Sincronicidade

1 Destinada a cantar preces


Durante um bom tempo, minha irmã ficou a bailar e cantar – com seus pés descalços e carregando uma seda que dançava pelos ares — para o destemido dragão negro a pedido da sacerdotisa e guardiã Miku. A cada canto, feridas pareciam em seu corpo e uma mancha de sangue surgia de seus lábios. Era a exaustão consumindo seu corpo de forma brusca.

De início, eu caminhava para o leste sem rumo. Felizmente, eu ainda sentia o coração fervente dela a ponto de ter forças para resgatá-la. E, para manter este sentimento tão forte dentro de mim, eu cantava. Sim, eu cantava porque, de alguma forma, eu tinha visões da minha irmã e a escutava cantarolar. Dessa forma, eu me guiava e mantinha uma sincronia que me permitia saber como Rin estava.

Minha bússola me levou para um vilarejo no qual, por distração, me esbarrei com um rapaz encapuzado. Este me ofereceu a mão, dando-me apoiou para levantar. Em seguida, me questionou:

Parece que está precisando de ajuda, Kagamine Len. – Disse o desconhecido.

– Como sabe o meu nome? – Perguntei um tanto espantado, pois seu rosto não me era familiar.

Meu nome é Kaito e acredito que posso te levar até sua irmã e salvá-la.

De início não confiei totalmente no rapaz de cabelos azulados, mas toda ajuda era bem vinda. Então prossegui minha viagem até o castelo central do reino, onde mora a perversa Megurine Luka, a rainha daquele reino condenado.

Dentro do templo, um jovem de cabelos em tons de púrpura discutia com a rainha:

Sabe que é loucura manter este dragão próximo de nós. Um dia o ciclo das Divas acabará e seu reino arderá em chamas.

Não seja tão insolente, Gakupo. Com a Miku sendo guardiã, nada fugirá dos meus planos.

Luka o olhava com os braços cruzados. Kamui, por sua vez, a atacou com seus punhos. Sem pensar, esqueceu o quão habilidosa era a rainha que o mobilizou. O jovem caiu no chão e foi pressionado com um dos pés de Luka. Esta sorria maliciosamente:

Continue a descumprir minhas ordens que terá o mesmo castigo que seu avô e sua mãe.

Isso estressou o jovem caído no chão. Não tinha idéia do que estavam discutindo, mas suspeitava que o rapaz de cabelos longos fosse forçado a algo. E, antes de concluir minha hipótese, o clamor dele me despertou:

Eu desisto de você! Sabe que tenho mais conhecimento sobre esse dragão e precisa de mim para tomar as atitudes mais cautelosas. Só que, diferente de você, não sou teimoso.

A rainha, sem pensar duas vezes, mandou que seus súditos o prendesse no calabouço. Simultaneamente, dei umas cutucadas em Kaito para que fosse investigar sobre o rapaz e, com minha espada, avancei por trás de Megurine, posicionando minha arma próxima ao pescoço da mesma. De repente, a rainha expressou um sorriso de lado e uma nova personagem apareceu atirando uma faca próxima ao meu pé, assustando-me e afastando-me da Luka. Seu cabelo era castanho e curto, vestia uma armadura prateada e carregava uma espada de maior espessura. Deduzi que fosse uma das guardas da rainha:

Não permitirei que toque na minha rainha! – Exclamou.

Sabe que ela está ameaçando o povo com este dragão. Algo tem que ser feito!

Corri de encontro a ela, movimentando minha espada. Esta se encontrou com a dela, nos afastando. Era o início de um duelo. Logo, a guerreira trouxe um argumento para que eu desistisse do meu objetivo:

Se você salvar sua irmã, eu perderei minha amiga para todo sempre! E isso eu não admitirei!

O ranger dos meus dentes tornou o clima um pouco mais vingativo. Eu acreditava na salvação da Rin e não deixaria que outros me desviassem disso. Para isso, precisei me defender dos golpes com bravura, aproveitando as brechas para ferir o inimigo, mas a luta seguiu empatada até que... Até que não suportei. Comecei a dar gritos de guerra para conseguir mais força a fim de me manter em pé no combate. Contudo, foi em vão. A jovem traçou um golpe que lançou minha espada longe. Em seguida, ela encostou a ponta de sua arma no meu pescoço, o que me deixou aflito e trêmulo.

Quando estava para encerrar, ela desistiu. Talvez tenha ficado sensibilizada com minha história. Além do mais, ela também tinha um relato. Sua amiga havia sido a Diva anterior a Rin e não pôde fazer muita coisa para salvá-la. Logo, virou-se para a Luka, a questionando:

Como posso confiar em suas palavras? A Teto era minha amiga e não mereceu ser levar por seus súditos para aquela caverna. Meu peito ainda dói só de saber da notícia que ela fora assassinada brutalmente pela fera. É como se eu a visse na minha frente dando um último adeus com sua face ensanguentada!

Já lhe disse que, se mantermos o ciclo, sua amiga terá mais chances de retorno. Agora, faça-me o favor de acabar com este delinquente! – Ordenou, apontando para mim.

Meiko respirou fundo e correu em direção a Luka:

Eu me recuso a seguir suas ordens!

Ao levantar a espada, foi surpreendida por uma nova garota de orbes com colorações diferentes e uma mecha azul. Esta segurava uma foice e tinha um olhar frio e calculista.

Ruko...

A garota citada deu uma breve risada, avançando na Meiko que voltou para onde eu estava, jogando a minha espada que havia arremessado para longe.

No calabouço, Gakupo refletia sobre suas decisões. Ele havia herdado do seu avô todo o conhecimento sobre o temível dragão, mas se arrependeu em seguir os passos do mesmo. O idoso era um dos sacerdotes que havia escravizado a jovem Miku para que a mesma guardasse o dragão. O idoso também prometeu lealdade a rainha que o apunhalou pelas costas. E, para piorar a situação, a jovem mentiu para Kamui sobre um suposto seqüestro da mãe que havia se matado por conta da loucura. “Eu a libertarei caso consiga livrar meu reino desta fera!”. O tempo se passou e o jovem descobriu toda a verdade. Como conseqüência, recusou a ajudar a Luka a libertar o reino.

Enquanto estava mergulhado em seus pensamentos, não notou que, a sua frente, Kaito estava parado com as chaves na mão e um guarda desacordado.

– Vamos, está na hora de sair daqui!

Kamui tomou um leve susto, levantando-se às pressas. Correu ao lado do rapaz e voltaram ao salão central, onde eu e a guerreira – de nome Meiko — estávamos encurralados. Ambos nos puxaram para saída e fugimos com êxito.

Do lado de fora, o quarteto decidiu caminhar até a moradia do dragão, mas passamos por muitos obstáculos enviados pela perversa rainha. Foram dias e dias passando por inúmeras dificuldades tais como fome, cansaço, sede, inimigos armados e ameaça de povos vizinhos. Contudo, eu obtive força de vontade pelas melodias de minha irmã. Saímos sucedido de todas as batalhas. E, por fim, chegamos a uma queda d’água que era passagem para a caverna.

Enquanto entrávamos, senti um forte apertou no peito que tornou minha respiração bastante ofegante. Parei por uns segundos para respirar fundo e me apoiar numa árvore próxima. Nisso, Kamui me olhou preocupado. Tal olhar não me trazia boas esperanças.

Nosso tempo está correndo mais rápido do que eu esperava.

O que quer dizer com isso, Gakupo? – Questionou Meiko, olhando assustada para o rapaz.

As Divas são constituídas pela luz e escuridão. A união dos dois pólos permite que vivam por muitos anos, mas acredito que, como ela tem um irmão gêmeo, houve uma falha na distribuição dessas virtudes. Em outras palavras, seu tempo de vida é bem menor do que as antecessoras.

Eu arregalei os olhos com a notícia, me sentindo culpado. Contudo, não fui o único a se espantar. Assim, sem mais delongas, Meiko e Kaito me ajudaram a entrar no templo da fera.

Pre-cisamos... ir! – Me esforcei para falar.

Quando adentramos, vimos a imagem de uma bela mulher com suas longas madeixas esverdeadas presas por dois laços preto e rosa; usando um esplendor vestido e carregando um castiçal incomum. Seus olhos eram vendados. Sem hesitar, deixou à amostra a palma da sua mão que emitiu um forte luz azulada enquanto invocava seres malignos do subterrâneo. A áurea dela era negra e conturbada.

Também, sem hesitar, Meiko e Gakupo pegaram suas espadas, traçando os espíritos ao meio. Só que estes se reconstituíam e voltavam mais fortes, derrubando meus companheiros. Kaito, por sua vez, repetiu o mesmo gesto da Miku, mas invocando raios negros que abriam passagem para mim. Contudo, o poder da sacerdotisa era maior. Novamente invocou os espíritos, atacando o misterioso Kaito.

Olhei para trás visualizando meus amigos derrotados. Isso encheu meu coração de ódio. Então, aproveitei a brecha, correndo até a guardiã. Minha espada se encontrou com o castiçal dela, o que deixou nossos corpos e lábios próximos. Com isso, Miku sussurrou poucas palavras. Eu sentia um ar pesado sair de sua boca e encostar a minha, o que me deixou assustado, me derrubando. Cai, batendo a testa no chão e formando um ferimento dolorido que me deixou desacordado e sob a posse da sacerdotisa. Esta soltou uma risada maléfica enquanto “dava” as costas para mim. Meus olhos fecharam, estavam pesados... Parecia tudo estar perdido... Era meu sinal de fraqueza.

O feitiço lançado me fez ter estranhos flashbacks sobre a vida da guardiã. Esta sofria desde pequena pela sua feitiçaria e acusada como bruxa. Todos desejavam a morte dela até que o dragão cobriu o povoado com a sombra de suas asas, pedindo um sacrifício. Assim, para poupar a vida da Miku um grupo de sacerdotes que tinham fé na salvação do povoado colocou em prática um ritual. Neste, puseram a força uma máscara que vendava a sacerdotisa e permitia total controle sobre ela – a via gritar e suplicar por perdão, mas os sacerdotes ignoraram seu pedido. A remoção da máscara levaria a um caos de tamanha grandeza capaz de quebrar o ciclo das Divas e condenar o reino ao massacre. Desde então, Hatsune mantém intacta a lenda e a existência do reino.

Felizmente, através de nossa sincronia, minha irmã percebeu que estava em transe e pôs-se a cantar mais uma vez, me despertando do feitiço. Levantei-me com muito esforço, colocando uma das mãos sobre meu ombro ferido. Meus passos começaram a ecoar pela caverna, chamando a atenção de Miku que invocou novos demônios. Estes me seguraram pelas pernas, mas minha força de vontade era mais forte. Os feitiços foram desfeitos. Com isso, Miku pôs ambas as mãos sobre o rosto, entrando em desespero. Estava derrotada.

Assim que passei ao lado dela, sua máscara se fragmentou. A jovem caiu de joelhos, apoiou as palmas das mãos no chão e começou a gritar de dor. Seus clamores despertaram Kaito que se aproximou da jovem, repousando sua mão sobre a cabeça da mesma. Recitou algumas palavras incompreensíveis, o que resultou no desmaio da sacerdotisa.

Próximo ao penhasco, estava minha irmã a cantar. Como ato de desespero, apressei meus passos para tomá-la em meu colo. Infelizmente, o corpo da jovem “amoleceu”, fazendo-a cair do penhasco. Sem pensar duas vezes, pulei.

RIN! – Clamei alto. Estiquei os braços e a peguei. Aproximei-a de meu colo – a abraçando — e chorei subitamente. Nossa queda foi livre, mas interrompida por um solo que emergia. Estranhei tal fenômeno, pulando do suposto solo quando chegamos ao topo. O dragão tinha despertado!

Quem ousa interromper a minha melodia?

Meu corpo estremeceu e minhas pernas ficaram fracas e bambas. Acabei tropeçando em um das pedras, deixando minha irmã cair. Ela despertou e a primeira coisa que fez foi olhar para o dragão.

Saia daqui, corra! — Gritei.

Logo peguei minha espada e avancei sobre a fera que tentava me golpear com as chamas que vinham de sua garganta. Eu desviava com dificuldade de todas elas.

No outro campo de batalha, Gakupo e Meiko acordavam, visualizando Kaito sentado no chão segurando a sacerdotisa em seus braços. Ele olhava com desprezo a jovem que desaparecia aos poucos.

Sempre achei que fosse um erro te colocarem como guardiã. Mas não quis sofrer as dores que está passando. — Deu uma breve risada. — Sabe que sou egoísta. — Dizia tudo com ironia.

Contudo, a cena foi esquecida quando Rin surgiu no horizonte, pedindo ajuda. Vinha cambaleando e fraca. Kaito, por sua vez, pediu para que ela cantasse:

Você está doido? Isso é suicídio para ela. – Disse Gakupo inconformado.

Mas será isso ou a destruição do reino!

Kamui rangeu seus dentes, virando seu rosto para a saída. Daquele ponto, visualizou más companhias: A perversa Megurine e sua parceira Ruko. O jovem logo planejou uma estratégia.

Kaito, vai ajudar o Len! Meiko, você fica com a Ruko e eu resolverei com a rainha.

Todos concordaram e foram para seus postos. Meiko desviava com facilidade os golpes de foice da Yokune que não acreditava na situação. Kamui também estava sendo bem-sucedido em sua batalha com a Luka. Provavelmente a melodia vinda dos lábios da Rin os restabeleceram.

Seus dias de rainha estão acabados! — Insultou.

– Isso é o que veremos... — Luka sorria confiante, mas escondendo o temor pela perda da coroa.

Mais adentro da caverna estava eu suspirando forte e cansado. Não mais conseguia me bloquear dos golpes, sendo arremessado inúmeras vezes contra as paredes. Minha irmã, sem opções, caminhou até próximo as enormes patas do dragão, começando a cantar. Mas sua voz estava cada vez mais baixa e falha. Com isso, ela caiu derrotada e, sem paciência, a fera respondeu:

Cansei desse ciclo vicioso. Você será a última Diva e a primeira a perder sua vida nesta guerra que se inicia agora.

Quando estava para traçar o último golpe na loira, levantei-me. E, com minhas últimas forças, criei uma barreira com meu próprio corpo... Suas garras rasgaram minhas costas e uma dor insuportável surgiu num piscar de olhos.

Rin visualizou a cena em câmera lenta, sentindo seu coração doer mais e mais forte a medida que o meu parava aos poucos de bater. Kaito, que visualizava de longe, suplicou mais uma vez:

RIN, CANTE!

Imediatamente, com o último suspiro, comecei a cantar. O dragão se sentiu perturbado, começando a ficar calmo. Minha irmã, por sua vez, me abraçou aos prantos e fez o mesmo. A luz e a escuridão que constituíam os dois corpos estavam juntas. Realmente, Len e Rin eram irmãos e tinham o mesmo dom da cantoria.

Essa era hora para o Kaito. Nesse intervalo de tempo, ele concentrou uma energia luminosa e azulada na palma das mãos, recitando novas palavras incompreensíveis e iluminando toda a caverna, ofuscando a visão de todos os presentes. A fera rugia alto, ecoando por todo reino. Do outro lado, Luka e Ruko tampavam os ouvidos e gritavam.

Todos correram para fora da caverna que desabou em questão de segundos. O céu agora estava limpo e tinha um brilho indescritível vindo do pôr-do-Sol.

Após o desastre, o dragão desapareceu junto com Kaito naquele entulho, a rainha e sua súdita estavam imobilizadas e Rin... Suas lágrimas caíam sobre a clave se Sol que eu carregava no peito.

Por fim, esforcei-me para levar minha mão até o rosto dela e acariciá-la.

Você está viva... É isso que me importa...

Isso a fez dar um breve riso, mas que desmanchou. Meu coração encheu-se de alegria mesmo com a mudança repentina de humor.

Agora posso me despedir com seu sorriso gravado na minha mente.

Perdi minhas forças. Infelizmente não sou capaz de contar o final da história porque meus olhos se cerraram e meu coração interrompeu sua pulsação para todo sempre. Contudo, posso afirmar que, com a mesma força de vontade que tive, minha irmã prosseguirá sua vida cantarolando e bailando pelas largas ruas do reino anunciando a paz com sua voz doce.


Notas finais
Como eu disse, a saga Synchronicity não tem um fim e, por não ser objetiva, muitas pessoas tem interpretações diferentes da música. Essa minha forma de ver a saga foi baseada tanto nas minhas ideias como em pesquisas de outras. Espero que apreciem.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!