Sine Cordi
22 22 - בכ
Notas iniciais
"Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro"
– Mia Couto -
Quinn mexeu pela enésima vez com o garfo no prato, perdida em si mesma. Tal fato deixou Holmes atento. Por experiências passadas, sabia que o resultado de tal quietude invariavelmente era negativo. Imaginou, desde que ela se levantou e não abriu a boca para dar "boa noite", que estava a tentar juntar os fragmentos do dia anterior e, assim, saber o que foi real e o que era invenção do cérebro para dar sentido aos fatos que a levaram até aquele momento. Apesar de Alex já haver lhe explicitado tudo... Ou quase. O fato era que há algum tempo ela não se perdia. E a questão que exigia uma resposta era: o que aconteceu para ela ficar de tal modo? Soube que a Srta. Berry era a peça chave. E, pelo que viu da advogada até o momento, era quase impossível não afirmar que a famosa cantora e atriz teve alguma coisa a ver com o atual estado que apresentava. Achou por bem chama-la a fim de retira-la do estado ensimesmado. E chamou. Porém a introspecção era tão profunda que não o escutou.
"Dra. Fabray!", insistiu.
"Deixe-me...", murmurou, sem sair completamente do estado meditativo. "Perdoe-me, mas não posso...", retorquiu.
Ela não respondeu. A face sem apresentar expressão, máscara fria e indiferente.
"Está a procura de respostas para alguma dúvida sobre o que lhe aconteceu até o momento?", teimou o cuidador. E obteve o silêncio como resposta. Suspirou, controverso. Desde que se fez presente na vida de Quinn, esta era a segunda vez em três anos que ela entrou em tal estado, alheia ao exterior e voltada para dentro, cerrada feito concha. Era-lhe fácil e, aparentemente, agradável se ausentar. Este foi um comportamento que demonstrou às vezes que precisou se proteger de algo, alguém ou situação que pudesse lhe infringir dor. Mas, questionou-se, que tipo de dor? Pelo histórico dela e comportamento, apenas a dor física era capaz de deixa-la sem rumo. De fato, nunca fez ideia da proporção de tal abate físico e, ao se ver na obrigação de tentar fazê-la sair do casulo de autoproteção, era tomado de um respeitável grau de culpa. Sentiu enorme vontade de não incomodá-la. Talvez se a deixasse apenas um pouco nesta condição... Seria um descanso para ela? Seria um benefício? Todos lhe diziam o contrário. As ordens que tinha conrariavam a vontade que agora o tomava. Deixa-la assim, presa nela mesma, sem nenhum som ao redor, nenhuma palavra dita, nenhum gesto de apelo... Absorta. Mirou-a. E poderia continuar a fazer isto pelo tempo que desejasse, porque ela não se importaria. Ela não estava ali, apesar do corpo físico. Sua capacidade de processamento da realidade anulado. Anulado pelo desespero de não ser e não sentir. De não saber. Entretanto, sentiu-se na obrigação de comunicar a situação a quem era de responsabilidade. Também foi consciente de que, no momento em que o fizesse, teria de tira-la do conforto do instante. Ela parecia tão em paz, tão sem dor e tão... Mansa... Sim. Ela não desejava devorar o mundo. Ela não queria despejar o cinismo acre sobre os demais. Ela não se importava com o processo e o julgamento. Ela ignorava Rachel Berry. De verdade, ela simplsmente ignorava.
Decidiu fazer o que lhe foi instruído: telefonar para a Dra. Parker e saber que atitude tomar. Apesar de fazer isso uma vez, o contexto era outro e, para a psiquiatra, o contexto era muito importante. Porém, comunicar o que estava a acontecer com a advogada não significava, necessariamente, retira-la do estado de “meditação”. Comunicar era uma coisa; faze-la voltar à realidade era outra. Talvez, como em outras vezes, ela simplesmente voltasse e tudo continuaria em sua “normalidade”. E foi o que fez.
Telefonou para a Dra. Parker e conversou com ela a respeito do que ocorreu com a advogada nas últimas horas. E, para sua total surpresa, após responder a perguntas da médica sobre a pressão no trabalho, o possível encontro com Rachel Berry, o relacionamento com o pai e demais seres da família e aqueles que, num passado recente, eram amigos, ouviu que o melhor a fazer era deixa-la em paz.
“Perdão?”
Havia incredulidade no tom do homem.
“Apesar de preferir que ela se mantenha firme conscientemente, ela chegou a um grau de suportabilidade zero. Deixe-a. Ela voltará a ficar bem. Porém, preciso que ela venha ao consultório", reforçou a médica pela linha telefônica.
O cuidador deu um suspiro. Fazer a advogada ir até uma consulta com a Dra. Parker era quase como vender lotes de terra na lua...
"Dra. Parker, ela está às vésperas de enfrentar um sério julgamento. Não sei se ela me dará ouvidos. A Srta. Fabray não concordará com esta ideia", garantiu o homem.
Eleanor retorquiu, a manipular a situação, "ou ela concorda, ou serei obrigada a deixá-la de 'molho' alguns dias”.
“Mas ela tem o julgamento...”
“Apenas dê o recado para ela, Holmes. Quinn encontrará um tempo. Ela sempre encontra..."
Antes que o homem pensasse em argumentar, escutou da médica que "Russel deveria ter mais consciência em relação à filha. Ele sempre soube dos limites de Quinn! Isto me deixa muito decepcionada. Ele deveria ser o primeiro a poupar a filha". Neste ponto, concordou com a Parker. Entrementes, de que poderia adiantar tal sinergia de opinião? Quinn ainda faria o que prometeu. Todos sabiam! Quando dava sua palavra, não havia santo que a fizesse voltar atrás. "Lamento, doutora. Mas cerio que, nessa investida, a senhora não obterá sucesso", concluiu.
A mulher se quedou muda por um período curto de tempo, até que retorquiu, "não, Sr. Holmes! Se eu decidir que o melhor para Quinn é o descanso, terei ao meu lado o Dr. Slater e a Tolkien. Russel não poderá nos fazer frente. A única pessoa com este poder é a própria Quinn Fabray!"
O mulato meneou a cabeça. Péssima notícia! A patroa era teimosa e muito dura, principalmente consigo mesma. Ela não se deixaria levar, por nada e nem ninguém. Tinha certeza! E, para a sua surpresa, a psiquiatra também a tinha, porém insistiu no seu interesse.
"DAS UTOPIAS Se as coisas são inatingíveis... Ora! Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!"
– Mário Quintana -
Rachel estava a pensar nas palavras do ex-marido e se pegou em meio a dúvidas. Estaria Jess correto em suas desconfianças e suposições? Como saber a verdade, se as pessoas que conhecia e conheceram seu pretérito com a Quinn se negaram e negavam falar sobre a advogada e o passado? Por que a própria Quinn se mostrou tão indiferente ao passado que viveram? Estaria ela a fingir e, assim, fugir do amor que ainda sustentava? Como era capaz de se mostrar e se manter tão indiferente? Era uma grande fingidora? Era certo que a advogada sempre soube usar a máscara da indiferença e da frialdade... Teria incorporado tal engodo ao viver diário de maneira que a máscara se tornou permanente? Como, na verdade, Alex Bishop conseguiu e conseguia manter uma relação amorosa com a conhecida "Rainha de Gelo"? Quinn Fabray não era tão fria quanto a pintavam? O que havia de real e de imaginário na vida de sua amada e ex-namorada? Como fazê-la acreditar no amor que nunca morreu e só se fortaleceu com o passar dos anos? Como fazê-la crer que a relação com Jesse era fraterna e que, apesar de ceder ao desejo da carne e do sexo com ele, era para ela que seu coração saltava descompassado no peito e o desejo latejava covarde em todo o seu ser? Como tê-la? Como dobrá-la? Eram perguntas válidas, porém – ainda — desconfortavelmente sem respostas. E só através das respostas conseguiria alcançá-la! Sua Quinn, seu amor; seu grande e permanente amor! Quem seria a pessoa com quem ela, Rachel, conseguiria a verdade? Russel Fabray? Pouco provável... Ele sempre crucificou a filha e a relação afetiva que mantinham! Brittany Pierce? Talvez... Mas certamente ela seguiria a vontade da esposa, Santana. Os ex-empregados da ex-fotógrafa e agora advogada? Entrementes, onde estariam eles? Nova York era tão grande! Ainda morariam na Big Apple? Seriam eles capazes de lhe compreender e perdoar a ponto de lhe falarem sobre Quinn e como ela conseguiu o intento de aparentar frialdade e indiferença? Como "quebrar" as defesas dela? Como alcança-la? E como fazê-la abrir mão de Alexandra Bishop? As duas pareciam tão unidas e tão cúmplices! Ou foi apenas uma impressão errada estimulada pelo ciúme que a corroia ainda?
"Deus! O que eu faço? Quinn parece tão inalcançável para mim! Por quê? Eu a amo e a quero! Preciso dela como preciso do ar para respirar", lamentou, à beira de uma crise de culpa e ciúme. Porém, tinha o direito de se eximir de seus fantasmas do pretérito? Esta era, sim, , a grande questão! Como convencer Quinn que o que aconteceu no passado foi apenas instinto, nada mais! Uma falha, um erro, uma inconsciência momentânea?... Como fazer para desconstruir os argumentos e ideias preconcebidas que eram suas principais armas de defesa e autoproteção?
"Quinn, Quinn! Será que eu não a terei mais? Essa perspectiva dói tanto!", murmurou. E então se lembrou, mais uma vez, das palavras de Alex e as murmurou, meditativa, "ela não entrou no coração de Quinn... Invadiu-lhe a vida... Será este o único meio de eu chegar até ela? Invadir-lhe o espaço, toma-la de assalto? Isso seria justo com nós duas, que já dividimos a vida? Eu quero consertar as coisas... Porém, só poderei se tiver acesso a ela... Ou ficarei a remoer minhas dores para o resto da vida. E isto será o meu inferno particular. Um sentimento que acabará por minar todas as minhas outras relações, sejam estas profissionais, sociais, familiares... Não. Spencer não pode ser prejudicado pelo meu erro e ter sobre si os termos de minhas frustrações. Isso será injusto com ele e todos os que me cercam", concluiu, abatida.
"– Corvo, roubar sabão? Para quê?
– Roubar é da minha natureza."
– Ditado Popular -
Quando retornou à sala de jantar, Holmes não encontrou a patroa. Foi até o quarto dela e não a encontrou lá. Foi ao banheiro da suíte e este estava vazio. Procurou-a na cozinha, sala de estar, quartos de hóspedes e escritório. Não a viu. Porém, sentiu o cheiro de menta. Certamente, ela passou por ali. Resolveu olhar no terraço e piscina. Suspirou. Nada. Ela teria saído? E, se saiu, para onde foi? Interfonou para a portaria e ouviu do responsável que a advogada não passara por lá. Então, a verdade lhe caiu pela cabeça, feito um raio. Ela estava lá! E fazia muito tempo que não entrava no local. E, se o fez, foi porque quis encontrar lógica... A lógica de Rachel Berry!
Quinn estava sentada na cadeira rotativa plantada no meio do estúdio de fotografia que mantinha dentro do escritório com a única porta que dava acesso na cor da parede, o que a tornava imperceptível e além do conhecimento de outra pessoa que não Holmes, a olhar as antigas fotografias ao lado de Rachel e os recortes de jornais e revistas, como, também, notícias impressas direto da Internet, presas aos quadros de cortiça por tachinhas. Levou a cigarrilha aos lábios e tragou. Soltou a fumaça bem devagar.
“O que ela quer?", perguntou-se, “é tão incongruente o comportamento dela!”
Girou a cadeira devagar e parou em frente à notícia do casamento da cantora com o St. James.
"Ela parece tão satisfeita e feliz... Jesse de fraque... Ela de noiva... Feitos um para o outro!", murmurou com cinismo. Levou a cigarrilha aos lábios e tragou com muita calma e, de novo, soltou a fumaça mentolada de maneira tranquila e girou a cadeira um pouco mais. E viu os recortes que falavam sobre o nascimento de Spencer. Havia uma imagem de Rachel com o marido e o bebê. Ela ainda estava inchada... Pareceu que, pela reportagem, a atriz não teve uma gestação tranquila e, por várias vezes, precisaram cancelar as apresentações dela. "Sempre há um preço a se pagar pela felicidade?", questionou-se.
Tornou a girar a cadeira um pouco mais e viu imagens das duas, sorridentes. Esta era uma imagem sem razão. Como poderiam aparentar felicidade? Não poderiam, de verdade, estar felizes... Perguntou a si mesma. Olhou para a reportagem que trouxe a notícia da volta do casal Berry-St. James para Nova Iorque junto ao rebento ítalo americano.
“Isso é confuso para mim...”, murmurou. Estudou as imagens e notícias sobre a atriz que optou pelo divórcio mais estranho que já presenciou em seus poucos anos de advogada.
"Divorciada e a viver sob o mesmo teto do ex... parece-me tão moderno!"
Observou as outras fotografias... Kurt, Blaine, Kurt com Blaine. Santana, Brittany, Santana com Brittany. Mercedes, Sam, Mercedes com o Sam. Puck, Finn, Puck com o Finn.Willian, Sue. Rachel e Finn... Ouviu três batidas na porta e soube que era o cuidador. Soltou um impropério e foi atende-lo. Mal abriu a porta e avisou que "eu estou bem".
Holmes, particularmente, não apreciava quando a patroa se fechava no estúdio e, por isso, indagou se "encher-se de confusão a deixa bem? Senhorita, eu sei o quanto se tornou limitada no que concerne a 'sentimentos', porém eu ainda sou da opinião olhar para o passado, principalmente no seu caso, é perda de tempo".
A advogada sorriu e contestou, sincera, "que passado, Holmes? Eu não tenho mais um passado. E não estou a perder tempo. Estou a analizar as informações. Quero entender... Isto é, por acaso, ruim?”.
O mulato meneou a cabeça em gesto negativo e retorquiu que "talvez não haja o que entender ou procurar lógica”.
Quinn o encarou com muita seriedade e objetou, sem parcimônia, "há lógica! Eu só estou... Estou ainda um pouco confusa, Holmes. Por isso preciso, ainda que a contragosto, olhar para trás e ver peça por peça deste jogo e tentar enterder a regra. Eu pensei que soubesse... Mas eu não sei. E isto me incomoda.”
Ele sentiu ímpeto de abraçá-la e apaziguar o que ía por dentro, mas sempre soube que o melhor era deixa-la. Quinn não apreciava contato físico... Exceto o de Alex. O que era, na verdade, um verdadeiro espanto para quem a conhecia. Suspirou e falou, preocupado e com uma intensa vontade de tira-la daquele lugar, "por que não volta à sua tarefa, doutora? Creio ser o melhor a fazer. E, claro, logo a Srta. Bishop chegará...".
Quinn franziu o cenho.
"Alex virá hoje? Outra vez?"
O serviçal assentiu e acrescentou que "ela estava muito preocupada com a doutora...".
A Fabray meneou a cabeça e pareceu contrariada.
"Eu estou bem!"
Holmes não disse o contrário, "sim... Porém mais cedo estava fechada em si mesma. Não creio que isso seja estar bem. Falei com a Dra. Parker..."
Quinn debochou, "oh! Brilhante! E o que foi que ela decidiu? Que eu devo voltar o mais rápido possível ao consultório dela?".
Holmes negou com o balouçar de cabeça e acresceu que "ela deseja, realmente, ver-lhe. Porém, não imediatamente. Ela é de opinião de que a doutora precisa de um tempo. E, após este, marcará uma consulta".
A loira sorriu e meneou a cabeça. Atalhou que "ela, sem dúvida, marcará a data para me aborrecer.”
“Não dessa vez, senhorita. Ela prefere que você faça isso.”
Quinn deu um suspiro e concluiu, consciente das técnicas da médica, "ok... Se eu não aparecer, sem dúvida virá até mim. Como não a quero aqui em casa, irei até ela".
"Esta é uma boa decisão, senhorita", respondeu o homem.
Quinn se voltou para dentro do estúdio e o mirou outra vez, foto por foto, recorte por recorte, reportagem por reportagem e, após, cerrou o lugar e seguiu com o cuidador. Nada disse. Apenas se deu ao direito de meditar sobre o assunto.
"Só o inimigo não trai nunca."
– Nelson Rodrigues -
CONTINUA.
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