Sine Cordi
71 CAPÍTulo 71 - עא
Notas iniciais
“Nós estamos brincando com estes jogos psicológicos juntos
Expandindo as barreiras, plantando as sementes
Brincando com pensamentos de guerrilheiro
Falando o mantra: Paz na Terra
Todos estamos brincando com estes jogos mentais infinitamente
Algum druida levantará o véu
Fazendo o pensamento confuso
Alguns chamam isso de magia, a procura pelo Santo Cálice
O amor é a resposta e você sabe disso, é claro
O amor é uma flor, e você precisa cultivá-lo”.
— John Lennon em Mind Games—
Rachel sentiu que o coração poderia sair pulando pela sua boca se não a fechasse. Quinn estava abatida, mas não parecia tão debilitada quanto mais cedo, quando se sentiu mal à mesa. Entretanto, querer sair, ainda por cima com aquele estranho “fenômeno” que a fazia se comportar como a Quinn do passado, não lhe pareceu uma ideia boa. Principalmente para ir a sua casa, encontrar com as duas outras membros da Trindade Profana. Seria como… Assoprar a brasa incandescente para ver se ela queimava mais? E se houvesse algum gatilho (além de si mesma, precisava considerar) que disparasse o surgimento daquela Quinn que lhe enchia o coração de amor e decepção por não poder possuí-la como desejava e, em meio a reunião com Santana e Brittany, essa “personalidade” aparecesse? Como seria isso? Como Brittany reagiria? Aliás, como Santana reagiria? Ela era tão cheia de reservas e emoções conflituosas em relação à loira!
A lembrança de uma Santana Lopez vestida em uniforme de líder de torcida sendo apartada de Quinn, que também era segurada pelo Sr. Schue, no corredor do McKinley High surgiu em sua mente em qualidade 3D. Achou que “malas cosas” poderiam acontecer… Além, é claro, de toda a explicação que precisaria dar para a latina e Britt quando as vissem chegando juntas antes da hora do almoço. O que pensariam?
Estudou Quinn. Certamente ela faria piadinhas com a situação só para provocá-la e tentar confundir Santana que, por sua vez, ficaria nos cascos e ela e Britt, com a ajuda de Maria e – provavelmente – Holmes (do lado de Quinn, sempre), tentariam separar as duas emboladas numa sessão de tapas e puxões de cabelo.
“Acho melhor eu cuidar disso sozinha”, soltou sem desviar o olhar de Quinn e tentando afastar as imagens insanas que lhe surgiram na mente.
Esta piscou algumas vezes, surpresa com a atitude da “esposa”. E não teve tempo para retrucar, pois a judia emendou logo em seguida:
“E você está se restabelecendo. Eu irei até lá com Marco e você pode mandar o Holmes me seguir. Assim que elas se forem, eu prometo que voltarei”, Rachel decidiu.
A loira a avaliou. A cantora parecia muito resoluta… Tanto que se perguntou “qual o problema de ela encontrar com Santana?”. Não faria nada demais, até porque Britt estaria por perto. Até não era muito atenta a isso, mas em relação à Britt, esforçou-se para não aborrecê-la. E precisava manejar a situação atual. Como a Berry explicaria as duas juntas?
“Rach-Rach, eu estou muito bem para lhe acompanhar”, avisou.
“Não acha que a sua presença lá poderá piorar a interpretação de Santana? Ela não é tola, Quinn”, insistiu.
A loira balançou a cabeça em negativa. “Fala isso por causa do nosso atual estado civil?”, a pergunta saiu com uma malícia quase palpável e o olhar que ela escorregou pelo corpo moreno foi tão lascivo, que fez Holmes desviar a vista e limpar a garganta. Sorriu antes de responder à própria indagação:
“Ela não é tola. Mas também não é adivinha! Ela não poderá pensar que eu e você estamos casadas. No máximo, querida esposa, ela dirá para você se afastar de mim porque eu sou uma pessoa muito nociva”, a voz saiu astuta e prática. Seca. Para ela, tanto fazia o que Santana pensaria ou não! E emendou, com um prazer quase sádico, “é uma pena que a recomendação dela lhe chegue tarde demais… Você já me pertence”.
“Quinn, por favor!”, Rachel queria evitar algo mais embaraçoso em relação a outra “personalidade” da esposa, como esta se “manifestar” durante o encontro (ela não se importava, agora, com a desfaçatez de Quinn). Porém, como fazer isso se a ex-namorada não tinha conhecimento do que aconteceu por três vezes em menos de um dia? Como falar para ela que estava se comportando, sem uma explicação razoável até agora, como a Quinn que era fotógrafa e sua namorada apaixonada?
Holmes decidiu se intrometer:
“Srta. Fabray, ainda está se recuperando. Deveria, na verdade, estar dormindo agora. Por que não deixa que eu acompanhe a Srta. Berry até a casa dela?”.
“E você pretende acompanhá-la também para conversar com a Sant e fazê-la somar dois mais dois? Para onde foi o seu raciocínio?”, perguntou, aborrecida pelo fato de não entender a razão de Rachel e o seu cuidador parecerem preocupados além da conta com o fato de ela sair de casa e encontrar com Santana. Então, lembrou que, quando se deitou mais cedo, sentiu-se estranha e depois estava sentada na cama, olhando para a porta. Como acordou já sentada? E o fato de Rachel indagar sobre o sonho da noite passada?… Ela e Holmes sabiam de alguma coisa que ela, Quinn, estava ignorando.
“Certo. Eu sei que estou meio zonza por causa dos medicamentos”, argumentou, “entretanto, ainda sou perfeitamente capaz de perceber que vocês dois”, apontou-os com o indicador o médio juntos, “estão agindo de maneira estranha. O que eu fiz e não sei?”, foi direta.
Rachel empalideceu e estancou.
Holmes pensou no que falar para Quinn sem causar algum tipo de choque. Estava meio assustado com o que presenciou. Teria que ser mais atento a ela. O que a loira seria capaz de fazer naquele estado?
“Perderam as línguas?”, indagou uma Quinn ainda mais refém da curiosidade.
O cuidador, óbvio, calejado pelo tempo em que cuidou e cuidava da loira, retomou a palavra, com estudada prudência:
“A senhorita teve pequenas crises de ausência… Por isso eu penso que será melhor ficar em casa. Eu poderei levar, discretamente, a Srta. Berry até a casa dela”.
A advogada correu os olhos do homem para a cantora.
Esta, por sua vez, fitou o homem com o cenho franzido. Quinn não teve crise de ausência! Ela pareceu mais estar “tomada” pela personalidade gentil que um dia possuiu quando eram namoradas. Porém, antes que as palavras escorressem por sua boca, assumiu a escusa do cuidador.
“Eu acho que ele está certo…”, comentou e voltou os olhos chocolate para os verdes bem claros agora, quase amarelos.
“Você acha que ele está certo?”, o tom incrédulo foi tão robusto que encheu o ambiente. E ela continuou:
“Ausência? Eu tive crises de ausência?”, não acreditou. Acreditou menos ainda quando o cuidador e Rachel assentiram, em perfeita sincronia, com acenos de cabeça.
Estudou-os com atenção. E riu alto e com um descarado deboche. Verbalizou:
“Eu não faço ideia do que aconteceu… Ainda”, pontuou, “porém, enquanto não descubro, eu acompanharei a Sra. Berry-Fabray até a casa dela”, anunciou. E, antes de se voltar para se retirar a fim de se aprontar, avisou:
“Estarei a sua espera em meia hora”, avisou para a cantora, que sentiu o chão lhe fugir aos pés. Fitou Holmes e, assim que a advogada deixou o ambiente, indagou:
“E agora?”.
O homem pensou. Era para Quinn estar meio drogada. Por que ela não estava dormindo?
Uma dúvida o tomou, embora não houvesse – pensou – ligação com o fato de a advogada não estar sob efeito dos medicamentos como era o esperado. E explicitou a dúvida sem rodeios para a judia:
“Diga-me: aconteceu de novo?”.
A morena soltou o ar e assentiu. Puxou uma cadeira à mesa que ficava ali e sentou. “Aconteceu… E foi muito difícil conseguir escapulir dela”, confessou, atontada.
O cuidador fitou Agatha de soslaio e foi se colocar ao lado da atriz e, à meia voz, perguntou preocupado:
“Eu fui até os seus aposentos há cerca de meia hora. Diga-me que saiu de lá dez minutos depois ou mesmo vinte…”, pediu, a fim de sentir um alívio que – desconfiava – não sentiria ao saber que, na verdade, Rachel levou quase todo este tempo a sós com a esposa.
“Eu sinto muito”, ela murmurou, nervosa pela situação.
“Isso está fugindo ao controle”, comentou o cuidador.
Rachel não proferiu coisa alguma. Apenas analisou as palavras dele. Sim. Há menos de três dias Quinn teve três “manifestações” da personalidade que jazia sob o esquecimento (ou isso imaginava. Ainda não falara com a Dra. Parker e estava muito atordoada com a situação) de sua mente partida.
“Eu estou tão confusa quanto você”, ela informou.
O homem assentiu. Não adiantava, no instante, preocupar-se com o que aconteceu entre elas. A questão era: e se o que aconteceu ocorresse quando estivessem com Santana? Era uma possibilidade que não poderiam descartar. Após quedarem-se em silenciosa meditação causada pela preocupação, ele atentou:
“Ela saberá como lidar com a Srta. Lopez, caso ela se mostre desconfiada ao vê-las juntas. Basta que você consiga seguir o raciocínio dela de acordo com as coisas que ela disser a fim de manejar a conversação. Ela não deseja que outros saibam sobre a razão da aproximação de vocês. Quanto a isto, poderemos ficar tranquilos”, asseverou. Após um longo suspiro, confessou:
“A minha inquietação está no fato de isso que está acontecendo, esse ‘estado’ meio sonâmbulo dela, ou esta… ‘personalidade’, apareça quando estiverem na sua casa, Srta. Berry, e diante da Dra. Santana”.
Rachel o mirou. E uma estranha imaginação lhe assomou:
“Acha que a Sant poderá falar com o Russel e a Judy, caso isso aconteça, e eles tentarem, junto a Dra. Parker, considerarem a Quinn incapaz e a encerrarem em alguma clínica psiquiátrica ou algo parecido?”, este foi um pensamento que não lhe havia preocupado até agora. E temeu por Quinn…
Holmes achou que a cantora possuía uma imaginação de filmes de suspense. Porém, guardou para si a opinião e somente contestou:
“Ela já se protegeu em relação a isso. Nem o senhor ou a senhora Fabray terão direito sobre ela ou os bens que possui”.
A cantora sentiu um imenso alívio no peito, seguido de uma inquietação que saiu como uma pergunta estrangulada e incerta:
“Ela pensa que eles seriam capazes de fazer algo do tipo?”.
O cuidador não sabia, realmente. Ele apenas sabia que ela já havia se protegido. E acrescentou à fala:
“De fato, creio, ela fez isso não tanto pelos pais. Fez mais por si mesma… Ela duvida muito da própria sanidade. Mais do que deveria, realmente”.
Rachel emudeceu. Meneou a cabeça um pouco zoada. Deus! Quinn tinha alguém a quem nomeou para o caso de os pais tentarem considerá-la incapaz diante da lei, ou ela mesma ficar incapaz, e não era ela, Rachel. E nunca seria.
Este era um pensamento egoísta, sabia. Mas não conseguiu evitá-lo, ainda que consciente de que Quinn até bem pouco tempo não sabia da relação que tiveram e o quanto foi forte e profunda. Provavelmente, a pessoa a quem ela se confiou foi para Alex Bishop. Era a pessoa que não tinha ligação com o passado de Quinn. A pessoa com quem ela, realmente, dividia momentos de intimidade. Uma intimidade que ela, Rachel, não teve nunca mais. Não com a Quinn sem memória. E, ainda que amasse a oportunidade que tivera com a outra Quinn, era esta de agora, a que restou do acidente, que teria de conquistar. E sabia que seria um embate forte, por mais frágil que Quinn parecesse.
Holmes lhe sorriu tranquilizador, pensando que a expressão preocupada dela estivesse ligada somente ao fato do encontro entre elas e Santana e Britt:
“Não se assuste! Ela ficará bem e eu estarei por perto”.
Rachel não proferiu palavra. O fato de ele estar por perto não a fez se sentir menos preocupada. Precisava se preparar para enfrentar Santana (o que não seria tão complicado se Quinn não teimasse em acompanhá-la). Poderia chegar a casa com Spencer e dar uma desculpa qualquer, pois – de acordo com Holmes – Maria nada havia dito sobre ela estar há três dias fora de casa. Na verdade, avaliou, a ausência da loira seria providencial.
“Ela não deveria ir…”, murmurou. Seu sexto sentido a berrar que teria que ficar em estado de alerta constante com a esposa e a latina no mesmo ambiente.
A voz de Holmes a trouxe de volta…
“Eu sei. Porém, a menos que a dor de cabeça dela volte com força, ela não me ouvirá”.
A cantora o mirou e, com olhar atônito, verbalizou:
“Eu pensei que você fosse o responsável por mantê-la afastada de situações de risco! Mas o que vejo aqui não é nada disso! Você é somente um pau mandado que lambe o chão que ela pisa. Isso não é bom! Por que não faz alguma coisa e a impeça de colocar os pés fora de casa?”.
Holmes não esperava por tais palavras. E isso o pegou como se fosse um soco direto na caixa craniana. Sentiu que seu raciocínio estancou por alguns instantes e, quando se recuperou, precisou sacudir um pouco a cabeça e, após piscar algumas vezes, mirando os olhos chocolate, respondeu com uma calma budista:
“O que sugere? Que eu atire nela com uma pistola de sonífero ou use uma zarabatana com a ponta da lança embebida em alguma solução que a faça dormir em segundos? Ou quer que eu a asfixie com clorofórmio até desmaiar?”, respirou fundo. “Eu faço o que considero melhor para ela”, prosseguiu, comedido. “Se eu fizesse metade do que deveria fazer de fato, creia-me, ela seria ainda mais solitária. Ela não teria conhecido a Srta. Bishop e nunca teria se aproximado de você novamente. Se lembrar é tão ruim para ela, a lógica seria mantê-la ao largo do que pode lhe causar dor. A senhorita está certa. O problema, Srta. Berry, é a sua presença aqui. Eu sei o quanto isso está custando para a sanidade dela e eu deveria fazer estancar agora. Porém, ainda guardo alguma patética esperança de que alguém consiga tocá-la de fato. Então, não deveria se zangar comigo por estar aqui agora e perceber o quão teimosa a Srta. Fabray é. Deveria me agradecer”, findou e se ergueu, deixando o ambiente.
A cantora se sentiu uma estúpida. Estava com os nervos à flor da pele por tudo o que aconteceu. E agora ainda havia Santana e Britt. E Quinn querendo acompanhá-la até a casa. Não deveria descarregar sua frustração sobre o cuidador. Deveria se desculpar com ele. Logo!
Quinn entrou no quarto para se trocar e sentiu a cabeça dar uma pontada mais forte.
“Inferno…”, murmurou, aborrecida com a situação e se sentou na beirada da cama.
Sentiu-se começar a escorregar outra vez para fora de si mesma.
“Não…”, murmurou e aferrou as mãos à cabeça, a fim de tentar controlar a razão. Não poderia se perder de novo!
O que estava acontecendo?
O que Rachel e Holmes estavam a lhe ocultar?
Sabia que não teve apenas uma crise de ausência, embora não se lembrasse de algumas coisas, como a conversa que estava tendo no café da manhã e depois… Branco total, até “acordar” deitada com a cabeça sobre o ombro de Rachel. E aconteceu outra vez quando estava deitada, após Holmes deixá-la no quarto. Teve outro branco e quando deu por si, estava sentada na cama e um pouco… Confusa?
Provavelmente…
Salpicos de imagens ao léu dela vendo a ela mesma e Rachel se beijando lhe invadiram. Respirou fundo e afastou essa estranha sensação e aqueles pedaços de um provável momento do passado. Por que estava tendo esses fragmentos de lembrança? Eles não acrescentavam em nada a sua vida atual!
“Eu a quero!”. A Voz novamente.
“Eu não ligo”, murmurou fria e irritada com essa insanidade que a estava aborrecendo desde há pouquíssimas horas. Deveria ignorá-la! Apenas isso! Deveria ocupar a mente de tal maneira que escutá-la fosse quase impossível.
Escutou três batidas na porta que a fizeram prender a atenção ali e ignorar a maldita Voz se ela soasse outra vez.
Holmes apareceu e a mirou com preocupação.
“Eu estou bem”, avisou antes que o homem abrisse a boca.
Ele permaneceu mirando-a.
Quinn suspirou e falou, raivosa, embora o tom de voz fosse audível somente entre os dois:
“Não será uma merdinha de dor de cabeça que me fará ficar em casa”.
“Deveria repousar”, ele insistiu na recomendação anterior. “A Srta. Berry saberá como lidar com a Dra. Lopez”, continuou, a fim de dissuadi-la.
A advogada riu debochada e o imitou:
“'Deveria repousar. A Srta. Berry saberá como lidar com a Dra. Lopez’”, pregou os olhos nele, “e o que mais a Srta. Berry saberá fazer, Sr. Holmes?”, perguntou numa curiosidade frívola.
Ele poderia dizer para ela que a Srta. Berry talvez fosse capaz de lidar com a “personalidade” dócil e apaixonada que ela assumiu por algumas vezes desde o dia anterior. Mas não podia.
Não sem que a Dra. Parker estivesse a par do que aconteceu detalhadamente e soubesse exatamente como abordar o tema com Quinn, pensou. E, por isso, calou.
“Apenas me dê a meia hora que eu pedi, ok? Logo encontrarei você, a senhora minha esposa e o rebento dela. Aliás, ela irá com o motorista dela. O apaixonado! Nós dois, eu e você, iremos atrás. Talvez eu possa enganar aquela latina e o ‘terceiro olho mexicano’ dela dizendo que tudo, nosso encontro, foi uma desagradável coincidência”, ela avisou.
O homem ergueu as sobrancelhas e perguntou, surpreso:
“Terceiro olho mexicano? Da Dra. Lopez?”, ele nunca ouviu falar disso! E dessa conclusão, surgiu sua pergunta:
“Por que nunca comentou sobre isso antes?”, averiguou, cuidadoso.
A loira fechou os olhos e enterrou a cara nas mãos. Ela não sabia! Só saiu pela boca! Mas não sabia!
“Dra. Fabray?”, Holmes estava, realmente, muito preocupado.
Quinn bufou e o fitou. Respirou fundo, ergueu-se devagar a fim de testar o próprio equilíbrio físico (o mental já havia desistido de testar. Apenas tentava mantê-lo aos trancos e barrancos) e encontrando-o satisfatório, ignorou a dúvida dele e avisou:
“Estarei pronta em breve”. E se retirou para o banheiro, largando-o ali, preocupado e ainda zonzo. Após um instante de alienação, meneou a cabeça a fim de pousar as peças de seu raciocínio em seus devidos lugares e se retirou.
Era mister avisar a Rachel que ela teria a companhia de Quinn. Querendo ou não.
E foi o que fez.
Encontrou a cantora na suíte de hóspedes já com as roupas com as quais chegou ali há três dias e terminando de arrumar o filho, que vez ou outra reclamava por Rachel manuseá-lo tanto.
“Ela irá”, soltou num suspiro só.
Rachel estancou e piscou algumas vezes.
“Oh, droga!”, pensou que o homem conseguiria convencer Quinn a ficar em casa…
“Como ela está?”, perguntou, terminando de arrumar o filho.
“Acho que meio atordoada e desconfiada de que não teve apenas crises de ausência. Ela é esperta. Deve ter uma noção do tempo em que ficou desligada. Entretanto, eu não posso dizer que ela realmente saiba de fato. É somente uma hipótese… E ela parece não querer tocar no assunto agora”, observou, “o que não significa que não o fará mais tarde”, avisou.
A judia assentiu. Os nervos a pularem e, embora soubesse que era errado e das palavras que escutou há pouco, à mesa, perguntou ao homem:
“Há alguma injeção de calmante que você possa, por acaso, aplicar nela a fim de que durma até amanhã e esteja tudo arrumado sobre a visita de Santana?”, inquiriu, realmente esperançosa.
O cuidador a fitou com um pouco de surpresa na face e meneou a cabeça devagar, em negativa, pensando que – de fato e apesar do que pregou há pouco para a cantora – a ideia até era interessante. Mas Quinn não se deixaria drogar consciente e sem dor.
“Sinto que não, Srta. Berry”, verbalizou a resposta.
Ela ficou a meditar, mordendo o lábio inferior. Então, depois de um longo suspiro, voltou a questionar:
“Eu sei que não é correto, mas na ‘farmácia’ de Quinn não teria algum calmante, não natural, que você possa me dar a fim de que eu consiga me manter serena, porém não drogada, durante este encontro?”.
Ele assentiu e, antes que fosse providenciar o pedido dela, escutou-a:
“Perdoe-me pela maneira como lhe falei na cozinha. Você não lambe o chão por onde ela passa. Na verdade, Sr. Holmes, você é um profissional excepcional e, antes de tudo, um bom amigo”.
O cuidador somente assentiu com um sorriso acanhado e, após, saiu para buscar o que lhe pediu a cantora.
Ela olhou para o filho e o acariciou na face. Sorriu sem humor e comentou:
“Farei o melhor para que nada de mau lhe aconteça e que nenhum grito ou má palavra lhe alcance”, e o beijou nos cabelos.
Analisando outra vez a ideia que lhe surgiu há pouco mais de dois dias sobre recomeçar a rezar, pensou que esta era a melhor coisa a fazer neste momento. Porque se a “sua Quinn” aparecesse durante o encontro com Santana, teria que colocar toda a sua frieza e racionalidade para fora, a fim de manejar a situação.
“Deus se apiede de mim”, murmurou e pegou o filho, já arrumado, no colo e foi ao encontro da esposa teimosa. E, por mais que a amasse e odiasse vê-la sofrendo, desejou realmente que ela tivesse uma enorme dor de cabeça que a deixasse fora da órbita terrestre, ou uma enorme crise de vômitos que a deixaria enojada consigo mesma e sem querer colocar a cara fora do quarto por alguns dias ou um desmaio… Seria mais fácil lidar apenas com Santana, pensou.
“Pessoas são tijolos sem argamassa
Que se equilibram em harmonia duvidosa”.
— Viviane Mosé em Enxame de Vespas, poema IX—
Quinn sorriu quando viu Rachel. Esqueceu como ela ficava bonita naquele vestido que usou para se casarem, há três dias, ainda que não fosse para este fim que a cantora o usou de fato. Seria apenas uma visita para ela, que ainda se recuperava de uma de suas inoportunas crises. Entretanto, as camisolas que permitiu que Holmes trouxesse para que se vestisse, a impediam de sair de casa. Por isso, foi que concedeu que a “esposa” as usasse. Aos montes! Imaginou Rachel Berry, famosíssima atriz e cantora, de camisola nas ruas de Nova Iorque, com o filho nos braços, fugindo (dela, Quinn). Isso poderia causar especulação sobre o seu estado mental. Principalmente após a perda de Jesse St. James. Afinal, como já pensou, ainda que divorciada do falecido artista, ela – Rachel – seria sua eterna viúva, não importava com quantos outros homens ela se envolvesse ou casasse após isso. Ela seria, sempre, a viúva de St. James!
Rachel fitou a advogada, enquanto sustentava o filho nos braços. Ela estava muito elegante e austera num terno feminino com saia e paletó sobre uma elegante blusa de botões com a gola estilo padre e com os cabelos presos, deixando à mostra o rosto perfeito. Os olhos escorregaram até a curva da mandíbula e sentiu vontade de beijá-la bem ali… Balançou a cabeça, aterrissando novamente e indagou, quase sem fôlego, voltando os olhos para os verdes que a fitavam com atenção:
“Marco já está lá embaixo?”.
“Uhum…”, murmurou a loira, com um sorriso pícaro.
A cantora bufou e avisou, ao passar pela advogada a caminho da saída:
“Não é divertido, Fabray! Eu nunca traí o meu marido”, espetou.
A loira girou nos saltos e a viu sair a passos firmes. Olhou para o cuidador e perguntou, com fingida inocência:
“Eu disse algo errado?”.
Holmes não se mexeu. Não reagir ao deboche da loira, vez ou outra, era o melhor para fazê-la se refrear. Além disso, brincar com a fidelidade de uma mulher que, apesar de tudo, perdeu o pai de seu filho num crime bruto e sem explicação, não era engraçado.
A loira suspirou.
“Ok”, ela se rendeu, “vamos”.
Rachel terminou de atar Spencer à cadeirinha, com a ajuda de Marco, que se afastou e se colocou à porta do automóvel a fim de cerrá-la tão logo a patroa entrasse, quando a loira estacionou de pé ao lado da cantora, que girou a cabeça para mirá-la.
“Eu vou com você”, informou, com ar divertido.
Os olhos de Rachel se abriram como pratos.
“Vai… Vai comigo? Mas… Eu pensei que deveria chegar primeiro e…”.
“Relaxe, Berry! Eu cuidarei de tudo. Agora entre no carro de uma vez. E eu quero lhe fazer, também, algumas perguntas sobre nós duas”, sorriu lindamente.
A judia ficou atordoada.
“Perguntas?”, inquiriu, como se estivesse dando algum tipo de pane. Respirou fundo e questionou:
“Que tipo de perguntas?”. De veras, esta era uma curiosidade pertinente. Elas haviam se beijado por duas vezes em menos de vinte e quatro horas. E se a loira lembrou de alguma coisa?
Preocupou-se.
Quinn contestou, fazendo-a retornar à realidade:
“Perguntas ‘tipo’ sobre nós duas”, sorriu e mirou Marco, que estava discretamente parado à porta, esperando para que as duas mulheres entrassem no carro e ele pudesse fechá-la.
Rachel ficou mais atordoada. “Perguntas sobre nós duas” era subjetivo demais! E não teria o equilíbrio necessário para esse tipo de conversa. Estava muito preocupada. Ela e Quinn estavam indo ao encontro de Santana e Brittany e seus nervos pareciam, ainda, saltar e o coração não batia, ele simplesmente era um contínuo que a fazia sentir que poderia morrer a qualquer instante. Oh, não! Não conversariam. Mesmo que fosse algo ligado ao que aconteceu entre elas…
“Quinn, em outro momento. Eu estou preocupada com a Sant e a Britt lá em casa”, avisou.
“Eu já falei para relaxar, Rach-Rach! Eu cuidarei de tudo”, piscou-lhe, “apenas siga o curso”, avisou.
Rachel era pura incredulidade:
“Apenas siga o curso? Como assim, apenas siga o curso?”.
A advogada avaliou a morena. Ela estava, realmente, assustada com o fato de irem ao encontro de Santana e Brittany?
“Qual o problema, Rach-Rach?”, questionou atenta.
A morena suspirou e entrou no carro. Discutir com Quinn era uma luta perdida. Ela era teimosa e cheia de argumentos e… Resfolegou e se sentou de mau humor. A loira entrou logo após.
Marco fechou a porta e se encaminhou para o banco do motorista. Em pouquíssimos minutos estariam na cobertura de Rachel. Ela e Quinn eram, tecnicamente, vizinhas.
Quando o carro se pôs em movimento, a advogada olhou para trás e viu que Holmes as seguia com o automóvel dela.
Voltou-se para frente e fitou Marco pelo retrovisor e sorriu ao surpreendê-lo a examinar a cantora com acuidade.
Rachel estava alheia, a loira observou.
Cruzou a pernas, esticou o braço esquerdo sobre o encosto do banco, haja vista que a morena estava deste lado, e deixou a mão pender e ficou a correr o indicador e o médio pelo ombro da judia, que sentiu o ar estancar no pulmão.
“O que pensa que está fazendo?”, perguntou a cantora, num sussurro, para a loira.
Quinn ainda observava Marco e achou divertido que Rachel ou não se desse conta do quanto o motorista a devorava com os olhos ou fingia muito bem não perceber! E ela não traiu o St. James… Por que será? Oh! Claro! Ela o amou. Não se trai quando se ama, pensou.
“Quinn”, a voz da cantora a trouxe do devaneio. Mirou-a.
“Sim?”, olhou ao redor para ver se já haviam chegado. Ainda não… Um engarrafamento atrasava-as. E imaginou que se fizessem o perímetro a pé seria mais rápido. Rachel tinha que morar praticamente dentro da Times Square?
“Quinn, está tudo bem?”, a cantora ficou preocupada e esqueceu os dedos da loira, que passeavam distraídos sobre o seu ombro. A advogada parecia um pouco aturdida e temeu que fosse um estagio preliminar ao que a faria ficar doce e gentil como quando eram namoradas.
“Odeio engarrafamentos”, murmurou, ainda mirando a fila de carros pela janela.
A atriz sentiu um pequeno alívio. Preferia uma Quinn mal humorada por causa do trânsito a uma afetuosa e indo ao encontro de Santana Lopez.
Após suspirar enfadada, a loira, que agora apenas descansava a mão no ombro judio, voltou a mirar Marco pelo retrovisor e os olhos deles se encontraram.
O rapaz desviou rapidamente e se fixou no trânsito.
A advogada riu. Ele estava secando Rachel!
Olhou para a morena de cenho franzido e mordendo o lábio inferior em clara demonstração de nervosismo e achou divertido que ela não se desse conta do fato de o rapaz estar mirando-a quase todo o tempo.
“Diga-me, Marco”, começou, num tom de divertido interesse, “gosta da Rach-Rach?”.
Os pelos do corpo de Rachel escresparam-se e ela virou o olhar estarrecido para a loira.
O rapaz engasgou com a própria saliva e tossiu. Desviou os olhos do trânsito (parado agora) e girou a cabeça, mirando-a com pavor, com a tosse já sob controle.
“Co-Como?”, gaguejou a pergunta.
Quinn falou, num cínico tom mais baixo:
“Como artista. Você gosta da Rach-Rach como artista?”.
Rachel sentiu, realmente, o coração descompassar e teve a impressão que, quando ele voltou a bater corretamente, uma pressão aliviou, como se o ar estivesse preso e fosse disperso.
O rapaz respirou e, parecendo sair de dentro de uma torre onde um grande sino acabara de badalar perto de suas orelhas, assentiu e se voltou para a frente. Falou, num tom tímido para um homem tão belo e que passava uma imagem de segurança:
“A Sra. St. James é uma… Atriz completa. Tem uma voz muito bonita e… E sabe atuar como poucas atrizes de sua geração”, ele acrescentou.
“Sra. St. James? Eu pensei que eles haviam se divorciado”, observou com ar de pouco-caso.
“Eu respeito a memória dele”, o motorista falou e Rachel queria entender onde a esposa queria chegar, embora desconfiasse.
A loira riu e comentou, sem a menor finesse:
“Não foi o que o seu olhar furtivo pelo retrovisor demonstrou, querido”.
Marco desejou fugir. O que aquela mulher tinha a ver com a sua patroa? E por que ela era tão inconveniente?
“Eu tenho noiva. Eu sou só um fã afortunado”, disse, esforçando-se para parecer seguro.
A loira lançou um olhar curioso para a judia e perguntou para que o rapaz escutasse:
“Você o contratou porque ele é um bom motorista e fã ou por que ele é um bom fã e motorista?”.
A morena piscou algumas vezes.
Quinn riu e passou a mão pela coxa da morena, gentilmente, fazendo-a se arrepiar diante do toque morno.
“É só um jogo de palavras, Rach-Rach. Mas que faz toda a diferença na hora de escolher qual das duas sentenças prefere como resposta”, avisou e voltou a mirar o retrovisor. Dessa vez, os olhos de Marco estavam presos ao trânsito.
A advogada riu por dentro. Realmente o motorista nutria um amor platônico por Rachel! Wilhelm não se enganou quando observou este fato. Um detalhe que passaria despercebido para olhos não treinados. E Quinn aprendeu muito com o amigo policial!
“Por que fez isso? Ele é um bom rapaz”, a judia inquiriu, num sussurrou perto do ouvido da esposa.
“Pesquisa de campo”, respondeu.
A cantora ficou atordoada. Pesquisa de campo?
“Quinn, por favor. Já está sendo estressante ir encontrar Santana e você agindo assim não ajuda em nada”.
A loira suspirou e voltou a face bonita e sem emoção para a morena. Falou, com os olhos vazios presos nela:
“Apenas aja como se tivesse autografado um pedaço de papel para mim e não um contrato de casamento e tudo sairá bem. Você é uma atriz, certo? Faça brilhar o seu tão decantado talento”, cochichou seca.
A judia não conseguiu ocultar a decepção diante das palavras gélidas da ex-namorada.
“Você é horrível”, murmurou, aborrecida, porém com a cabeça erguida. Virou a face para frente.
“Eu já fui informada sobre isso”, retorquiu com descaso. E não se calou:
“Prosseguindo na minha ‘pesquisa de campo’, conte-me, Rach-Rach: o que você e o meu descuidado cuidador estão escondendo de mim”.
A irritação de Rachel deu lugar à tensão.
Manteve a respiração controlada e, fazendo exatamente o que a loira lhe mandou, atuou:
“Eu não estou escondendo coisa alguma de você, Quinn. E acredito que o Sr. Holmes também não”. Foi perfeita!
A loira a estudou. E sorriu com incredulidade. Depois de um momento de circunspecta análise, murmurou no ouvido moreno, fazendo todas as terminações nervosas da judia enviarem sinais pelo corpo e as borboletas lhe revoarem dentro do estômago:
“Você é muito boa atriz, Rach-Rach. Mas eu sei que não tive, apenas, crises de ausência. Então, seja uma boa esposa, prove que me ama e me diga: o que aconteceu?”.
A diva virou a face incrédula para ela e seus lábios quase roçaram. Prendeu o ar.
Quinn sorriu e não se mexeu um só milímetro, entretanto umedeceu os lábios com a língua, atraindo o olhar moreno para sua boca.
Rachel responderia. E quando fizesse isso, suas bocas roçariam. Respirou e, quando ia responder, escutou o tom amável de Marco:
“Chegamos, Srta. Berry”.
“Salva pelo gongo”, a loira sussurrou com os lábios quase roçando os dela, fazendo a cantora quase se desmanchar e Marco franzir o cenho pelo retrovisor.
Quinn a estava torturando! Era a única ideia racional que concebia. Como ela poderia sussurrar roucamente em sua boca, fazê-la arrepiar-se inteira e se sentir inconvenientemente úmida e saltar do carro como se nada?
“Cadela…”, xingou-a num rosnar baixo, enquanto era ajudada por Marco a retirar Spencer da cadeirinha.
Quinn se aproximou do carro em que Holmes estava, parado alguns passos atrás, e encostou na porta, observando a cena. Comentou ao léu, pela janela, com o homem sentado atrás do volante, do outro lado:
“Formam um belo casal”.
O cuidador não respondeu. Era, no momento, apenas um observador atento. Entretanto, não deixou de pensar que a patroa tinha razão. Marco parecia um galã e a Srta. Berry era uma mulher bonita. E apaixonada pela loira incapaz de corresponder a tal sentimento. Suspirou. Seria bom se Quinn apenas tentasse não ser tão resistente à cantora. Poderia, quem sabe, sofrer menos…
“Ela já lhe ama, Dra. Fabray”, resolveu contestar.
Quinn o mirou com verdadeira surpresa. Desde quando Holmes entendia de amor, paixão ou sinceridade?
“Você nunca me apresentou nenhuma namorada… Ou namorado”, os olhos verdes cintilaram de picardia, “como posso confiar na opinião de um inexperiente na arte de amar?”.
Holmes não retorquiu.
A loira abriu a porta do carro e se embrenhou ali, enquanto Rachel adentrava ao prédio com Spencer.
“Diga que não é apaixonado por mim, por favor!”, ela estava jogando, “eu não poderei fazê-lo feliz, Holmes! Eu não tenho coração. Nunca seria capaz de corresponder ao seu amor”, findou num tom quase dramático.
O homem suspirou e voltou a face para frente. Já estava acostumado ao humor cáustico dela. A pergunta que o castigava era: por que ela estava acordada? O remédio para a dor deveria fazê-la dormir!
De fato, quando ela deu um bocejo, os olhos dele voaram para ela.
“Sono?”, perguntou.
Ela sorriu e avisou, saindo do carro:
“Não o bastante para não ser capaz de desviar a atenção de Santana”.
O homem a viu se encaminhar com tranquilidade para a portaria do prédio, onde desapareceu.
“Okay…”, ele suspirou, a espera de alguma chamada se alguma coisa incomum acontecesse com ela.
“Eu sei que vai acontecer alguma coisa… Sempre acontece…”, cantarolou, amuado.
§§
Rachel sentiu um imenso alívio quando viu Maria, que lhe abriu um sorriso e os braços para envolvê-la, junto com o pequeno Spencer, maternalmente.
A judia se deixou ficar naquele abraço tão cheio de afeto e sinceridade.
“Está usted bien, ¿señora?”, indagou, ao notar que a morena parecia abatida.
“Sim”, sorriu, “eu estou”.
“A señorita Lopez e sua amiga estão na sala de visitas. Eu disse que saiu com o pequeno para uma volta. Ela está preocupada”, informou.
“Gracias, Maria. Eu cuidarei de tudo”, informou. “Cuide de Spencer, por favor. A Srta. Fabray deve estar subindo”, lembrou de avisar, enquanto passava o filho para os braços da outra mulher.
“Ela veio? Eu acho que ela e a señorita Lopez não se levam muito bem”, observou.
Rachel concordou com a mulher. Mas não poderia fazer muito, além de tentar manobrar as duas cheerleaders da melhor maneira possível.
Respirou fundo, beijou a cabeça do filho e se encaminhou para a sala de visitas.
“Rach!”, Brittany gritou assim que a viu e correu para tomá-la num abraço apertado que quase fez desaparecer a diva, que não conseguiu conter o sorriso doce diante da sincera efusividade da amiga.
“É bom ver você, Britt”, falou, antes de ser puxada e quase asfixiada pelos seios da loira, que lhe havia enterrado a cara ali e a segurava dentro do abraço.
Santana estava sentada no sofá e observou a cena.
Precisava conter Britt e sua excessiva demonstração de afeto.
“Okay! Já chega, Britt! Solte a ‘minion’ antes que ela morra sufocada”, pediu para a esposa.
A loira de olhos azuis a mirou.
“Minion?”. Franziu o cenho.
A advogada morena suspirou e remendou:
“Desculpa, Britt-Britt. A Rach precisa respirar”, ergueu-se. E estancou quando deu com Quinn entrando sorridente na sala, sozinha.
O rosto de Brittany se voltou para onde a esposa mirava e seu abraço sobre Rachel foi afrouxando, conforme o espanto crescia dentro dela.
“O que faz aqui, Fabray?”, questionou a latina, com a expressão fechada.
“Saludos para usted también, guapa”, sorriu com desfaçatez.
“Quinnie?…”, Britt sussurrou, ainda surpresa com a presença da ex-capitã das cheerleaders do WMHS.
“Britt”, a loira abriu os braços e mordeu o lábio inferior.
A dançarina soltou a judia e com um meneio de cabeça foi até a outra loira e estancou em frente a ela.
“Pretende ser crucificada?”, perguntou.
A Fabray franziu o cenho e comentou, debochada:
“Uau! Santana está conseguindo contaminar você! O céu está perdendo uma alma pura para Santana ‘Diabla’ Lopez?”, ergueu a sobrancelha.
Britt a abraçou e falou para ela apenas escutar:
“Mostre-me onde escondeu seu coração e eu lhe prometo a minha alma”.
Quinn deu uma deliciosa gargalhada e afastou a dançarina, mirando-a. Retorquiu:
“Creia-me, baby, não estou recrutando almas e nem negociando. Talvez em outra hora”, piscou e se aproximou da latina. Parou em frente a ela e estudou-lhe a face fechada. Perguntou:
“Ainda rancorosa porque eu fiz a Mary desmarcar todos os seus compromissos daquele dia?”, e sorriu docemente.
Santana respirou fundo e soltou o ar audivelmente.
“No. Para nada! Pero, que haces con Berry?”, indagou sem piscar.
A loira conteve um risinho e comentou, como se fosse um aviso de “perigo! Mantenha a distância”:
“Ela está hablando em espanhol. Significa que está muito aborrecida. Eu só espero que não seja comigo”.
“Fabray, não me diga que foi só uma coincidência você chegar logo atrás da Berry. Vai ser difícil me convencer”, avisou.
A loira não desviou os olhos dela e, sem nenhuma preocupação, verbalizou:
“Não. Não foi uma coincidência”.
Rachel sentiu a cor lhe fugir e engoliu em seco. O que Quinn estava fazendo?
“Na verdade”, a ex-fotógrafa continuou, “combinamos de ir até o Central Park com o pequeno Berry. Eu sei que você sabe que eu estou muito, mas muito interessada na Rachel. Afinal, eu tentei me matar por causa dela. É justo que eu me sinta curiosa, não acha, Sant?”, escrutinou a expressão na face da latina.
Os olhares de Britt e Rachel se voltaram para as duas amigas.
Santana empalideceu.
“O quê?”, perguntou, sem acreditar nos ouvidos.
“Você achou que eu nunca saberia sobre a Rachel e que eu tentei me matar por causa dela?”, riu com incredulidade. “Nossa, Lopez! Dessa vez você realmente subestimou a minha inteligência. Mas está tudo bem”, acrescentou com malícia, “eu não lembro mesmo! Para que esquentarmos as nossas cabeças com esse tipo de coisa? Era irrelevante eu saber! Certo?”, estagnou os olhos sobre os escuros da latina, que estava pálida e sem palavras.
“Quinnie…”, Britt a chamou, baixo. Tinha um tom culpado. Ela também omitiu este fato da advogada.
A loira desviou a face da de Santana e fitou a bailarina.
“Nós só não queríamos que você sofresse mais”, justificou.
Quinn não expressou coisa alguma. Olhou sem nenhum resquício de afeto ou reconhecimento de Brittany. E fez o mesmo ao tornar os olhos para a latina.
Santana avisou, a voz embargada:
“Pode me olhar assim, sem nada que demonstre sentimentos. Mas não faça isso com a minha Britt. Ela nunca deixou de amá-la”.
“Olhar ‘sem nada de sentimentos’? Está voltando às raízes e assistindo aos folhetins mexicanos, Santana? Porque essa sua fala foi horrível”, avaliou, com praticidade.
“Eres un monstruo, Fabray!”, cuspiu a latina.
“Conte-me uma novidade, Santana. Essa é notícia velha”, foi sarcástica.
“¡Yo te odio!”, quase explodiu a latina.
“Que dramática!”, reforçou com descaso.
“Quinn!”, a voz de Rachel a fez se voltar e, neste instante, sentiu como se o crânio estalasse. Meneou a cabeça a fim de focalizá-la, mas foi tomada pela sensação de que estava escorregando outra vez, escapando de si mesma.
Levou as mãos à cabeça.
A judia percebeu e soltou um sonoro “merda”, que chamou a atenção das visitantes.
A latina percebeu a palidez da loira e, por mais que desejasse neste momento que ela beijasse o chão, amparou-a até o sofá, onde a loira se deixou sentar.
Essa seria, para Santana, apenas mais uma entre as tantas crises que viu Quinn ter. O que lhe chamou a atenção, realmente, foi as duas ex-namoradas chegarem quase juntas. Acrescente a isto o fato de que Quinn era uma mentirosa e manipuladora excelente e, portanto, toda a desconfiança nela era bem-vinda.E não se poderia deixar de fora o palavrão que a judia soltou! Okay, ela só poderia ter se assustado com a palidez da loira, que era realmente assustadora, mas o tom de quem sabia que aquilo poderia acontecer e não deveria foi o que fez a diferença para ela, Santana Lopez.
“Ok, Berry. O que está acontecendo?”, a esposa de Brittany quis saber.
Na realidade, a diva – que se encontrava ajoelhada diante da esposa – estava tão expectante quanto a latina. Precisava saber se Quinn ainda era Quinn. Meio confuso, mas era assim mesmo. Um verdadeiro atrapalho. Uma Babel de sentimentos conflituosos e transtornados. Uma situação em que, após este vestígio de profunda dor física, aparecia a outra Quinn.
Torceu para que não acontecesse.
Não aqui.
Não agora.
Não na presença de Santana e Brittany…
“Qué pasa, ¿Berry?”, a latina indagou, desconfiada e preocupada. Percebeu que havia um inconsciente, quase imperceptível para olhos e atenção menos argutos, grau de cuidado por parte de Rachel para Quinn. Então, por mais que compreendesse que Rachel amasse Quinn e se sentia culpada pelo que aconteceu, a cantora estava numa outra esfera de atenção com a loira. Oh, sí que algo iba estraño!
A judia correu os olhos assustados e ansiosos de Quinn, que ainda tinha a cabeça entre as mãos, para a latina.
Sussurrou, insegura:
“Eu… Ainda não sei…”, confessou.
As sobrancelhas de Santana quase se uniram e formaram um só risco diante da maneira que franziu o cenho em confusão. O que a anã estava a omitir?
“É melhor começar a colocar para fora tudo o que me parece estranho aqui, Berry. Eu sei que há algo acontecendo. E é entre você e essa loira de farmácia”, acusou.
Quinn tentava se concentrar na discussão das duas mulheres e assim se manter coerente, presa à realidade. Entretanto, escorregar de si mesma estava fora de seu controle, de sua vontade. Ela simplesmente ia… Queria ser capaz de controlar isso, de não se deixar escapar. Mas…
“Sant, por favor, deixe a Rach em paz”, pediu e levantou a cabeça. Piscou algumas vezes e olhou ao redor, parecendo confusa.
Rachel sentiu-se gelar.
Santana estranhou o tom diferente na maneira como ela se referiu a ela e a cantora.
Britt colocou as mãos na cintura e enfocou os olhos na loira que tentava se localizar.
“Quinnie…”, murmurou num tom de reconhecimento.
Os olhos verdes pousaram sobre os azuis da dançarina e um cálido sorriso de dentes perfeitos surgiu nos lábios rosados de Quinn Fabray.
“Oi, Britt… Eu estou com um pouco de dor de cabeça…”, comentou e se virou para Rachel:
“Você tem Aspirina, Rach?”, questionou.
Santana olhou da loira para a morena e da morena para a loira meio desconfiada. Certo! Aquilo parecia estranho. Desde quando Quinn havia se tornado gentil com a Hobbit? E desde quando ela sorria quando a chamavam de Quinnie, em vez de repreender quem o fazia, pois não apreciava o apelido carinhoso?
“¿Qué coño está pasando aquí?”, interrogou, aborrecida.
“Pode ser que nos guie uma ilusão; a consciência, porém, é que nos não guia.”
— Fernando Pessoa -
CONTINUA.
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