Sine Cordi

76 CAPÍTulo 76 - עו


Notas iniciais
MENSAGEM IMPORTANTE: olutípac um siam sanepa é etse.

Debaixo d'água tudo era mais bonito

mais azul e mais colorido

só faltava respirar

Mas tinha que respirar

Debaixo d'água se formando como um feto

sereno confortável amado completo

sem chão sem teto sem contato com o ar

Mas tinha que respirar

Todo dia

Todo dia, todo dia

Todo dia…”

— Maria Bethânia em Todo Dia/Agora (Arnaldo Antunes)

Quinn olhou Rachel, que jazia sentada no chão, recostada na parede. A atriz ainda estava atordoada pelo tiro que não saiu quando a viu puxar o gatilho.

A loira a filmou com um brilho satisfeito nos olhos verdes escuros e verbalizou, assim que notou que a morena era capaz de escutá-la:

“Eu espero, realmente, não precisar ter que lhe ver outra vez”.

A cantora ergueu o olhar. Piscou algumas vezes porque as lágrimas, apesar do pequeno desmaio que o susto de ver a ex-namorada com o cano da arma apontado para a própria cabeça, continuavam a cair sem controle de seus olhos como se estes fossem um manancial salgado e borravam-lhe a visão

“Quinn…”, murmurou, na vã tentativa de, talvez, fazê-la voltar à realidade.

“Não sou a Quinn. Se Quinn não tem coração, o meu é de ferro e as minhas entranhas são feitas de bronze, tal qual Tânatos. E você só precisa saber disso”, avisou, enquanto pegava a pasta para se retirar e com a arma ainda na mão.

“Por quê?”, foi o murmúrio que a cantora, agora fitando o nada, cabeça meio baixa, olhos cobertos pelos longos cílios, fez a fim de entender o completo oposto daquela Quinn com quem teve uma das noites mais belas, românticas e afetuosas de sua vida.

A loira, de coração de ferro e entranhas de bronze, estancou em frente ao pequeno corpo sentado no chão, encostado à parede.

“Por quê?”, ela não repetiu a pergunta de Rachel. Ela fez a sua própria. Mas, como a figura que ela desprezava não compreendeu, verbalizou como se cada letra de cada palavra fosse uma iguaria de sabor agradável em suas papilas gustativas:

“Porque você causa dor. E eu odeio a dor. Prefiro a morte”.

Rachel secou as lágrimas com as costas das mãos e soluçou:

“Eu amo a Quinn”.

“Ama?”, a loira gélida duvidou.

“Eu só quero o perdão dela”, insistiu, com a voz quebrada. Pensava, em meio aos nervos que pulavam e o aperto que o coração dava, que talvez pudesse apaziguar esse lado feroz da ex-namorada.

“Sério?”, a voz loira questionou.

Os olhos castanhos aguados voltaram à imagem imponente de pé diante deles antes da boca carnuda e trêmula retorquir:

“Sim… Eu errei… Mas eu amo a Quinn”, repetiu-se.

“Uma pena”, a figura desprovida de gentilezas respondeu, “porque isso já não faz mais diferença. Apenas fique aí, de onde nunca deveria ter saído”.

Retirou-se.

A judia quedou ali, no chão, o coração aos saltos, o estômago a querer expulsar o que não tinha, pois não comeu durante o ensaio, cuidando apenas de se manter hidratada.

Trêmula, pegou o telefone que lhe caiu da mão quando perdeu os sentidos e abriu a agenda. Tentou retornar as chamadas de Holmes, mas tremia tanto que foi impossível. Esperava que a esposa chegasse salva à casa. Não sabia o que essa… Como deveria chamá-la? Ela não disse o nome. Apenas que era como Tânatos, o deus grego da morte.

“Deus!”, exclamou, numa oração para que alguém pudesse chegar até ali e ajudá-la.

E, de fato, alguém chegou. Marco, preocupado com o atraso da patroa, sempre britânica em relação aos seus horários, viu quando Quinn saiu pela porta dos fundos do teatro e, por não tê-la em boa conta, cuidou de assistir a patroa. E fez bem.

“Senhorita…”, ele murmurou ao encontrá-la ainda sentada no chão e encostada à parede do camarim, “permita-me ajudá-la”.

Rachel fungou e se deixou ser levantada e amparada pelo jovem, que a levou até o sofá e saiu em busca de água com açúcar.

A cantora tentava interiorizar o que acabara de acontecer.

“Ela me quer longe…”, murmurou para si mesma, a fim de tentar compreender o quanto a dor que causou na namorada ao traí-la com Jesse era bem maior que imaginou. E o resultado aterrador. Era assim que se sentia: aterrada! Ver Quinn armada, com a arma apontada para a própria cabeça, com uma bala que poderia sair na hora em que ela apertou o gatilho, causou-lhe um medo que – tinha quase que certeza – roubar-lhe-ia o sono. E mais: como faria para lidar com essa situação? Sabia que tinha Holmes a seu lado e um encontro com a psiquiatra e terapeuta de Quinn, mas até onde a sua presença seria benigna?

Não sabia o que fazer.

Estava insegura.

Estava com medo.

Estava perdida!

Desenganada, atormentada, triste, derrotada.

Tudo ao mesmo tempo.

A crueza da mulher que ameaçou a própria vida e que lhe verbalizou que preferia morrer a tê-la por perto era… Ela não sabia. Sabia, sim, que toda a magia da noite de amor que tiveram desapareceu, como se a bala que permaneceu no tambor da arma que Quinn portava tivesse saído e, num tiro certeiro, matou todo o encanto que vivenciou. Sentia medo. Um medo que não conseguia controlar, porque a mulher armada deixou-lhe nas mãos a vida ou a morte da mulher que traiu, mas que amava. Essa situação era pior que a ameaça de ser presa, acusada de se juntar a Marco e matar o ex-marido, sob a pressão da advogada para se casarem… Casarem. Quinn a prendeu a si e tentava afastá-la. Como a deixaria em paz sem pedir que se separassem, ainda que o casamento lhe parecera apenas um ato de perversidade? E como poderia pedir para se separar de Quinn, sem correr o risco de desestabilizá-la ainda mais? Era tão insano! Sentia-se estancada entre duas estradas. E, parecia-lhe, qualquer uma que tomasse a mandaria para longe da esposa. Mas somente uma manteria Quinn respirando. E ela não sabia qual seria.

Um outro soluço escapou e ela tentou conter as lágrimas que já saiam.

“Senhorita?”, o motorista voltou e a chamou, oferecendo-lhe um copo com água doce.

Ainda sob toda a tensão, ela pegou o recipiente e, trêmula, levou-o aos lábios e tomou um, dois, três largos goles e não reclamou do excesso de açúcar. Era para que a serotonina saísse e acalmasse o banho de adrenalina que Quinn lhe deu.

Slushies eram mais suportáveis, analisou em silencioso tormento.

Ser esbofeteada por uma Quinn frustrada, no banheiro do McKinley, por causa do Finn, era mais suportável que vê-la com uma arma apontada para a própria cabeça.

Tudo parecia mais suportável que ver a loira com uma arma, ameaçando a própria vida só para mantê-la longe. E, mesmo que isso lhe causasse uma profunda tristeza, se tivesse que se manter longe, faria isso, porque ficar longe de Quinn ainda era mais suportável que não sabê-la viva e saudável.

“Srta. Berry, deseja falar sobre o que aconteceu?”, a voz controlada e gentil de Marco a trouxe dos pensamentos e a fez fitá-lo.

Ela tomou outro gole da água, respirou fundo e, menos apavorada, negou com um balançar de cabeça.

O rapaz lhe estendeu um lenço que ela aceitou com um sorriso sem graça, para que secasse as lágrimas, que escorriam com menos intensidade.

“Eu posso lhe ajudar a ir até o carro? Sente-se capaz de ir para casa?”, o jovem se desvelava em cuidado.

A cantora o mirou. E uma realidade que a ex-namorada lhe apontou e que não quis ver lhe caiu tal qual uma bigorna sobre a cabeça: Marco era gentil, porém a maneira como se esforçava para tê-la perto, para acolhê-la, pareceu-lhe demais. Ele era mesmo enamorado por ela? Havia mais que admiração dele em relação a ela?

Não! Isso não! Não agora! E nem nunca! Ela amava Quinn e só queria a ela.

Então outra conclusão a açoitou: por que, quando namorava Quinn, não quis somente a ela se a amava? Por que a traiu com Jesse?

Uma dolorosa dedução: talvez não a tivesse amado como agora, sabia, amava.

Uma infeliz desesperança em forma de pergunta: era tarde demais para reparar seus erros?

Aparentemente sim.

Não via uma solução para o que acontecia! Tudo parecia desmoronar cada vez mais. E seu coração, antes resoluto e lutador, rateava e já não sabia mais se havia algo que pudesse ser restaurado.

“Senhorita?”, a voz do motorista a fez suspirar e, mesmo que sem forças, assentiu e pediu que a aguardasse, enquanto tentaria se recompor.

O jovem assentiu com um sorriso na face. Um sorriso que, para ela, não deveria estar ali, belo, cheio de dentes, estampado naquela cara bonita e que não encaixava com a infelicidade que a tomava, somada com a solidão que a agora inexistente amizade de Jesse se fazia mais dura.

Quem a escutaria?

Quem a aconselharia com sinceridade e afeto, sem preconceito ou julgamento sobre ela e Quinn?

E, após tanto tempo, sentiu-se miseravelmente só e desamparada.

Talvez da mesma maneira que, há anos, deixou Quinn.

Que ironia!

Debaixo d'água sem sorriso e sem pranto

sem sorriso e sem saber o quanto

esse momento poderia durar

Mas tinha que respirar

Debaixo d'água ficaria para sempre ficaria contente

longe de toda gente para sempre

no fundo do mar

Mas tinha que respirar

Todo dia

Debaixo d'água salvo protegido fora do perigo

aliviado sem perdão e sem pecado

sem fome sem frio sem medo sem vontade de voltar

Mas tinha que respirar…”

— Maria Bethânia em Todo Dia/Agora (Arnaldo Antunes)

Holmes caminhava de um lado para o outro na sala, após Agatha lhe oferecer um par de azeitonas que, pelo sal, fez que sua pressão se restabelecesse e ele se recompusesse, enquanto Wilhelm o observava do sofá, onde jazia sentado com as pernas a baterem nervosas e a unha do polegar da mão direita era roída pela ansiedade.

Há menos de dois minutos, Rachel havia dado sinal de vida, perceptivelmente angustiada pelo que aconteceu – embora não entrasse em detalhes por causa de Marco que dirigia o carro, levando-a para casa – e informava que havia cerca de meia hora que Quinn a deixou no teatro.

Meia hora era o tempo médio que a advogada levaria, a pé, do Gershwin até a cobertura, em Upper West Side.

Meia hora.

E Quinn ainda não chegou.

Pelo tom lúgubre e instável da cantora, o cuidador sabia que algo grave aconteceu.

“O que ela fez?”, indagou-se, sem parar de andar. Era uma pergunta com duplo sentido: o que Quinn fez com Rachel? O que Quinn fez a si mesma?

Dúvidas que o atormentavam.

Perguntas que, mesmo diante do apoio da Dra. Parker, possivelmente teria que comunicar à família da advogada. Fez uma promessa aos Fabray quando foi cuidar de Quinn… Mesmo que a advogada tivesse se casado com Rachel, e esta fosse a representante legal dela, seria a atriz capaz de lidar com uma Judith Fabray arrancada de sua tranquilidade (regada a Scotch oito anos) de Lima? Não tinha muita certeza… E Quinn? Ela gostaria menos ainda de lidar com a sua genitora ou com o Russel, com os quais mantinha uma relação distante. Muito distante…

Que bagunça!

Estava no escuro. Não sabia o que fazer, além de esperar, como o detetive inquieto lhe dissera há uma hora, desde que ali chegou.

“Ela está armada”, repetiu num tom baixo, mas que não ocultava o temor em sua voz, um fato que o policial sabia.

“Eu sei, Holmes. Ela está com a minha arma”, o loiro respondeu, tomando uma respiração forte.

“O que eu vou falar para a família dela se ela não…”, suspirou, “se ela não voltar para casa? Se ela resolver…”.

“Ela não vai atirar na própria cabeça”, Wilhelm estava nervoso e o cuidador com suas conjecturas o deixava mas ansioso. “Ela foi até a Srta. Berry e não fez nada”, argumentou, tão ignorante sobre o que aconteceu quanto estava Holmes, haja vista que Rachel apenas telefonou para informar que a loira esteve com ela e que não foi um bom encontro, além de sugerir que ela, Quinn, levava um objeto que não coincidia com a sua profissão. E não era uma máquina de retratos. E ele soube que ela falava do revólver do policial que lhe dizia que Quinn nada faria.

“Eu espero que esteja correto, detetive”, Holmes foi seco.

“Eu também…”, murmurou. E franziu o cenho, pensativo e, mirando o homem que retomava os passos nervosos, inquiriu:

“O que a Srta. Berry falou sobre a Q?”.

O cuidador não estancou os passos e repetiu a informação cifrada que escutou de uma atriz nervosa e de voz abatida por telefone. Ou seja: praticamente nada. Então, entendeu melhor a ânsia de Holmes e viu a sua própria aumentar.

Por que Quinn não chegava?

Onde ela havia se metido?

O que ela poderia ter feito?

E, a fim de ter mais certeza do tamanho do receio de Holmes e, deste, ter uma estimativa do quão grave era a situação deles, perguntou:

“O que você mais teme de Quinn?”.

Essa questão fez o gigante de ébano estancar os passos e fitá-lo. Deu um sorriso sem humor e falou o seu maior medo no instante:

“Eu temo que ela… Que ela… Ela faça mal a si mesma”.

O detetive assentiu, enquanto um amargor lhe tomava o paladar; um fel de insegurança e impotência. Um sentimento ruim.

Então Agatha adentrou ao recinto, esbaforida e com os olhos abertos como pratos:

“Ela chegou…”, iniciou a dar a notícia assustada, mas parou quando viu a patroa entrar na sala com as sobrancelhas franzidas e o olhar espantado.

Wilhelm se ergueu e foi na direção dela com atenção:

“Quinn?”, perguntou.

Ela o fitou. E desviou os olhos para o cuidador e perguntou, muito séria:

“Por que eu não estou no meu escritório? Por que eu acabei de ‘acordar’ no elevador? Por que, Sr. Holmes, deixou que eu saísse?”.

Um respiro coletivo de alívio foi escutado pela advogada que mirou desde Agatha, passando pelo detetive e estacionando outra vez sobre o cuidador:

“Ainda não me respondeu”, insistiu, com a cabeça atormentada pelas vozes que murmuravam e murmuravam e não eram mais controláveis. As vozes das personalidades que, provavelmente, estavam a brincar com ela.

Antes que o homem pudesse lhe responder, viu o detetive se aproximar a passos largos e, sem meandros, erguer-lhe os braços e começar a revistá-la.

“O quê?...”, ela não entendeu.

“Desculpe, Q, mas você me acertou com a sua pasta e pegou a minha arma”, ele informou, terminando, frustrado por não encontrar a arma nela. Então viu a pasta dela, ainda a pender na mão pálida e a pediu emprestada.

A loira, meio tonta, não questionou e entregou.

Wilhelm respirou aliviado ao ver que seu 38 estava ali e parecia intacto. Tomou-o nas mãos após deixar a pasta sobre o chão e abriu o tambor. A única bala que a loira levou na arma também estava em seu lugar.

Quinn não esperava por isso.

“O que essa arma está fazendo dentro da minha pasta? E como você sabia…”, estancou a pergunta que faria, porque seria redundante. Wilhelm sabia que a arma estava com ela porque, de alguma forma, ela – ou melhor – a sua outra personalidade a pegou. Porém, como conseguiu?

O loiro, após colocar a arma na cintura, às costas, sob o paletó do terno, com um suspiro de alívio respondeu:

“Você me procurou… Ou melhor, uma Quinn muito similar a você, exceto pela violência física e – provavelmente – um certo grau de premeditação, disse que precisava conversar comigo e, como sempre faço quando vamos falar de algum favor especial, encaminhei-a para uma das salas de interrogatório e fiz o de praxe…”.

Ela o mirava, atenta enquanto as vozes a atordoavam em uma discussão cheia de desacordo e posições opostas.

“Então você me acertou com a pasta e pegou a minha arma”.

Quinn meneou a cabeça e caminhou até o sofá. Sentou-se e pediu a Agatha que lhe preparasse um café forte. Sentia-se meio alcoolizada, embora não tivesse colocado uma gota de álcool na boca.

A mulher assentiu e se retirou.

“Quinn, ela era muito parecida com você… Exceto pelo fato de que você nunca me machucaria”, Wilhelm achou importante informar.

A ex head cheerio meneou a cabeça. Ela tinha duas vozes a discutirem. Ela sabia que eram reais. Não era delírio, ou achava que não era, e a chance de ser esquizofrenia estava fora de cogitação, haja vista que, pelo que sabia de seu histórico familiar, não havia casos nem por parte de Russel e nem de Judy. Ou isso imaginava.

Arrumou a saia e cruzou a perna direita sobre a esquerda e se recostou no sofá. Cruzou os braços sob os seios e volveu os olhos verdes para o cuidador, sentindo-se meio zonza. Havia bebido?

“Como conseguiu ser tão distraído, Sr. Holmes? Eu confiei que não me deixaria sair”, estava cheia de enfado.

O homem não sabia o que dizer. Sentia-se culpado por si só. Era desnecessário que Quinn o repreendesse.

“Quinn…”, a voz de Wilhelm voltou a soar e ela o mirou. O detetive continuou, sério:

“Eu não sei como tudo isso começou, mas eu estou preocupado porque a Quinn que esteve comigo é facilmente confundível com você. São muito similares. Eu cheguei a pensar que você havia, realmente, roubado a minha arma”.

“E o que eu fiz com a sua arma?”, perguntou, com curiosidade levemente ébria. Não se lembrava. Não sabia. E não sabia se saberia algum dia. Era tudo tão fora de lugar, fora de lógica, sem linearidade. Então o que mais ela temia a atormentou: estava, de fato, desperta? Ou ainda estava em coma e tudo não passava de um delírio? Aliás: ela realmente sofreu um acidente de carro? Tentou, mesmo, se matar porque foi capaz de amar alguém um dia? Foi capaz de amar Rachel Berry? Não! Por mais que o resultado da investigação de Wilhelm lhe dissesse que sim, por mais que se lembrasse do dia no café em que, sob os lamentos de Rachel, a sensação de ela ter lhe machucado de alguma maneira fosse presente e lhe causasse pontadas desagradáveis na cabeça, parecia irreal. E tudo o que acontecia não era sobre quem ela era agora. Tudo era sobre quem ela foi. E quem ela foi estava sendo um incômodo grande. E precisava se libertar disso. Arrancar essa pessoa morta de dentro de si, esse defunto cheio de amargor que lhe atormentava feito uma assombração trazida à vida diante da presença da cantora. Era mister dar um basta em tudo isso!

“E Eleanor?”, indagou para o cuidador, reprimindo um pequeno soluço com gosto de uísque. A outra personalidade bebeu?

O homem a encarou com desconfiança.

“Sente-se em condições de ir até ela?”, perguntou, preocupado. Estava inseguro e sabia que, de alguma maneira, a Parker conseguiria colocar as “Quinns” para fora. Até aí, okay. A questão mor era: saberia a médica lidar com essas personalidades?

Sentiu-se repentinamente inseguro e sem fé. Talvez nem mesmo a médica fosse capaz de fazer Quinn voltar ao ponto inicial. Aliás, havia um ponto inicial?

“Não é uma questão de eu ter condições, Sr. Holmes. É uma questão de infeliz necessidade”, ela foi prática. A ideia de não ter controle sobre si mesma, ainda que um tanto caótico (e com um grauzinho de álcool, parecia-lhe), era desagradável. Não saber o que fazia, como ou com quem não era a melhor das sensações. Perder partes de sua existência com brancos sobre momentos de sua vida, que se baseava apenas num passado de cinco anos e nada mais, por causa da amnésia, era frustrante.

“Eu vou…”, suspirou e se ergueu do sofá, equilibrando-se elegantemente, “tomar um banho e trocar de roupa… E encontraremos com a Parker”, caminhou até Wilhelm e o fitou. “Desculpe pelo que aconteceu. Espero que não volte a passar”, falou de forma diplomática e se foi, avisando que esperaria o café que Agatha ainda não tinha pronto no quarto.

Holmes disse que ele mesmo o levaria para ela.

Wilhelm não sabia bem como interpretar a situação. Quinn só se desculpou por educação. Ela nem ao menos fazia ideia do tamanho da preocupação que causou.

“Acho que ajudarei a ficar de olho nela”, informou ao cuidador, que sentiu um pequeno alívio por saber que não estaria sozinho nessa estranha etapa que atravessava com a advogada.

Debaixo d'água tudo era mais bonito

mais azul mais colorido

só faltava respirar

Mas tinha que respirar

Todo dia

Agora que agora é nunca

Agora posso recuar

Agora sinto minha tumba

Agora o peito a retumbar

Agora a última resposta

Agora quarto de hospitais

Agora abrem uma porta

Agora não se chora mais...”

— Maria Bethânia em Debaixo D'Água/Agora (Arnaldo Antunes)

Rachel engoliu um comprimido de calmante, enquanto era levada pela secretária da Dra. Parker até o consultório da mulher.

A médica repensou sua consulta. Quinn precisava descansar. E achou que deveria – antes de ter com a loira – conversar com a cantora, pessoa que havia testemunhado com maior precisão as mudanças ocorridas com sua paciente. Precisava estar preparada para Quinn e o que, imaginava, era um quadro de Transtorno de Personalidade Múltipla, também conhecido como Transtorno Dissociativo de Identidade, que ela estava a fazer. Nunca trabalhou com um caso assim, apesar de ter estudado alguns raros casos na literatura sobre saúde mental. E precisava saber que abordagem tomar. Não seria um trabalho fácil. E nem imediato…

Rachel se surpreendeu com a beleza da mulher que lhe sorriu com gentileza, mostrando os dentes brancos nos lábios cheios. Ela lhe lembrava Lana Parrilla, que conheceu rapidamente nos camarins de um famoso talk show. Um pouco mais alta, talvez…

“Obrigada por vir, Srta. Berry”, a mulher indicou a cadeira em frente a sua elegante mesa e se sentou do outro lado, com uma folha para apontamentos e uma caneta Parker (seria isso sinal de um ego grande, pois a Montblanc sempre foi mais considerada) pronta para o uso.

Sentou-se quase a espelhar a médica, que a fitou com atenção, antes de falar:

“Soube que passou por uma situação desagradável com a Quinn ontem. Por isso, achei por bem conversarmos antes de eu estar com ela”, começou, com um tom de voz agradável que transmitia tranquilidade e segurança.

A judia somente mirou a mulher. E pediu, causando surpresa na médica:

“Pode me dar um copo com água?”.

“Claro”, Eleanor assentiu, lamentando sua própria falta de modos, e chamou pela secretária pelo telefone e lhe pediu a bebida.

Rachel agradeceu e percebeu como a médica tinha o cenho franzido, parecendo pensativa.

Ouviu duas batidas na porta e, pouco depois, esta se abriu, a dar passagem para a secretária que trazia numa bandeja elegante um copo alto com o líquido transparente pelo qual sua garganta seca gritava. Agradeceu à moça e o tomou quase em sua totalidade. A médica pediu que mais fosse trazido e a cantora voltou a agradecer.

Após tudo arrumado, a médica perguntou:

“Como se sente, Srta. Berry? Eu imagino que essa seja uma situação ímpar na sua vida”.

“Rachel…”, a cantora falou, “pode me chamar de Rachel”.

A médica assentiu e explicou que faria o possível para que as conversas que teriam dali para frente fossem o mais tranquilas possíveis.

A judia assentiu.

A psiquiatra retomou a pergunta anterior:

“Como se sente, Rachel?”.

A cantora a mirou com um pouco de aflição. Ela não sabia se tinha uma resposta exata. Mas, ainda assim, tentou responder:

“Eu… Eu me sinto…”, meneou a cabeça e suspirou, “eu não sei, de fato, como me sinto, doutora”, confessou. “Eu sei que temo por Quinn. Pelo que ela possa fazer a si mesma”, acrescentou.

Eleanor assentiu, observando-a com naturalidade. Perguntou:

“Por que voltou a procurar Quinn? O que a motivou?”.

A cantora bebeu mais um gole de água e analisou a pergunta. Não era difícil responder: procurou Quinn porque precisava saber dela após o tempo em que ficaram afastadas. Porque nunca a esqueceu, nunca deixou de amá-la… E, se soubesse o que aconteceu com ela, as coisas pudessem ser diferentes. Porque, de uma maneira que ainda não compreendia, seus amigos conseguiram mantê-la à margem da ex-namorada, apesar do elo que unia a todos. E porque simplesmente precisava.

“Do que precisava, especificamente?”, a médica queria entender o relacionamento da atriz com a sua paciente.

“Dela… Da Quinn”, murmurou a resposta, pregando os olhos inseguros sobre a bonita figura da psiquiatra. “Eu sei que é difícil de compreender. Pode parecer meio cruel da minha parte, quem sabe, procurá-la depois de tudo o que eu fiz. Mas eu não sabia o tamanho da decepção que causei nela. Eu nunca pensei que ela fosse…”, suspirou. “Eu nunca concebi uma Quinn que tentasse o suicídio”, estancou e respirou fundo. “Ela não teve uma adolescência fácil, passou por dificuldades que eu não sei se conseguiria manejar sozinha. Entretanto, ela conseguiu e, entre erros e acertos, sobreviveu… Ela parecia canalizar tudo para a raiva, o cinismo, a frieza”, analisou. “Mas havia momentos em que a capa de gelo se desfazia e ela ficava frágil. Era raro, mas acontecia”.

“Conhecia Quinn. Por que duvidou dos sentimentos dela por você?”.

A cantora pensou na pergunta. Por que deveria duvidar do amor da ex-namorada? Ela sempre lhe demonstrou afeto sincero. Sempre foi a mais equilibrada na relação, segura, firme. Confiante…

“Eu não duvidei”, respondeu, “eu acho que… Que nunca me achei à altura dela”, espantou-se com a própria resposta.

“Como foi saber que ela nutria um sentimento que ia além da admiração… Ou, melhor, era o oposto da intolerância que ela aparentava ter em relação a você?”.

“Eu…”, Rachel voltou ao dia em que a loira confessou que lhe era apaixonada. Em como a confissão da loira a fez achar que era apenas uma brincadeira, um novo jeito de debochar dela ou diminuí-la. Porém, quando mirou nas profundezas dos olhos dourados, viu neles sinceridade. E isso a apavorou mais. “Levei algum tempo para me convencer”, revelou. E pensou que, de fato, nunca se convenceu de verdade.

“E o que aconteceu depois?”.

A judia contou que a ex-namorada foi para New Haven, estudar em Yale e ela para New York, até que, no segundo ano em que estava na cidade soube que a head cheerio havia se mudado para a grande maçã e estudava em NYU. Ela, Rachel, havia terminado com Finn, pois a revelação de Quinn e seus sentimentos a fez repensar sua escolha e a razão de tanto querer estar ao redor da garota, enquanto estudavam, mesmo com toda perseguição a que foi submetida por ela. Sempre quis ser amiga de Quinn, um apoio. Assim como Quinn enxergou sua verdadeira essência, sempre soube que a namorada resguardava em si toda a dor, decepção ou sofrimento. Era de postura rígida e fria, quase inquebrável. E o fato de perceber Quinn e a maneira como ela era a fez se dar conta de que também a amava.

Eleanor fez a gentileza de colocar um pouco mais de água no copo da atriz, antes de prosseguir:

“Se sabia tanto de Quinn, que ela guardava para si os incômodos pelo qual passou, por que nunca pensou que ela, um dia, poderia estalar?”.

A judia apenas mirou a face da terapeuta. Nunca pensou que a garota que se mostrava sob uma rocha de gelo pudesse fraquejar.

“Ela sempre me pareceu tão forte…”, falou, em voz baixa.

“Sempre?”.

“Ela teve uma fase de cabelos cor-de-rosa e se envolveu com um grupo difícil na escola, mas eu… Nós conversamos e ela…”, estancou a fala. E meneou a cabeça, como se repreendesse a si mesma. “Os cabelos tingidos de rosa eram um sinal de que ela poderia, sim, perder o controle, certo?”.

“Talvez”, a médica não queria chegar a conclusões. Queria conhecer Rachel e o quanto ela foi importante para Quinn e por quê. “Você disse que conversaram quando ela tingiu o cabelo de rosa. Você a fez voltar à razão?”.

“Bom… Eu acho que sim. Ela voltou a ser loira e…”.

“Então ela, de alguma maneira, considerava as suas opiniões e respeitava o que você dizia”.

Rachel nunca havia pensado sobre isso.

“Não sei, porque cada vez que eu conseguia fazê-la retroceder sobre alguma coisa, era sob uma argumentação forte; algo capaz de mexer com ela, como a Beth”, explicou, fazendo referência à filha que a loira deu em adoção para Shelby Corcoran, mãe da Berry. “Eu acredito que nunca me dei tanta importância quando se tratava da Quinn, a garota mais linda da escola, a cheerleader”, apontou, antes de prosseguir:

“Quinn era Quinn! Eu era só a perdedora da escola. Eu sei que ela me escutava e que chegamos a bons termos depois de algum tempo, mas nunca imaginei que ela me tivesse em tão alta conta”.

“E o fato de ela se confessar apaixonada por você não lhe deu essa percepção?”, a médica ficou intrigada. A cantora lhe parecia inteligente e sensível. Como poderia deixar passar um fato tão notável?

“Eu acho que nunca me senti a altura dela”, repetiu o que dissera antes.

A Parker, dessa vez, deu atenção a este detalhe:

“Nunca? O fato de ela escolher dividir a vida com você, passar por cima de todos os próprios preconceitos não lhe deu uma pequena ideia disso?”.

Rachel negou com um movimento de cabeça, os olhos a mirarem não mais os olhos castanhos escuros da médica, e sim desviados para o copo com água que segurava apoiado sobre as pernas.

“Por que, depois de tudo o que aconteceu, do acidente e tudo o mais, deixou-se envolver por Quinn?”, a pergunta escorreu pela boca da médica de forma gentil, porém reta como uma seta.

“Eu… Não me deixei envolver. Tentei me reaproximar dela”, foi sincera, olho no olho. “Eu e ela fomos muito… Íntimas no passado e eu…”, desviou os olhos dos atentos da médica e os passeou pelo ambiente austero, mas com um toque acolhedor. Acolhedor até demais, analisou. “Eu a traí e dei prioridade a minha carreira. Não fui atrás dela, não voltei da Europa para tentar conciliar nossas vidas, eu fiquei paralisada… Não fiz coisa alguma. Na verdade, eu fiz: eu me casei com o homem com quem a traí e engravidei. E tentei salvar esse fracasso de casamento, porque se eu estraguei a vida dela, porque teria que estragar a minha de uma vez também?”, tragou quase metade da água no copo, “mas, eu estraguei. Estraguei a minha vida, a vida de Quinn e a de Jesse”.

“Sente-se culpada?”.

A pergunta, tranquila, causou um rodamoinho dentro da cantora. Pareceu-lhe que lhe chacoalharam o cérebro e este demorou para atar as palavras que formavam a frase e o significado dela. Culpada? Sim! Como não?

“Acho que sim… Eu me sinto culpada”, confessou.

“Por se sentir culpada foi que aceitou se casar com Quinn?”.

Rachel sentiu-se como um alvo, e a médica lhe pareceu uma exímia atiradora, alvejando-a com tiros curtos e certeiros. Sem rodeios, ela estava lhe acertando bem no centro.

E pensou. Não casou com Quinn por culpa. Foi ameaçada por ela. Ficou aterrorizada e, depois de um tempo, já não pensava com clareza. Na verdade, nem leu o contrato de casamento.

“Então, pode ter assinado qualquer coisa. Até uma confissão sobre um crime que não cometeu”, a médica estava intrigada.

E Rachel perdeu o ar.

“Como?”, gaguejou, insegura.

“Acabou de me dizer que foi confundida por Quinn e que assinou um contrato que não leu. E se ela escreveu uma confissão de toda a história que criou e lhe fez assinar? Por que não leu o documento?”.

Rachel agora estava trêmula. A médica estava mesmo levantando essa hipótese?

“Eu nunca pensei que Quinn fosse capaz de algo assim…”, murmurou.

“Mas ela foi capaz de tentar se matar. Acha que uma pessoa que é capaz de se desfazer da própria existência não seria capaz de lhe fazer assinar a confissão de um crime?”.

Rachel negou apenas balançando, muda, a cabeça para lá e para cá.

“Mesmo depois de ser acossada por ela? Mesmo depois de ela lhe mentir com descaro, ainda confiou nela?”.

A cantora assentiu.

Eleanor voltou a indagar, imperturbável:

“Rachel, confiou em Quinn ou achou que merecia ser castigada por ela por tê-la traído e, dessa forma, assinou um papel que não tem noção do conteúdo?”.

“É um contrato de casamento”, reforçou. Ou não era? O que a médica estava insinuando?

“Doutora, eu sei que a Quinn não é a mesma de antes, mas eu acho que ela não me faria assinar uma confissão de um crime que não cometi… E havia um juiz e testemunhas”, reforçou.

A médica não contestou. Ao contrário, propôs:

“Vamos falar sobre o julgamento do Sr. Street. O que a Quinn venceu de maneira espetacular”, sorriu.

Rachel franziu o cenho. O que o julgamento tinha a ver com o casamento?

“Lembra do motivo que levou o promotor buscar a ajuda de Quinn?”.

A judia assentiu, muda.

Eleanor continuou:

“As provas contra o Sr. Street eram circunstanciais. Aparentemente, ele quase cometeu o crime perfeito. Não chegamos a ver uma testemunha que o colocasse na cena do crime. Eu não me recordo disso. E você?”.

Rachel negou. Ela também não se lembrava.

“O veredicto partiu de um acordo que Quinn fez com o advogado de defesa”, a médica parecia que tinha acompanhado passo a passo os momentos do trabalho de sua paciente.

“É… E Quinn contratou o Dr. Mathews, porque gostou do trabalho dele”, a cantora acrescentou, sem entender o que a médica queria lhe dizer.

Eleanor sorriu, como se comedisse uma risada. Concordou:

“Sim. Quinn o contratou. Ela o sovou no tribunal e agora vai moldá-lo a seu gosto”, comentou e espantou mais a judia. A médica se explicou:

“Depois de ser praticamente isolado em seu próprio julgamento, depois de ver a vitória que a falta de provas sobre o cliente lhe dava escorrer pelos dedos porque Quinn assim o fez, o que acha que restou para esse homem? Eu arriscaria dizer que ele se curva diante dela. E que ficará atento até no tom de voz que ela usa para dizer ‘obrigada’ ou ‘dane-se’. Ela tem um admirador que fará as coisas como ela quer. Assim como tem a Wilhelm. Mas, voltando ao julgamento, diga-me, Rachel: em que momento Raul Street foi considerado culpado?”.

“Quando… Quando tentou agredir a Quinn?”, Rachel achou a pergunta da médica sem sentido.

Mas não era.

“Exato. Em momento algum o Sr. Street confessou matar a Sra. Wood. Entretanto, ele tentou agredir a Quinn, o que reforçou a ideia de que ele era um homem violento e dado a arroubos. E como isso aconteceu?”, a médica respondeu a própria questão, “ela o instigou durante vários momentos do julgamento, com aquele ar desligado que ela faz notar sem a menor humildade, enquanto todas as antenas dela estão ligadas ao que se passa ao redor. Então ela foi minando a paciência dele, contra-argumentando sempre que o advogado de defesa tentava uma manobra mais arrojada, tirando de Street a paciência até que ele parou de racionalizar e cometeu um suicídio social. Foi assim que ela ganhou esse julgamento. E foi assim que ela agiu com você”, a médica analisou.

Rachel piscou algumas vezes, ainda tentando entender o paralelo da médica, enquanto esta voltou a perguntar:

“Rachel, algum de seus amigos, aqueles que conhecem a sua história com Quinn, pediu que se afastasse dela?”.

A cantora sentia-se cada vez mais incômoda.

Assentiu à pergunta feita pela médica.

“Quantos?”, a médica era de perguntas objetivas.

“Acho que… Todos. Todos com quem tenho contato. E, antes de morrer, Jesse também me avisou”, respondeu. E, antes que a médica pudesse formular outra pergunta, disparou:

“Eu sei que acha que sou culpada pelo que está acontecendo com a Quinn. E eu não estou fugindo a minha responsabilidade”.

A mulher mais velha ignorou as palavras da atriz e seguiu, após vê-la respirar como se o ar fosse escasso:

“Por que não seguiu o conselho de seus amigos?”, Eleanor leu em algum lugar que a cantora era persistente quando queria alcançar um objetivo. E queria saber se apenas o que leu “em algum lugar” era verdadeiro ou falso. E qual o tipo de “objetivo” Quinn era para ela.

“Por quê?”, a judia repetiu a questão num inseguro fio de voz desafinado. Sim. Alguns tipos de conversas poderiam fazer Rachel esquecer a técnica e errar o tom. “Porque eu precisava saber o que era verdade ou não”, continuou, “eu precisava falar com ela, mesmo que…”, estancou ao se dar conta de um detalhe que pessoa alguma mencionava… Não para ela ou com ela:

“Eu nem sabia que ela perdeu a memória! Eu fiquei tão ignorante sobre Quinn quanto ela sobre a minha existência real no passado dela”, soltou. “Eu pensei que ela estava sendo fria porque estava magoada… Mesmo após cinco anos… Quinn sabe como guardar ressentimentos. Eu nunca imaginaria que ela nem sabia quem eu era”, havia um pouco de amargura na voz da cantora. Uma amargura razoável. Não lhe avisaram o que aconteceu com Quinn quando ela partiu para a Europa com Jesse após ser pega em pleno ato de infidelidade. Não que ela pudesse mudar o que Quinn fez ou o que ela mesma fez! Sabia que isso era irremediável. Mas… Talvez fosse capaz de se acertar com ela! Talvez, quem sabe, pedir perdão da maneira devida e não… E não como agora, arrastada para o olho do furacão que era a mente intempestiva de sua amada ex-namorada. Roubaram-lhe esse direito, assim como roubaram o direito de Quinn saber o que de fato aconteceu. Elas eram o resultado não apenas de sua traição, mas da escolha das pessoas que deveriam uni-las e não afastá-las! Kurt sempre soube o que aconteceu e não contou. Ele a viu sofrendo por Quinn, perdida, sem querer olhar para Jesse e permitiu que ela se reaproximasse do homem que se tornou seu marido, mantendo-a na ignorância do que acontecia longe de seus olhos. Ele poderia ter falado para ela voltar e tentar reatar com Quinn… Santana também não lhe disse coisa alguma! Nenhum deles!

“Vendaram meus olhos, Dra. Parker. Talvez com as melhores das intenções, da mesma forma que a mente de Quinn me vendou da vida dela. Sofremos do mesmo mal eu e ela: a ignorância sobre o que poderia ter sido se não me escondessem dela e a escondessem de mim. E lembramos e conhecemos a verdade dos fatos debaixo de uma aterradora dor e uma insegurança sobre o que nos acontecerá. Estamos atadas não apenas pelo papel que eu assinei, seja ele o que for. Estamos atadas pela vida, pelo destino e, ouso dizer”, tomou uma respiração, “apesar de ser judia, que também estamos atadas pelo Pai, o Filho e o Espírito Santo”, fungou para que a emoção não aflorasse mais, “a ignorância me uniu a Quinn, ao invés de nos separar como desejavam os nossos ‘guardiões’. Nenhum esforço feito por Santana e Kurt adiantou. Era só uma questão de tempo… Um cruzar de olhos… Um encontro acidental… Ela iria se lembrar. Eu só não sabia que seria tão… Tão assustador! Tão temeroso e incerto. Um risco de vida! Uma grande desorganização! Uma completa falta de lógica, uma insanidade!”.

Eleanor ficou desconcertada. Rachel Berry acabara de ter uma catarse! E não esperava por isso. E tal coisa, as metáforas usadas e a maneira emocional como saíram pelos lábios da cantora a fez pensar que Rachel era só um ser humano. Alguém que cometia erros e poderia se arrepender. Alguém que poderia ter feito escolhas erradas. Alguém que poderia magoar outra pessoa. Até mesmo seu pai ou sua mãe. Porque magoar era tão fácil! Bastava um olhar distinto, uma palavra, um gesto. Ou um não gesto. Uma não palavra. Um não olhar. Sempre se pode magoar. Até mesmo aos que amamos… E Rachel magoou Quinn, a quem ela amou. E, parecia-lhe, ainda amava. Porque ela sofria agora, diante de seus olhos. E não era um sofrer por causa de sua vida ou felicidade. Era um sofrimento que, assim como o amor profundo, era dividido com o objeto desse sentimento, ou a pessoa a quem se dedicava. Rachel não separava Quinn dela. Mesmo que não fossem uma da outra, ainda estavam uma na outra. Era como se concebê-las separadas fosse desenquadrar a estética, mesmo que nessa caibam as mais diversas formas. Era como um quadro de Salvador Dali, surrealista. Um lugar onde relógios escorriam como água, como em A Persistência da Memória. E essa mulher que errou parecia disposta a esmurrar ponta de faca por Quinn, ou prender o ar até ficar roxa.

Ela faria qualquer coisa por Quinn?

“Talvez uma maneira de Quinn se estabilizar seja você se afastar em definitivo da vida dela. Faria isso?”, Eleanor quis saber.

A dor nos olhos chocolate foram palpáveis. A lágrima que escorreu foi seguida por mais uma, duas, três e mais outra e outra até que a cantora soluçava num desconsolo total.

“Rachel”, a médica foi até ela, a fim de oferecer água, mas foi engolfada num abraço e se viu sem ação.

“Foi só uma pergunta hipotética, Rachel”, murmurou e segurou a face da cantora, fazendo-a mirá-la: “apenas uma hipótese”, repetiu.

A judia acenou com a cabeça e murmurou, entre soluços:

“Sim… Eu me afastaria…”.

Okay”, Eleanor concordou e pegou o copo com água e a fez tomá-la devagar, em pequenos goles.

“Rachel, eu sei que está sob forte estresse”, continuou, calma, “descobriu o que aconteceu com Quinn, perdeu seu ex-companheiro e caiu na armadilha do casamento. Eu só quero entender, ainda que já tenha lhe perguntado, como, avisada por seus amigos sobre Quinn e seu talento para manipular, deixou-se cair nessa trapaça de casamento que ela criou? Você Rachel acha que merece ser castigada por tê-la traído?”.

“Eu não… Eu já lhe expliquei!”, Rachel sentia que se despedaçaria se a médica continuasse com a insistência numa explicação que justificasse sua aproximação e o casamento com Quinn. “Eu não conseguia pensar com clareza…”, desafogou-se, “ela jogava informações e justificativas para cada uma das suposições como se ela tivesse manipulado o tempo. Tudo coincidiu! Eu descobri da maneira menos agradável que ela sofreu um acidente, depois que o acidente foi uma tentativa de suicídio e daí veio a separação de Jesse, pois Quinn me exigiu que eu vivesse o divórcio tal qual ele era, que Jesse saísse de casa. Eu fiz o que ela quis! Eu faria de novo porque a amo… E ele morreu tão estupidamente”, a cantora jogava as lembranças quase incoerentemente, “então ela juntou todos os dados e criou uma história que, para mim, naquele momento, fazia todo o sentido! Eu ainda estava atordoada com a descoberta da amnésia e da tentativa de suicídio dela, e depois as outras coisas vieram e… Eu só fui me dar conta dos pequenos erros em relação à cronologia dos acontecimentos depois. E, ainda que Holmes me garantisse, porque ele sabia, que eu não poderia ser presa por coisa alguma, ainda permaneci ali. E vi como Quinn sofre. O quanto eu a faço sofrer. Tanto que uma das personalidades dela, certamente a que sabe da traição, prefere morrer a viver perto de mim, porque sou a que causa dor. Então, a resposta para a sua pergunta ainda será a mesma: acredite ou não, eu amo a Quinn. Amo e quero a Quinn. E não posso existir sem ela. E se para eu existir ela precisa viver, mesmo que longe dos meus olhos, porém sempre dentro do meu coração”, riu uma lágrima ao lembrar que suas palavras eram quase o nome de um filme, “eu irei até para o outro lado do mundo, com o meu filho e Maria… Eu até volto para Lima se isso significar que a Quinn não vai tentar se matar. E isso não significa que eu sinta que mereço ser castigada. Eu tenho consciência do meu erro com a Q. E só a quero de volta”.

Eleanor assentiu e, percebendo a cantora mais estável, retornou ao seu lugar.

E, mesmo depois de tudo o que escutou, inquiriu:

“A quem quer salvar, Rachel? A Quinn ou a si mesma?”.

A cantora sentiu os maxilares se afastarem, tamanha a surpresa que a pergunta lhe causou.

A psiquiatra esperou pela resposta que, sabia, não saiu porque a pergunta deixou a cantora atordoada e a levou a analisar o que diria. Sabia que a Srta. Berry estava prezando pela sinceridade. Talvez ela não lhe respondesse…

Entretanto, Rachel falou:

“Eu acho que quero salvar a nós duas…”, a cantora se expôs e a médica suprimiu um sorriso de empatia. “Quero salvar Quinn e, assim, salvar a mim mesma. E eu só conseguirei me salvar se ela se deixar ser amada por mim. Mesmo que ela demore para me amar…”.

“Ou nunca ame”, a médica precisava colocar as peças no lugar. Ao menos dentro de sua cabeça, a fim de compreender melhor Quinn e as razões, ou a razão, que a fez se atracar a mulher que foi a razão de seu desespero. Por que Quinn atraiu Rachel? Por que a fez assinar um documento que as ligava? E em que isso implicava as personalidades que apareceram? Ou já existiam em estado latente e apenas vieram à tona?

“Rachel, fale-me das personalidades de Quinn”, pediu.

A cantora bebeu outro grande gole de água e limpou a garganta.

Eleanor se perguntou o quanto isso abalava a atriz.

Rachel se empertigou e, após longo suspiro, falou:

“Essas personalidades de Quinn são o…”, analisou o termo que usaria para descrever o que percebeu, “extremo oposto uma da outra. O branco e o preto. O grave e o agudo. O sim e o não. Uma é a Quinn doce, gentil, amorosa e terna. Uma Quinn que brinca, que ri, que sabe amar. Ela é suave!”, sorriu, recordando a mulher que lhe fez amor. “A outra é… É assustadora! É gélida, cruel, sádica e vingativa. Ela pega a sua ferida e a abre com um sorriso na face. Ela é horrível… E eu tenho medo dela, porque ela… Ela ameaçou a própria vida se eu não me afastar dela! Apontou a arma para a própria cabeça e puxou o gatilho”, cuspiu e segurou as lágrimas, num quase desespero.

A médica assentiu e pediu que ela respirasse profundamente.

A cantora se desculpou e obedeceu ao comando tranquilo na voz da médica.

“O que aconteceu entre você e a Quinn quando ela passou a noite com você?”, perguntou sem cerimônia. Era mister saber o máximo possível sobre o que houve.

Rachel suspirou. Sabia que essa pergunta seria feita. Holmes não a questionou sobre isso. Era evidente que a médica tomasse para si essa responsabilidade.

“Nós…”, não seria tão complicado, talvez, falar sobre o tema se soubesse que se deixou levar pela sedução de uma Quinn que era senhora de si, e não por uma personalidade alternativa. Sentia como se tivesse tirado vantagem da situação. Isso a envergonhava.

“Rachel, eu não estou aqui para julgá-la. Estou aqui para entender o que está acontecendo com Quinn, e que está ligado a você”, a médica achou que era pertinente aclarar o seu objetivo com a pergunta.

“Nós…”, Rachel lutava contra si mesma para colocar o que passou entre ela e a esposa. Não era simples! E nem agradável de expor.

“Fizemos… Amor…”, murmurou, sem mirar a médica.

Eleanor analisou a resposta. E uma dúvida lhe martelou:

“Rachel, eu não quero que se sinta mais incomodada do que já está, porém eu preciso que me responda outra pergunta que lhe farei”, avisou.

A judia não sabia o que mais poderia atordoá-la, assim que assentiu.

Eleanor tentou ser o mais clara possível:

“Quando se amaram, deram-se prazer mutuamente ou Quinn lhe satisfez somente?”.

A boca de Rachel abriu, fechou, abriu, fechou e, por fim, ficou entre um polo e outro.

“Ela me satisfez… Eu não… Não tive tempo de retribuir”, quase cochichou a resposta.

“Então ela não lhe deixou tocá-la mais intimamente?”.

“Eu toquei… Só não…”, parou. Quinn, após fazê-la chegar ao clímax, a fez relaxar e adormecer. Então sua ficha caiu: sentiu Quinn, mas não possuiu Quinn.

“Oh, eu entendi”, exclamou.

“Então?”, a médica insistiu.

“Não. Eu não… Foi íntimo, mas apenas ela me… Ela me teve”, confessou. “O que isso significa?”, perguntou, insegura.

“Não sei…”, a médica não sabia se poderia ligar esse fato ao padrão de Quinn inconscientemente se resguardar do “poder” que Rachel exercia sobre ela, mesmo com um comportamento afetuoso em relação a cantora. Se Quinn controlasse a ação, manejasse a situação, mesmo que no ato sexual, estaria segura em relação a ex-namorada. Ela só precisaria estar no controle.

“Acha que o fato de ela não se entregar para mim foi uma maneira de ela se resguardar”, a cantora não precisou pensar muito para compreender o que estava passando pela cabeça da médica. O que mais a aguardava?

“Rachel, fale-me sobre Alex Bishop”.

A judia piscou algumas vezes. A ida de um polo a outro, feita pela médica, era desconcertante.

“Alex?…”, gaguejou o nome da jornalista.

“Sim. Quinn e ela não terminaram a relação. E estamos lidando com uma situação em que, queiramos ou não, se Alex decidir permanecer na vida de Quinn, ela será alguém de peso. E se Quinn se apaixonar por ela? Alex é uma mulher que soube escorregar e entrar na vida de Quinn. Não podemos isolá-la. Concorda?”.

Rachel achou que não estava preparada para lidar com este ponto nevrálgico de sua relação com Quinn.

Respirou fundo e meneou a cabeça.

“A Quinn não consegue se apegar”, a cantora falou, pensando se a médica havia esquecido desse detalhe. E era uma equação simples: se Quinn não era capaz de se apegar, não era capaz de se apaixonar. Então, ela não poderia se enamorar por Alex. E nem por pessoa alguma…

“Bom, diante da atual circunstância, não sei se Quinn terá muita opção, a não ser concordar com um tratamento a fim de integrar as personalidades dela. Então, dependendo do resultado final ou do não resultado”, a médica foi sincera, “pode acontecer de Quinn ficar mais acessível, mais sem defesas contra os sentimentos e, talvez, se apaixonar. É uma hipótese que não podemos deixar passar ao largo”, Eleanor considerou.

Rachel sorriu com cinismo. Um cinismo diante da sua vida e não diante da médica, pois analisou: do jeito que o vento estava indo contra a sua embarcação, era possível que ela afundasse e Alex aparecesse linda e faceira numa lancha cor-de-rosa, recolhesse Quinn e, por pena, lhe jogasse uma boia e, antes de partir, avisaria que a guarda costeira já viria em seu resgate.

Por que um raio ainda não lhe havia caído sobre a cabeça?

Por que um terremoto não partia a terra ao meio e essa a engolia?

Por que não relampejava e chovia apenas sobre sua cabeça, como no desenho da Família Adams, que tem uma nuvem negra que acompanha o carro mal assombrado de Gomez, Mortícia, Tropeço e Cia.?

Ou melhor! Por que o seu musical não se tornava da noite para o dia o fracasso do ano na Broadway e ela era rebaixada a atriz de segunda linha?

Por que falar de Alex Bishop?

Eleanor pigarreou, a fim de chamar a atenção da cantora.

Seus olhos se encontraram.

Rachel suspirou.

“Eu… Eu vou sofrer se a Quinn se apaixonar pela Alex”, falou.

A terapeuta achou que, por hoje, já era bastante.

Agora a chuva evapora

Agora ainda não choveu

Agora tenho mais memória

Agora tenho o que foi meu

Agora passa a paisagem

Agora não me despedi

Agora compro uma passagem

Agora ainda estou aqui

Agora sinto muita sede

Agora já é madrugada

Agora diante da parede

Agora falta uma palavra

Agora o vento no cabelo

Agora toda minha roupa

Agora volta pro novelo

Agora a língua em minha boca

Agora o meu avô já vive

Agora meu filho nasceu

Agora o filho que não tive

Agora a criança sou eu

Agora sinto um gosto doce

Agora vejo a cor azul

Agora a mão de quem me trouxe

Agora é só meu corpo nu

Agora eu nasço lá fora

Agora minha mãe é o ar

Agora eu vivo na barriga

Agora eu brigo pra voltar

Agora

Agora

Agora”.

— Maria Bethânia em Debaixo D'Água/Agora (Arnaldo Antunes)

Notas finais
Até o próximo, com Quinn e a Dra. Parker (ou haverá alguém mais na sessão?). Obrigada por ainda permanecerem firmes em SC. Abraços e abraços de afeto. — Cal. *-*