Sine Cordi

16 16 - י ו


Notas iniciais
Eis mais um capítulo. Este dará início a revelações que norteiam o comportamento de nossa "Ice Queen"!

"A solidão é uma solução muito sozinha.

A solidão é uma solução sozinha.

A solidão não é uma solução

Só minha.

A solidão não é só minha.

A solidão não é sozinha."

Sozinha by Viviane Mosé -

Rachel caminhou pelo Central Park, a pensar em tudo o que aconteceu com a vida desde que chegou à Big Apple e desde que ela e Quinn se deram uma trégua e foram se descobrindo aos poucos, a irritação da fotógrafa a se transmutar em amor. E como, tão católica e cheia de certezas, pegou-se desconcertada ao descobrir que estava enamorada de sua vítima preferida no colégio. Nunca a viu tão perdida e sem saber o que fazer. Sorriu com a lembrança. "Eu lhe fustiguei tanto, Q! Beijava-lhe nos cantos dos lábios, roçava nossos corpos só para ver a capitã das cheerleaders ruborizar e perder a fala", falou para si mesma, a ser invadida por tais lembranças. Perguntou-se, dorida, "você voltará para mim, meu amor? Você voltará e me amará outra vez? Iremos refazer nossas vidas, um dia de cada vez e para sempre?"; uma lágrima furtiva escorreu pela face entristecida. Secou-a com as costas da mão e respirou fundo. "Eu sei que não será fácil, Q! Porém, eu não desistirei de você e lutarei para que seja tudo como antes. Eu juro!"

Quinn tomava um delicioso café bem quente, de grãos especiais torrados e moídos na hora. O olor era fantástico! Isso lhe causava um prazer secreto. Adorava quando a cafetaria tinha tais grãos e os manipulava com prática e delicadeza, a fim de retirar-lhes o melhor café puro, encorpado e de sabor especial. Estava a estudar o arquivo que Wilhelm lhe enviara há pouco, via e-mail. Sorriu. O detetive era mesmo o melhor. E que bom negócio fez ao contratá-lo para lhe ajudar nos casos. Wil era, sem dúvida, a sua metade vencedora. Quando estava a trabalhar em algum caso, as informações que ele lhe enviava eram de sobremaneira o ponto que sempre lhe encaminhava para a vitória. Sabia, também, que boas informações de nada valiam se não as manuseasse com maestria e malícia. Bem... Neste ponto não poderiam reclamar. Ela, Quinn Fabray, sabia como ninguém transtornar o outro lado da contenda judicial. E não seria diferente desta vez. Sorriu para si mesma e, após, levou a xícara com o delicioso café aos lábios. E agraciou-se com um excelente e saboroso gole. Voltou a reler o relatório com acuidade redobrada e uma concentração que a desligava do mundo ao redor. Tinha em mente, com muita clareza, que a defesa tinha oitenta por cento de chances de ganhar o caso. Sua obrigação era o de virar tal situação e equilibrá-la. O primeiro ponto seria colocar a acusação em pé de igualdade com a defesa, com cinquenta por cento para cada lado e, depois, garantir sessenta de vantagem sobre a defesa. Após tal feito, ficaria mais fácil inverter por completo a situação, com oitenta por cento para a acusação e vinte para a defesa. Sorriu outra vez. Todo o esquema já estava arrumado na cabeça. Bebeu um pouco mais do café. Estava satisfeita. Tudo sairia a contento! Findou a primeira xícara de café e pediu outra à garçonete, que prontamente a atendeu. Começou a sentir a cabeça latejar. "Maldita dor...", resmungou, aborrecida. Tirou dois comprimidos de analgésicos da caixinha que sempre levava na pasta de trabalho e os engoliu com um gole de água que lhe fora servida junto com o primeiro café, um costume da cafeteria que ela sempre considerou estranho, porém que a ajudou várias vezes quando uma forte crise iria se manifestar. Eram os malditos remédios para a dor que a mantinham coerente. Pensou sobre o quê os médicos sabiam ser melhor para si própria e concluiu que, na verdade, eles não sabiam. Recomendavam determinado miligrama de Codeína, entrementes, tal dose já não era mais efetiva. Então, por conta própria, tratou de aumentar. E, até então, o ajuste feito estava a dar certo. Exceto quando as crises extrapolavam seu grau de suportabilidade para a dor. Então era Holmes a medicá-la e deixá-la fora do ar, a dormir por horas e mais horas. Odiava quando isto acontecia. Porém, se não fizesse o que o homem fora instruído, enlouqueceria no sofrimento que sensação desagradável lhe causava, caso não desmaiasse antes. Outro fato que a deixava contrariada era acharem que interagir com outras pessoas lhe faria bem. Desde quando lidar com pessoas que lhe causavam tédio era bom ou saudável? Até mesmo eles, os homens e mulheres de branco eram uma equipe de idiotas! Faziam cada pergunta... E, não fosse sua boa educação, já os teria enviado às favas. Na verdade, esta era uma ideia que muito lhe agradava... E porquê não realizá-la? "Fabray, Fabray! Isto será muito divertido", concluiu.

Voltou à leitura do arquivo, já pela terceira vez e certamente não a última, concentradíssima. A nova xícara de café lhe foi servida e ela murmurou um agradecimento, sem — no entanto — deixar a leitura. Bebeu um gole do líquido que a levava até as estrelas e seguiu com o estudo. Aproveitou para fazer algumas anotações em seu caderno de capa de couro. E assim estava, presa em seu próprio mundo quando ouviu uma voz ao longe, chamando-a. Bem devagar retornou à realidade e deu com um Jesse St. James a mirá-la. Pareceu preocupado. "Tudo bem com você, Fabray?"; ela assentiu, ainda meio fora da realidade e com a mente a se libertar devagar do estudo. O homem insistiu, diante da mudez dela, "você está bem? Parece um pouco distante...".

A advogada bebeu um longo gole do café e, dona de si, argumentou que "eu estava concentrada no estudo do caso de 'O Estado de Nova York contra Raul Steven Street'. Eu costumo, literalmente, mergulhar nos dados e informações de maneira que acabo por ficar alheia ao mundo externo". O ator assentiu. E perguntou, um pouco sem graça, "estou a esperar por Kurt e Blaine. Seria incômodo esperar aqui, com você?"; ela tinha um "Sim" bem sonoro para ele, porém se segurou. Kurt e Blaine, certamente, não demorariam muito. Então, podia suportá-lo por um tempo. "À vontade! Você deseja beber alguma coisa? O café está maravilhoso. Os grãos são especiais e torrados na hora. Consegue sentir o odor maravilhoso", questionou. O homem fitou-a um tanto incrédulo. A forma indiferente como ela falou foi espantosa. E, sem conseguir segurar a língua, perguntou "Quinn, por quê o tom de sua voz é tão indiferente? Você conversa comigo como se nada tivesse acontecido entre mim, Rachel e você! Como consegue? Eu me sinto altamente sem jeito, envergonhado... No entanto, para você é como se nada se sucedeu", exclamou, realmente atordoado. Ela ergueu a sobrancelha direita e sorriu, zombeteira. "O que não tem remédio, Sr. St. James, remediado está. O que desejou que eu fizesse? Tanto tempo se passou! E com ele vieram mudanças, pontos de vista distintos, outras escolhas... Ou me dirá que nada mudou em você?"; o ator e cantor concordou com ela, entretanto "as mudanças no meu caráter, no meu jeito de ser, de encarar a vida não foram tão radicais", atalhou. Ela bebeu um pouco mais do café e depositou a xícara sobre o pires. Cruzou as mãos sob o queixo e perguntou, irônica, "diga-me, Sr. St. James, todas as mudanças devem ser amenas?". O homem ficou confuso, afinal, o que ela queria com tal questão? O olhar dela não se desviou. Encarou o ex-marido da Berry tão rigorosamente, que ele precisou desviar o olhar. Quinn sabia fazer as pessoas se desconcertarem e emudecer. "Não tem uma resposta? Pareceu-me tão certo quando se colocou. O quê mudou?"; Jesse sorriu e meneou a cabeça. Não tinha uma resposta! Mas a loira... "e como você define o que é 'ameno'? Já pensou que determinadas definições são apenas questão de ótica?". Ele sorriu sem jeito e observou "lembrar-me-ei de nunca mais puxar contendas verbais com você!"; a gargalhada dela saiu deliciosamente alta e verdadeira. "Não seja covarde, homem! Eu não sou a dona da verdade e nem serei! Eu só lhe questionei a fim de fazê-lo pensar. E veja no que deu! Você deixou escoar toda a sua certeza por entre os dedos." O St. James ruborizou. Entrementes, perguntou "você não sente ou tem ressentimento pelo que eu e Rach-Rach lhe fizemos?"; a advogada bebeu mais um pouco do café e tornou a mira-lo. Ela franziu as sobrancelhas e, a parecer debochada, questionou "o que o senhor e a sua famosa esposa me fizeram?"; o St. James riu. Então, Quinn Fabray gostava mesmo de se divertir às custas dos outros! "Você se diverte muito?", estava sério. E a loira ergueu a sobrancelha direita. Perguntou "Sr. St. James, o senhor acha que os humoristas, por se dedicarem a fazer as pessoas rirem, se divertem?". O cantor coçou a nuca e respondeu, sincero, "talvez...", e ela "talvez... Talvez demonstra incerteza de sua parte", ponderou. Porém o artista não ligou um assunto ao outro e confessou "eu não entendi". A advogada riu mais outra vez e explicou "o senhor me perguntou se sinto ressentimentos pelo que a sua Mme. Bovary e o senhor me fizeram. A única resposta sincera que posso lhe dar é: nem todos os humoristas se divertem com o que fazem, e nem todas as pessoas que foram magoadas se entristecem eternamente". Ele ficou tão embasbacado com o que escutou, que se perguntou se ouviu direito o que a advogada lhe disse. "Mas eu soube que você não ficou muito bem... E a sua frialdade demonstra claramente isso"; Quinn retrucou que "apesar de não parecer, Sr. Sant. James, eu sou um ser humano, que sempre sentiu o mesmo que os demais. Porém, tal acontecido foi há cinco anos. Quem, em sã consciência, passaria tanto tempo a remoer sofrimento? Odeio sentir dor. Então eu as mato. Entendeu?". Sim, ele entendeu, mas ainda havia coisas que não entravam na cabeça. "Ok! Eu concordarei com você neste ponto, porém você mudou toda a sua vida! Era uma das melhores fotógrafas da América e estava listada entre os cinquenta melhores do mundo. E, daí, deixou a fama conquistada e fez Direito?... Isso realmente me atordoou. Por que tomou tal decisão? Você amava a fotografia!"; "Sr. St. James, eu amei muitas coisas e nem por isso fiquei com elas!". Ele gelou. E concluiu que certas coisas não deveriam ser conversadas com a loira, afinal ela parecia ter respostas para tudo, inclusive para deixá-lo em 'saia justa'. E, para sua sorte, escutou a conhecida voz do contratenor atrás de si, sorridente, "huumm! Quinn! Há quanto tempo não nos vemos ou conversamos?". Ela o fitou com o melhor ar blasé que possuía e retorquiu, a mostrar o belo sorriso, "seis, sete, oito meses?... É! O tempo passa tão rápido, Kurt."; e ele "concordo plenamente. Por isso, perguntarei: quando convidará a mim e ao meu 'consorte' para irmos a sua maravilhosa cobertura beber um de seus refinados vinhos?". Os olhos dela cintilaram antes de a resposta ser proferida: "terei de consultar a minha agenda. Sabe muito bem como o Russel me escraviza."; e Kurt "ou seja, agosto! A-gosto de Deus!". Ela gargalhou e não se fez de rogada ao dizer "e-xa-ta-men-te!". Blaine entrou no recinto e percebeu o marido e Jesse na mesa cativa de Quinn. Foi até eles e cumprimentou a advogada e o cliente. E perguntou por Rachel. Jesse respondeu que ela foi deixar Spencer com Maria e logo se juntaria a eles. "Ok! Então creio que podemos deixar a Dra. Fabray a estudar e preparar a corda que servirá de forca para o Raul Street. Concorda comigo, Quinn?"; ela não fingiu ao exortar em tom de alívio "eu nunca me oporia em deixá-los à vontade. Tenham uma boa reunião", desejou. O ex-marido da Berry se ergueu, ainda baqueado com o que ouviu dela no colóquio que tiveram. Quinn apenas deu um pequeno sorriso e logo se voltou para o notebook e as anotações que achou pertinentes ao caso.

"Cara! Como foi que ela ficou tão indiferente?", o ator questionou tão logo se afastaram e foram para à mesa escolhida. Kurt e Blaine trocaram olhares significativos, mas nada falaram. Jesse percebeu o estranho silêncio dos amigos e empresários e voltou a falar "vocês sabem o que a fez ficar assim. Por que não me contam?". O casal se entreolhou mais uma vez e Blaine respondeu "eu não sei. E Kurt sabe muito pouco. Usei antítese numa só oração!", sorriu, a fim de desconversar e retirar da face do artista a máscara de desconfiança. Porém, o ex-marido de Rachel Berry não se deu por satisfeito. Insistiu ao proferir "ela disse que não sofre mais por Rachel. Foi tão direta e certeira, como se pudesse controlar a quem amar! Tão prática que me faz pensar que minha Rachel ficará a dar socos em ponta de faca. E se machucará... Muito!"; Kurt, já sentado e com a carta do menu em mãos, atalhou "o problema, St. James, é que a nossa estrela mor é mais teimosa que mula quando empaca! Cismou que não a ajudamos com a 'Rainha de Gelo' pois temos medo de que ela a faça sofrer. E, na realidade, o que fazemos é o contrário. Procuramos proteger a Rach de Quinn!". O artista ficou meditativo. Tudo lhe pareceu estranho; muito além do que se poderia esperar. Retorquiu, grave, "eu já vi pessoas que foram traídas, tiveram seus corações partidos e tudo o mais que se possa pensar a respeito, todavia eu nunca vi uma reação como a da Fabray. É como se ela fosse incapaz de sentir alguma espécie de sentimento por alguém! E tal fato me entristece, porque sei que fui o cooperador direto para que ela ficasse assim... Fria, indiferente, incrédula... Não consigo definir"; "nem você ou Rachel devem se sentir culpados pela escolha de Quinn. Ela escolheu o próprio destino... Não saiu completamente da maneira que ela quis, porém não poderemos negar que, de uma forma ou de outra, ela alcançou seu objetivo final. Por isso, esqueça esse lance cafona de culpa. E faça que Rach também o esqueça", Kurt observou. E tal fala deixou o St. James ainda mais confuso. Afinal, como não se sentir culpado? Por que não se sentir culpado? "Querem saber? Às vezes vocês me assustam. Para onde foi o sentimento de vocês? O quê os tornou tão frios?". O casal se entreolhou e Blaine tomou para si a resposta ao verbalizar "não é questão de estarmos frios, Jesse! É apenas uma posição sóbria e defensiva. Quinn não é mais uma pessoa que acredite em amor, romance ou cousas do tipo! Por isso, insistimos que a Rachel seja cuidadosa, ou a Fabray irá, inevitavelmente, feri-la."Jesse meneou a cabeça. Ele escutou direito? "Inevitavelmente? Vocês parecem um pouco duros em relação a Quinn", desabafou. Kurt suspirou e, por saber que tal colóquio não os levaria a lugar algum, propôs que "poderemos esquecer um pouco da 'Ice Queen' e falarmos de negócios e blá, blá, blá? "; Jesse estava preparado para dar uma resposta ao afetado empresário, porém ouviu uma voz conhecida atrás de si a reclamar "por que eu só os encontro às turras? Qual o motivo desta vez?", quis saber a Berry. E o ex-marido respondeu: "Quinn Fabray!".

"A única coisa que se possui é

aquilo que se dá."

– Isabel Allende -

CONTINUA.

Notas finais
Então, é isso! Até o próximo capitulo, quando Alex aparecerá e muito empezará a ser revelado!