Sine Cordi
67 CAPÍTulo 67 - םז
Notas iniciais
“Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento”.
— Paulo Leminski em Parada Cardíaca—
“Senhora minha esposa!”, Quinn exclamou em tom brincalhão. Ofereceu o braço para a judia, que o aceitou, ainda meio tonta, e a levou para dentro do escritório, sob o olhar atento de Holmes.
“Que coisa mais feia escutar atrás da porta”, ela sussurrou no ouvido da cantora.
Rachel descobriu que se podia morrer duas vezes neste momento.
O hálito morno e cínico que escapou por entre os lábios sorridentes de Quinn a deixaram arrepiada e a ter ainda pequenas descargas de prazer que lhe deixavam a pele com os pelos eriçados.
“Não se acanhe, minha senhora”, voltou a falar, sorridente, “é só bater à porta e perguntar se pode participar da conversa. Você terá chances iguais de receber um sim ou um não. Simples e muito mais educado”, levou a morena até o sofá e fez sentar ao lado de Holmes. Mirou-a.
Rachel lhe sustentou o olhar. E viu o tanto de diversão que havia ali.
“Está sendo bem tratada?”, perguntou, sem o devido tom de importância que a pergunta deveria ter.
A judia meneou a cabeça. Seria muito difícil… O que foi que Holmes lhe disse mesmo? Ah… Claro! Como poderia esquecer? “Ela só quer lhe provocar! Ela quer saber até onde vai a sua paciência! Ela vai lhe provocar até o seu lado mais feio vir à tona! Até que a odeie. Então, depois disso, se dará por satisfeita! Ela pressiona até a pessoa não aguentar mais…”.
Era o que Quinn estava fazendo agora. Pressionando…
Rachel suspirou e se ergueu.
Ficaram quase cara a cara. Apenas a altura era o que deixava a judia em pequena desvantagem.
“Eu pensei que você tinha tudo sob controle! Deveria saber se estou ou não sendo bem tratada”, espetou.
A loira rolou os olhos e os estacionou sobre Holmes. Pôs a mão direita na cintura e levou o indicador da esquerda aos lábios e deu três pancadinhas leves, antes de comentar em voz alta para o homem, como se fosse um segredo:
“Uau! Ela é brava”.
Não se sabe bem a razão. Mas o cuidador não conseguiu conter a gargalhada diante da situação. E nem Rachel. O fato insólito e aparentemente sem explicação é que os dois começaram a rir descontroladamente. Como aconteceu com o Jesse, quando viu um homem ser atropelado…
Rachel deixou o corpo cair sobre o sofá e gargalhou às lágrimas. Uma catarse!
Holmes ria porque era absurdo.
A advogada olhou de um para o outro. Onde estava a graça para rirem tanto? Procurou analisar a situação com lógica. Mas não se aprofundou muito. Ainda sentia a cabeça meio oca. Assim que, após breve observação, concluiu, em tom sarcástico:
“Provavelmente é alguma reação ao excesso de chá…”.
Caminhou até a escrivaninha, pegou uma de suas cigarrilhas, levou-a aos lábios e a acendeu. Tragou e soltou a fumaça pelo ambiente, sem se importar se incomodaria ou não a sua “esposa”. Virou e encostou-se ao móvel, filmando o cuidador e Rachel de maneira concentrada, enquanto levava outra vez a cigarrilha aos lábios e tragava. Virou o rosto para cima e soltou a fumaça devagar, fazendo argolas com a fumaça que subiam pelo ar e se desvaneciam lentamente.
Então o silêncio aconteceu.
Ela voltou a atenção para o sofá.
Levou a cigarrilha outra vez aos lábios e tragou.
Rachel a observava aturdida.
“Sr, Holmes”, começou, antes de virar a face para cima e soltar outras argolas com a fumaça e parecer estar realmente se divertindo com aquilo, “por que não me deixa um pouco a sós com a minha esposa”, mirou o cuidador, “estamos em lua de mel”, informou.
Rachel sentiu todo o corpo retesar. O que Quinn queria dizer com aquilo? Escutou a voz de Santana dentro da cabeça:
“Quinn é… Como eu posso lhe explicar de maneira clara e simples? Ela é como uma serpente… Uma serpente rara! Você sabe que ela é perigosa! Você já experimentou do veneno dela antes! Porém, sempre que estão a sós, ela crava os olhos verdes nos seus e lhe aprisiona. E, sem desviar o olhar, ela serpenteia até você. Ela faz questão de ficar bem perto. E então ela se enrosca inteira em você, bela e sedutora. Você sabe que nada de bom vai resultar deste encontro, mas ela é tão… Tão ‘filhadaputamente’ linda que você simplesmente não consegue reagir. Então ela lhe toma inteira para, depois, olhar no fundo dos seus olhos e rir do quão fraca ela pode lhe deixar”.
Os lábios de Rachel foram se afastando gradualmente…
Oh, merda!, pensou. O que Quinn estava maquinando? Não estava preparada e nem com espírito para algum tipo de… De que, exatamente?
“Holmes…”, a advogada cantarolou até o cuidador se dar conta de que deveria sair e deixá-la a sós com a… Esposa… Isso soava estranho.
Ele a olhou, ainda um pouco tonto pelas palavras maliciosas dela. Lua de mel?… Recuperou-se. E se levantou.
“Eu estarei na cozinha, manejando o jantar”, avisou e, após dar uma olhada de Quinn para Rachel e desta para Quinn outra vez, saiu.
A cantora se aprumou no sofá e olhou para ex-namorada.
Quinn estava tão relaxada! E, apesar de abatida, parecia estranhamente bem. Não lembrava a mulher que chorou de dor na noite anterior e nem a que teve um ataque de raiva e quebrou coisas nesta manhã. A advogada era toda uma explosão de emoções desencontradas e aturdidas.
A loira jogou a cigarrilha dentro do cinzeiro e cruzou os braços na frente do corpo, fitando a judia. Os olhos observadores e com um brilho que não dava para classificar. Era difícil saber o que ela pensava. Quinn era uma incógnita. Um labirinto difícil de atravessar sem se perder muitas vezes.
“Quer sair correndo, Rach-Rach?”, perguntou, sem demonstrar emoção. Desde seu ponto de vista, a “esposa” parecia assustada.
A cantora analisou a pergunta. E se fez outra: se a questão de Quinn fosse uma proposta, sairia correndo?
“Não”, retorquiu anestesiada.
A advogada caminhou até ela devagar, observando-lhe as reações. E achou que, apesar do olhar assustado, Rachel Berry estava suportando bem a situação.
“Como se sente casada novamente?”, sorriu enquanto perguntou.
Essa pergunta, sim, deixou a cantora insegura.
Quinn sorriu mais. Encontrou o ponto nevrálgico de Rachel no momento.
“Não parece muito feliz. Eu entendo você…”, murmurou e sentou ao lado da cantora e se chegou até ficar bem perto. Virou o corpo na direção dela e se colocou bem em frente, sendo a única coisa que a judia poderia olhar. Rachel se sentiu encurralada. E era exatamente esta a intenção da advogada. “Casar em segredo…”, murmurou a loira, “sem a presença alentadora de papai LeRoy e pai Hiram. Sem o apoio de Kurt, seu melhor amigo… Deve ser frustrante”, opinou, passeando os olhos pela face da judia.
Rachel lhe seguia os movimentos como se hipnotizada.
A mão esquerda de Quinn foi até a ponta dos cabelos da morena e enrolou, delicadamente e displicentemente, os dedos nos fios sedosos. Fixou os olhos verdes nos castanhos. Rachel estava tão atraente, analisou. A respiração curta… Seria medo ou excitação? Estava na dúvida.
Por sua vez, Rachel Berry sentia-se paralisada. Não sabia o que passeava pela mente maliciosa e sem regras da ex-namorada, apesar da provocativa fala que soltou há pouco. Sentia-se assustada e excitada ao mesmo tempo. A maneira como elas estavam próximas era tão… Boa!
Bateu-se mentalmente. Não deveria gostar da situação. Por mais que a proximidade de Quinn fosse… Tentadora! Aquilo não era saudável.
Entretanto, quando a face da ex-namorada se aproximou da sua e os lábios dela lhe escovaram a boca, perdeu a linha de raciocínio.
“Tão linda”, a loira murmurou.
“Quinn…”, chamou, num fio de voz.
“Minha atenção é toda sua, Rach-Rach”, a ex cheerleader roçou a ponta do nariz na face da cantora.
“Eu acho que precisamos conversar sobre…”, perdeu a voz quando a boca morna da loira provou-lhe por sob a mandíbula.
Engoliu em seco. O ar ficou entre a boca e o pulmão. O ventre contraiu.
Merda… Pensou. E de novo perdeu o raciocínio que começava a se alinhar quando a mão esquerda de Quinn soltou-lhe os fios dos cabelos presos entre os dedos e lhe escorregou pelo colo, roçando-lhe sutilmente o seio.
Reprimiu um gemido.
“Quinn…”, quase o soltou. Foi uma grande vitória que isso não acontecesse.
“Sim, Rach-Rach…”, a loira murmurou, com a voz abafada pelo pescoço moreno por onde arrastava o nariz e os lábios. A mão experimentando a curva da cintura da judia.
“Precisamos…”, a diva respirou com cuidado, “conversar sobre os termos deste casamento”, falou, mesmo sendo um esforço hercúleo, pois Quinn se refastelava em seu pescoço, arrepiando-a inteira.
Rachel sentiu que a loira estancou com o rosto enterrado entre o seu pescoço e o ombro. E outro arrepiou a tomou quando a ex-namorada suspirou em aborrecimento.
Quinn se endireitou e mirou a morena com desagrado.
“Eu pensei que você não tivesse nenhuma dúvida, Rach-Rach. Eu lhe perguntei várias vezes se eu estava sendo clara”, atalhou. E fixou os olhos nos lábios da judia.
Rachel se ajeitou mais, tentando se afastar um pouco. Estava complicado organizar os pensamentos.
E Quinn aproveitou e se acomodou melhor, quebrando quase o espaço completo entre elas.
Certo, pensou a morena, isso não vai ser muito fácil…
“Eu estou… Estou pouco à vontade aqui”, gaguejou.
A loira fez cara de surpresa.
“Mesmo? E o que eu posso fazer para remediar a situação”, indagou, descendo o olhar até o colo da cantora e percebendo como o peito dela subia e descia com certa dificuldade.
Rachel franziu a testa.
“Eu estou pouco à vontade aqui na sua casa, Quinn”, esclareceu.
“Oh”, o olhar verde ascendeu até os marrons. “Eu pensei que você estivesse pouco à vontade com a nossa proximidade…”, falou com descaro.
Era certo que a cantora estava (muito) acossada pelo corpo e a presença sedutoramente cínica da ex-namorada, mas não deixaria que ela soubesse. Seria dar mais armamento para ela. E armamento pesado.
“Eu preciso das minhas roupas e… Eu tenho minhas coisas e… Eu terei apresentações no final de semana… Minha vida está na minha casa”, conseguiu ser coerente.
Quinn sorriu.
Afastou-se um pouco e assentiu:
“É claro que está, Rach-Rach”.
“Então, enquanto você não decide quem me vigiará, por que não traz algumas das minhas coisas para cá? Eu posso… Posso fazer uma lista para Maria… Ela saberá onde encontrar tudo… Ou poderemos, eu e você, irmos até lá e pegar…”, a cantora sugeriu.
“Certo…”, analisou a loira, com o olhar distraído em algum ponto a frente. “Pegar coisas suas e trazê-las para cá”, murmurou. “Ok… Mas apenas o essencial”, mirou a face da morena, “acho que eu não vou às comprar há muito tempo…”, divagou e tomou uma decisão:
“Iremos às compras amanhã”, sorriu divertida, “eu vou gostar de escolher suas lingeries…”.
Rachel sentiu a forte revoada que suas borboletas deram dentro do estômago.
Pregou os olhos nos verdes. Quinn era tão filha da puta! Estava tentando enlouquecê-la conscientemente! Mas se ela estava pensando que não seria capaz de aguentar, estava errada.
“Acho que pode ser muito… Intenso”, tentou sorrir, mas seria demais.
Quinn riu da fala da cantora.
“Intenso?”.
A judia perdeu o prumou.
A loira meneou a cabeça e explicou:
“Não será intenso, Rach-Rach. Será divertido”.
Okay, analisou a cantora, talvez Quinn pudesse confundi-la um pouco. Seria divertido… Divertido para Quinn vê-la em roupas íntimas, recreando-se enquanto sugeria que tipo deveria lhe assentar bem ou não. Seria divertido porque a veria em desfiles de vestidos e toda a sorte de coisas que ela, Quinn, decidisse que seria divertido comprar.
Odiou-a.
Ela era monstruosa e arrogante! Ela era venenosa e maledicente! Ela era tudo o que Santana, Kurt, Blaine e Jesse lhe disseram! Não! Ela era pior! Era inclassificável! Queria cuspir-lhe a cara! Desmanchar aquele sorriso cínico e cheio de si!
“Eu nunca deveria ter quebrado o seu coração…”, murmurou.
Quinn se afastou um pouco mais. Do que Rachel estava falando?
“Remendar um coração tão quebrado quanto o seu é quase impossível”, continuou, sob o olhar atento da ex-namorada. “Eu disse quase impossível, Quinn. Quase não significa impossível. Talvez haja algum resquício de você que dê para colar”, soltou as palavras como se cantasse uma música de ninar.
A advogada a esquadrinhou. E se perguntou se a cantora estava tendo outro surto, como o de há alguns meses. Qual foi o nome que a doutora deu? Dissonância Cognitiva! Era o que estava acontecendo agora?
“Rachel, acho que toda a emoção da noite passada lhe deixou estressada”, ergueu-se e caminhou até a escrivaninha e se voltou para a cantora. Encostou-se ao móvel, cruzou os braços na frente do corpo e sugeriu: “por que não se recolhe? Eu pedirei que Holmes lhe preparar algo leve para o jantar e lhe sirva no quarto. E, claro, algo para o seu bebê também”.
A morena se levantou e deu apenas dois passos em direção da loira e estancou.
“Eu assustei você, doutora Fabray?”, interrogou, com um interesse que seu instinto de autopreservação dizia ser perigoso.
A loira inclinou o rosto lindamente e escrutinou com olhos maliciosos a morena, desde o alto da cabeça até os pés e de volta outra vez.
“Ainda não…”, murmurou, sorrindo.
“Mas não gosta de falar de coração quebrado”, espetou.
Quinn endireitou o rosto e a malícia dos olhos deu lugar a indiferença.
“Eu pensei que você estivesse surtando, Rach-Rach”, explicou, “estávamos falando sobre as compras que faremos e você soltou, do nada, que nunca deveria ter quebrado o meu coração. Eu tenho aversão aos meus surtos. Quiçá aos surtos alheios”, a voz saiu realmente enojada.
“Surtando? Eu surtando?”, Rachel ficou surpresa. “E por que eu surtaria? Por que o pai do meu filho e melhor amigo morreu estupidamente há um mês? Ou por que você criou uma história em que eu planejei o assassinato dele e me empurrou um contrato de casamento goela abaixo?…”, a irritação escapou um pouco.
“Não foi goela abaixo”, cortou, “eu lhe dei a chance de sair e falar com seus pais ou quem quer que fos…”.
“Chega, Quinn!”, gritou num desespero que fez calar a loira. “Eu sei o quanto você não é uma pessoa boa!”, cuspiu, “não pense que está me mostrando um lado seu que eu não conheço! Está errada! Eu conheço você! Essa sua ameaça é como mais uma raspadinha na face! Está ardendo agora e me congelando. Eu mal posso abrir meus olhos nesse momento. Mas sabe o que eu farei? O que eu sempre fiz! Irei até o banheiro e me lavarei. E trocarei a roupa suja por outra limpa. E continuarei o meu dia como se este ato de pura covardia fosse natural em todo ser humano”, parou, a respiração agitada, a raiva e a decepção estampadas na face. O olhar irritado.
Quinn meneou a cabeça.
“Cristo, Rachel! Você deveria, realmente, ir para o seu quarto”, falou, num tom inacreditavelmente chocado.
A judia sorriu pequeno. Assentiu.
“Tem razão, Quinn”. Ela não sabia de onde conseguiu falar com tanta naturalidade. Estava uma pilha! Parecia-lhe que, realmente, todos os acontecimentos que lhe estressaram nos últimos meses transbordaram com a pequena provocação da loira.
Respirou fundo e caminhou até a “esposa” e lhe deixou um delicado beijo na mandíbula.
A surpresa fez Quinn se retesar. E levar a mão ao local, que formigava.
“Boa noite, senhora minha esposa”, murmurou Rachel, antes de sair.
Quinn observou a porta se fechar e, quando se viu sozinha, sorriu. Rachel estava no jogo! Era teimosa e tinhas arroubos de coragem de se tirar o chapéu. Até onde ela iria? O que ela suportaria? O que a faria estalar?
Caminhou até o sofá e se jogou nele, deitando-se. Suspirou e mirou o teto. E se perguntou:
“Por que tanto, Quinn?”.
Não compreendia. A presença de Rachel ali, perto dela… Não se compreendia.
“Se eu pudesse, pegava a dor; colocava a dor dentro de um envelope e devolvia ao remetente”.
— Mario Quintana -
Quinn abriu os olhos num golpe.
Levou a mão ao peito.
Entrou no hall do prédio onde Rachel morava. Sentia-se especialmente feliz. A madrugada deste dia era especial, pois completavam seis anos de namoro. Achou que esta era a data perfeita para pedi-la em casamento. A morena partiria em uma turnê pela Europa e ficariam bastante tempo afastadas. Entretanto, fez planos de visitá-la sempre que houvesse uma folga. E teria muitas! A seu pedido, o Estúdio estava reorganizando sua agenda para que pudesse ter mais tempo livre com Rachel.
Romero, o porteiro, avisou que interfonaria para a cobertura, a fim de comunicar que ela estava ali.
“Não”, murmurou para o homem. Onde foi parar o romantismo dele? Ele não interfonaria para Rach! Era uma surpresa que faria para a namorada! Esteve fora por dois dias, trabalhou duro para dar conta de suas obrigações e contrato para voltar mais cedo para casa. Não seria bom que ele a estragasse. Que sabotasse todo o seu planejamento.
O homem ainda tentou insistir, mas não deixaria. E não deixou! Se ele estragasse sua noite com Rachel, faria uma reclamação formal.
Sorriu quando percebeu que ele cedeu e foi em direção aos elevadores. Lembrou da música que lhe voltava à cabeça de hora em hora… Don't Let Me Down, dos Beatles. Cantarolou… Essa música era muito boa! E a letra tinha um significado especial. Sorriu.
Parou de cantar assim que chegou à cobertura.
Entrou no requintado apartamento.
Onde Rachel estava? Ela deveria estar ali, na sala, lendo ou ensaiando as músicas da turnê.
Havia silêncio…
Foi até a cozinha. Maria saiu? Não era seu dia de folga… Ou era? Nunca sabia mesmo a escala de serviço dela.
E se Rachel estivesse no estúdio? Muito provável… Porém não a encontrou ali também. E se ela estivesse dormindo?
Um murmúrio rouco lhe chegou aos ouvidos. Apurou-os.
Era som de gemidos… De onde eles vinham? Do quarto?…
Respirou fundo. Sentiu a estranha sensação de medo tomá-la, mas se obrigou e caminhou até lá.
Chegou perto da porta e estancou. Estava entreaberta…
A voz de Rachel, num murmúrio excitado foi audível o bastante.
Meneou a cabeça.
Por que ela estava lhe fazendo isso?
Perguntou-lhe várias vezes: “Rachel, tem certeza de que ficar comigo é o que você realmente quer? Eu não quero sofrer e nem lhe fazer uma pessoa triste”.
E Rachel lhe fez juras. Prometeu que aquele amor nunca teria fim. Assegurou-lhe que nunca lhe magoaria ou faria sofrer.
Olhou ao redor.
Por que Rachel estava agindo com ingratidão? Só lhe deu o que tinha de melhor! Enterrou a Quinn Fabray que foi no colegial! Só tentou ser uma pessoa melhor para ela e por ela…
Com a mão trêmula, empurrou a porta.
Então, tudo era só branco.
Mas um branco com dor…
Rachel acordou com o som de lamentações.
Spencer estava tendo pesadelo?
Sentou afobada na cama, acendeu a luz do abajur e examinou o filho. Não. Ele estava bem…
“Droga”, reclamou, sentindo a confusão do sono lhe turvar a razão.
Apagou o abajur e voltou a deitar. Suspirou.
“Tire essa dor…”.
A voz longínqua, quase um murmúrio onírico.
“Deus, arranca essa dor!”.
Um grito desesperado.
Abriu os olhos num golpe e se sentou, tesa. Era a voz de Quinn!
Acendeu outra vez a luz do abajur, reexaminou o filho para ver se ainda seguia dormindo e se levantou. Pegou o penhoar e vestiu as pressas e, também assim, saiu do quarto seguindo o som do choro. Chegou ao escritório, onde encontrou a advogada sentada no chão, aos prantos, encolhida e Holmes a preparar alguma solução química numa injeção.
“Arranca… Arranca fora essa dor…”, Quinn implorou. E implorou com tanto desespero que Rachel se comoveu. E contra toda a raiva que sentia da ex-namorada neste momento, correu até ela e a tomou nos braços, tentando apaziguá-la.
“Acalme-se, Quinn. A dor já vai passar”, acariciou a cabeça da advogada com cuidado. Não queria lhe causar mais sofrimento.
Quinn tentou afastá-la, enquanto repetia:
“Arranca essa dor…”.
“Já vai passar…”, sussurrou, doce.
Quinn tentou levar a mão para se distanciar, mas não teve muita coordenação. Tentou de novo, num inquietante debater sem sincronia. Rachel a estreitou e pediu-lhe calma.
A loira voltou a suplicar que lhe tirassem a dor.
Não era uma cena bonita de se ver. Era medonha e incoerente.
Até mesmo meio deprimente.
A cantora mirou o cuidador com desespero. Por que ele demorava tanto para preparar aquela injeção? Quinn sofria em seus braços e parecia fora da realidade.
Ele se aproximou e, com força medida, tomou o braço de Quinn e o sujeitou. Espetou a agulha com precisão na veia que se deixava à mostra sob a pele pálida e empurrou o líquido para dentro da corrente sanguínea da patroa. O efeito seria quase imediato.
Rachel suspirou com alívio quando Quinn murmurou, sem se debater:
“Tira fora a dor…”.
“Já vai passar…”, sussurrou no ouvido da loira, enquanto a estreitava com cuidado.
“Tira fora a dor… Do meu coração…”, a voz de Quinn morreu.
A judia retesou inteira.
“Eu quero ser exorcizado
Pela água benta desse olhar infindo
Que bom é ser fotografado
Mas pelas retinas desses olhos lindos”.
— Martinho da Vila em Disritmia (trecho)—
CONTINUA.
Fale com o autor