, mais tensa, a mandíbula apertada, um sorrisinho de escárnio permanente nos lábios, a gargalhada que tinha o tom infantil da voz de Quinn, mas que se fazia ouvir de forma atrevida. O olhar que se tornava ora de puro descaso, ora de uma virulenta ira que escorria devagar pela fala lenta e gélida.

“Eu?”, indagou, achando divertida a situação em que se encontrava. “Eu sou Quinn Fabray”, falou e os olhos cintilaram em picardia.

Eleanor sorriu. Essa personalidade, definitivamente, poderia se passar por Quinn Fabray. Exceto se olhasse bem nos olhos dela e nas pequenas mudanças que o corpo dela adquiria.

“Não é, não”, a médica atestou.

A loira gargalhou gostosamente e estudou a médica.

“Como vai o casamento, Dra. Parker?”, estava, realmente, interessada, enquanto vislumbrava a psiquiatra com atenção. A médica era... Interessantíssima! Assim como o policial loiro que ela havia surrupiado a arma anteriormente.

“Vai bem, obrigada”, a médica respondeu e se perguntou se nas vezes que Quinn a mirou, assim, com malícia, era realmente Quinn ou essa personalidade de agora. Se isso era fato, Quinn não lhe relatou nenhum ocorrido (e nem o faria) e ela, Eleanor, não foi capaz de perceber. Isso era assustador!

“Quem é você? Por que deseja ferir Quinn para afastar Rachel Berry?”, a médica achou que uma abordagem mais direta terminasse com os preâmbulos.

A paciente a mirou com desdém.

“Faz perguntas demais, Eleanor”, murmurou e olhou em volta do ambiente.

“Foi você que Quinn projetou quando da traição de Rachel”, a médica afirmou. Essa era a personalidade que sabia da traição de Rachel. Essa era a personalidade desgarrada em dor que escorria em forma de raiva e que tentou aplacar o sofrimento com a morte. “Foi você que viu a traição de Rachel. Quinn chegou de viagem. Quinn escutou os gemidos, mas Quinn não foi capaz de enxergar a traição, porque doía demais, então você apareceu e viu tudo, aplacou a dor de Quinn e odiou Rachel Berry”, a médica tomou um respiro, “você dirigiu o carro de Quinn para a morte”.

A mulher loira sorriu e aplaudiu devagar e em palmas audíveis.

“Bravo! Ela pensa!”, escarneceu e parou com bater de mãos. “Agora que já sabe quem eu sou, por que não troca a música e para de me perguntar 'quem é você?'”.

A Parker negou com a cabeça, em discordância contundente.

“Você não me disse o seu nome. E eu sei que não é Quinn, porque você deixou isso claro para Rachel”.

“Sabe, doutora?”, questionou, para ela mesma responder, “no pouco tempo que conversamos eu acho que devo lhe dar um aviso: preocupe-se mais com sua paciente e menos com a Berry”, sorriu com desconsideração.

“Você quer a Rachel longe, mas não impediu a Quinn de se casar com ela”, ponderou.

Quinn não se imutou.

“Não vai dizer nada a respeito?”, a médica pensou que esse lado de Quinn era de poucas palavras. Era como se não precisasse justificar sua existência. Como se fosse, de fato, intocável. E, para ser assim, notou, ela era calculista. Analisava cada pergunta devagar e com atenção. E só respondia o que queria. Uma persona de difícil acesso. Como Quinn era diante das pessoas que a cercavam e questões que não a satisfaziam.

“Não foi, de fato, um casamento”, atalhou a loira.

“Eu entendo o documento que a Quinn firmou como um casamento”, a médica insistiu.

“Entenda-o como quiser, doutora”, a frieza das palavras loiras era por demais singular, “eu não ligo”.

Eleanor, alguma vez, achou que Quinn era muito fria. Mas essa personalidade conseguia ser bem mais. Questionou, interessada:

“Para alguém em quem não se confia, o que a Quinn fez a Rachel assinar, quando vier à tona, vai causar uma confusão infernal e parecerá muita coisa, menos desconfiança”.

A loira sorriu e olhou para a própria blusa e passou a mão direita no ombro esquerdo como se retirasse uma poeirinha dali. Voltou a atenção para a médica e sorriu ao perguntar:

“E quem lhe disse que eu não queria que ela assinasse?”.

“Então... Quem redigiu o documento?”, a médica ficou na dúvida entre essa personalidade e a Quinn “verdadeira”.

“A Quinn”, respondeu e voltou a olhar ao redor, “você não tem um bar aqui? Não tem uísque em algum lugar para oferecer aos seus pacientes mais ansiosos?”.

“Quinn não pode beber”, observou, “ e você não parece ansiosa”, atalhou, fazendo a loira rir e comentar, maliciosa:

“É. A Quinn não pode beber porque usa Metadona. E Metadona e álcool não fazem um bom casamento. Pode acabar em overdose. Porém, não aconteceu isso quando eu tomei duas doses de uísque, após deixar a Berry meio zonza no teatro”.

A médica se controlou para seus lábios não se afastarem em surpresa. Ela, a personalidade que ainda não se apresentou com um nome, bebeu, mesmo sabendo os riscos? Entretanto, analisou, não bebeu a ponto de fazer mal a si mesma. Ela sabia exatamente como manejar a situação? Ela tinha algum plano ou algo parecido? Era uma questão que, talvez, as perguntas que fazia levassem a resposta. Assim, Eleanor voltou ao documento:

“A Quinn escreveu sozinha os termos do contrato de casamento?”, insistiu, sem demonstrar sua incredulidade.

“Talvez eu a tenha inspirado um pouquinho”, falou baixinho, com satisfação na boca bem feita e sorriso de dentes perfeitos.

A mulher mais velha se preocupou. E averiguou:

“Também 'inspirou' Quinn no julgamento que ela participou?”.

Quinn sorriu e, após umedecer os lábios com a língua, sussurrou para a médica:

“No julgamento, não. Nos julgamentos, doutora”.

A Parker sentiu um frio lhe percorrer a espinha.

“Está me dizendo que...”, a médica queria encontrar uma palavra para expressar, sem ser grosseira, a questão que a fustigava, “apoderou-se da consciência de Quinn, como agora, em momentos anteriores a este?”.

“Apoderou-se? É sério?”, burlou-se da médica.

Quinn”, a Parker chamou a personalidade alternativa, a fim de obter uma resposta.

A loira voltou a estudar o consultório e, alheia, respondeu:

“Talvez uma ou outra vez... Nem sempre a gélida Quinn Fabray consegue lidar com determinadas situações. Principalmente às ligadas a Berry”.

“Então você aparece”.

A mulher com coração de ouro e entranhas de bronze descruzou as pernas para cruzá-las ao contrário. Verbalizou:

“Quem você acha que sabe de todos os podres daquela cantorazinha cheia de si? Quem você acha que a viu traindo Quinn? Eu vi. Eu estava lá porque a Quinnie suportou um montão de merdas, mas essa em particular ela não conseguiu. Então eu a afastei e tomei a situação em minhas mãos. Eu a impedi de chorar diante da Berry. Eu desejei para ela sucesso na turnê pela Europa, ao lado daquele St. Jones...”.

“St. James”, a terapeuta a corrigiu.

“Tanto faz”, desfez-se, “eu fiz a Quinn fugir. Eu telefonei para Santana. E eu avisei que não suportaria e que terminaria com tudo. Eu, não a Quinn”, havia desprezo no tom de voz loiro. Havia escárnio. Havia raiva e decepção. “Eu suportei a dor”.

“Por que não me diz o seu nome?”, pediu Eleanor.

A loira a mirou e ergueu a sobrancelha direita, levantou-se do sofá e passeou pelo ambiente enquanto respondia:

“Você pode me chamar de Srta. M”.

A psiquiatra franziu o cenho. Srta. M? Por quê?

A “paciente” discorreu:

M de Morte. M de Morrer. M de Matar. M de Machucar. M de Magoar”, deu um sorrisinho, “M de Macular. M de Martírio. M de Mortificada”, passeou a mão pelos livros em capa dura na estante do consultório, “você escolhe, doutora”.

Eleanor se retesou. O que diria? Assim se autointitulava esta personalidade, este era o seu nome, como poderia ser qualquer outro, como Dianna ou Michele, mas ela se chamava de Srta. M, e esta letra a criar vários nomes com sinônimos ou significados. E todos eles lhe acudiam a um elemento em particular: a dor.

“Quantos anos você tem?”, a médica sabia que, em casos de múltiplas personalidades, estas podiam variar em idade e, até, gênero sexual.

A Srta. M se afastou da estante de livros e caminhou outra vez até o sofá e sentou.

“Eu tenho a idade necessária para achar que tudo é muito repetitivo e cansativo e que morrer, nesse caso, pode ser um alento”, não desviou os olhos arrogantes dos da psiquiatra.

“Há maneiras de se tratar a dor, Quinn... Digo, Srta. M”.

“É claro que sim. Para isso, basta aconselhar a Berry a ficar longe de mim”.

A médica franziu o cenho antes de perguntar, curiosa:

“E como a Rachel poderá ficar longe de você?”.

“Ficando longe da Quinn”.

“E como ela poderá ficar longe da Quinn se elas estão atadas por um documento que até mesmo você parecer fazer questão de não anular?”, a curiosidade da médica era pertinente e arrancou um sorriso jocoso da loira.

“Bingo, doutora! Muito esperta”, limitou-se a elogiar a Parker. Mas não respondeu o que a mulher morena queria saber.

“Como pretende manter a Rachel longe se a prendeu a Quinn?”.

A loira estudou as unhas das mãos enquanto respondia, distante:

“Estar atada, neste caso, doutora, não significa que a looser tenha que dividir o teto com a Quinn e, menos ainda, compartilharem uma a companhia da outra. Ela poderia se mudar para o Japão que, ainda assim, o papel valeria”.

Eleanor compreendeu. O documento que as unia independia da localidade de uma das partes e valeria sempre e quando Rachel decidisse.

Era metódico.

Era abrangente.

Era uma responsabilidade.

E Rachel não leu. Não sabia do que se tratava!

“Você sabe que a Rachel não faz ideia do que está no papel que assinou”, indagou.

“Ela não leu”, riu e assentiu, “ela realmente não leu”, divertiu-se.

“Porque não fazê-la ler?”, a médica achava justo.

“Por que fazê-la ler?”, a loira também achava a sua razão justa para manter a judia na ignorância. Na verdade, era mais o choque do fator surpresa que a interessava. Imaginava como seria quando a judia lesse o contrato de “casamento”. Então, ficou séria e indagou:

“Diga-me, doutora, acha que a Berry é capaz de assumir o contrato ou acha que ela vai desistir?”.

Os olhares das duas mulheres se encontraram.

A psiquiatra analisou a conversa que teve no dia anterior com a cantora e foi sincera:

“Acho que ela se manterá firme”.

A Srta. M inclinou o rosto e mirou a face da médica, esquadrinhando-a.

“Ela é boa atriz, certo?”.

A pergunta confundiu a médica.

E a loira retorquiu:

“Ela conseguiu convencê-la de que é nobre e tem os sentimentos mais puros em relação a Quinn”, riu, pensando que Eleanor era ingênua demais para uma mulher que já tinha quase quarenta.

“Quinn...”, a Parker ia argumentar, mas a loira a cortou, corrigindo-a:

“Eu não sou a Quinn”.

Eleanor assentiu e continuou:

“Srta. M, a Rachel reconheceu os erros dela. E acredito que ela não vá retroceder”.

“Acho louvável o seu otimismo, porém, 'se este é o melhor dos mundos possíveis, devemos cultivar o nosso jardim', certo doutora?”.

A mulher morena reconheceu a citação da obra “Cândido, ou o Otimismo”, de Voltaire, sibilada de maneira quase indecorosa pela personalidade gélida que tomava Quinn neste momento. Ela, a Srta. M, definitivamente não cofiava em Rachel. E achava o otimismo da médica pueril.

“O documento”, Eleanor queria esclarecer alguns pontos para si mesma, “se a Rachel não desistir dele, o que você fará?”.

A loira sorriu e mordeu o lábio inferior.

“M!”, Eleanor a chamou. Queria uma resposta. O que essa personalidade faria se Rachel não desistisse do contrato? Ela parecia, até agora, ter colocado a cantora à prova, entretanto não tinha como afirmar isso. Mas o contrato, o fato de ela ter conhecimento, de “inspirar” Quinn, tudo a levava a crer que ela estava jogando. A pergunta que a fustigava era: o que a Srta. M faria se Rachel fosse adiante? Mais: se Rachel se provasse digna da confiança de Quinn, o que ela faria? Qual a razão de manter um casamento se ela aparentava não suportar Rachel Berry?

“Srta. M?”, insisitiu, desejosa de respostas que lhe permitissem saber mais dessa personalidade tão cheia de raiva reprimida e ódio latente. Mas o piscar de olhos e a confusão nos olhos verdes da paciente lhe mostraram que ela já não estava mais. Era Quinn ali. Uma Quinn que meneava a cabeça, pois a dor lhe latejava fraco e uma risada divertida fazia eco em seus ouvidos.

Viu Eleanor diante dela. A médica movia a boca como se falasse, mas não a escutava. A médica estalou os dedos diante de seus olhos, mas apenas acompanhava a cena, muda, como se os sentidos lhe fossem cortados pela dor e pela gargalhada.

“Quinn”.

A voz finalmente entrou pelos ouvidos da advogada e ribombaram como instrumentos de uma orquestra em completa desarmonia. Não era agradavável.

“Quinn?”, a psiquiatra repetiu o chamado. Estava preocupada.

A advogada respirou fundo e, após se situar, informou:

“Eu me perdi”.

A médica inclinou o corpo para frente e, com cuidado, tomou as mãos da paciente entre as suas e comunicou:

“Eu estive aqui todo o tempo. Você se comportou bem”.

“Eu fiz o quê?”, a loira puxou as mãos.

Eleanor se deu conta de sua falha primária: não foi Quinn quem se comportou bem. Foi a Srta. M.

Explicou-se:

“Eu quis dizer que a sua outra personalidade, a que ameaçou a Rachel...”.

A advogada fincou a atenção, enquanto a dor de cabeça era uma constante suportável:

“A que agrediu o Wilhelm”, ela observou.

A Parker assentiu e continuou:

“Ela apareceu. E não fez nenhuma ameaça a você, desde que Rachel Berry fique longe”.

Quinn suspirou. Não era como se fosse estrangular o Leão de Nemeia, ou matar a Hidra de Lerna ou qualquer dos outros trabalhos de Hércules! Ela só precisaria ficar longe de Rachel! Mas...

“Por quê?”.

A pergunta fez a psiquiatra pensar que a paciente estava jogando.

“Como assim por quê? Quinn, a Rachel traiu você. E a Srta. M foi a personalidade que absorveu toda a decepção. Ela confrontou o fato. E ela guiou o carro que a levou até o fatídico acidente. Você está tendo pequenas recordações e ela, a Srta. M, já não consegue mais conter o que está acontecendo. Como proteção, a tendência dela é isolar a causa. E, a princípio e você sabe, a causa é Rachel Berry. É um raciocínio lógico e esperto. Ela ameaça se matar diante de Rachel Berry, assustando-a. Qual a sua dúvida?”.

“A minha dúvida, doutora, é saber de que maneira conter algo que já não se pode mais frear?”, foi seca na pergunta, porque a dor de cabeça cada vez se acentuava mais e mais, nauseando-a. Levou a mão ao peito.

A cabeça parecia que estalaria.

Entrou no hall do prédio onde Rachel morava”, escutou a voz fria.

“Não...”, queria que os ricochetes de lembrança do sonho parassem e a voz calasse.

A madrugada deste dia era especial, pois completaríamos seis anos de namoro”.

“Faça parar...”, pediu para Elenaor.

A médica se quedou atordoada.

“Quinn achou que esta era a data perfeita para pedir a Rachel em casamento.Deveria ser inesquecível”, a voz murmurou, numa cínica nostalgia.

“Quinn?”, a médica percebeu que a paciente não estava bem. Era a dor de cabeça!

“Rachel partiria em uma turnê pela Europa”, a voz continuou.

Quinn quase implorou para Eleanor:

“Faça parar... Dói”, respirou fundo, pois parecia que perderia a consciência. Sentiu lágrimas se formarem nos olhos. Doía tanto, tanto!

“Romero quis interfonar para a cobertura, para avisá-la que a Quinn estava ali. Para avisá-la, para avisar a Rachel e ao amante”, o tom de voz era carregado de repulsa.

Eleanor se ergueu, enquanto ordenava:

“Quinn, deite-se”, ajudou a loira, que obedeceu, enquanto a dor parecia que faria o crânio estalar e arrebentar.

“Rachel e o amante”, a voz repetiu, perversa.

Quinn sentiu a manga da camisa social femenina ser rasgada do punho para cima e alguém tomar o seu braço. Abriu os orbes verdes e encontrou a face de Eleanor que tentava lhe achar uma veia, dando-lhe pancadinhas com os dedos indicador e médio entre o braço e o antebraço.

“Faz passar a dor...”, pediu e engoliu em seco. “Ela machuca o meu coração”, murmurou uma lágrima e sentiu o espetar da agulha na veia. Sorriu com torpor. Adorou o alívio chegando e apagando todas as luzes e com elas, as dores e as vozes. As memórias em forma de pesadelos.

Eleanor cancelou suas outras consultas nesta manhã.

Enquanto Holmes e Wilhelm tentavam contactar Rachel, Quinn era levada para um quarto na clínica, onde ficaria sob observação da médica.

Ô chuva vem me dizer

Se posso ir lá em cima prá derramar você

Ó chuva preste atenção

Se o povo lá de cima viva na solidão

Se acabar não acostumando

Se acabar parado e calado

Se acabar baixinho chorando

E se acabar meio abandonado

Pode ser lágrimas de São Pedro

Ou talvez um grande amor chorando”.

— Marisa Monte em Segue o Seco de Brown, Carlinhos

Rachel entrou em casa, após deixar Spencer na escola e estancou na sala de estar, onde uma Santana Lopez mantinha um agradável colóquio em Espanhol com uma Maria toda sorridente, enquanto desfrutavam de um café fresco, cheiroso e fumegante, que fez aguar a judia.

“Até que enfim!”, exclamou a esposa de Brittany, com um sorriso que dizia “nosotras vamos a tener uma larga charla”.

Suspirou. E, no fundo, sabia que Santana não deixaria o que aconteceu há dois dias sem uma explicação.

Maria se levantou e avisou que iria preparar mais café.

A judia agradeceu e foi se sentar ao lado de Santana.

Sentiu o telefone vibrar no bolso da calça jeans, mas não deu atenção, distraída pelo que Santana fazia: a latina, devagar, tomou a mão dela na sua, entrelaçou os dedos. Após, perguntou, séria e cuidadosa:

“O que está acontecendo com a Quinnie”.

Rachel engoliu em seco. Respirou fundo. Ela deveria contar para Santana. Ela precisava se dasafogar com alguém que não tivesse o olhar técnico como a Dra. Parker. Santana a julgaria?

Resolveu arriscar:

“Sant... Eu e a Quinn nos casamos...”.

O telefone voltou a vibrar no bolso da calça, a cantora franziu o cenho diante da advogada, mas não atendeu.

A latina riu. Estava ali, preocupada pelo que viu em Quinn e a Berry saía-se com essa! Ela e Quinn casadas!

Estás de broma”, achou que era uma piada de Rachel.

“Não. Eu não estou”, a cantora continuou, sem mirá-la.

Berry, esto es muy serio. Estoy preocupada por Quinn. Entoces, ¿qué pasa con ella?”, repetiu, grave.

A judia começou a narrar, entre apenas deixar vibrar o telefone e se concentar na sua fala, tudo o que aconteceu, quase sem respirar, fazendo Santana freá-la duas ou três vezes para saber se estava compreendendo toda a informação que recebia como se fosse uma enxurrada de águas nebulosas e – quase – burlesca. O que Quinn fez, se Rachel realmente falou a verdade, foi mais doentio do que imaginava que a loira fosse capaz. E o fato de outras personalidades se apresentarem, em estranha oposição uma à outra, era assustador. Se a personalidade autodestrutiva de Quinn conseguisse burlar a vigilância de Holmes e Wilhelm, talvez a vida de ambas estivesse em risco. Mesmo com a cantora lhe afirmando que a Quinn “roleta-russa” só desejava se ferir se a relação entre as duas continuasse.

Ficou chocada.

Pensou que, após o acidente de Quinn e tudo o que de ruim aconteceu, nada poderia piorar. Mas, nesse caso específico, piorou.

“Rachel, então o melhor a fazer é se afastar da Quinn”, ponderou. E por dois motivos: a judia não teria estrutura para suportar uma Quinn que estava á beira de um surto; e Quinn precisava se afastar da pessoa que a fazia ficar à beira do surto. Uma precisava se proteger da outra!

“Sant, eu não sei...”, murmurou, desconcertada.

“¿Cómo no lo sabes? Berry, se fizer o que essa personalidade de Quinn pediu...”.

“Chantageou, ameaçou”, a judia cortou, corrigindo a advogada.

A latina assentiu, e continuou:

“Não importa de que maneira ela fez! O fato é apenas um: afastando-se da Quinn, você protege as duas. Protege a si mesma de vê-la se ferir diante de seus olhos e a neutraliza seguindo a petição dela”.

“Eu não vou dar as costas para a Quinn, Sant”, insistiu.

“Acho que se proteger e protegê-la dela mesma não significa dar as costas. Significa enfrentar a situação de frente: Quinn e você já não têm como refazer suas vidas juntas! Acabou, Rachel! Ouça-me: eu sei que sou horrível na maior parte das vezes e sei que não suporto quem a Q se tornou após o maldito acidente, mas eu quase a perdi uma vez. Não quero que isso aconteça de novo. Você já se deixou arrastar como causa da tentativa de suicídio dela. Não deixe que ela lhe arraste em outra tentativa que pode ser traumática para você e fatal para ela”, pediu.

“E se, de qualquer maneira, ela reagir mal, Sant? E se ela reagir mal a minha omissão? E se ela reagir mal a minha não omissão? E se, não importa o que eu fizer, for indiferente para ela?”, perguntou, atolada em dúvidas que considerava pertinentes. “Ela parece me odiar com tanta ânsia que se matar diante de mim a faria ter uma morte satisfeita, porque ela sabe que eu nunca mais seria capaz de arrancar uma imagem tão dantesca da minha cabeça. Ela é cruel a esse ponto, Sant. Então, ainda acha que fará diferença se eu seguir as ordens dela?”, quis saber.

“Talvez não”, admitiu, “mas pode ser que importe. Só saberemos se você fizer o que ela pediu”.

O telefone voltou a vibrar e a cantora, ainda atordoada pela solução aparentemente simples da latina, resolveu atendê-lo. Era Holmes. Sentiu o coração disparar no peito. Quinn, pela hora, deveria estar na consulta com a Dra Parker.

“Berry, você me ouviu?”, a latina indagou, vendo a cantora lhe esticar a mão e levantar o dedo indicador, como se pedisse um minuto. Santana calou.

Rachel escutou a voz agitada de Holmes do outro lado, amofinado:

Por gentileza, Srta. Berry, poderia atender o telefone quando eu lhe chamar?”.

Ela achou que não. Afinal, poderia estar numa reunião. Ou numa leitura de um texto teatral. Ou num ensaio de um concerto. Ou ainda...

A Dra. Fabray não se sentiu bem durante a consulta com a Dra. Parker e ela ficará em observação na clínica. O detetive Ewing está indo buscá-la, a fim de pegar os documentos necessários no escritório da Dra. Fabray, além dos seus, para assinar a internação da Quinn”, o cuidador a calou com o que despejou o que deveria ser feito sobre ela.

“Um instanto, Holmes...”, tirou o telefone do ouvido e ligou o viva voz e informou que Santana estava na escuta. Ouviu o homem suspirar em aborrecimento do outro lado.

Vamos, ¡hombre! Habla de uma sola vez”, a latina estava confusa. Por que Holmes ligou para a Berry?

Srta. Berry, Quinn confiou em você. Não deveria falar sobre isso com pessoa alguma”, o homem lamentou.

“Holmes, por favor”, a cantora pediu, “é a Sant. Ela sabe tanto ou mais de Quinn que eu ou você. Ela não vai falar nada. Ela só está sendo o que sempre foi: uma cadela de coração bom”, sorriu.

Mira, Hobbit...”.

A latina não terminou, pois o cuidador, após suspirar outra vez, voltou a falar:

Dra. Lopez, por favor, explique a Srta. Berry que a Dra. Fabray, ao se casar com ela, colocou no contrato que, em caso de incapacidade, é de responsabilidade da Srta. Berry exercer o controle parental e decidir o que fazer com ela. Então, para ser internada, há necessita da autorização dela”.

“O quê?”, as duas morenas exclamaram em uníssono.

Santana não compreendeu o que siginificava o fato de Quinn entregar para Rachel, em documento oficializado diante da Lei, o controle sobre sua vida sem restrição. Afinal, ela – Quinn – e a Rachel eram quase desconhecidas. Por que ela fez isso?

Rachel também analisou a questão.

E pensou no que a Dra. Parker lhe disse sobre ser necessário que se afastasse de Quinn. Entretanto, ao mesmo tempo, a médica dava a entender que ela, Rachel, seguiria de perto os resultados da terapia de Quinn e que seria parte ativa nesta empreitada. Ao passo em que, ao uní-las pelo casamento forçado, a ex-namorada também as obrigava a estarem unidas de uma maneira ou de outra.

Afastar-se de Quinn não parecia mais uma eleição sua. Havia uma médica que teorizava que Rachel pudesse funcionar como um antígeno. O corpo estranho capaz de trazer adormecidas lembranças para Quinn e machucá-la, ao passo que a fortaleceria para se curar.

Uma ambiguidade sem tamanho.

Uma brincadeira da existência.

O nó que as atava se fazendo visível diante de quem quisesse ver!

Presa à Quinn, não poderia se omitir. E nem desistir da mulher que amava.

“Sant, eu compreendo você e a sua preocupação. E eu também compreenderei se quiser ir embora e nunca mais me dirigir a palavra, mas eu não posso fingir, e nem quero, que a Quinn não está passando por um momento crítico na vida dela, e que eu sou a causa. Mas que também eu possa ser a solução. Se eu for a pessoa capaz de despertar a Quinn que se enterrou sob uma carcaça de gelo, eu farei isso”, garantiu.

A advogada resfolegou.

“Rachel, você não sabe como as coisas foram ruins quando você foi embora”, inisitiu, realmente preocupada.

Senhoritas...”, Holmes não acreditava que elas iriam ter um embate verbal. Não nesse momento!

“Não, eu não sei”, a judia assentiu, “Kurt, Blaine e você me mantiveram na ignorância. Lembra?”, Rachel espetou.

O questionamento de mal disfarçada mágoa não pode ser evitado. Rachel precisava aliviar-se.

Santana abaixou a cabeça e analisou as palavras da judia com memórias que ainda faziam seu interior revirar numa sensação de impotência enorme. Suspirou e apertou um pouco mais os dedos envoltos nos da cantora. Ela sabia que Rachel Berry, dessa vez, não desistiria de Quinn. E sabia que, diante da atual circunstância, só havia uma coisa que poderia fazer. Murmurou, sincera:

“Estarei ao lado de vocês sempre, embora eu não consiga ver nada além do que já temos, Rach. Eu realmente gostaria de ter um pouquinho da antiga Quinn e volta, mas foram muitos anos de ela oculta sob essa personalidade distante”.

“Ela está sofrendo, Sant”, a atriz observou.

A advogada deu um riso contrito antes de informar o que já sabia:

“Ela nunca deixou de sofrer. Você só estava longe demais para saber”.

“Sant...”, gemeu. Já estava tão assustada e preocupada que era desnecessário ter tudo o que também sabia atirado como dardos envenenados contra si.

Lo sé, Berry. Y lo siento”, murmurou e achou melhor acrescentar, “eu estarei aqui, junto com a Britt, se for necessário. Mas não fale nada para a loira de farmárcia. Ela já é insuportável. Se souber que tenho um lado generoso, vai pegar no meu pé até o fim dos meus dias. E o mesmo vale para você, Marthin Luther King”, avisou para o cuidador do outro lado da linha.

Rachel sorriu e abraçou a latina, que a sustentou enquanto ela desaguava em lágrimas de insegurança e alívio fugaz.

“Sabe que vai ser complicado, certo?”, Santana queria se certificar de que a judia realmente sabia o que estava fazendo.

A pequena assentiu frenéticamente e, enxugando as lágrimas com as costas das mãos, verbalizou:

“Sei... E sei que ela, Quinn, pode desejar ficar com a Alex e não comigo... Eu estou consciente de tudo, Sant”.

A cheerio lamentou silenciosamente. Rachel iria lutar uma batalha. E não sabia se o abraço da vitória seria seu.

Pero, você sabe que pode acontecer de a Q escolher ficar sozinha. Sem você ou a Alex por perto”, observou.

A cantora franziu o cenho. Seria possível?

“Acha isso mesmo?”.

“Acho. Talvez Quinn encontre estabilidade no isolamento. Ela fez isso antes. Quando a Bishop conseguiu ser namorada dela foi uma surpresa”.

“Talvez, como você me falou uma vez, a Alex dê o espaço que a Quinn precisa para se sentir segura”, a cantora murmurou.

“Talvez sua relação com a Quinn precise ser assim, Rach, se acontecer de vocês se entenderem”, ponderou”, “já pensou nisso? Estar envolvida com alguém que prefere ficar sozinha? Sente-se apta para isso?”, a advogada desejou saber.

A judia a mirou.

“Não”, confessou, “eu não me sinto apta para coisa alguma que vem da Quinn. Mas, eu quero conseguir manejar isso. Eu quero estar 'apta' para o que for necessário para tê-la novamente. E, dessa vez, não errar e nem machucá-la. Eu quero cuidar da Quinn, da mesma maneira que ela cuidou de mim quando namorávamos. Eu quero mostrar para ela que eu a amo e que não vou decepcioná-la outra vez”.

Santana franziu o cenho. Achava a intenção da atriz muito bonita. Mas as coisas não eram coloridas. Não quando se tratava da Fabray e da relação delas.

“Rach, você precisa colocar a situação sob perspectiva. O tratamento da Quinn não vai surtir efeito de uma dia para o outro. Vai ser difícil. Vai ser escabroso. E, quando e se funcionar, você estará propensa a ter que lidar com uma Quinn nem quente nem fria, nem aborrecida e nem alegre... Talvez alguém cuja neutralidade seja de irritar. Já pensou nisso?”.

A cantora suspirou. Se havia uma coisa que ela não parava de fazer era pergunta sobre pergunta acerca de sua situação com a loira. Colocar-se diante de várias possibilidades de futuro com ou sem Quinn. E nenhuma delas lhe oferecia a garantia de um amor em sua totalidade, com a ex head cheerleader correspondendo-lhe da mesma maneira.

“Eu estou ciente de tudo, Sant”, falou, em tom de aviso.

A latina assentiu e suspirou.

“Ok, Berry. Vamos nessa”, falou, “mas se pisar na bola de novo com a Q, eu vou arrancar as suas cordas vocais e dar para os cachorros comerem”, avisou.

Rachel agradeceu, silenciosamente, a amizade da Lopez. E avisou ao cuidador, antes de findar a ligação e sair:

“Estou indo encontrar o Sr. Ewing e a Sant estará ao meu lado”.

Ok, senhorita”, o homem acedeu. E, analisou, talvez Rachel estivesse agindo certo ao buscar o apoio dos amigos. E Santana Lopez era uma amiga das boas. E, quando Judith Fabray e Russel Fabray se dessem conta da saúde da filha e, talvez, quisessem cuidar dela e de tudo o que a ela pertencia, bater-se-iam na cantora, que era agora a completa responsável por Quinn Fabray.

Um reparo: Rachel não se deu conta da responsabilidade na situação.

§§

Rachel entrou na clínica, seguida por Santana, com os documentos necessários para oficializar a internação de Quinn cerca de quarenta minutos depois do telefonema do cuidador.

Holmes a aguardava pacientemente, enquanto Wilhelm atendia a um telefonema da delegacia, após deixar as mulheres, afastado dali.

O cuidador guiou as duas até a área de internação e Rachel o mirou, com uma pergunta na ponta da língua:

“Por que não autorizou a internação dela como das outras vezes?”, observou a enfermeira lhe sorrir e lhe passar os papéis para ela assinar, pois já estavam preenchidos.

“Antes ela era responsável por si mesma”, ele comunicou ao pé do ouvido dela.

A pequena franziu o cenho. Como assim Quinn “era responsável por si mesma”?

“Holmes, explique-se”, ela murmurou, enquanto passava os olhos nos papéis e os firmava com paciência, ainda sob o sorriso admirado da enfermeira, que, não suportando mais, falou:

“Eu adoro o seu trabalho, Srta. Berry! Eu já a assisti na Broadway pelo menos umas quinze vezes”.

“Oh!”, a judia não sabia o que dizer. Agradeceu e, como não poderia deixa de ser, logo algumas pessoas se juntaram e ela autografou algumas folhas de papel, receituários rasurados, Cds (achou fantástico uma das enfermeiras ter o seu último lançamento nas mãos) até ela, Sant e o cuidador serem levados para uma área restrita e o homem falou o que ela queria escutar, sob o atento olhar de Santana:

“Quando assinou o contrato de casamento, neste a Dra. Fabray lhe deu o poder parental sobre ela, de maneira que pode decidir sobre a vida dela”.

“Apenas enquanto ela estiver frágil...”, murmurou a atriz em resposta.

“Não exatamente”, o gigante de ébano sussurrou.

Santana pensou que não escutou bem, embora desconfiasse de que tipo de cláusula o tal contrato de casamento poderia conter. Rachel ainda estava em modo estático. E, como tinha a cabeça muito cheia no momento, apenas deixou passar o comentário quase silencioso do cuidador e perguntou como a esposa estava.

“Sedada”, o homem falou, enquanto Wilhelm se aproximou e os olhos azuis dele pairaram sobre a cantora.

Santana percebeu.

“Sedada e?”, a cantora não fez caso do olhar que o detetive ainda mantinha na figura dela, antes de avisar que precisava retornar à delegacia e, tão logo fosse possível, retornaria. Antes de se retirar, porém, ele estancou um tanto meditativo diante da judia. Então comunicou:

“Srta. Berry, acho que acabamos de prender o suspeito pelo assalto ao seu marido”.

A pequena sentiu um nó na cabeça.

Os olhos dela foram para Wilhelm e pararam nos olhos azuis dele.

“O quê?”, gaguejou, atontada. E riu, incrédula. Se o suspeito da morte de Jesse foi, realmente, preso, o motivo da chantagem de Quinn para manter o casamento acabou de desmoronar.

Pode ser o desabotoar do céu

Pode ser um coco derramando”.

— Marisa Monte em Segue o Seco de Brown, Carlinhos

Notas finais
Obrigada pela paciência. Responderei aos reviews do capítulo anterior e peço desculpas por demorar a fazê-lo. Abraço. — Cal. *-*