Sine Cordi
68 CAPÍTulo 68 - םח
Notas iniciais
“Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle”.
— Adriana Calcanhotto em Esquadros—
Rachel olhou, imóvel, Holmes lhe tirar Quinn de entre os braços e carregá-la, no colo, para fora.
Estava aturdida.
A dor que Quinn sentia… Era na cabeça! Até porque ela não tinha um coração, no sentido romântico da palavra, que pudesse doer! Então, só havia uma explicação que encaixava perfeitamente e – claro – com lógica, na situação que a atordoou desde há pouco: não ouviu direito! Quinn deve ter falado “tira essa dor…” e gemido antes de adormecer. E seus ouvidos foram enganados por sua cabeça, que não estava raciocinando com muita clareza desde que colocou os pés na casa de Quinn Fabray e se tornou sua “esposa”. Era simples!
Suspirou e se arrastou até sentar com as costas apoiadas no sofá de couro.
“Não é simples, Rachel”, falou para si mesma. E sentiu uma vontade enorme de beber uma dose de uísque puro. Talvez se embebedasse os sentidos conseguisse entender o que estava acontecendo entre ela e Quinn. Porque, a princípio, tudo era um jogo da loira! E então, agora, ela parecia, não tinha certeza, ter um coração que doía. Era complicado! Não sabia o que esperar. Quando pensava que tinha certeza de alguma coisa, descobria que não. Que tudo foi apenas uma pequena ilusão. Sentia-se como num show de mágica! Nunca sabia que truque viria a seguir. Qual seria a próxima ilusão criada? Certamente seria alguma que a deixaria como agora, completamente sem entender coisa alguma, mesmo com toda a tentativa de colocar razão na conjuntura atual.
“Eu estou entrando na loucura da Quinn…”, murmurou outra hipótese relevante. Afinal, o que viveu nas últimas trinta e seis horas foi uma insanidade. Estava dentro dela! Logo, era aceitável e pertinente que tivesse delírios auditivos.
Holmes!, pensou. Ele escutou o que Quinn sussurrou. Ele era o responsável por fazer a dor de Quinn enfraquecer! Então, ele poderia lhe dizer que sim, realmente estava enlouquecendo! Que a ex-namorada era incapaz de sentir sequer cócegas no músculo que lhe bombeava o sangue para o corpo. Ela não tinha um coração! Todo mundo sabia disso! A torcida do Giants sabia! Por que ela, Rachel, ignoraria isso?
“Ok. Talvez eu tenha ignorado isso… Um pouquinho”, analisou, sem conseguir conduzir o pensamento mais adiante. E, após o que aconteceu (toda a história do casamento), admitiu que a ex-namorada, definitivamente, não era capaz de se apegar. E, ainda que doentio, estava aceitando essa realidade. Talvez, realmente, nunca mais pudesse ter Quinn como antes. Porém, se ainda pudesse tê-la, com todas as limitações dela, se conseguisse compreender e tentar se adequar ao imprevisível que a loira se tornou, talvez pudesse fazer aquele casamento louco em sem valor para a ex-namorada dar certo. Se ela não se lembrava dos bons momentos que viveram juntas ou não tinha certeza sobre eles, criaria novas memórias! Memórias não partidas em pequenos pedaços, misturados todos juntos, numa completa desconexão entre tempo e fato, e que, certamente, era o que deixava Quinn sem a certeza do que eram suas lembranças ou não.
“Eu estou enlouquecendo”, analisou. Tudo o que pensou não era razoável! Era insano! Quinn estava confortável dentro de sua armadura. A questão seria, talvez, não romper a armadura. Isso, pelo que entendeu, poderia ser ruim para Quinn. Deveria, sim, saber como se aproximar e tocar a pele de alguém que se escondia sob uma vestimenta de metal frio. Como poderia escorregar sua mão para alcançar um pouco de Quinn sem machucá-la? Com atitudes? Quais atitudes? Com palavras? Quais palavras? Eram muitas as perguntas… E a ideia de criar novas memórias…
“Deus, eu preciso pensar com clareza, porque eu conheço a Quinn… O que a faria menos inflexível?”, pensou, buscando em seus arquivos mentais algum momento em que conseguiu amolecer a loira e fazê-la provar que tinha um coração. Entretanto, antes, no colegial, Quinn era quase inacessível! E agora a situação era bem mais difícil. Quinn apenas se deixava alcançar quando queria. Ela controlava tudo com aquele jeito distante e sem meias palavras.
“Senhorita”.
A voz de Holmes a trouxe de volta.
“Ela só deve acordar amanhã”, informou, “eu posso lhe oferecer algo que a ajude a relaxar? Parece um pouco pálida”, observou.
A cantora o mirou como se ele fosse a sua tábua de salvação.
“Por favor, ajude-me”, pediu, realmente beirando o transtorno.
O homem caminhou até ela e a ajudou se sentar no sofá.
“Eu vou lhe trazer um comprimido de calmante natural. E chá. Talvez isso lhe acalme um pouco”, falou, preocupado.
Rachel travou-lhe a mão e não deixou o homem sair.
“Por favor, eu estou muito atarantada agora. E eu realmente preciso de um pouco de sanidade”.
O cuidador, atencioso, sentou ao lado dela no sofá e a fitou.
“Pois não, senhorita”.
“A dor dela…”, as três palavras foram interrompidas por um soluço, acompanhado de um choro que não pode ser contido.
Holmes não sabia o que fazer. Teve uma profunda vontade de acolher a cantora nos braços. Ela estava tão perdida e frágil!
“Senhorita Berry, ouça-me: provavelmente, amanhã ela não se lembrará. Eu sei o que ouviu. E eu posso lhe informar que só começou a acontecer há pouco tempo. Eu confesso que ainda não sei o que lhe dizer. Ela terá consulta amanhã com a Dra. Parker e talvez haja uma explicação”, comunicou, sereno.
“Eu pensei que fosse dor de cabeça”, ela secou as lágrimas e respirou fundo. “Porque, pela lógica, era para ser dor de cabeça! Por que Quinn não tem um coração…”, lamentou, muito confusa.
O homem tirou um lenço azul do bolso interno do paletó e o ofereceu a atriz que o aceitou, agradecida.
“Eu sei que você acha que eu devo ir embora…”, ela falou, dolorida, “que isso só está acontecendo por minha causa…”, respirou fundo, tentando recuperar um pouco da calma e da coerência.
Holmes suspirou.
Meditou sobre as palavras da atriz. E, realmente, se ela fosse embora seria muito melhor. Entretanto, era necessário esclarecer alguns pontos que, pensou, talvez fosse importante para a cantora…
“Senhorita, eu tenho muito afeto por Quinn. E acho que, quando tentou tirar a própria vida, ela fez mal, principalmente, a si mesma. Eu não quero parecer pleonástico. Por isso, deixe-me lhe dar o meu ponto de vista”, pediu e continuou, “por mais que as pessoas ao redor se considerem as principais atingidas, elas não foram! E eu digo isso no sentido físico e emocional da situação. Quinn entristeceu muitas pessoas, eu sei. Mas eu creio que as pessoas que deveriam estar ao lado dela após o acidente cederam rápido demais às dificuldades que se apresentaram. A Sra. Fabray, enquanto mãe, sofreu. Entretanto, onde está ela agora? Eu lhe direi: está em Lima, distante do poço sem fim de desajustes que as sequelas do acidente causaram na filha dela. Ela só aparece quando é inevitável…”, limpou a garganta, “onde está o Sr. Fabray? Está brincando de ser dono da Fabray&Advogados porque a filha dele está sobre a cama, inconsciente”, ele parecia procurar as palavras que lhe acalmassem a exasperação por Quinn e sua condição. “Eu não estou lhe dizendo que acho certo o que ela fez. De nenhuma maneira. Porém, desde que aconteceu, as pessoas passaram a tomar decisões por ela. E quando ela, recuperada, começou a dizer ‘não’, começou a se impôr de maneira pouco agradável, houve um distanciamento. Quando ela mostrou que não seria mais a Quinn com quem estavam habituados a lidar, eles foram se afastando. E, sabe o que é mais deprimente? Ela sabe! Quinn é consciente do quanto as pessoas não suportam a pessoa que ela se tornou após o acidente. Acho que o fato de ela ser assim, desligada emocionalmente, ajudou a ela”, riu pelo ridículo da conclusão, “evita que ela sofra quando lhe dão as costas. No máximo, ela ficará frustrada ou aborrecida e quebrará coisas, como fez mais cedo”, ele suspirou e retomou a linha de pensamento, “a Srta. Lopez foi um pouco mais teimosa na sua tentativa de ficar ao lado da Quinn. Mas só porque tinha esperanças, por mais que os médicos já lhe tivessem explicados várias vezes qual era a realidade, que a Quinn que ela conheceu voltasse com as memórias. E se foi, assim que notou que nem uma coisa e nem outra retornaram”, meditou um pouco, “a Srta. Bishop é uma mulher extraordinária. Muito atenta às necessidades de Quinn. Porém, ela tem uma característica, e eu acho que isso faz com que a relação delas seja duradoura, que é a de se ausentar por vários períodos de tempo. Então, nem sempre ela esteve por perto em momentos como esse, por mais íntimas que sejam e que ela conheça Quinn. E ela realmente conhece… O que eu quero lhe dizer, com tudo isso, é que a Quinn é só e somente uma pessoa cheia de cicatrizes. Uma pessoa que usa a frialdade para não mostrar que, inconscientemente, tem medo de ser magoada e abandonada. Por isso, por temer que algo mais aconteça, porque ela não tem pessoa alguma de verdade que a queira, que se dedique a tentar conviver com ela e todo o peso que ela pode ser, que eu lhe disse que ir embora seria melhor para vocês. Melhor para a senhorita! Quinn não vai melhorar. Se a família dela não foi e não é capaz de lidar com ela, por que você deveria? Por que se sacrificar por alguém que não lhe levará em consideração?”, ele a fitou. “Não é realmente fácil conviver com ela, no final das contas”, riu sem humor.
Rachel o escutava concentrada e com expressão atônita.
Ele voltou a falar:
“Talvez, eu não sei, eu só estou a conjecturar, afinal, Quinn é cheia de surpresas”, suspirou, “ela só tenha feito esse contrato para ter a ilusão de ter alguém permanentemente ao lado dela. Mesmo que ela lhe mantenha afastada. E não confie em você. Porque, definitivamente, ela não confia em você”, ele reforçou. E pensou antes de continuar:
“Ainda que as minhas conjecturas tenham pertinência, peço-lhe que se lembre: Quinn é uma grande ilusionista! É uma enganadora talentosa. Então, eu realmente não quero que as minhas palavras lhe induzam a algum tipo de ilusão amorosa”, observou.
A cantora ainda estava decodificando as palavras dele.
“Eu…”, murmurou. O que ele falou mesmo?
Todo o momento de há pouco dançava na cabeça da cantora como se fosse um mar de ondas revoltas. Porém, de dentro desse mar, pescou a pergunta mais importante no momento:
“Por que ela esquece?”.
Holmes a mirou.
“Ela esquece o quê?”.
“O que aconteceu há pouco? Quinn pediu para a tirar a dor do coração dela. Ela pediu a mesma coisa na noite em que assinamos o contrato…”, lembrou e ficou pasmada diante da própria descoberta. “Por que ontem parecia que ela não se lembrava?”.
O homem assentiu. E falou:
“Porque, provavelmente, ela estava sonhando…”.
“O quê?”, não acreditou. “Ela não estava sonhando! Não estava… Estava confusa, mas acordada”, teimou.
Holmes nada mais fez que encará-la.
Diante do olhar que lhe dizia “eu não estou brincando”, a cantora emudeceu.
“Um pesadelo… Ou uma recordação. A Dra. Parker já encontrou entre os sonhos da Srta. Fabray vários fragmentos de memória. Neste de agora, como no de ontem, ela parece acordada. Ela reage ao sonho como se fosse real. Compreende? E, no dia seguinte, ela não lembra. A mente dela mascara tudo. Como a pressão emocional está alta, o cérebro a está bombardeando de pesadelos”, explicou. “Ela não se lembra de muitos deles. E, quando lembra, são pequenos fragmentos que ela mesma procura ignorar porque não fazem sentido”, acrescentou.
“Ela sonhou que sentia dor no coração… Dor de coração partido”, murmurou.
“Senhorita, por favor”, o homem pediu, “não tome isso com um peso maior do que tem. Foi um sonho!”.
“Ou uma lembrança”, ela teimou.
Ele assentiu, mas…
“Uma lembrança que poderá ficar esquecida como a maior parte da memória dela! Não se culpe! Essa atitude não ajudará. Quinn precisa de alguém que seja capaz de lidar com quem ela é agora, sem a ilusão de que ela, um dia, voltará a ser como antes. Não voltará! Quinn não precisa de alguém com a culpa do tamanho de um boeing e que lhe abaixará a cabeça na hora que ela desejar”, analisou.
A cantora ficou surpresa com as palavras dele.
“E, claro”, ele acrescentou, “é bom ter um pouquinho de resistência emocional. Paciência é fundamental se quiser aderir e perseverar na manobra insana que Quinn criou para lhe provocar e mantê-la aqui”.
Rachel assentiu.
E pensou que deveria marcar uma consulta com seu terapeuta. E com a médica de Quinn. Claro, depois de comunicar a Quinn.
Riu-se. Burocracia nunca foi o seu forte. Odiava essa parte da vida. E Quinn estava começando a fazer de sua convivência diária uma burocracia! Tudo o que fosse fazer teria que passar pela análise dela. E, provavelmente, ela lhe impediria de ir conversar com a Dra. Parker…
“Maldita advogada…”, mastigou irritada, referindo-se a Quinn. E as palavras de Holmes, exaladas há poucos minutos, tomou-a: “é bom ter um pouquinho de resistência emocional. Paciência é fundamental”.
Meneou a cabeça e lamentou:
“Não se deve quebrar o coração de ninguém…”.
“Senhorita?”, o cuidador a fitou sem compreender o comentário dela.
Rachel falou, pensativa:
“Eu precisarei conversar com a Dra. Parker… E com os outros médicos da Quinn”.
“Isso não será necessário”, ele tentou apaziguá-la.
Mas ela não aceitou e ainda vaticinou:
“E você vai me ajudar”.
O cuidador sentiu uma certa opressão diante da pequena:
“Ajudá-la?”, ele arfou.
“Sim! A Quinn vai tentar me impedir”.
Ele assentiu, com certo alívio. Nem ele conseguiria passar pelo pente fino de Quinn…
“É… Isso complica um pouco as coisas”.
“Não se você mantiver a sua boca fechada”, ela foi até gentil no tom metralhado com o qual a resposta lhe saiu. “Desculpa”, murmurou, “mas eu preciso saber da saúde de Quinn. E sei que você está louquinho para falar para ela esta minha intenção. Entretanto, Holmes, se quer mesmo alguém ao lado dela, que a aceite como ela é, eu realmente preciso saber como agir com ela se eu pretendo ser essa pessoa”, justificou.
O homem piscou algumas vezes atônito.
Rachel falava muito rápido, analisou. E confundia a razão com essa característica. Mas ela era terrivelmente teimosa e forte! E, concluiu, ela realmente precisava estar a par de Quinn e de sua saúde.
“Ok…”, murmurou, pensando que ele deveria tomar o calmante natural, não ela.
Uma hora depois, ela estava deitada ao lado de Spencer, aconchegada a ele. O cansaço a tomou. E se deixou abraçar por ele. Entregou-se ao sono. E este foi como uma névoa escura.
Uma névoa que durou até a metade da manhã do outro dia.
Rachel acordou com pequenos soluços de Spencer, que ameaçava chorar.
Tonta, ergue-se, recostou-se nos travesseiros e o puxou para o colo e começou a niná-lo.
Uma batida leve na porta a fez atentar mais para a realidade.
Viu uma mulher de cerca de quarenta anos, bem-apanhada, vestida em uniforme de saia e paletó num cinza neutro.
“Bom dia”, ela falou num tom tranquilo e agradável aos ouvidos, “eu vim deixar o desjejum e a mamadeira para o bebê. Também há uma papinha de legumes, para o caso de o pequeno não apreciar a mamadeira”, comentou, simpática.
“Eu não a vi antes…”, a cantora comentou, ainda um pouco atordoada.
“Eu tenho direito a uma folga por semana”, avisou, “e eu a tirei ontem. Sou ajudante do Holmes. Pode me chamar de Agatha”. Deixou o carrinho e se virou para sair. Estancou e se voltou:
“A Dra. Fabray pediu para lhe avisar que a ida às comprar permanece de pé. Assim que voltar da consulta médica, ela virá lhe ver”. Sorriu e se retirou.
Rachel respirou fundo.
Quinn não estava doente? Por que a ideia de ir às compras ainda estava impregnada na mente desconforme dela?
Esperava, sinceramente, que a médica prescrevesse repouso por três dias para Quinn. Seria o tempo necessário para colocar a cabeça no lugar e tentar se localizar. Sentia-se como um náufrago! E seu oceano atendia pelo nome de Quinn Fabray. E ela queria ir às comprar para lhe escolher as suas…
Suspirou e fechou os olhos.
A cabeça dava voltas e voltas e parava na noite do dia anterior, quando a ex-namorada, fria e sem coração, implorou que ela lhe tirasse a dor de seu… Coração! Isto era tão insólito!
Apesar da explicação de Holmes, Rachel não se sentia satisfeita. Queria entender o que estava acontecendo. Queria entender como Quinn lhe parecia cheia de dor e sofrimento num instante e, no outro, era uma rocha impenetrável e fria. E, dessa vez, por mais que soubesse que Quinn sempre seria Quinn, havia detalhes que deveria acrescentar a esta regra: uma tentativa de suicídio. Uma amnésia. Uma mente que protegia a loira de sentir e sofrer.
Uma conclusão: a maior antagonista de Rachel não era Alex Bishop. A maior antagonista de Rachel era a mente de Quinn Fabray.
Era com ela, a mente, que precisaria lidar para se aproximar de Quinn.
Não seria fácil! Mesmo com tudo o que sabia dela, a advogada ainda era uma caixa da qual algumas surpresas (quase todas desagradáveis) saltavam e lhe deixavam sem rumo ou direção.
Talvez, realmente, o caminho para entender a loira fosse a Dra. Parker! Era esposa de Quinn agora. Deveria tomar pé da situação dela. Deveria conversar com os médicos dela e se inteirar de tudo e de como lidar com alguém tão… Instável! Quinn era tremendamente instável!
Sentiu um resquício de esperança. Talvez não fosse delírio querer trazer para fora um pouco que fosse da mulher que se ocultava sob a armadura forjada em frieza e distanciamento emocional. Mesmo que fosse exatamente da maneira que pensou: um pouco. E, talvez, esse pouco fosse o bastante.
“Minha consciência é inconsciente de si mesma, por isso me obedeço cegamente.”
— Clarice Lispector -
“Por que está fazendo isso?”, a Dra. Eleanor Parker, psiquiatra de Quinn, questionou, atenta.
Quinn emudeceu. Por que, ultimamente, estava a escutar essa pergunta com mais frequência?
“Quinn”, a mulher insistiu.
“Eu não sei…”, murmurou, “talvez para… Espantá-la! Acabar com qualquer esperança que ela tenha sobre mim. Afinal, é assim que funciona! Você magoa a outra pessoa, destrói os sonhos dela e ela passa a lhe odiar”, analisou, distante. Aliás, por que estava falando de Rachel?
“Ela destruiu os seus sonhos?”, a mulher a estudou.
A loira riu. Se Rachel havia destruído os sonhos dela? Bom, era possível! Afinal, elas iriam se casar e a cantora optou por Jesse St. James!
“Quinn…”.
“Eu não sei se me lembrei disso… Ou se sonhei. De qualquer maneira, eu suponho que ela deve, sim, ter desfeito os sonhos que talvez a Quinn que eu fui tenha tido alguma vez”, ficou a pensar que era uma resposta lógica. Ela e Rachel quase ficaram noivas. E ela tentou se matar…
“Provavelmente eu a quis mais do que deveria”, concluiu, desgostosa consigo mesma por causa da forte impressão de que foi fraca no passado.
“Quer que ela tenha medo de você?”, inquiriu, achando interessante o direcionamento da conversa e desejando que a paciente não bagunçasse a sessão como era, basicamente, de praxe.
Quinn pensou. Medo? Queria que Rachel lhe tivesse medo? Não… Isso não.
“Quero que ela me odeie. Quero quebrar o coração dela”, os olhos vagaram pelo local, “ela é muito teimosa. Ela não me deixaria em paz…”, analisou. “Talvez se ela perceber o quão mau eu posso ser, em qualquer sentido, ela finalmente ponha para fora todo o ódio que deve estar depositado dentro dela e desapareça… Como fez ontem”, lembrou do arroubo da morena e se sentiu satisfeita.
“E se ela não lhe odiar?”. Era uma pergunta pertinente para a médica.
A advogada sorriu e meneou a cabeça em negativa. Falou, com propriedade:
“Acredite-me, doutora, ela vai me odiar. E sabe como isso acontecerá? Pequenas doses de estresse diárias. Pequenas amarguras engolidas dia após dia… Dependendo de sua resistência, eu acho que ela, Rachel, transbordará de raiva entre dois e três meses. Porém, pode ser antes… Nunca se sabe”.
A médica inclinou o corpo para a frente, a fim de ficar mais perto da paciente. Quinn, por sua vez, afastou-se. A proximidade da médica a incomodava, embora fosse uma mulher bonita de se olhar.
“Precisa que Rachel lhe odeie porque você não consegue odiá-la. E, ainda que não se dê conta, não consegue afastá-la. Então, será mais fácil fazer com ela se afaste”. Eleanor tinha um sorriso discreto desenhado nos lábios carnudos.
Quinn percebeu. E riu com deboche. A médica pensava que sabia mais que ela? Nah! Ela não sabia.
“Por que acha que precisa dela por perto?”, a Dra. Parker insistiu.
A loira voltou a passear os olhos pelo consultório, fixando-se em nada em especial.
“Quinn”, a médica a chamou.
Quinn odiava quando ela a atormentava tanto com perguntas sem pé e nem cabeça! Olhou para a porta.
Os olhos de Eleanor seguiram os dela.
“Eu não tranquei”, avisou, imaginando que a paciente sentia vontade de sair dali antes do término da sessão, como já fez algumas vezes, “mas a segurança não lhe deixará cruzar a saída. E então, Quinn, eu vou trazer você de volta”, avisou, grave.
A advogada desviou os olhos da porta.
“Por que acha que precisa dela por perto?”, insistiu a morena de olhos escuros.
Outra vez os olhos de Quinn escorregaram, inconscientes, para a saída daquele consultório.
“Quinn”, a médica a chamou.
Quinn ponderava se Eleanor, realmente, avisou a segurança ou só estava blefando. Holmes já lhe esperava. Era só se levantar, caminhar até a porta, abri-la, sair e ficar livre daquelas perguntas aborrecidas!
Um pensamento estranho lhe veio: será que o cuidador estaria mancomunado com a médica? Por isso ela disse que a traria de volta?
“Quinn”, a médica estalou os dedos em frente ao rosto da advogada, que piscou algumas vezes, atordoada.
“O quê?”, perguntou, franzindo o cenho. Sentia-se meio desconectada agora.
“Por que acha que precisa dela por perto?”, a médica inquiriu, mesmo consciente de que a paciente estava um pouco deslocada.
“O que você e Holmes combinaram?”, questionou, interessada e completamente fora de contexto.
A médica precisava colocar Quinn de volta na conversa. Ela estava se desviando…
“O que você e ele combinaram?”, devolveu a pergunta para a loira.
Quinn riu, achando a médica engraçada tentando ser esperta. Retesou-se no sofá. Não diria para ela nada referente a Holmes. Eleanor, sim, deveria lhe dizer!
“Por que ele é pertinente na conversa?”, indagou, desconfiada.
“Eu lhe pergunto a mesma coisa. Foi você quem o citou”, Eleanor estava atenta.
A loira assentiu. Sim. Ela colocou o homem na conversa. Mas porque a Parker parecia segura de que realmente poderia obrigá-la a ficar ali, embora isso fosse ilegal.
“Acha que eu não sairei se quiser?”, perguntou, desafiante.
Eleanor se afastou e a mirou. Ela estava fazendo de novo. Escorregando…
“Quinn…”.
“Eu posso sair a hora que eu quiser. Não pode me obrigar a ficar se não for da minha vontade e não tiver um papel legal que lhe dê este direito”, reforçou, antes de silenciar.
A médica repetiu a questão:
“Por que acha que precisa dela por perto?”.
A loira meneou a cabeça. Por que Eleanor lhe perguntava aquilo?
“De onde tirou essa ideia de que preciso dela por perto?”, devolveu a pergunta, entediada.
Eleanor a estudou.
Questionou:
“Por que, então, ela está hospedada em sua casa?”.
Quinn ficou realmente surpresa nesse momento. Como a psiquiatra sabia disso? Não citou este detalhe…
O nome de Holmes piscou incandescente na cabeça dela. Era o único X9 que conhecia. Um dedo-duro exemplar! Um tipo na medida para se cortar fora a língua, analisou.
Voltou a atenção para a mulher e respondeu, distante novamente:
“O fato de Rachel passar uma ou duas noites na minha casa não significa que ela ficará ali ou que isso se tornará um costume”.
“Então, por que está deixando ela se aproximar?”, Eleanor gostava de forçar um pouco. Ela sabia que Quinn suportaria.
“Simples: atração e repulsão. Agora eu a atraio. Depois, faço com que sinta repulsa”, explicitou.
“Por quê?”, a médica estava muito interessada.
Mas a paciente não…
“Mudou a cor do batom? Este é mais claro um pouco”, comentou.
“Quinn, por que não pode deixá-la ir sem que seja necessário fazê-la lhe querer mal?”, insistiu a médica.
A loira a estudou e franziu o cenho. E perguntou muito compenetrada:
“Por que insiste nessa questão? Eu já respondi”.
Eleanor suspirou. Esta era a parte em que a conversa girava e girava sem contexto ou razão alguma. Porém, insistiu:
“Por que Rachel tem que lhe odiar?”.
“Está sendo repetitiva, doutora! Já me fez essa pergunta”, avisou, aborrecida.
“E você não me deu uma resposta satisfatória”.
“Talvez porque eu não tenha, agora, uma para lhe dar”, cuspiu, cheia de desprezo.
A outra mulher assentiu. E tocou em outro ponto:
“Fale-me dos sonhos e das lembranças”.
Quinn riu com nojo. E comentou com todo o enfado que aquele tema lhe causava:
“Detesto quando tenho uma consulta e você não desmarca”, fixou o olhar nos castanhos escuros da médica. Observou-a. Eleanor era uma mulher bonita. Madura, inteligente e inconscientemente sensual.
“Pare de fazer isso”, a psiquiatra falou, séria.
A loira não entendeu.
A médica ajeitou-se na poltrona e adotou uma pose empertigada, “ficar zanzando os seus olhos por mim. E se distraindo…”.
“Desculpe… Eu…”, a loira riu, “não consigo evitar! Você é uma distração”, falou e franziu o cenho antes de continuar, “acho que já lhe disse isso”.
Eleanor concordou. Quinn era “expansiva” sobre o que lhe ia pela cabeça quando se distraía. E já não se espantava quando a flagrava recreando-se nela naturalmente.
“Sobre o que falávamos mesmo?”, a loira perdeu o fio da meada.
“Fale-me sobre os pesadelos”, voltou a carga, concentrando-se nas mudanças de humor ou postura que a paciente pudesse apresentar diante das perguntas e do quanto pressionava por resposta.
Quinn mergulhou em si mesma. O que poderia dizer? Não tinha certeza sobre os pesadelos. Eles eram sonhos ou realidade? O que deveria responder?
“Quinn…”, a médica a chamou.
Voltou os olhos para qualquer lugar. Murmurou:
“Eu não sei… Não lembro… E não tenho certeza”. Sentiu-se irritada consigo mesma. Como alguém era incapaz de não saber se sonhava ou não? Se estava acordada ou dormindo? Agora? Estava mesmo com Eleanor ou era tudo criação de sua mente?
“Quinn?”, a médica a chamou.
Mirou-a antes de perguntar, séria:
“Eu estou no seu consultório ou estou dormindo? Eu estou acordada ou ainda em coma e ainda vou acordar na cama de hospital e ver que nada disso é real?”.
Eleanor se inclinou para frente e a fitou nos olhos.
“Você está acordada, Quinn. Não é sonho e você não acordará numa cama de hospital”.
“Por que ainda estou solta pelas ruas e não encerrada em um manicômio?”.
A Parker fez outra anotação no prontuário da loira. Voltou a atenção para ela.
“Pelo fato de se fazer esta pergunta. Por isso ainda está solta pelas ruas. Como eu e um monte de outras pessoas, Quinn. Você não enlouqueceu”, avisou.
A loira estudou a médica.
“Eu posso confiar em você?”.
Eleanor não pensou:
“Da mesma maneira que eu não confio em você. Agora que já se deu conta de que está lúcida, responda-me…”.
“Eu não me dei conta ainda”, observou.
Eleanor suspirou. Estudou a paciente. A questão agora era: até onde Quinn falava a verdade ou só estava brincando?
“Como se sente agora?”, inquiriu, cuidadosa e atenta.
“Como eu deveria me sentir?”, perguntou. “Há alguma opção de resposta certa?”, havia desprezo, outra vez, no tom de voz de Quinn.
Eleanor só precisava controlar a mania que a paciente tinha de se esquivar das perguntas com um talento bonito de se apreciar. Explicava bem porque ela era uma das melhores advogadas de Nova York! Sabia como distorcer um discurso simples e fazer deste um estudo filosófico que não teria fim e com o único objetivo de desviar a atenção.
“Não há uma resposta certa. Você sabe”, Eleanor procurava colocar a conversação nos trilhos outra vez. “Eu só quero saber como você está agora. Como se sente com a proximidade de Rachel?”.
Quinn se levantou do sofá e andou até a janela e observou a rua. E se questionou sobre a razão da médica insistir tanto na pessoa de Rachel. Falou, sem desviar os olhos da vista que tinha:
“Nós nunca falamos dela antes. Por que agora? Ela nunca foi importante. E agora você só quer saber disso”.
“Antes vocês não estavam próximas. E você nunca a mencionou”, justificou.
A advogada sorriu com o canto dos lábios.
“Sei. Eu devo acreditar na sua resposta? Ou devo interpretá-la assim…”, virou para mirar a médica que estava de lado na cadeira, a fim de vê-la, “eu não sabia qual o papel verdadeiro de Rachel em minha vida antes, porque as pessoas acharam que não era importante me contar”.
“Você sabe que eu sempre fui direta com você. O fato de não falarmos da Srta. Berry antes foi porque você não se recordava dela, apesar de saber que tiveram um envolvimento. Você nunca tocou no nome dela. Ela não era relevante”.
Quinn estreitou os olhos, cruzou os braços sob os seios e fixou o olhar na mulher.
“Ela não era relevante?”, riu com deboche.
A médica tratou de prosseguir:
“Entretanto, agora, há uma aproximação maior e você está proporcionando isso, Quinn. E sabemos a razão pela qual você se esqueceu dela tão drasticamente. E, por mais que você se lembre, você esquece. Você foi decepcionada. Não soube lidar com a situação. Por que acredita que conseguirá agora? Acha que o fato de não se lembrar de tudo ou de ter distanciamento da situação não lhe trará prejuízos”, indagou.
A loira riu com descaso.
“Eu ainda posso piorar? Uau! Incrível”.
“Quinn, quando você saiu do hospital, tentamos inseri-la aos poucos em contextos que lhe despertassem as lembranças. Mas sua mente é forte. Ela não cedeu e você não lembrou. Entretanto, assim que começou a ter contato com a Rachel sua memória do acidente retornou”.
“Não”, a advogada achou melhor esclarecer, “eu soube do acidente porque Wilhelm investigou. E eu acho que posso ter sonhado. Mas não com o acidente. Deste eu não lembro! Eu lembro de como a Quinn que eu fui se sentia feliz com a Rachel… E de como ela ficou… Acho que Quinn ficou vazia depois que Rachel não entendeu que ela a amava”.
“E agora que ela disse que sempre a amou? Como isso lhe faz sentir?”.
“Eu não sei… Em princípio, eu sinto nada. Embora ela seja bonita, é atraente de um jeito diferente e abusada. Gosto quando ela me desafia. Mas eu não me sinto capaz de gostar dela… Ou de qualquer outra pessoa. Eu simplesmente não consigo”.
“Mas sente atração por ela”, a médica precisava saber mais.
A advogada sorriu. Sim. Ela achava Rachel atraente. E, provavelmente, deveria ser muito sexual. Afinal, uma mulher dada a traições deveria ser insaciável! Isso era muito interessante…
“Acha que Rachel poderá ceder aos seus encantos”, a médica indagou.
“Talvez…”, murmurou, “o que não significa que eu cederei aos dela”, achou melhor pontuar.
Eleanor sabia disso. Entretanto, agora estavam a falar sobre a pessoa que fez sua paciente tentar uma insanidade. Era importante colocar atenção sobre este fato. Mesmo que Quinn não conseguisse sentir nada além do desejo físico pela cantora, houve um sentimento maior, que possivelmente estava sublimado sob as camadas de proteção que o cérebro da advogada criou. Isso era relevante!
“E Alex”, tocou em outro tema que achou importante. Afinal, a jornalista conseguiu adentrar ao mundo restrito de Quinn Fabray.
A loira fez cara de surpresa:
“O que tem a Alex?”.
“Ela sabe sobre o seu passado com a Srta. Berry. Como ela está lidando com a proximidade de vocês?”.
Quinn pensou sobre o que aconteceu com a amante na manhã do dia anterior. Respondeu, sem temor algum sobre o futuro da relação delas:
“Alex está bem”.
“Bem?”, a psiquiatra queria que a loira se aprofundasse mais no que as outras pessoas sentiam. “Quinn, ela não pode estar bem”, avaliou.
“Ela agiu com muita tranquilidade”, informou.
“Ela agiu assim porque acredita que nada de sério pode acontecer entre você e a Srta. Berry! Mas, e se acontecer? Você a magoará”.
A advogada caminhou até o sofá e sentou. Mirou a médica e indagou:
“E não é para isso que estou aqui? Para ser o poço de insensibilidade e frieza? Para magoar as pessoas e quebrar os corações desavisados?”, recostou-se, “eu nunca quis Alex comigo. Ela insistiu”, aclarou.
“E você cedeu”.
“Certo… Mas eu nunca prometi nada para ela. Eu sempre fui sincera. Eu sempre disse que não conseguia amar”. A naturalidade de Quinn sobre o tema era um ponto de grande interesse para a médica.
“Mesmo assim, Quinn, você precisa ser cuidadosa com ela! Não pode machucar as pessoas gratuitamente por causa de sua curiosidade”, analisou com atenção e tranquilidade.
Quinn meneou a cabeça. Por que estava ali mesmo? Por que teve um maldito pesadelo na noite anterior e se lembrava de praticamente coisa nenhuma! Outra razão para matar Holmes só nesta manhã. O que mais o dia lhe reservava?
“Eu não tenho a intenção de quebrar o coração dela”, avisou, com tédio.
Eleanor a estudou.
Quinn suspirou e resolveu que analisar as formas da médica seria muito mais interessante. Aliás, Eleanor, ao cruzar as pernas, mostrou-as mais delineadas e firmes! Estaria malhando? E as mãos dela? Adorava as mãos dela… Na verdade, tinha uma queda pelas mãos da médica. Ela nem precisava da médica, apenas das mãos dela…
“Quinn!”, a Parker estalou outra vez os dedos.
A loira a encarou, antes de soltar, com enfado:
“Sou eu”.
“Você não consegue amar porque não consegue confiar?”, Eleanor perguntou.
Uau! Quinn não estava preparada. A mente estava meio adormecida ainda.
“Perdão?”, falou e pigarreou.
A psiquiatra assentiu com a cabeça e repetiu a pergunta:
“Você não consegue amar porque não consegue confiar?”.
“Eu não sei se uma coisa está relacionada com a outra. Eu confio em Holmes, mas não o amo. Eu confio em Alex. Infelizmente, não consigo amá-la”, a resposta saiu sem reservas e com facilidade.
“E Rachel Berry? Você pode amá-la?”, a pergunta não era leve.
Quinn estudou a médica. Aquela pergunta era séria? Riu. E negou com a cabeça antes de proferir:
“Eu acho difícil. O que você acha, doutora?”, estava interessada.
“Eu acho que você deve ser cuidadosa com você e com ela. E que, talvez, devesse pensar que, apesar de tudo o que me disse e que já aconteceu até o momento, a traição e nem a dor que esta causou deixarão de existir porque a sua mente a sublimou. Você pode até não lembrar, Quinn, mas aconteceu. Está tudo armazenada aí dentro da sua cabeça, no canto mais escuro dela. É melhor começar a pensar sobre isso. Colocar sob perspectiva. Talvez, assim, suas dores amenizem e os pesadelos e toda a confusão se tornem menos agressivos. Precisamos trabalhar sobre a sua confiança nas outras pessoas, Quinn”, insistiu num tema que já havia insistido incansavelmente com a advogada. Entretanto, Quinn Fabray sempre escorregava ou desviava o tema.
Eleanor sabia que era uma boa médica. E conseguia lidar com os casos mais difíceis. Porém, Quinn lhe frustrava vez ou outra, sempre saindo pela tangente. “Principalmente a sua confiança em Rachel Berry”, achou por bem acrescentar.
“Não precisamos trabalhar nisso”, comunicou.
Eleanor ficou curiosa…
“Não?”.
“Não”, foi monossilábica. Para que se estender nesse tema?
“E por que não, Quinn?”, a médica continuava curiosa.
A advogada bufou.
“Porque Rachel Berry não me ama. Ela só precisa de uma pequena ajuda para se dar conta disso e desaparecer. Por que eu deveria perder o meu tempo para saber como confiar nela? Eu não preciso confiar nela. E para mim, toda traição começa com confiança”, foi taxativa.
“E confiar em você? Confia em si mesma? Confia no quanto há falta de lógica escoando de você quando o tema é ela? Você não é coerente, Quinn. E eu nunca a vi ser assim antes, dessa maneira, em relação a outra pessoa”.
Quinn franziu o cenho. O que Holmes andou fofocando para a médica?
“O linguarudo do meu cuidador lhe deu um relatório de tudo o que aconteceu, certo?”.
Eleanor não respondeu.
Quinn a estudou. Olhou para o relógio de pulso. Se a mulher não iria lhe responder, também ficaria muda. Tinha absolutamente nada a perder.
“Quinn”, a psiquiatra tinha a voz serena, “eu imagino que traição dói. E penso que você amou muito a Srta. Berry. E sei que você pode ter certa curiosidade sobre ela. A questão é até onde vai a sua curiosidade. Você a fez assinar um contrato de casamento. Por quê? Por que sentiu a necessidade de mantê-la, mesmo que à força, perto de você se poderia tê-la sem tudo isso? Ela é apaixonada por você”.
“Você não pode afirmar isso”, observou.
“Então por que acha que ela aceitou tudo sem discutir?”, inquiriu.
“Não é óbvio?”, a advogada achou a médica um pouco estúpida, “eu a ameacei”.
“Ameaçou, mas e se ela fosse embora? E se ela pagasse para ver?”.
Quinn sorriu.
“Doutora, eu fiz muito bem o meu papel de chantagista! Eu a assustei tanto que ela simplesmente parou de pensar! Ela assinaria embaixo da afirmativa ‘eu sou desafinada’ se eu mandasse! Você não a viu”.
“E você está satisfeita com a sua crueldade?”, indagou.
Os olhos da loira escaparam dos castanhos e o sorriso desapareceu.
“Quinn?”.
“Eu só fui eu mesma, doutora”, respondeu, “não sei porque as pessoas ainda se assustam”.
A sessão acabou após essa fala de Quinn. Deste ponto em diante, ela apenas cuidou de não responder realmente a nenhuma pergunta da médica. Rodeava, falava sobre outros temas ou se dispersava.
Eleanor suspirou e a liberou dez minutos antes.
Holmes viu o olhar fulminante de Quinn quando ela saiu da clínica e, em silêncio, abriu a porta do carona para ela.
“Vou atrás”, avisou, “acho que o senhor precisará do banco ao seu lado para descansar a sua língua grande”, e abriu a porta traseira e entrou.
O cuidador já passou por isso antes. Sem se alterar, fechou a porta e se dirigiu para o outro lado, onde entrou e, logo, colocou o carro em movimento.
Fez toda a viagem observando a patroa pelo retrovisor. Ela estava calada. Mas não por estar irritada. Ela estava pensativa. E poderia apostar que, apesar de ter que se esforçar muito, a Dra. Parker pareceu mexer com a advogada. Ela raramente saiu do consultório tão meditativa.
§§
Rachel caminhava pela sala de estar, sob o olhar de Agatha, ninando Spencer, inquieto por causa do sono que não conciliava. Era quase hora do almoço e, desde que acordou espantado, foi difícil tranquilizá-lo. Ela começou a cantarolar para o pequeno, à meia voz, a fim de acalmá-lo…
“You’re not alone… Together we stand… I'll be by your side… You know I'll take your hand… When it gets cold…”.
Quinn entrou na sala, vinda do consultório psiquiátrico com Holmes nos seus calcanhares, feito um furacão e estancou diante da mulher, a criança no colo dela e a música que era cantada com delicadeza e afeto.
A música adentrou-lhe aos ouvidos e a criança no colo de Rachel invadiu-lhe a retina.
Franziu o cenho e piscou com confusão. Uma sensação estranha a tirou de sintonia. Escorou-se de maneira desordenada em Holmes, que a sustentou.
Estava numa cama de hospital. A insegurança, a ansiedade e outros sentimentos misturados faziam com que olhasse apavorada para o rapaz muito alto ao seu lado. Finn! Ele lhe segurava a mão e a apoiava, mas não era dele o fruto de seu ventre!
Estava grávida.
Tinha dezesseis anos e era o seu primeiro ultrassom. Se Finn soubesse que o bebê que levava não era dele, que o enganou com o melhor amigo, Puck, sentiu que estaria ainda mais encrencada. Se pudesse fazer voltar o tempo, apagaria aquela maldita noite em que se embebedou e perdeu a virgindade com ele. Rezou para que a imagem no ultrassom não sustentasse um moicano onde se suporia ser a cabeça do nenê.
Sentiu-se duplamente aliviada ao saber que o seu bebê era saudável (e não carregava um moicano, por mais tolo que esse pensamento pudesse parecer). Mas teve medo também. Como cuidaria de uma criança? Como sustentaria a situação diante de todo o colégio e de sua família? Era assustador! E dá-lo para a adoção… Deus! Não era o que desejava do fundo do coração. Queria o seu bebê! Mas… Não fazia ideia de como as coisas aconteceriam! Sua vida virou de cabeça para baixo! Era complicado pensar agora.
Então, para piorar, ela e Rachel discutiram por causa do Finn e a gravidez saltou à baila e aquele garoto estranho, Jacob, publicou no jornal da escola o segredo que levava.
Ficou transtornada. Por que Rachel não a deixava e parava de querer lhe tirar o Finn? Precisava dele muito mais que ela!
O rapaz a sustentou quando contou o que aconteceu. Ele era a sua melhor saída…
Diante de tudo o que aconteceu, Rachel e os demais membros do Glee Club fizeram uma apresentação em que lhe demonstraram seu apoio.
Ela não estaria só, diziam. Teria sempre alguém ao seu lado a lhe segurar a mão. Alguém que não desistiria dela, não importava o quão difícil e complicado fosse. Ela só precisava acreditar e permanecer firme…
“Quinn”, a morena a chamou, assustada pelo olhar da loira que lhe pareceu atordoado e perdido.
A advogada sentiu as pernas fraquejarem e o cuidador a fez se sentar.
“Quinn?”, ele se ajoelhou em frente ao sofá em que ela estava e a estudou.
Ela fixou os olhos em Rachel. Passou a mão pela cabeça, ergueu-se e se aproximou da morena. Piscou algumas vezes e prendeu, novamente, os olhos dela nos seus e murmurou:
“Foi de verdade?”.
Rachel correu os olhos até o cuidador, confusa, e os retornou para a face cheia de interrogações da ex-namorada.
“O que, Quinn?”.
“Keep holding on… Cause you know we make it through… Just stay strong…”, murmurou, rouca e meio desafinada, o que lembrou da canção.
A cantora sentiu um pequeno fio de esperança no peito. A música a levou ao ponto em que a ex cheerleader estava mencionando e perguntando. Assentiu com a cabeça e respondeu baixinho:
“Foi…”.
Quinn não falou mais. Afastou-se três passos para trás e averiguou a cantora e o menino que ela ninava.
“Pode continuar…”, murmurou, referindo-se ao cuidado que a cantora tinha com o filho. E se afastou, a caminho do próprio quarto.
Rachel a seguiu com o olhar atordoado. O que aconteceu? Ela se lembrou! Por que reagiu assim?
Voltou-se para o cuidador.
Este comentou:
“Acho que ela teve uma consulta difícil com a Dra. Parker e que está um pouco…”, pensou em que palavra usar. Não encontrou nenhuma diferente…
“Ela está tentando encontrar o próprio eixo”, explicou.
A cantora se sentiu um pouco aliviada, e atordoada. Não haveria compras com Quinn. E nem desfile de lingeries para o deleite da loira. Pelo menos, não por agora… Entretanto, a memória dela parecia voltar. E trazia ora dor, ora confusão.
“Como ela ainda se mantém sã?”, inquiriu, preocupada.
Holmes não respondeu.
Ele não sabia.
“Costumava existir uma torre acinzentada no mar.
Você se tornou a luz do meu lado obscuro.
O amor ainda é a droga que me deixa alto sem o uso de pílulas.
Mas, você sabia que quando neva os meus olhos se tornam maiores,
e a luz que você emite pode ser vista?”.
— Seal em Kiss From a Rose -
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