Sine Cordi
47 CAPÍTULO 47 - םז
Notas iniciais
“A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente.”
– Albert Einstein -
Rachel assitia a TV no quarto, ao lado de Spencer – que não quis ir à escola para ficar em companhia da mãe – e dos pais, empoleirados na confortável cama da cantora, quando o noticiário exibiu, em uma de suas matérias, a reportagem sobre o caso de Raul Steven Street.
Viu o jornalista dar os detalhes dos acontecimentos que pareciam meio surreais, enquanto imagens do empresário sendo levado sob custódia, a de populares opinando sobre o comportamento dele e do quanto a advogada, Dra. Quinn Fabray, foi vital para a condenação do homem, e da própria Quinn a sair do tribunal, em silêncio e sem mirar as câmeras que a enfocavam de vários ângulos, escoltada por Holmes, Russel, Santana e policiais até o carro.
“Ela venceu?…”, a voz saiu rouca, baixa e débil.
Hiram sorriu com todos os dentes.
“Venceu! O Street perdeu a razão e saltou para cima dela. Ele assinou a própria sentença”.
Rachel demorou a decodificar as informações. Estava lenta. Juntar todas as palavras que escutou e casa-las com as imagens da TV e organizá-las de maneira lógica levou um tempo substancial.
Então, fitou o pai e perguntou, ainda que não demonstrasse uma preocupação tangível:
“Ele a machucou?”.
LeRoy tomou a resposta:
“Não, Estrelinha! Ela está bem. Apenas o próprio assassino conseguiu o feito de machucar a si mesmo”, riu.
Rachel assentiu e voltou a mirar a TV.
“Eu quero ve-la…”, disse, como se o desejo fosse somente uma palavra solta e sem contexto.
“Tentarei falar com ela”, Hiram prometeu, de pronto.
A judia sorriu e voltou os olhos para o filho. Puxou-o, meio aos trancos e barrancos, para si e o manteve preso. Aspirou o cheiro gostoso dos cabelos dele e apreciou-lhe a beleza.
Uma frase, sem coerência aparente, soou na cabeça e fez eco nos ouvidos dela: não é filho de Quinn Fabray.
Estudou o menino até franzir o cenho em sinal claro de concentração.
Não… Ele não era filho de Quinn Fabray.
Ele era seu filho.
Seu filho e de Jesse.
Jesse, o homem com quem traiu a Quinn.
Jesse era o homem que babava.
E roncava.
E ela não se deu conta antes.
Ela não se deu conta do erro que estava a cometer quando se deu para ele.
Ela não se deu conta do quão foi uma hedonista a transbordar egoísmo.
Então a Quinn, de quem o garoto a quem amava mais que a si mesma não era filho, perguntou coisas que ela não queria responder.
“Por que eu não queria?…”, perguntou-se, tentando encaixar as informações como se fossem pequenas peças de um quebra-cabeça composto de cinco mil peças.
Hiram e LeRoy colocaram a atenção nela.
Estavam preocupados.
Preocupados e desejosos de entender o motivo de a filha, vira e mexe, fazer perguntas soltas. Perguntas que, em verdade, pareciam menos sem lógica para ela do que para eles.
“Rachel”, Hiram a chamou.
Ela ainda estava presa aos pensamentos, tentando concatenar as informações.
“Rachel”.
Pulou de susto ao sentir-se tocada por uma mão no ombro.
Olhou aterrorizada para quem a apavorou e soltou um suspiro de alívio ao reconhecer o pai.
“Estrelinha, você está bem?”, inquiriu grave.
“Eu…”, ela pensou sobre a pergunta.
Estava bem?
Aliás, o que era estar bem mesmo?
Perdeu o conceito e o significado da frase.
Olhou para a janela…
Onde estavam as nuvens?
Elas ainda corriam para o lado oposto ao que a bússola apontava?
Se, nesse instante, abrisse uma garrafa com água, o líquido escorreria para o chão?
Havia gravidade?
Ainda não tinha essa certeza.
Verbalizou:
“Eu… Não sei… O que…”.
LeRoy, após um suspiro, chamou a atenção da filha para si e falou, forte e imperativo:
“Foque-se, Rachel! Seu pai e eu queremos saber se está bem. Você está?”.
As palavras dele sacudiram-lhe o cérebro e conseguiu relaciona-las e entendeu a pergunta, ainda que cada palavra tivesse as letras que a compunham com desenhos e formas distintos entre si. Assentiu e verbalizou, em incongruência entre a linguagem corporal e a verbal:
“Não sei muito bem…”.
“Por que você não sabe?”, Hiram retomou a palavra.
Os olhos da cantora saíram de um pai para o outro.
“Por quê?”, repetiu o cerne da questão.
Por que…
Por que o quê mesmo?
“Pai… Eu…”, meneou a cabeça.
Deus, Rachel!
Rachel Berry!
Ouviu a própria voz.
Estava chamando a si mesma?
Rachel Berry!
Rachel Barbra Berry!
Ouviu a sua voz outra vez.
Porém, estava quieta, calada, muda.
Quem a chamava, se a voz era a sua, mas a boca estava cerrada?
Rachel!
Olhou de um pai para o outro.
A voz era, realmente, a sua própria voz.
A sua voz calada.
Uma voz calada que gritava.
Desde quando vozes caladas eram capazes de gritar?
Talvez não fosse uma voz calada.
Talvez fosse uma voz desesperada.
Rachel!
Sim!
Rachel!
Era a sua voz não calada, mas desesperada.
Desesperada para sair…
Respirou fundo e retomou a resposta:
“Eu fiz ela tentar morrer, pai e papai”, murmurou.
Os homens ficaram consternados.
Aquilo não era agradável de se ouvir…
“Rachel, preste atenção”, LeRoy segurou o rosto que lhe pareceu inocente e posse de um ser sem as máculas do mundo, “você não fez ela tentar morrer. Ela errou! Ela errou, Estrelinha, porque você a deixou magoada. Mas, ela quis morrer… Entendeu? E, se você quiser ajuda-la, precisa entender isso, aceitar que não pode mais remediar o que está feito, mas poderá tentar amenizar as dores dela e as suas. Entendeu, amor?”.
Rachel negou com a cabeça.
“Eu fiz ela tentar morrer, papai… E esquecer…”, repetiu.
“Não!”, o homem insistiu, “ela fez isso! Você errou, meu amor, mas ela escolheu! Entendeu o que eu disse? Ela escolheu!”.
“Mas…”, os olhos ficaram úmidos, “eu fiz, pai! Eu fiz ela tentar morrer… Eu fiz!”.
LeRoy pegou o neto – confuso por ser retirado dos braços da mãe – e o retirou do quarto. O menino ameaçou chorar, mas o avô o acalmou.
Hiram a osculou na testa e repetiu, com o profundo desejo de que ela parasse de verbalizar e verbalizar a culpa;
“Estrelinha, ouça-me: você errou. Mas não sabia o que ela faria! Você não tinha como saber”.
“E se ela… E se ela escolher de novo?”, preocupou-se repentinamente.
“Ela não vai, se você estiver perto dela”, garantiu o homem.
Rachel Barbra Berry, após menos tempo que o habitual de alguns dias, compreendeu perfeitamente as palavras do homem que era o seu pai.
Talvez a terapia realmente ajudasse…
Talvez o mundo da pílula vermelha não fosse tão feio de se ver.
Talvez não fosse tão cru…
Ou duro…
Talvez fosse só a maneira como o mirava.
Uma questão de ótica.
“Sem crueldade não há espetáculo.”
– Friedrich Nietzsche -
Mathews, tão logo a confusão no tribunal acabou, cuidou de procurar pela advogada e pelo promotor. Ainda era o advogado de um ferrado Raul Street e precisava, pelo menos, negociar a pena do cliente.
Lancaster, Quinn e Mathews estavam sentados à escrivaninha da sala da promotoria. Ele em sua cadeira e a advogada e o Anthony lado a lado, de frente para o homem.
Quinn se virou para ele e o estudou.
“Algum problema, doutora?”, o advogado do Street quis saber.
Ela sorriu.
“Não. Apenas uma pergunta que poderá ser feita após a sua proposta”.
Ele assentiu. E falou, inflexível:
“Trinta anos com direito a condicional em vinte”.
Quinn riu e assegurou:
“Não nesta vida”.
O Mathews ouviu falar que ela gostava de sangrar os incautos que tinham o desprazer de tê-la como adversária, mas não imaginou que fosse verdade…
“Doutora?”, queria uma contraproposta dela.
Quinn inclinou um pouco o rosto para a direita e com uma expressão de contentamento, falou:
“Eu estou inclinada a deixar os jurados decidirem…”, e se virou para o Lancaster, “por que negociar? O Sr. Street até pode não ser condenado à morte, mas creio que o dobro da proposta do Dr. Mathews com um ad infinitum deve ser o mínimo que ele terá”.
“Perpétua?”, o advogado não pensou que ela estivesse disposta a cumprir o que dissera há poucos dias quando expressou o desejo de ter o Street no banco das testemunhas. Mirou-a, incrédulo.
“Dra. Fabray… Perpétua?”, repetiu a fim de se certificar de que a entendera com correção.
“Sim. Perpétua”, ela repetiu.
O homem suspirou.
“Senhor promotor…”, esperou que o Lancaster se colocasse.
O que convidou Quinn para auxilia-lo no julgamento quase perdido, mirou-a.
Anthony percebeu, então – talvez um pouco tarde – que a palavra dada seria a da advogada.
Suspirou. Teria que, decididamente, negociar com ela.
Olhou-a.
Ela o olhou.
“Doutora…”.
“Está satisfeito no escritório em que trabalha?”, cortou-o.
O Mathews ficou desconcertado. Do que ela estava a falar?
“Dra. Fabray, estamos falando sobre o destino do meu cliente”, exortou-a.
“Um péssimo cliente, diga-se de passagem”, ela comentou sem o menor tato.
“Eu preciso de uma posição”, insistiu.
Ela suspirou, entediada.
“Não retiro a proposta. Perpétua sem direito à condicional”, foi taxativa.
“Não prefere a pena de morte?”, o Mathews questionou, cínico.
Quinn sorriu e respondeu com toda a tranquilidade que possuía:
“Talvez os jurados prefiram…”.
Então o Mathews se deu conta de que ela poderia estar certa.
E, entre o sim e o não, a cruz e a espada, ficou com a proposta da Fabray.
Ele teria outra opção?
Neste momento, não via nada no horizonte.
Exceto a elegante e bela advogada acenando para ele com uma faixa que trazia impressa as palavras “perpétua – sem condicional”.
Assentiu com um suspiro de derrota.
“Ei! Não é o fim do mundo”, ela comentou.
Mathews a mirou.
Era tão bonita! E cruel.
Parecia um anjo. Um anjo frio, maldoso… Um anjo caído, talvez?
Saiu do transe ao escuta-la…
“Raul Steven Street é o culpado pela morte de Linda Wood. Você pegou uma causa perdida! Iludiu-se com as provas circunstanciais e acreditou em um homem com um narcisismo berrante! Como esperava ganhar este julgamento?”.
A maneira aparentemente simples com a qual ela explicou o motivo pelo qual perdeu a causa que pareceu para muitos, inclusive a promotoria, um caso que Mathews já tinha como certo, deixou-o pasmado. Então, era assim que ela via as coisas? Ela observava os pormenores e trabalhava sobre eles?
Claro! Enquanto ele via o todo, ela olhava com atenção desmedida as partes. Pedaço a pedaço, encontrando pequenas imperfeições aqui e ali até formar um quadro maior e redesenhar todo o processo e vencer.
Simples?
Apenas uma ilusão de simplicidade.
De novo, escutou-a:
“Teria um tempo em sua agenda para uma conversa de cunho profissional?”.
“Como?”, indagou, ainda abalado.
“Gostaria de lhe fazer uma proposta de trabalho”, avisou com praticidade.
“Uma proposta?… De trabalho?”, soou incrédulo.
“Sim”, sorriu.
Embora o Mathews achasse fora de lugar e descontextualizada a pergunta dela, assentiu e concordou em encontra-la para um café e uma conversa acerca de uma proposta de trabalho. Até porque, na atual circunstância, não conseguia pensar com muita clareza.
A advogada tinha a incrível capacidade de desconcertá-lo.
Raul Steven Street recebeu sua pena não com tristeza ou algum lamento da vida que perdia, da liberdade arrancada por conta de um mau passo, de uma atitude desprovida de razão ou lamento pelo mau cometido a outro ser humano, mas sim com uma raiva muito explícita.
Quinn Fabray e o seu lindo sorriso moravam na parte mais obscura de sua mente. No poço escuro de um coração que não alterava suas batidas pelas más ideias ou ações.
Quinn Fabray era, no momento, a sua charada pessoal.
Quinn Fabray era, no momento, uma mente que ele queria desvendar.
Nem que para isso precisasse quebra-lhe o crânio para lhe roubar os pensamentos e entender como ela funcionava.
Entrementes, ainda não fazia ideia de como alcança-la.
Ou, mesmo, dessa possibilidade…
“Ela coloriu todos os segredos da minha alma
Eu sussurrei todos os meus sonhos
Mas quando a noite cai, esta visão se desfaz
Na confusão de seu coração”.
– Roxette em Vulnerable–
Holmes suspirou, frustrado.
Se ela, ao menos, soubesse o que o motivava a desejar que se mantivesse afastada de Rachel Berry!
Mas… Como dizer, após tantos anos na ignorância, que tentou contra a própria vida por causa da mulher que agora ia de visita?
“Srta. Quinn, eu não tenho antipatia pela senhorita Rachel Berry. Eu apenas acho que ela, ainda que divorciada, tem um marido e as suas visitas… Bom… Eu realmente não entendi o seu interesse por ela”, confessou, por fim.
“Eu só quero conhece-la, Holmes. Quero saber o que me fez ficar interessada nela”, justificou, embora não achasse necessário. Era problema apenas seu o que fazia ou não.
“Quer recuperar alguma memória?”, indagou, receoso.
Quinn percebeu o temor na voz do homem.
“Por quê? Acha que eu consigo”, perguntou e acrescentou, perspicaz, “ou teme que eu recorde algo que possa ser realmente mais desagradável do que ser traída?”.
O cuidador segurou a respiração. A patroa era arisca, astuta. E, portanto, deveria ser atento aos comentários que fazia.
Ou estava a ser apenas exagerado?
Sim. Talvez…
Até porque, na astúcia, muito do que ela conseguia era com o que chamava de “jogar verde para colher maduro”. E normalmente, se não fosse atento, ela colheria o que desejasse.
Quando pararam em frente ao prédio na West 48th Street, Quinn suspirou e avisou:
“Não vou demorar… Se quiser voltar a casa e me buscar em uma hora, eu ficarei bem”.
Holmes a mirou.
“Eu darei umas voltas com o carro pela Broadway com a 7ª Avenida e voltarei em quarenta minutos. Quando sair, avise-me para que eu possa aguarda-la na portaria”, informou.
Quinn concordou e saiu do automóvel.
O entardecer estava particularmente frio neste dia.
Apertou o sobretudo de corte acinturado contra o corpo e caminhou a passos largos em sapatos de salto que faziam plac, plac, plac em contato com a calçada até a entrada do prédio de Rachel Berry.
O porteiro a mirou.
Quinn percebeu que não era o mesmo que a atendeu das outras vezes. Será que era novo ou ela não se lembrava dele?
Descobriria.
Caminhou até o balcão de informações, a fim de se fazer anunciar para a família Berry.
“Boa tarde, eu sou Quinn Fabray. A Srta. Berry está a minha espera”, avisou.
O homem que aparentava ter cerca de trinta anos, bem-apessoado mesmo dentro do uniforme azul, com um corte de cabelo moderno e arrumado com spray fixador, sorriu com dentes perfeitos e covinhas e pegou o fone que daria contato com a cobertura do prédio. Comentou, encantado:
“A senhorita foi excepcional no julgamento. Parabéns”.
A loira franziu o cenho e se perguntou se aquele era apenas um cumprimento gentil e impessoal ou um cumprimento de alguém que a conheceu antes.
“Você é novo aqui?”, indagou.
Ele ficou surpreso com a pergunta.
“Não… Na verdade, eu trabalho aqui há quase cinco anos”, informou antes de completar a ligação para o apartamento de Rachel.
“Novo…”, comentou Quinn.
Pouco tempo depois, adentava à sala de visitas da cobertura da cantora, recebida, dessa vez, não por Maria, mas por Jesse, que tinha o filho nos braços.
“Sr. St. James”, cumprimentou com um aceno de cabeça.
“Maria foi preparar café… Ou prefere chá?”, indagou, antes de avisar que os sogros estavam em companhia da filha.
“Rachel está melhor?”, fitou-o com interesse.
“Sim… Muito”, pareceu aliviado.
“Isso é bom”, comentou, apenas para ser delicada.
Fixou os olhos sobre o menino, que lhe sorriu.
“Olá, Spencer”, tentou ser gentil, mas a verdade era que entendia coisa nenhuma de crianças. Talvez, por isso, a filha foi dada para a adoção…
O homem a mirou.
Pensou, estudando-a.
“Quinn, o que falou para a Rachel?”, indagou de assalto, soltando o pequeno fruto de seu enlace com a cantora, que correu para os brinquedos espalhados num canto do imenso salão.
Ela franziu o cenho, sem lhe desviar a mirada.
“Quando?”.
“Quando esteve aqui da última vez… Após a crise nervosa”, localizou-a.
A advogada assentiu:
“Eu falei que ela não tinha motivo real para se sentir culpada. Eu não consegui me lembrar da ‘traição’”, fez aspas com os dedos.
O ator a convidou a se sentar e ela o acompanhou até o sofá, onde se colocaram lado a lado.
Virou o corpo para ficar de frente para ela e observou, afável:
“Não é porque não se lembra, que o fato não aconteceu. Rachel não esqueceu… Por isso ela ficou desse jeito”.
A advogada analisou se deveria expressar sua opinião para o esposo da mulher que a chamou ali.
Antes de se decidir, Hiram apareceu e, com um pedido de licença, ergueu-se e deixou o ator, indo até o homem mais velho, cumprimentando-o com um aperto de mão.
“Sr. Berry”.
“Por favor, Quinn, apenas me chame de Hiram”, ele solicitou outra vez, sorridente e amável.
Ela assentiu.
“Vamos! Rachel a espera. Está ainda um pouco embotada, mas muito melhor”, notificou.
“Isso é bom”, ela opinou.
Acompanhou o homem até a suíte da atriz, deixando um Jesse St. James para trás sem uma palavra a mais ou a menos.
Os olhos de Rachel, um pouco aéreos, desviaram-se para a porta do quarto assim que esta se abriu e revelou Hiram junto com a mulher loira.
Sorriu, entorpecida, ao ver a bela figura da ex-namorada.
Quinn era um agrado aos seus olhos.
Um afago para sua pessoa.
Uma história inacabada.
A prova viva e desmemoriada de seu pecado.
“Quinnie…”, murmurou.
A advogada cumprimentou LeRoy, que a abraçou e parabenizou pelo resultado obtido no julgamento.
“Obrigada, senhor”, agradeceu e fixou os olhos sobre a mulher sentada na cama, recostada em travesseiros, que a mirava com olhos em demente expectativa.
“Olá, Rachel”, sorriu-lhe e caminhou até a cama.
Osculou-a no topo da cabeça antes de sentar ao lado dela.
Prendeu os olhos nos castanhos escuros.
“Seu pai me contou que está melhor”, comentou com voz gentil.
“Estou…”, concordou.
“Fico, realmente, satisfeita com isso”.
“Você…”, a atriz ainda estava um pouco aturdida.
“Eu o quê?”.
“Bem? Eu vi na TV… Aquele homem…”, expressou.
A loira sorriu e entendeu:
“O Sr. Street! Ele não me machucou. Estou bem”, tranquilizou-a.
Rachel suspirou.
Queria perguntar mais… Quinn a compreenderia? Às vezes não sabia se estava a ser coerente o necessário.
“Por que ele tentou machucar você?”.
“Porque eu sou muito boa quando desejo chatear alguém”, falou como se contasse um segredo.
A cantora riu.
Riu e esticou a mão até tocar a de Quinn.
A loira observou o movimento e o gesto.
Achou que deveria perguntar mais…
“Você quer falar alguma coisa comigo?”, ainda tinha os olhos presos na mão sobre a sua.
“Eu… Eu quero… Preciso…”, suspirou e fechou os olhos.
Quinn desviou mui rapidamente o olhar da mão dela para a face e voltou-os ao ponto em que estavam.
“Está tudo bem”, sussurrou.
Rachel abriu os olhos e a mirou.
“Não… Não está…”, sussurrou.
“Eu… Lamento”, murmurou.
Quinn não sabia se lamentar adiantaria de alguma coisa. Porém, se isso fizesse com que a mulher que lhe segurava a mão melhorasse, abriria uma exceção sobre os “lamentos”.
“Está tudo bem”, verbalizou, a fim de tranquilizar a cantora.
Rachel balançou a cabeça em determinada discordância:
“Não… Não está… Porque você…”, suspirou, “porque você se machucou”.
A loira franziu o cenho e voltou os olhos para os pais da atriz num questionamento mudo. Afinal, do que ela estava falando? Do acidente? Ainda insistiria nesse tema?
“Rachel, confie em mim: estou bem! Eu me machuquei há muito tempo… Não há razão para você ficar abatida por isso”.
“Você vai fazer de novo?”, indagou, com expressão apreensiva.
Quinn suspirou.
Por que a mulher lhe dizia aquilo?
O que ela queria dizer com aquilo?
“Rachel, eu estou bem… Eu nem mesmo dirijo! Pare de se preocupar”, tentou sorrir, mas achou difícil.
“Mas, eu sei, Quinn!” — os olhos da atriz umedeceram de água salgada, que não era a água salgada do mar.
LeRoy e Hiram acharam por bem intrometerem-se. A filha lhes parecia confusa e a ponto de falar o que poderia desestabilizar a visita.
“Estrelinha, a Quinn não sabe sobre o que você está falando… Você a está confundindo”, atalhou o pai advogado.
Quinn o mirou, grave.
“Ela ainda está preocupada com o acidente?”, perguntou aos homens.
“Sim”, Roy respondeu. Acrescentou:
“Não leve a ferro e a fogo o que ela lhe disser. Ainda está confusa… Pode falar coisas sem muito sentido para você”.
A advogada concordou e sentiu um aperto na mão e voltou os olhos para o local da sensação. E lá estava: a mão de Rachel sobre a sua.
Hiram chamou a atenção da filha e lhe pediu, com doçura e tranquilidade, que não se preocupasse mais com o “acidente” de Quinn, pois ela estava bem e que este não voltaria a acontecer.
“Não?”, inquiriu, insegura.
“Não”, o homem afirmou, certo.
A judia assentiu e voltou os olhos chocolates para a advogada loira que contemplava as interações em silenciosa observação.
Os dois homens, Hiram e LeRoy Berry, entreolharam-se e se perguntaram em silêncio se seria prudente deixarem as duas um pouco a sós. Afinal, sabiam que a presença da ex-namorada de sua Estrelinha seria benéfica, desde que a pequena não falasse na palavra suicídio.
Acabaram por arriscarem-se. Já haviam avisado a Quinn da confusão de Rachel. Assim, qualquer palavra solta pela cantora soaria como um estado de atordoamento pelo estado em que ainda se encontrava.
“Traremos chá e café”, anunciaram antes de sair e deixarem as duas.
“A verdade é inconvertível, a malícia pode ataca-la, a ignorância pode zombar dela, mas no fim, lá está ela.”
– Winston Churchill -
Assim que a porta se fechou e as duas ficaram sozinhas, Quinn escrutinou o rosto da morena. Acomodou-se mais perto dela e segurou a face da cantora com a mão direita.
Sorriu.
“Como está?”, perguntou, num tom que bailava entre o íntimo e interessado.
A pequena fechou os olhos e inclinou o rosto em direção da mão, a fim de mais contato.
Murmurou, com um suspiro de satisfação e tranquilidade:
“Melhor…”.
“Isso é bom”, comentou.
“Você pode me perdoar?”, insistiu.
A loira puxou a mão e quebrou o contato, fazendo a cantora abrir os olhos de golpe.
Falou, com os olhos verdes presos nos castanhos surpresos:
“Pare de pedir perdão, Rachel. Isso é chato! Apenas cuide de ficar bem”, o tom saiu seco.
A cantora sentiu o ar lhe escapar.
Quinn sorriu e chegou a face até perto a da judia. Tão perto que quase poderia beijá-la se quisesse…
“Não gosto de pessoas fracas. Pessoas que se lamentam. Pessoas que se desculpam demais. Pessoas que se arrependem. Então, pare de agir como se carregasse uma grande culpa”.
Rachel ficou… Chocada?
“Eu fui clara, Rachel”, indagou e colou os lábios rosados na bochecha da atriz, quase tocando-lhe o canto da boca.
A atriz sentiu o coração dar pulos dentro do peito.
A respiração alterou.
A palidez deu espaço a uma coloração mais rubra à face.
Os olhos ficaram um pouco maiores.
Quinn afastou-se apenas um pouco. Ainda podia sentir a respiração quente da cantora na própria face.
“Entendeu o que eu lhe disse, Rachel?”, a voz escoou lenta e rouca.
A cantora sentiu que o corpo inteiro ganhava vida. Uma onda de calor lhe passeou por inteira e os músculos internos do ventre deram sinal de vida.
Um estímulo molhado.
Um contrair que há muito não sentia… Não com tanta veemência.
Um prazer há muito adormecido e desperto pela mulher que a mirava com uma atenção que não conseguia categorizar.
“Entendeu o que eu lhe disse, Rachel”, a ex cheerleader insistiu.
A judia assentiu, tão desperta quanto possível.
Quinn aproximou os lábios do ouvido da outra e murmurou:
“Boa garota…”.
Arrepios atravessaram Rachel Berry por completo.
“Quinn…”, murmurou, a respiração um pouco irregular.
“Diga, Rachel”, sussurrou – agora com os lábios praticamente colados ao ouvido da atriz.
A morena não sabia mais o que falar. Perdeu-se ainda mais diante da extrema proximidade do corpo da outra, da boca rente ao ouvido em sussurros mornos que arrepiavam-lhe o corpo, numa tortura que flanava do prazer ao desejo.
Quinn, então, realocou o rosto e fitou a mulher morena face a face. O espaço entre os rostos diminuto.
Sorriu.
Sabia o que estava a fazer com a dodói. E estava gostando.
“Eu desejo conhecer você melhor, Rach…”, avisou, a segurar a lateral do pescoço da pequena com mão quente e passear os dedos ali, devagar e com constância.
“Quinn…”.
A loira não deixou de sorrir, transbordando de picardia.
“Ainda me quer, não é Rachel?”.
A cantora engoliu seco.
“Quer…”, murmurou afirmativa, a passear a mão agora até a face da outra e depois escorregá-la lentamente até o pescoço, ombro e escorrê-la pelo braço, fazendo o caminho de volta.
Rachel sentiu que o ar não era bastante para lhe encher os pulmões.
Rachel pensou que o coração não caberia dentro do peito e saltaria pela boca.
Rachel sabia que estava definitivamente perdida…
“Quinn…”, queria beija-la, senti-la e não deixa-la ir nunca mais.
Os olhos verdes pareciam estrelas que cintilavam na noite negra.
Os dentes brilhavam num sorriso malicioso que poderia leva-la às raias da loucura.
“Se ficar boa logo, eu posso lhe dar mais disso”, sussurrou, aconchegou a face da atriz entre as mãos e com muito cuidado, entreabriu os lábios.
Rachel não conseguiu desviar os olhos da boca que deixava antever a língua rosada.
Quinn aproximou mais a face da face de Rachel e a morena fechou os olhos.
Sentiu quando os lábios da mulher que desejava tocou-lhe o queixo e se afastou devagar.
Abriu os olhos.
Quinn a observou.
Rachel estava decepcionada?
Frustrada?
Triste?
Ou tudo ao mesmo tempo?
Apenas uma certeza lhe tomou: gostou do que viu.
“O meu coração era como um trem em fuga, amor.
Eu não creio que já tenha me sentido mais viva.
Nesse quarto, eu ouço vozes persistirem.
Nós nunca falamos sobre o preço.
Você sabe que não é o único
Que sabe como chorar.
Você não é o único”.
– Roxette em The Sweet Hello, The Sad Goodbye–
CONTINUA.
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