Sine Cordi

44 CAPÍTULO 44 - םד


Notas iniciais
Eu disse que demoraria para postar? Putz! Eu não tenho palavra...

A culpa é dos fatos, meu amigo. Somos todos prisioneiros dos fatos. Eu nasci, logo existo.”

– Luigi Pirandello -

Rachel olhava o dia que acabou de nascer… O céu estava pálido, resultado de um sol que parecia menos quente e menos amarelo.

Quando foi que o sol desbotou?

Estava recostada nos travesseiros e mirava o tempo através da enorme janela.

Jesse dormia ao seu lado.

A cabeça um pouco dependurada para fora do travesseiro.

Um ronco…

Os olhos dela se fixaram no ex-marido.

A boca pendia semiaberta.

A língua um pouco visível.

O líquido viscoso da baba a escorregar devagar pelo lado da boca.

Tão… Nojento!

Como não notou que ele babava?

Ou sempre soube, mas não deu a devida atenção?

E que som era aquele que ele conseguia produzir que lembrava o barulho do motor de um carro sem o cano de descarga?

Olhou de novo para a janela e suspirou.

Pensou se o dia estava realmente turvo ou era só a sua mente.

“Eu estou cinza…”, murmurou, como se cantasse uma canção.

Voltou a olhar, pensativa, para o homem deitado ao lado.

Era o pai de seu filho…

Mas… Quando foi que ele se tornou isso mesmo?

Os olhos retornaram para a janela e para o dia que parecia nublado, mas não tinha realmente muita certeza sobre isso…

E importava?

Suspirou.

Talvez importasse.

Mas estava tão cansada!

O que foi que fez mesmo para se cansar tanto?

Não sabia com muita clareza…

Aliás, havia clareza?

Sentia-se imersa em uma realidade nebulosa onde o tempo parecia carecer de sincronia com os acontecimentos.

A lógica parecia, estranhamente, invertida…

Era possível isso?

Acompanhou o movimento das nuvens…

Ali estava!

Embora o vento as levasse para o norte, havia uma bússola que apontava para o sul.

Se abrisse uma garrafa com água, para onde o líquido escorreria?

Para cima, como se não houvesse gravidade ou…

Para baixo?

Para onde estava escorrendo ela agora?

“Acho que perdi a gravidade…”, murmurou.

Fechou os olhos.

Talvez assim, se os mantivesse fechados, quando abrisse, aquela estranha bolha que a rodeava teria desaparecido…

Sentiu medo.

E se nunca mais o sol fosse quente?

E se a chuva parasse de molhar?

Abriu os olhos.

Um arrepio de frio recorreu-lhe o corpo pequeno.

Puxou as cobertas.

Aconchegou-as bem próximas… Precisava se esquentar…

“Rachel!”.

Estancou…

Alguém chamou seu nome?

Olhou para o lado e confusos olhos castanhos correram pelo homem que, há pouco, jazia ao seu lado como um profuso salivador noturno e barulhento.

“Rachel!”, escutou a voz dele com mais clareza.

“Você baba…”, observou com um pouco de asco.

Viu como o homem pareceu chocado com a informação.

“Desculpa…”, sussurrou, realmente triste por comentar aquilo.

O homem assentiu, sorriu com afeto e a puxou para si, a fim de aconchegá-la.

Rachel se deixou descansar no peito forte do ex-marido.

“Como se sente?”, ele perguntou.

“Como uma nuvem que se dispersou em outras pequenas… Cada pedaço se afastando um do outro bem devagar… E eu sei que não conseguirei juntá-los outra vez… Nunca mais serei uma nuvem completa, Jesse”.

“Você quer falar sobre o que aconteceu?”.

“Ela me deu a pílula vermelha…”, sussurrou.

O homem franziu a testa.

“Ela me tirou da Matrix, Jesse! E eu… Eu não sei se estou preparada para olhar para o mundo agora, quando ele parece tão sem glamour”, divagou.

Jesse sentiu o corpo tensionar.

Rachel o estava preocupando…

“Sobre o que vocês conversaram?”, ele perguntou com muito cuidado e num tom muito moderado, como se fosse possível que um leve alterar para mais na voz pudesse quebrar a mulher que continha nos braços.

Ela já estava trincada.

Rachel ouviu a pergunta, mas algo curioso aconteceu: ela não conseguiu decodificar aquele som que saiu da boca do homem que era o pai de seu filho.

Um pai que babava.

E também roncava.

No meio ao emaranhado de pensamentos que considerava soltos e sem o menor sentido, uma pergunta acendeu muito clara, como o foda-se na testa de Quinn: por que se importava agora com o fato de Jesse roncar e babar. Ou babar e roncar?

Por que isso se tornou tão… Incômodo?

Jesse era o mesmo de sempre…

Ele já babava há algum tempo…

E também roncou mais alto, inclusive.

Então… Por quê?

“Isso é efeito da pílula vermelha?”, questionou, concentrada.

Jesse St. James arregalou os olhos.

Star?… Você está bem? Rach…”.

Ela o mirou. Fez isso não porque ele a chamou, mas porque achou importante olhar para o rosto dele e se certificar de que nada havia mudado… A cor dos olhos… Os cachos dos cabelos sem cortar há mais de trinta dias… Tudo parecia tão no lugar! E tão fora!

“Rachel”.

O nome, seguido de uma carícia na face a fez abrir os canais de atenção com um pouco de esforço…

“Sim?”.

“Por que acha que ela lhe deu a pílula vermelha? O que você está sentindo?”.

Rachel Berry pensou sobre as perguntas, mas a atenção se fixou apenas na segunda: “o que você está sentindo?”.

“Eu… Acho que estou anestesiada, Jesse… E meio drogada, talvez…”.

Sentiu quando os braços a apertaram um pouco mais.

Jesse St. James gostaria muito de garantir para a mulher em seus braços que tudo ficaria bem… Porém, após os últimos acontecimentos e o resultado que causou na esposa, não teve coragem ao menos para lhe mentir, apenas com a simples finalidade de faze-la sentir melhor.

Suspirou.

Um suspiro de decepção.

Nunca foi tão difícil atuar…

Principalmente quando o palco era a vida real e o roteiro não seguia uma ordem direta e que se explicava ao final.

Entretanto, ainda não era o final.

IRMANDADE

Sou homem: duro pouco

e é enorme a noite.

Mas olho para cima:

as estrelas escrevem.

Sem entender compreendo:

Também sou escritura

e neste mesmo instante

alguém me soletra.”

– Octávio Paz -

Alex olhou outra vez para a namorada que estava concentrada no computador do escritório, a averiguar o processo do qual fazia parte.

Achou que ela estava bem… Não parecia preocupada com o que descobriu sobre o acidente.

Essa tranquilidade a assustava.

Porém, se Quinn não se lembrava e – aparentemente – apenas se divertiu com o fato de montar uma pequena parte do enorme quebra-cabeça que estava metade oculto sob os lábios cerrados de quase todas as pessoas que conhecia, deveria se assustar?

A presença de Rachel Berry era um problema para Santana; uma preocupação para si. Como poderia conter a namorada quando ela soubesse o que foi capaz de fazer por amor? Um amor, talvez, um pouco distorcido, mas amor…

Quinn era tão imprevisível sob a camada de previsibilidade e frieza.

Parecia intocável.

Uma deusa num altar.

Uma deusa que, por baixo da camada de tinta, era feita de barro.

Ela poderia cair.

Talvez, ela quebrasse.

De novo…

Sim. Porque, se analisasse bem a situação, Quinn quebrou quando foi traída.

E os médicos a remendaram quase tão bem como um restaurador de imagens sacras.

O que faria uma deusa de barro, remendada e sem memória quando soubesse que tentou se matar porque flagrou a noiva na cama com um homem?

Um homem com o qual se casou.

Um homem que fez um filho nela.

Um homem que ainda estava com ela.

“Isso não vai ser legal…”, murmurou muito preocupada.

O murmurar de sua preocupação despertou a atenção da mulher loira que estava no computador.

Olharam-se.

Quinn sorriu.

Nossa! Ela estava tão bonita!

Os fios dourados presos num coque despojado, o corpo coberto pelo terninho feminino cinza… Os olhos claros, a cara sem maquiagem… Amava Quinn Fabray sem maquiagem. Ela parecia mais vulnerável com aquelas discretas olheiras sob os olhos que mudavam de cor numa bela demonstração do quanto a natureza pode ser caprichosa.

E a natureza foi bem caprichosa com Quinn Fabray…

Caminhou até ela e sentou-lhe nas pernas. Passou o braço direito sobre os ombros dela e mirou-lhe a face.

“Tão bonita…”, murmurou, antes de tomar os lábios da advogada com os próprios.

Quinn sorriu e enlaçou os braços na cintura da amante.

“Por que eu não sei o que fazer com você?”, perguntou, após suspirar e colar a testa na da advogada.

A loira deu uma gargalhada.

Aquela gargalhada tão peculiar… Como a de uma menina de cinco anos… Pura e imaculada.

“Eu amo tanto você, Quinn Fabray!”, murmurou e afastou a face a fim de estudar a da namorada.

A advogada sorriu.

Alex suspirou antes de falar:

“Eu acho que você está bem…”.

“Estou”, concordou.

“Então, eu tenho que cuidar do meu apartamento, olhar as correspondências, pagar algumas contas…”.

“Está me avisando que não virá dormir comigo por algum tempo?”, questionou.

Alex assentiu.

“Ficou aborrecida por causa da Rachel?”.

“Não, bebê”, respondeu sincera, “eu estou bem quanto a isso…”, beijou-a outra vez.

Quinn aceitou a carícia e deixou-se levar pelos lábios macios e quentes da amante.

Afastaram-se.

“Eu vou sentir sua falta…”, murmurou a jornalista com um sorriso que alcançou os olhos azuis.

Quinn assentiu.

“Eu vou saber de você por meio de Holmes…”.

“O eterno X-9…”, sussurrou.

Alex sorriu.

A advogada a fitou com acuidade e perguntou, séria:

“Quanto está pagando a ele pelas informações? Talvez eu possa fazer o mesmo por um custo menor”.

A jornalista não conteve a gargalhada.

“Fria mas com senso de humor”, Quinn comentou sobre si mesma.

Alex concordou. Pediu:

“Cuide-se! Não se meta em problemas… Principalmente se este problema envolver Santana entrando por este apartamento com vontade de matar você”.

A ex cheerleader concordou com um aceno de cabeça.

“Não fique procurando por coisas que não importam mais…”, sussurrou.

“Eu não vou…”, respondeu.

“Ótimo!”, Alexandra Bishop não conseguiu sentir alívio diante da resposta da namorada.

Alexandra Bishop sempre achou que tudo que está oculto uma hora ou outra vem à tona. E aí morava a sua preocupação…

Quanto tempo mais até Quinn saber?

Suspirou.

“Faça-me apenas mais um favor…”, solicitou, “dê um tempo para a Rachel se recuperar. Depois, pode procurá-la se achar que deve. Seja cuidadosa…”.

Quinn pareceu meditar sobre o pedido.

“Está bem… Eu vou…”, consentiu.

“Obrigada”, sussurrou Alex, antes de roubar outro beijo da advogada e se levantar do colo dela e se retirar.

“'Quanto tempo o tempo tem?'”, Quinn se perguntou. “'O tempo tem quanto tempo o tempo tem’…”, Quinn murmurou para si mesma e sorriu, voltando a atenção para o computador.

Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas até tomar a forma de um X: — Decifra-me ou devoro te.”

– Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Rachel Berry despertou com vozes conhecidas.

Abriu os olhos. Estava atordoada.

Olhou pela janela… A luz do entardecer adentrava ao ambiente.

“Estrelinha”.

Suspirou. E sorriu. Pensou escutar a voz de seu papai LeRoy.

“Estrelinha”.

E a voz de Hiram.

Voltou o rosto para o lado e encontrou com a face de cada um dos dois homens que não via há algum tempo e piscou algumas vezes.

Era algum efeito colateral dos calmantes que o médico lhe ministrou?

“Estrelinha…”.

A voz de LeRoy soou insegura e preocupada aos seus ouvidos débeis.

“O que foi que aconteceu”, Hiram perguntou para Jesse, que acabara de adentrar ao quarto.

“Eu não sei bem… Parece que Quinn Fabray esteve aqui e elas conversaram…”.

“Espere, espere, espere!”, pediu o homem, sob os olhares atentos do genro e do marido que segurava a mão da filha entre as suas, “retroceda um pouco porque eu acho que não escutei direito. Com quem a minha Estrelinha conversou mesmo?”.

“Com a Quinn”, Jesse repetiu a informação, com um pouco mais de atenção e cuidado.

Os dois homens, LeRoy e Hiram, conseguiram suspirar ao mesmo tempo.

“Por quê?”, foi a pergunta incrédula do segundo.

“Por que o quê?”, o ator ficou confuso com a pergunta.

“Por que elas conversaram, ora bolas? Eu presumi que a Quinn perdeu a memória e não fazia ideia de quem a minha Estrelinha fosse para ela!”, respondeu um Hiram impaciente.

“Ah, isso…”, o ator murmurou e olhou preocupado para a ex-esposa, deitada e com os olhos abertos meio alheios, “eu acho que a Rachel comentou algo com ela e… Ela quis entender, porque ela não lembrava da Rach…”.

“E agora ela lembra?”, a pergunta escorreu pela boca de um LeRoy surpreso.

Jesse teve um clique.

Como eles sabiam de Quinn Fabray e nunca comentaram?

“Vocês sabiam? Todo o tempo?”, a voz escapou incrédula.

O casal trocou olhares e Roy suspirou antes de confessar:

“Sabíamos… Mas, quando soubemos o que ela realmente fez e o resultado, pensamos que o melhor seria que nos afastássemos. Ela não lembrava… Por que tentar tapar o sol com a peneira? Por que chamá-los na Europa se Rachel e você estavam juntos? Eu não gostei do que minha filha fez… Mas, não havia volta atrás! Quinn perdeu a memória! Quinn…”, não soube se deveria falar mais.

Calou-se.

Virou para a filha e a beijou na testa. Sussurrou:

“Eu lamento, amor! Eu nunca pensei que vocês poderiam se reaproximar… E que você ficaria assim…”.

Hiram tomou a palavra:

“E onde ela está?”.

Jesse se perdeu outra vez…

“Ela quem?”.

“Cristo! Jesse, você pode se concentrar um pouco?”.

O ator assentiu:

“Sim, senhor”.

“Ótimo! Responda-me: onde está Quinn Fabray?”.

O ex-marido de Rachel achou a pergunta idiota.

“Suponho que na casa dela”, ainda assim, tentou soar amigável.

O pai da cantora assentiu.

“Ela não procurou mais por ela?”.

“Não… Parece que a Santana ia conversar com ela…”, contou o que sabia.

Hiram e LeRoy riram com ironia.

“Santana ia falar com a Quinn?”, o segundo manteve o risinho.

Hiram meneou a cabeça e completou a opinião que dividia com o companheiro:

“Quinn vai colocá-la no bolso…”.

“Estou com você, querido”, LeRoy reforçou.

Era apenas impressão, pensou Jesse, ou seus sogros agiam com duas tias fofoqueiras que “tricotavam” acerca da vida alheia?

Aquilo não lhe caiu bem.

“Não é engraçado”, soltou, “Rach está sofrendo”.

Os homens Berry concordaram e voltaram a atenção exclusivamente para a filha.

“Vamos ficar aqui até você se sentir melhor… Ok? Estaremos do seu lado. Sempre!”, Roy avisou e Hiram reforçou.

Rachel olhou de um homem para o outro.

Suspirou e fechou os olhos.

Só precisava dormir… E dormir um pouco mais. E depois, dormir apenas um pouquinho mais…

Estava muito cansada…

As melhores respostas não valem de nada se forem ditas sem confiança.”

– Barbara Berckhan -

Quinn estava sentada ao lado de Lancaster, no tribunal de juri, às oito horas e quarenta e cinco minutos cravados.

Olhou para o advogado de defesa do outro lado e para Raul Steven Street.

A pedido de sua parte e sob as manifestações em contrário do promotor e do Mathews, o réu pode assistir ao próprio julgamento.

O juiz pensou antes de acatar o pedido. Mas, diante dos argumentos dela de que o homem, antes feroz, certamente seria mais comportado, haja vista que já havia sofrido uma sanção, fez o juiz conceder o pedido a ela.

Mathews desconfiou.

Quinn achou que ele estava melhor após os dois dias de descanso…

Virou-se para trás e correu os olhos a procurar por Rachel. Ela também estaria melhor? Maria foi educada ao telefone, quando chamou para saber da atriz, mas não deu muitas informações válidas e ela, por sua vez, resolveu dar o tal “tempo” que, quiçá, a cantora realmente precisava.

Não fez caso de Russel.

Porém, percebeu a ausência de Santana.

Sorriu.

Voltou-se para frente. Abriu a pasta e puxou documentos que iniciou a estudar com atenção.

Suspirou.

Esperava que o trabalho, pelo menos, fosse interessante.

Voltou a face para o réu e o estudou outra vez.

Até onde aquele homem que, sabia, já não era tão seguro de sua absolvição, poderia durar antes de perder a compostura outra vez?

Voltou a olhar para a folha que tinha diante e anotou algumas coisas ali.

O juiz Walker entrou.

Lançou um olhar preocupado para a advogada e o promotor e sentou na cadeira sobre o púlpito e abriu os trabalhos.

A defesa chamou Donald Chase que, sob a inquirição de Mathews, fez saber que era sócio e amigo do réu há pouco mais de quinze anos.

Quinn analisou a linha de raciocínio do advogado de defesa e achou que os dias em que esteve afastado da pressão do julgamento lhe fez bem. Parecia mais afiado, não deu margem para um só protesto de sua parte.

Talvez ele pudesse trabalhar para a Fabray&Advogados…

Talvez pudesse fazer a proposta de trabalho quando este julgamento acabasse.

Anthony perguntou sobre a relação de Raul com Linda, a vítima, e conseguiu desenhar uma imagem de casal apaixonado e quase, apenas quase, recuperar um pouco da imagem de homem calmo, respeitador e amoroso do cliente que Quinn fez a gentileza de manchar.

E respirou aliviadíssimo quando terminou e a Fabray não fez uma intromissão sequer nas perguntas que formulou.

Olhou-a de relance.

Estaria bem?

Foi a vez dela inquirir a testemunha.

Ergueu-se, suspirou, olhou para o Mathews e o Street com um sorriso brincalhão.

Voltou-se para a testemunha e caminhou até ele com a graça de quem desfila uma coleção de Armanis femininos com sapatos Mary Jane e blusas imaculadamente brancas de babados no lugar da gola.

Parou em frente ao homem e sorriu com doçura.

O Chase pensou que ela era uma das coisas mais bonitas que viu nos últimos tempos…

“Senhor, pelo que entendemos através das perguntas do Dr. Mathews, é amigo do réu há pouco mais de quinze anos…”.

“Sim…”, confirmou.

“O senhor, eu suponho, está a acompanhar este processo de perto”.

“Perfeitamente”, o homem a achou delicada, além de bonita demais.

“O senhor gosta de pescar?”.

“Sim…”, sorriu.

“Eu admiro quem tem paciência para esperar pelos peixes…”, brincou com o homem.

O sorriso dele ficou ainda mais largo.

“É…”, assentiu, “é realmente necessário ter paciência”.

“Já pescou com o Sr. Street?”.

“Claro”, assentiu.

“E usam varas e essas coisas de pesca?…”.

“Sim”, ele achou a curiosidade dela graciosa e apaixonante.

O Mathews não entendia onde ela desejava chegar com aquelas perguntas tão… Triviais?

Esta era uma boa definição.

“E usavam no anzol o nó de correr?”, indagou, parecendo muito interessada.

Donald não pensou que ela fosse tão educada e gentil. Ouviu coisas horríveis sobre ela e, no entanto… Era linda!

“Sim…”.

“E quem preparava o nó do anzol do Sr. Street?”.

“Ele mesmo…”, sorriu.

“Ele?”, Quinn franziu o cenho.

Mathews teve a impressão de que a calmaria estava prestes a acabar.

Olhou para o cliente…

Por que ela o queria ali? Por que ela insistiu e convenceu o juiz em deixar o homem que quase a agrediu fisicamente a assistir o próprio julgamento?

Suspirou.

Sentiu uma vontade grande de perguntar ao cliente se ele fazia uso de algum calmante e se o havia tomado antes de ir para o julgamento.

Voltou a atenção para a advogada e as perguntas que conduzia.

“Mas… O senhor Street disse, em depoimento, que não sabe fazer um nó de correr”, Quinn informou.

Donald Chase franziu o cenho em clara confusão.

“Ele disse?…”, murmurou.

Quinn assentiu.

Donald Chase mirou aquela bela mulher.

E se sentiu como um inseto preso por um alfinete num quadro de cortiça, vivo ainda, a se debater na instintiva luta pela sobrevivência.

O juiz Walker pensou que deveria começar a fazer exercícios para a voz, a fim de não perdê-la antes de chegar ao meio do dia. Aquela comoção barulhenta que a advogada conseguia causar ao final de cada pergunta lhe daria calos nas pregas vocais.

Mathews chegou a conclusão que trivial era uma palavra que, pensando melhor, não definia as perguntas de Quinn.

Street falou muitos palavrões para si mesmo…

Quinn, em meio a balbúrdia, agradeceu a colaboração do Sr. Chase com o mesmo sorriso inicial, mas que agora pareceu ao homem um sorriso mais cínico que doce.

O Lancaster folheava com desespero o processo à procura do depoimento do Street. Achou e correu os olhos por ele…

Um detalhe…

Uma informação válida que deixou passar.

Um pequeno dado que o advogado de defesa não fez caso.

Uma comunicação que não pensaram em averiguar se era verdadeira ou falsa.

Uma arma nas mãos de Quinn Fabray.

Uma granada que ela puxou o pino e entregou nas mãos da testemunha.

O fato horripilante era que a testemunha aceitou de bom grado o presente de grego.

E, daí, bum! Ela explodiu tudo outra vez!

Observando-a, parecia particularmente feliz com a situação.

Ele, Lancaster, também deveria estar.

Porém, com ela era diferente…

Quanto mais Quinn Fabray estocava e atingia o alvo, ela repetia o mesmo movimento depois, com mais força. Porque ela precisava ver o réu cair. Não uma vez… Mas duas, três ou tantas vezes quanto fosse possível! Então, ela deixava afrouxar a corda… E as pessoas relaxavam. Quando começavam a respirar com um pouco de uma artificial tranquilidade, ela puxava a corda e o nó apertava e asfixiava o oponente. E então ela afrouxava…

Só para apertar novamente.

É impossível progredir sem mudança, e aqueles que não mudam suas mentes não podem mudar nada.”

– George Bernard Shaw -

CONTINUA.

Notas finais
Até... Abraço afetuoso. - Cal. *-*