Sine Cordi
75 CAPÍTulo 75 - עה
Notas iniciais
“Adeus, Norma Jean
Embora eu nunca tenha lhe conhecido,
Você possuía o encanto de se manter de pé
Enquanto todos a sua volta rastejavam.
Como cupins saídos da madeira
E sussurravam na sua mente,
E a colocaram num moinho, dando voltas
E a fizeram mudar de nome.
E me parece que você viveu a sua vida
Como uma vela ao vento
Sem saber onde se agarrar
Quando a chuva chegava”.
— Elton John & Bernie Taupin – Candle In The Wind—
“Roleta russa?”, a loira questionou, analítica.
“É o que parece”, o cuidador confirmou.
Quinn pesou a situação. Tentou examinar a hipótese friamente, enquanto ouvia o sussurrar de duas vozes em sua cabeça e não entedia sobre o que falavam.
“Acha que a minha outra persona planeja comprar uma arma de fogo para jogar roleta russa?”, indagou, respirando fundo para manter a atenção em Holmes e não no sussurrar das vozes. Duas vozes… Duas vozes?
“Talvez… Seria interessante falar sobre essa teoria com a Dra. Parker. Provavelmente ela mudará a consulta de amanhã para hoje”, avaliou o homem.
Quinn meneou a cabeça enquanto a sensação de repartimento a abraçou.
“Não”, falou, mas não estava sozinha. Não pensava sozinha. Era como se tivesse entrado no modo “piloto automático”. E então, já não era mais ela. “Se falar sobre essa hipótese, ela vai pensar que Quinn está tentando se matar. E lembre-se: Quinn é suicida. Então, ficarei presa num hospital, sob vigilância constante. Estou certa?”, instigou.
Holmes assentiu. Entretanto…
“E o que sugere que façamos? Que eu lhe vigie em seu quarto?”.
Ela deu uma gargalhada divertida. O que aquele homenzinho pensava que era?
“Não. Quinn…”, estancou a fim de se corrigir e justificar a razão de sua gargalhada, embora se importasse “de la merde” com o que aquele cão de guarda com pedigree de cuidador pensava dela, “eu não tenho porte de armas. Não posso comprar uma. E não acredito que consiga realmente comprar. Não sem ser rastreada pela polícia ou algo assim. Também não acredito que essa outra eu conheça algum tipo de atravessador ou traficante de armas”, disse, absolutamente lógica. “E, depois, se eu, ou melhor, a Quinn quiser se matar, por que brincar de roleta russa? É muito mais fácil engolir um monte de comprimidos com uísque e adormecer. Sem dor, Sr. Holmes”, sibilou o s final, quase latinizando-o.
“Sim”, ele achou pertinente o discurso dela, e até um pouco mais frio que o normal, ou era só impressão? Continuou: “porém, eu sei que você tem pavor a dor. Que sente muita dor. Mas, e a outra Quinn? Ela tem essa mesma dor?”.
“Boa pergunta!”, ela admitiu, “porém, eu estou enganada ou ela pode ser apaixonada por Rachel Berry?”.
O homem pensou que ela estava concluindo coisas rápido demais.
Ou não?
“É uma possibilidade viável”, ele não mentiu.
“Então, por que uma pessoa apaixonada tentaria se matar? E de maneira tão boba?”.
“Talvez o seu lado suicida fique aflorado… Eu não sei. Mas jogar roleta russa é coisa de alguém que não se importa muito se a bala vai sair ou não do tambor”, ele argumentou, coerente e preocupado.
Ela o estudou. Na verdade, estudou a fala dele.
“Daria um bom advogado, Holmes”, ela quase cuspiu as palavras lentamente. Sentiu antipatia por ele. Holmes! O bom Holmes. O cuidador. O X-9. O hipócrita e mentiroso. Por que ele ainda trabalhava para ela mesmo? Oh! Ele não trabalhava! Ele trabalhava para Quinn! Ele a vigiava… Um cãozinho de guarda! Au, au, au!
“Porém, não pode afirmar que a hipótese da roleta russa seja uma tentativa de suicídio. E, além do mais, eu não quero ser internada”, avisou, crua.
O cuidador foi pego de surpresa diante das palavras que saíram como tiros.
“Não acredito que a Dra. Parker faça isso”, ele observou.
“E como pode saber? Eu não posso. As pessoas não são confiáveis. E você deveria estar ciente disso”, informou, fria e aborrecida. Então sorriu. E analisou: ora! A Parker realmente não internaria Quinn por uma hipótese de jogar roleta russa. Ela faria exatamente o que pensava que faria: manteria sua paciente sob vigilância. A partir desse pequeno dado, essa pesquisa sobre armas, Quinn tomaria seus sucos, café e chás em copos descartáveis. Os talheres seriam de plástico. Colheres, preferencialmente! Todo tipo de bebida alcoólica seria trancada e Holmes, certamente, engoliria as chaves da adega e do bar. E perderia o acesso livre aos seus medicamentos.
A comida ficaria tão insossa!
A vida ficaria tão inerte! Tudo por causa de uma curiosidade e umas continhas inocentes!
Sorriu para si mesma.
Visualizou a página da web. Era apenas anúncio de armas de fogo o que estava ali. Nenhuma ameaça de outro tipo de tentativa contra a vida de Quinn Fabray. E a roleta era um jogo calculado. Seria muito azar a bala sair. E também seria muito difícil ela sair para conseguir uma arma de fogo. Já as armas brancas... O que faria com elas? Bom, sempre havia o que fazer…
“Quinn…”, a voz do homem a fez mirá-lo e sentiu-se como se estivesse engolfada em uma bolha.
“Sim…”, murmurou, tentando lembrar do diálogo que manteve com o cuidador e que, estranho, ela não recordava de um só fragmento.
“Acho que o mais correto será avisar a Dra. Parker”.
Quinn segurou a cabeça entre as mãos. Oh, droga! Por que tudo estava tão fora de ordem? Por que não conseguia ter clareza agora? O que aconteceu, porque não se recordava de continuar a conversa com Holmes, embora ele continuasse a lhe falar como se estivessem num debate coerente. Estava em branco. Será que a sua outra personalidade apareceu? E, se apareceu, por que o cuidador não parecia surpreso ou assustado com o fato?
“Quinn”, a voz do cuidador a alcançou.
Respirou fundo e se ajeitou e o mirou, muito confusa, porém aparentando completa coerência.
“Eu ainda não sei…”, murmurou, esforçando-se para recordar o que falaram.
“Eu sei que a Dra. Parker não vai lhe internar. Ela não fez isso antes…”.
Internar? Quem falou em internar?
“Eu ficarei atento. Não deixarei que saia do apartamento. Não sozinha”, o homem continuou a falar.
O que responderia para ele? Nunca saía sozinha mesmo! Ainda queria entender a ideia de internação…
O olhar estancou sobre a tela do computador.
“Ah! A roleta russa…”, murmurou, sabendo que aquele era o tema primário dessa conversação.
“No mais”, ele prosseguiu e ela o fitou, enquanto o “zum-zum-zum” continuava em seus ouvidos, “acho que está correta: não conhece nenhum atravessador ou traficante de armas. Não há como comprar ou adquirir uma”.
Concordou com o homem, num instante de clareza:
“Não… Eu não tenho”. E realmente não tinha. “E nem tenho porte de armas… E não compraria uma de maneira ilegal sendo advogada criminalista”, atestou. Falaram sobre comprar uma arma ou contrabandeá-la?
“E espero que nem a sua outra ‘eu’ consiga comprar uma de maneira ilegal”, ele desejou de verdade. Até agora, Quinn só havia ido atrás de Rachel. Porém, a página e a pesquisa, que Quinn não se lembrava de ter feito, foi executada pela sua outra personalidade. A mesma personalidade apaixonada por Rachel Berry e que, diante da traição, tentou morrer. Era coerente pensar em protegê-la! Precisava redobrar seu cuidado!
Quinn concentrou a atenção na tela do computador e pegou o caderno que Holmes lhe estendeu. Comentou:
“A letra… É diferente da minha… É uma letra…”, mirou com o máximo de acuidade que sua cabeça em debates sussurrantes permitia. “É uma letra pequena… De alguém meticuloso…”, analisou, “são juntas como a minha, que demonstra um jeito de pensar mais lógico…”, suspirou enquanto tentava ausentar as vozes murmurantes, “a outra Quinn é assim? Lógica? Ela é como eu?”, indagou, a fim de compreender o que estava lhe tirando o eixo.
Holmes parou para pensar. E, avaliando os últimos acontecimentos, pensou que a outra Quinn não era como esta de agora em termos de afetividade, mas era meticulosa, pois escapou durante a noite sem que se desse conta. Era astuta e inteligente. E foi atrás de Rachel Berry. O que isso significava? Teria acontecido alguma coisa que fez com que a outra Quinn resolvesse bailar com a morte outra vez?
Balançou a cabeça, como se assim conseguisse encontrar clareza que explicasse a ambiguidade que Quinn apontava às escuras e ele avaliava pelo pouco que viu da outra. Talvez devesse conversar com Rachel Berry, embora desconfiasse que a conversa pudesse não ser boa. Porém, era necessária. E, talvez, explicasse a razão da curiosa pesquisa que acontecia antes de ele interrompê-la.
“Eu…”, pensou um pouco mais, “não sei”, reconheceu. Estava completamente ignorante diante do que a mente de Quinn estava fazendo a fim de – certamente – protegê-la de alguma recordação dolorosa que a presença de Rachel pudesse trazer. Ou lhe trazia e ela não se recordava. Poderia sair para o consciente? E se ela lembrasse? Como reagiria?
Eram tantas perguntas! E nenhuma resposta. Isso era o mais angustiante da situação!
A advogada tornou os olhos para ele com desagrado.
“Não sabe?”. Como ele poderia não saber? Ele a viu quando a outra personalidade apareceu!
“Sr. Holmes”, ela começou, debruçando-se sobre a escrivaninha e cravando nele um olhar que o mantinha atento sobre o que sairia dos lábios bem-feitos dela, “você não sabe? Como não sabe? Você viu! Foi tão intrincado que não se sente capaz de uma avaliação que possa explicar a razão dessa pesquisa e dessas contas que o senhor presumiu ser de roleta russa? Dê-me mais”, incitou.
“Srta. Fabray, eu realmente não sei o que lhe dizer. A princípio, a sua outra personalidade realmente parece muito atenta e afetuosa com a Srta. Berry. E eu não sei o que houve entre vocês enquanto esteve com ela e…”.
“Provavelmente tiveram sexo”, foi seca e direta e se recostou na cadeira e fez cara de não compreender o espanto do homem. Riu.
“Holmes, de verdade, acha que a outra Quinn procuraria a Rach-Rach para quê? Para brincarem de ‘verdade ou desafio’? Isso soa meio ingênuo da sua parte”, criticou.
O cuidador realmente ficou em choque por alguns instantes. Nem tanto pela hipótese de que a outra personalidade tivesse tido um contato mais íntimo com a Berry, mas pelo descaso com o qual a advogada tratava o tema. Era estranho! Embora soubesse que ela não lembrava…
“Foi amor”, Quinn escutou a voz mais jovem e com tom magoado, “nós fizemos amor”.
Sentiu-se enjoada. Nunca faria amor com a Berry. No máximo, uns apertos, umas provocações. Mas não desejava tocá-la. Não com amor ou qualquer afeto gentil. Uma transa, no máximo.
“Nós fizemos amor”, escutou outra vez.
“Não a escute, Quinn”, outra voz, fria e, aparentemente, transbordando repulsa a fez menear a cabeça. Okay… Outra voz. O que isso significava?
Holmes franziu o cenho ao perceber a palidez que se acentuou na face já abatida da advogada.
“Quinn?”, ele a chamou.
“Telefone para a Parker e para a Berry. Acho que o quanto antes conversarmos com Eleanor essa situação poderá ser controlada”, falou, tentando pensar numa maneira de calar aquelas vozes. Uma já não era o bastante?
Aparentemente, a mente da ex-fotógrafa não trabalhava de acordo com os desejos de sua “dona”. E, miseravelmente, ela sabia. Sabia que não tinha mais o controle. Que alcançou, talvez, o ponto máximo que sua sanidade suportaria. Ou parava agora, ou, talvez, sua outra eu a parasse.
E não valia à pena morrer ou sentir mais dores por uma mulher.
Muito menos por Rachel Berry!
§§
Holmes franziu o cenho quando Wilhelm praticamente mergulhou de dentro do elevador para o lobby da cobertura mais pálido do que já era pela clara falta de sol, os olhos azuis maiores que o normal, os cabelos sempre arrumados completamente desregrados, a respiração agitada e a pergunta que escapou por entre a respiração curta e nervosa que tentava amainar a falta de ar que o bombear frenético de seu coração causava:
“Onde está ela?”.
Ele caminhava enlouquecido de um lado para o outro, sem saber se se dirigia para o a sala de estar, para o escritório, para os quartos ou o terraço.
O cuidador pensou que, não fosse o detetive um jovem sereno e de vício apenas as cigarrilhas que Quinn o presenteava e, vez ou outra, um Bollinger que os presentes da loira lhe permitiam permitir-se, pensaria que estava drogado.
“No escritório. Aconteceu alguma coisa?”, o cuidador perguntou, confuso.
“Há quanto tempo ela chegou?”, indagou, arquejando, os lábios trêmulos pelos nervos que não paravam de pular, a garganta ressecada e uma gosma que a ânsia fazia crescer.
“Chegou?”, o negro franziu o cenho. “Quinn não saiu”.
Wilhelm endireitou a postura e ergueu a sobrancelha direita quase como Quinn, e – com a respiração menos afoita – sussurrou com desconfiança:
“Não saiu?”.
“Não”, o cuidador reforçou a informação. “Ela está no escritório. A Dra. Parker marcou uma consulta para o final da tarde”, informou.
O detetive franziu o cenho e girou sobre o próprio eixo em 360º e estancou com a mão esquerda na cintura do paletó do terno bem cortado e a direta erguida com os dedos indicador e médio a baterem sobre o queixo, como se analisasse uma questão que, para ele, era fato: Holmes não fazia ideia de onde a patroa estava. Riu! Isso era uma péssima notícia. Para os dois! Principalmente para ele, Wilhelm!
“Eu aposto meu par de sapatos Ferragamo que ela não está no escritório”, comunicou, voltou-se e caminhou para o local, seguido por um Holmes que deu com uma Agatha sentada à sala de estar, que era ligada ao escritório por uma porta que ficava justamente nesta habitação, lendo uma revista, pois havia substituído o cuidador por umas horas, enquanto ele organizava o encontro como a Dra. Parker, inclusive comunicando o fato a Rachel, que informou que passaria pelo teatro para um ensaio e teste de som para a apresentação do final de semana, enquanto escutava do cuidador que a médica atenderia Quinn primeiro. No outro dia, a ela, Rachel. E, por fim, as duas juntas.
A cantora concordou e o homem conseguiu perceber a inquietação na voz dela.
Estancou em frente a Agatha e perguntou:
“Ela saiu do escritório?”.
Wilhelm se deteve diante da pergunta do cuidador. Estava a poucos passos da porta de acesso ao local de trabalho de Quinn, mas a questão o fez ficar atento.
Quinn estava sob vigilância cerrada? Por quê?
“Não”, a mulher foi abaixando a revista devagar, sob o olhar escrutinador de Holmes, e a enroscou nas mãos, num gesto nervoso, que não passou despercebido pelo gigante de ébano e nem pelo detetive de marfim, que se voltou e se pôs a observar a cena.
“Você saiu desta sala?”, foi tão frio na pergunta, que a mulher sentiu-se gelar e teve a leve sensação da lâmina fria e de fio afiado de uma guilhotina roçando-lhe a nuca antes do golpe fatal.
“Foi rápido, eu juro! Eu fui atender a um chamado da babá de minhas crianças que me lembrou da reunião hoje, no final da tarde, na turma do meu filho mais…”.
“E para que servem os telefones móveis? Por que não atendeu o sem fio?”, havia irritação nas perguntas óbvias para ele e sem justificativa para Agatha.
“Ela costuma me ligar pela linha da copa…”, murmurou.
Holmes suspirou.
“Agatha, você sabe que a Srta. Fabray não se importa se alguém ligar para o número da sala, pois ela não usa! Ela só fala da linha do escritório…”, ele queria compreender a razão de um detalhe tão tosco e, ainda assim, de puro respeito e discrição da parte da mulher, afetar tão dramaticamente o seu dia, que não havia começado bem. Então, voltou-se para o observador Wilhelm:
“Por que está atrás de Quinn?”.
O detetive suspirou, passou a mão pelos cabelos muito lisos e que lhe caiam pela testa e, afrouxando o nó da gravata, caminhou até o sofá de onde Agatha já se levantara e se deixou cair ali. Inclinou o corpo para frente e mostrou a nuca.
“Ela foi até a delegacia e disse que precisava de minha ajuda”, respirou fundo, enquanto Holmes examinava o lugar apontado pelo policial e via um inchaço de coloração azulada.
O cuidador retesou-se e pediu que a ajudante fosse preparar chá para ele e o detetive.
A mulher obedeceu sem pestanejar.
O loiro continuou, soltando outro suspiro:
“Ela pediu para falarmos a sós e eu a levei para uma das salas de interrogatório e desliguei as câmeras, como sempre faço quando se trata dela”, encostou-se no respaldo do sofá, “e, assim que ficamos a sós, ela me acertou com alguma coisa pesada que levava na pasta… Talvez o notebook, eu não faço ideia…”, meneou a cabeça, pensando no quão inacreditável aquilo lhe parecia, “eu caí semiconsciente e ela pegou o meu 38, abriu o tambor com uma destreza que nunca imaginei que tivesse, retirou cinco balas e deixou uma. E disse que só necessitava daquela ‘uma bala’”.
O cuidador sentou, atônito, ao lado de Wilhelm. Sentiu o seu mundo meio que virar de cabeça para baixo. Obviamente foi a outra personalidade de Quinn quem visitou o policial e o agrediu. E, como ele e Quinn pensaram há algumas poucas horas, ela realmente não conhecia um atravessador de armas de fogo ou conseguiria comprar uma ou tomar emprestado. Porém, havia o detetive. E ninguém pensou nele! Nem mesmo a própria Quinn! E então, ela, que não era dona de sua razão, agrediu um policial e lhe roubou a arma.
Talvez Quinn precisasse de seguranças na porta que a impedissem de sair sem a sua prévia autorização. Ela estava escorregando entre os dedos feito areia fina.
“Para que ela quer uma arma? Por que parece que ela quer brincar de roleta russa? Qual o objetivo de Quinn com essa arma? E, por que ela me agrediu?”, estava irritado com o fato de ser enganado pela mulher que considerava sua amiga.
“Se ela lhe pedisse o revólver emprestado, o senhor emprestaria?”, o cuidador indagou, grave.
O detetive o fitou achando que ele estava fazendo algum tipo de piada.
“Essa pergunta é realmente séria?”.
“Explica a agressão”, retorquiu o cuidador, pensando qual seria a possibilidade de Quinn ir até Rachel Berry armada. A questão era: o que faria? Jogariam roleta russa até uma delas acabar morta?
“Jesus Cristo”, esfolegou, tenso.
“Explica a agressão, mas não explicava a motivação”, o detetive verbalizou, percebendo o quanto o homem ao seu lado estava começando a transpirar. E era por estar nervoso...
“Eu vou perguntar, Holmes, e espero que me responda: o que deu em Quinn? O que ela está fazendo? E por que ela tem uma consulta hoje com a Parker?”.
“Sr. Ewing, não é tão simples...”, murmurou o homem, martirizado.
“Então faça ficar simples, porque eu estou arriscando a minha carreira por não comunicar a agressão e o roubo, ou agora a famosa advogada criminalista estaria sendo procurada pelo Departamento de Polícia de Nova Iorque. Ajude-me a ajudá-la. Quinn é verbal, não física. Ela pode lhe colocar no chão só com as palavras, mas não agride fisicamente. Então, o fato de ela me deixar vendo estrelas significa que há algo de errado com ela. Algo em que acabo de ser envolvido. E, também, porque se trata dela… E ela é importante para mim”, argumentou o loiro.
“Lembra-se de servir de testemunha há dias de um acordo entre a Srta. Berry e a Quinn?”, o homem indagou e o policial assentiu com a cabeça.
“Este documento a aproximou da Srta. Berry”.
“Sei… Ela pediu que eu desse atenção a morte do St. James, além de pedir que eu investigasse o motorista da viúva”, informou.
“Quinn e a Srta. Berry não foram apenas amigas quando mais jovens. Elas tiveram um romance que durou algum tempo…”, o cuidador achou melhor ser claro. Em tudo.
“O quê?”, este fato a advogada não revelou ao detetive, surpreso.
“Pelo que contam”, Holmes prosseguiu, “Quinn amou muito a Srta. Rachel. Porém, não foi correspondida, creio, da mesma maneira…”.
“A Berry a traiu com o falecido St. James?”, o detetive ligou os pontos com incrível rapidez. E continuou:
“E Quinn viu… Por isso tentou se matar”.
Holmes assentiu. O detetive era perspicaz.
“E agora? Estão próximas, mas a Quinn tem um rolo com a Alex, certo?”, tentava entender.
“Sim, mas a Srta. Bishop não faz parte da equação. O fato é que a amnésia de Quinn tem como fundo, certamente, o trauma da traição”.
“É… E Quinn parece que foi uma garota sensível”, o detetive pensou alto.
“Não sei ao certo, porém, ela foi apaixonada por Rachel quando adolescentes e, creio, como não sabia lidar com o fato de se sentir atraída por uma garota, fez a vida da cantora um inferno. A situação é que, com a aproximação, uma…”, tentava encontrar uma maneira de explicar ao policial agitado ao seu lado o que estava acontecendo sem parecer estranho. “Uma…”, repetiu, pensativo.
“Uma?”, Wilhelm estava a ponto de surtar.
“Uma personalidade alternativa surgiu e Quinn não lembra do que faz”, soltou e aquietou-se, esperando que o detetive achasse que estava de piada.
Mas o homem loiro, parecido com o Leonardo DiCaprio, ficou mudo.
Holmes lhe mirou o perfil. O detetive estava quieto. Parecia que analisava devagar o que recebeu pelos lábios do cuidador.
“Nós não sabemos o que ela quer com uma arma. Mas pelas anotações que fez no caderno de Quinn e pela página da web aberta, ela estava pesquisando revólveres com capacidade para seis tiros”, contou.
“Quem sabe o que está acontecendo?”, o detetive indagou, atento e ainda sem digerir a informação por completo. Era surreal!
“Eu, Quinn, a Srta. Berry, a Dra. Parker e, agora, você. Agatha parece que prefere ficar ausente nestes momentos e não pergunta coisa alguma. Ela apenas obedece e é alguém de confiança. Oh! E acho que a Dra. Lopez e a Srta. Pierce também estão a par”, fez saber.
O detetive fechou os olhos. Sentia uma dor aguda que lhe causava mais que incômodo: irritação por Quinn usá-lo! E, pior, usá-lo para algo que – parecia-lhe – colocava em risco a vida dela e/ou de Rachel Berry.
“Ela está com a minha arma. Se ela fizer alguma besteira... Eu nunca me perdoarei”, sussurrou.
Holmes inclinou o corpanzil para frente e, apoiando os cotovelos nas pernas, segurou a cabeça entre as mãos, enquanto proferia uma oração silenciosa por alguma luz. Era mister encontrar Quinn! Era necessário segurá-la e desarmá-la. A questão, entretanto, era: como? Não fazia ideia de como a outra personalidade reagiria! Talvez ela se rendesse, ou talvez… Não sabia.
“Ela foi até a Srta. Berry”, falou Wilhelm, em tom pensativo e sereno. Sereno não por estar calmo. Mas, sim, porque se sentia anestesiado. Parecia que tudo ao redor acontecia em câmera lenta. As palavras de Holmes, a recordação de estar com Quinn e não perceber que era outra personalidade, a pancada na nuca, ela lhe dizendo que precisaria da arma emprestada… Emprestada. Ela tinha a intenção de devolver? Talvez… Mas, uma coisa era certa: viva ou morta com um tiro na cabeça, a arma seria encontrada e ele teria que dar longas explicações. Seria acusado e responderia a um processo. Se tivesse um bom advogado, talvez não perdesse o emprego, mas sabia que faria apenas serviço interno em caso de ser inocentado. E isso era nada se comparado com o fato de Quinn se ferir e ir a óbito por meio de sua 38, que ele nunca precisou disparar. Um revólver extra, seu, registrado, dentro da lei…
“Eu nunca me perdoarei”, murmurou endurecido pela realidade.
Holmes virou a face para o detetive e entendeu o que ele quis dizer. Com uma respiração forte, endireitou o tronco e crescendo em largura e altura diante do detetive meio fora da órbita terrestre, indagou com uma calma que sabia ser necessária neste momento:
“O que faremos? Você é o homem da lei aqui. O que sugere?”.
O Ewing piscou algumas vezes e também se empertigou, como se assim conseguisse trazer sua capacidade de pensar de volta. Ela parecia que tinha saído para passear por algum tempo...
“Não poderemos avisar a polícia, porque seria embaraçoso para Quinn. E eu não dei queixa sobre o que aconteceu. E, para nossa 'sorte', nenhum colega entrou na sala de interrogatório enquanto eu estava tentando não desmaiar. E, então, dei uma desculpa para o meu parceiro e saí, comprei um analgésico porque a porrada está doendo e me causando dor de cabeça…”.
“Talvez seria aconselhável ir a um hospital, Sr. Ewing”, o cuidador analisou.
“Claro… E dizer que fui agredido e que minha arma foi roubada… Holmes, eu sou um detetive do Departamento de Polícia de Nova Iorque. A primeira coisa que perguntam é ‘quem lhe fez isso?', e não adianta uma resposta simples ou uma mentirinha branca”, justificou a sua escolha de se calar e automedicar.
“Obrigado por tentar protegê-la”, o negro verbalizou, mas sem que tal fato soasse como um ato de bravura. Não era. Não era porque Quinn estava passeando armada pelas ruas da cidade e o policial que ela enroscou na história estava ainda sob efeito da pancada que tomou. Nem tanto a pancada física, mas sim a emocional. Estava assustado. Temia por Quinn. Ela era especial para ele. Ela era admiravelmente fria e caótica. Linda dentro de todo o incômodo que a frustrada tentativa de morte lhe deixou de prejuízos. Fria, sem memória, distante, objetiva, seca e sincera.
Como não conseguiu perceber a diferença entre a Quinn e a outra Quinn, a que o agrediu? Exceto pela maquiagem destacada, que fazia reluzir mais sua beleza, não havia nada que a delatasse. Exceto… Ela parecia mais gélida. Talvez uns graus mais abaixo de zero, o que era incrível: havia possibilidade de alguém que já era desprovida de amarras sentimentais tornar-se ainda mais indiferente? Ou ela não era indiferente? Era movida por algo mais? Não fazia ideia…
“Holmes, como é a natureza da Quinn que você viu?”, questionou, a fim de comparação e saber se estava indo pelo caminho certo ou não.
“Bom… Até então ela parecia tranquila, gentil e afetuosa com a Srta. Berry e, parece, não tenho certeza, com os demais ao redor dela”.
“E o que mais?”, ainda não era bastante.
O cuidador franziu o cenho. O que mais? Também se perguntava isso!
“Eu realmente não sei o que posso acrescentar, Sr. Ewing. Apenas tive pouco contato. O que sei foi por meio da Srta. Berry, com quem a outra personalidade de Quinn parecia interagir bem”, respondeu.
“Parecia?”, o detetive não entendeu o uso do empo verbal.
“A outra Quinn fugiu à noite e esteve com a Srta. Rachel. Eu não sei o que aconteceu, de fato, mas penso que algo possa ter despertado o até então latente lado suicida de Quinn”, explicou-se.
“Veja, Holmes”, o policial analisou a situação a partir do pouco que compreendia da natureza humana, fosse ela desmemoriada ou não, “Quinn nunca matou na vida dela. Então, não creio que precisemos nos preocupar com a integridade física da Srta. Berry. Entretanto, Quinn, realmente, pode fazer mal a si mesma, pois já o fez antes. Mas, não podemos pensar que ela fará justamente isso. E nem o contrário…”.
“Animador…”, murmurou o cuidador em seco tom de escárnio.
Wilhelm fez ouvidos mortos e prosseguiu:
“A Quinn com quem eu estive e que pediu ‘emprestada’ a minha arma era muito similar a Quinn que eu e você conhecemos…”.
“O quê?”, o espanto de Holmes cortou, momentaneamente, a fala do policial.
“Eu não desconfiei. Não desconfiei porque a mulher com quem falei era tão ou mais desprovida de sentimentos que a própria Quinn. Na realidade, pensando com mais clareza, ela não me fez as perguntas polidas que a Q costuma fazer, como: se o trabalho está indo bem, ou como está a minha saúde… Nada disso. Ela foi concisa! Disse que precisava falar em particular, esperou que eu desligasse as câmeras e, tão logo entramos na sala, ela me acertou”, calou, voltando ao estado contemplativo.
“Não entendi”, o cuidador murmurou, embora – de verdade – ele compreendeu. Não queria que fosse verdade. O que era diferente. Saber uma coisa é conhecê-la, se não profundamente, ao menos o mais relevante. Negar a verdade é saber que o fato existe, é contundente, mas evadir-se dele.
Holmes estava em negação.
Entrementes, o detetive Wilhelm não estava...
“Eu acho que quem roubou a minha arma, quem me agrediu, foi uma outra Quinn. Não a Quinn de Rachel Berry e nem a sua e minha Quinn. Mas uma outra, mais prática, destemida, ultrajante, um tanto desumana, pois ela não se importou se eu ficaria bem ou não. Se a Quinn ficaria bem. Compreende o que estou lhe dizendo?”, pregou os olhos azuis nos negros do gigante de ébano.
Holmes recostou-se no sofá, apertou os lábios e soltou uma respiração.
E analisou a conversa que teve com Quinn no escritório. O que havia de diferente? Aparentemente, coisa alguma. Exceto pelo fato de ela se dirigir a si mesma como outra pessoa, o que era um fato normal, pois ela não era capaz de associar as parcas lembranças do passado com a sua atual personalidade.
Há quanto tempo essas pequenas manifestações vinham acontecendo e nem ele e nem a advogada perceberam? Ou Quinn percebeu, mas por causa das pequenas crises de ausência, confundiu uma situação com outra? Até onde a Quinn fria era somente a mulher pela qual ele deveria zelar?
Levou a mão direita à boca e a cobriu, assustado.
Havia essa possibilidade?
Assim como Wilhelm, começou a pensar que sim. A pergunta era: o que esta Quinn, tão similar a sua patroa, desejava?
Com um mal disfarçado temor na voz, indagou:
“Quais as chances de ela ter ido atá a Srta. Berry?”.
O detetive voltou o olhar para a frente e o firmou num ponto visível apenas para si mesmo.
“Talvez cinquenta/cinquenta…”, pensou alto.
Holmes se prendeu ao que poderia querer uma Quinn armada. Para quem era a arma? A quem ela queria assustar ou ameaçar?
“Sr. Ewing, desconfio que Quinn possa ter ido atrás da Srta. Berry. Não sei com qual objetivo, mas seria interessante alertá-la, a fim de que fique preparada”, assumiu.
O loiro concordou. A pergunta que precisava fazer era:
“Quinn e você sabem onde a Srta. Berry está? Porque acredito que, a esta altura, ela já a alcançou”, observou, voltando o olhar claro para a face negra e preocupada.
“Eu vou tentar falar com ela. Pelo que conversamos mais cedo, ela estaria no Gershwin, para um ensaio curto para a apresentação do final de semana”, avisou.
“Quinn sabe que ela estará lá?”.
Holmes suspirou e assentiu. Ele não fazia ideia de que uma outra personalidade de Quinn, aparentemente chegada a brincar de jogos perigosos, manifestar-se-ia. Era inacreditável e dantesco. Assustador, na verdade.
“Precisa avisar a Srta. Berry sobre a possibilidade de Quinn ir até ela... E ela deve manter a calma…”, o detetive tornou a falar.
Holmes arregalou os olhos. O que o Ewing estava sugerindo?
“Há pouco me disse que não precisava me preocupar com o bem-estar da Srta. Berry”, puxou o ar até encher os pulmões e soltou devagar. Isso estava mais tresloucado e confuso do que era capaz de assimilar.
Entretanto, escutou do policial:
“O que eu quero dizer, Holmes, é que será necessário que Rachel Berry se mantenha calma. Afinal, eu não sei a intenção de Quinn com a arma em relação a si mesma. E nem o que poderá fazer… Na verdade, deveríamos avisar a Srta. Berry e torcer para que a Quinn volte para casa, sã e salva”, complementou.
Em preocupado e inquietante silêncio, o cuidador se ergueu e caminhou até o aparelho de telefone, retirou-o do carregador e apertou o recall, cujo número na memória era do móvel da cantora.
Chamou.
Holmes sentiu como uma incômoda gota de suor nervoso escorreu pela lateral de sua face, desde o alto da cabeça rapada até ser detida com a manga do paletó Armani marinho que Quinn fazia questão que usasse. Embora ele não soubesse a razão. Mas não importava muito nesse instante.
Caixa postal...
Afrouxou o nó da gravata com discrição e desabotoou o colarinho da camisa social.
Rediscou.
Percebeu que as mãos estavam trêmulas.
Isso nunca lhe aconteceu antes…
Chamou.
Ele suspirou, inquieto.
Chamou outra vez.
E se Rachel estivesse no palco?
E se Wilhelm fosse até o teatro?
Caixa postal.
“Oh, merda!…”, murmurou, sentindo-se ligeiramente zonzo.
E, enquanto Holmes era socorrido por um surpreso e trôpego Wilhelm por despencar tal qual uma sequoia num estranho desmaio, Quinn aguardava Rachel Berry no camarim do Gershwin, observando calmamente, após descansar a pasta de trabalho sobre o sofá branco, cada detalhe do espaço que tinha uma estrela dourada na porta e o nome da cantora logo abaixo.
Riu. Era tudo tão simples ali! O único luxo estava mesmo no designer do espaço. Esperava mais daquela mulherzinha egocêntrica e desleal. Daquela mulherzinha traiçoeira e sexual. Daquela… Mulherzinha! E o que encontrava? Um camarim lugar-comum! Tal qual a sua dona.
Rachel, que observava que havia duas chamadas perdidas da casa de Quinn, estancou tão logo colocou os pés no recinto, com surpresa, na frente da loira que a estudou desde o alto da cabeça até os pés.
Ela era exatamente como pensou: comum!
“Quinn?”, a judia franziu o cenho. E lembrou que ela não poderia e nem deveria estar ali, porque estava sob uma autoimposta vigilância. Então, perguntou-se, quem estava ali, estudando-a com ar de asco e frio descaso? Fisicamente era Quinn. E linda! Os cabelos presos, a saia executiva calculadamente acima do joelho, a blusa que desconhecia a marca, mas era linda, a maquiagem bem-feita, marcando as sobrancelhas finas, os cílios que sombreavam os olhos, tornando-os mais escuros do que realmente eram, o batom… A boca! E… O sorrisinho de escárnio.
Engoliu em seco enquanto a loira caminhava até a porta e a fechava, trancando-as ali com o seguro da porta.
Cuidado que não passou despercebido por Rachel.
Por que Quinn as queria fechadas ali?
Sentiu todos os pelos do corpo eriçarem quando os seios pequenos, por sob o tecido da blusa da loira, roçaram-lhe as costas e a voz fria lhe sussurrou ao pé do ouvido, saída num hálito morno que cheirava a menta e tabaco:
“Precisamos ter uma conversinha, Srta. Berry”.
Arrepiou-se. E não foi só de desejo. Havia algo de objetividade no tom da esposa que causava insegurança. Um estranho medo. Quase um susto.
Engoliu em seco. Mais ainda quando a loira lhe rondou, estudando-a outra vez, com um olhar de distante questionamento.
Sentiu-se pequena na malha confortável para o ensaio, os cabelos presos num coque frouxo após cantar e dançar por quase três horas e acertar pequenos detalhes que cada apresentação pedia, uma toalha branca em volta do pescoço, que usou para secar o suor e nenhuma maquiagem.
“Sobre o que quer conversar, Quinn? Aliás, onde está Holmes? Ele ficou lá fora?”, perguntou. E fez isso porque precisava saber até onde o cuidador estava a par ou não da situação.
“O Sr. Holmes é irrelevante neste momento, Srta. Berry”, a loira informou e parou diante dela. “A conversa será entre mim e você. Apenas”, acrescentou.
“E sobre o que você quer falar, Quinn?”, perguntou. O coração já acelerara e faltava pouco para senti-lo dar piruetas que rimbombavam em pequena dor no peito e a sensação de que ele quase lhe pularia pela boca se a abrisse demais.
“Sempre metralhando as palavras, Berry”, avaliou com desgosto e voltou a rondar a cantora.
“Quinn?”, a voz de Rachel saiu mais insegura do que desejava.
“Eu não sou a Quinn”, avisou com arrogância e frialdade, “e justamente porque não sou a Quinn que você, Srta. Berry, escutará o que lhe direi e fará que eu mandar”.
O tom firme e imperativo, regado de impessoalidade, causou náusea na atriz.
“Quem é você?”, perguntou, quase num quebrar de voz.
A loira sorriu de lado e parou-lhe, novamente, em frente.
“Tão esperta!”, galhofou.
“Eu sempre fui esperta, Fabray”, atacou, porque achou que essa seria uma boa estratégia.
Mas não foi…
Quinn não se imutou. Mirava-a da mesma maneira. Era como se ela tivesse falado coisa nenhuma! Simples assim.
Uma simplicidade enganosa.
“Okay, Berry, vamos direto ao ponto”, avisou, “fique longe de Quinn”.
A cantora piscou algumas vezes. Ficar longe de Quinn? Como assim?
“Quinn, eu…”.
“Não perca seu precioso tempo com justificativas. Elas não me interessam. Apenas fique longe. Não abra a porta para ela, não atenda os seus telefonemas. Faça o que já fez uma vez: desapareça no mundo com um amante e deixe-me em paz”.
Rachel se sentiu… Na verdade, Rachel não se sentiu. Ela apenas foi engolfada por uma onda que pareceu arremetê-la contra a parede e, quando deu por si, estava encurralada à porta do camarim, com o antebraço da loira mantendo-a ali, posto acima dos seios e a face que parecia lhe amarrar o olhar bem perto. O sussurrar frio, porque estavam bem próximas e não havia necessidade de gritos ou escândalos:
“Eu sei quem você é. Eu sei o que você fez. E eu não gosto nada do que você fez. Mas, é a sua vida. São as suas escolhas. Não posso pensar por você e nem escolher por você. Entretanto, posso escolher por mim e, neste caso em especial, por Quinn”, afastou-se e foi até o sofá, onde abriu a pasta e retirou o revólver.
Virou-se para a cantora e esta quase desmaiou quando viu o que a loira tinha na mão destra.
“Q… Quinn…”.
A loira voltou a parar na frente da atriz, que parecia querer atravessar a porta de ré, de tanto que se encostou nela, apavorada com o que uma bala disparada ao acaso, ou não tão ao acaso, poderia causar de prejuízo tanto para ela quanto para Quinn.
“Deus, Quinn! Isso é uma arma”, falou. Porque falando o óbvio, parecia-lhe que, de alguma maneira, faria a outra pessoa – neste caso, Quinn, ou assim lhe parecia – despertar para o fato de levar uma arma de fogo por acaso ou descuido. Altamente idiota. E uma reação quase automática.
A loira correu os olhos da face morena para o revólver na mão e deste para a morena. Questionou:
“Jura?”. E riu.
“Não é engraçado, Quinn”, a judia falou, em voz chorosa.
A advogada ficou séria e concordou:
“Realmente, não é engraçado”, abriu o tambor do revólver com apenas uma cápsula e o mostrou para a cantora. Prosseguiu, após fechá-lo e fazê-lo girar até parar:
“Sabe o nome deste jogo, Berry?”.
Rachel engoliu em seco. Sim. Ela sabia o nome. Mas pronunciá-lo parecia-lhe demasiado perigoso.
Mas a loira não se importou:
“O nome é roleta russa! E eu até poderia discorrer sobre a brincadeira, mas não quero mal gastar o tempo, assim que vou ser direta”, apontou a arma para a própria cabeça.
Rachel apertou os olhos e se encolheu mais à porta e pediu, em tom de clemência:
“Quinn, por favor! Não!”.
“Abra os olhos”, exigiu com calma.
“Quinn…”, choramingou a cantora, que também chorava de insegurança, susto, medo e tudo o mais que deixava a vida por um fio. Ou um tiro.
“Abra os olhos, Manhands”.
Rachel abriu. E havia terror em seus olhos. Não um terror por causa da arma. Mas por causa da maneira como aquele apelido que lhe maltratou e ainda maltratava tanto saiu pela boca de Quinn.
“Se não ficar longe de Quinn, se não der ouvidos a coisa alguma do que eu lhe disse, eu prometo que esta arma não terá apenas uma bala para seis tiros. Ela terá cinco balas para seis tiros. Eu vou estourar os miolos de Quinn Fabray diante dos seus olhos. Entendeu?”, a loira continuou.
“Quinn!…”, a morena tremia.
“Entendeu, Rachel?”, perguntou outra vez.
A morena assentiu. Não porque de fato entendeu. Seu instinto de sobrevivência e de proteção a Quinn a fez assentir. Como contrariar alguém armado e com um passado suicida?
“Quem…”, gaguejou, “quem é você?”.
“Eu? Eu sou quem viu a sua traição. Eu sou quem sabe quem você é. Eu sou quem guardo todas as suas porcarias. Eu sou quem guiou o carro de Quinn para a morte”.
E puxou o gatilho.
Um click.
E Rachel perdeu os sentidos.
“Assim, na tragédia, o pagão compreende que é melhor que seus deuses. E justamente tal conhecimento o deixa emudecido, sem palavras.”
— Walter Benjamin -
CONTINUA.
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