Notas iniciais
— Ahh! Perdi de novo! — Lucy gritou enquanto sacudia seu Nintendo DSi para cima e para baixo . Wendy estava na carteira da frente e com as bochechas infladas de frustração. — Já é a terceira vez que perdemos pra vocês, já estou começando a achar que estão trapaceando.
— Quem é bom de verdade não precisa usar truques sujos! — Simon diz dando língua para elas. — A culpa não é minha se eu e Olivia fazemos um time invencível!
— Na verdade eu não fiz nada, você é o único que é invencível aqui. — Eu suspirei, fechando o jogo no instante que o sinal tocou, revelando o final do intervalo. Lucy, Wendy e Simon fizeram o mesmo.
— Já faz uma semana que você entrou na nossa escola, né Simon? — Wendy disse — Você já até se acostumou com a turma,... Melhor que eu no início, com certeza!
Semana passada, de repente, Simon apareceu em nossa turma como aluno novo. O certo seria ele estar na mesma sala de Lyon e David, no 2º ano, mas devido as suas frequentes idas ao hospital, ele perdeu muitas aulas e provas, tendo que ser obrigado a repetir um ano. Por causa disso ele caiu em nossa turma. Devo me sentir mal por ter ficado feliz com isso??
— Haha Foi fácil, já conhecia vocês! Assim não fiquei de fora da panelinha. — Ele deu de ombros. Sua carteira era na minha frente.
— Hum, será que os meninos ficaram chateados por não termos nos juntado a eles no intervalo? — Wendy disse pensativa enquanto colocava o DSi de volta na mochila.
— Começamos a jogar e esquecemos de ir pro refeitório com eles — Lucy ajeitou os óculos enquanto fazia o mesmo. — Nah, não acho que eles vão ligar!
A professora entrou na sala, fazendo com que nos ajeitássemos para começar a aula. Simon se virou de frente, mas não sem antes me dar um sorriso. Encarei sua nuca por uns segundos para depois olhar para Wendy e para Lucy. A mesma tentava falar alguma coisa para a outra sem que a professora notasse, o que foi em vão, pois segundos depois ela recebeu um chamado de atenção, fazendo Wendy rir. Pensei no que Lyon e David estariam fazendo agora, prestando atenção na aula? Vagabundeando? Talvez dormindo? Quando foi que consegui tantos amigos?
Não lembro quando foi a última vez que me senti tão completa, mas por alguma razão, sinto que ainda falta alguma coisa ou alguém que ainda não está aqui. O que será?
Resolvi parar de voar em pensamentos, balançando a cabeça para dispersa-los. Encarei o quadro sendo escrito pela caneta da professora, acho melhor eu copiar ou vou sofrer as consequências...
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— Onde vocês estavam no intervalo?? — David gritou.
— Não fique gritando no meio do corredor, vai levar bronca. — Lucy disse com um dos dedos na frente do lábio. Mas claro, estava sorrindo de forma provocativa.
— Você não me respondeu!
— Estávamos na nossa sala, estávamos jogando um pouco e acabamos esquecendo de encontrar com vocês no refeitório — Ela deu de ombros
— Eu tive que ficar quinze longos minutos sozinho olhando pra cara dele enquanto esperávamos vocês aparecerem!! — David disse, apontando para Lyon.
— Não deve ter sido tão ruim assim — Simon deu de ombros — Pelo menos estava com uma companhia!
— FOI SIM! Não quero olhar pra cara dele mais que o necessário!
—... Você sabe que eu ainda estou aqui né? — Lyon levantou a mão como se quisesse chamar a atenção deles, mostrando que estava ouvindo o que falavam . David apenas respondeu com um grunhido. Eu e Wendy suspiramos exasperadas.
Nesse momento, um grupo de umas cinco garotas passaram animadas por nós enquanto falavam.
— Então é verdade mesmo!? — Uma menina de cabelos compridos escuros disse.
— Sim sim! Era como se lesse minha mente! — A loira respondeu, animada.
— Ela disse algo sobre Thomas e você?!
— Não, mas... Ela disse algo sobre ''Arrependimentos'' no futuro! Com certeza estava falando de Thomas arrependido e voltando para mim!
— Com certeza!!!
Elas riam alto e davam gritinhos. Até quando elas desciam para o outro andar era possível ouvir pequenos barulhos devido sua animação.
— Elas estavam bem animadas mesmo... — Wendy disse, surpresa.
— Devem ter encontrado com ''Arcana''. — Lucy suspirou
— ''Arcana''? O que é isso? — Eu perguntei sem entender.
— O QUÊ?! Você não sabre sobre a ''Arcana''?! — Lucy virou pra mim, em choque.
— Ah, acho que ouvi as garotas lá na sala falando algo sobre isso... — Lyon disse, pondo a mão no queixo. — Mas não sei exatamente o que é... Tinha algo à ver com... Alguma coisa ''Sete Mistérios''...
Nessa hora, Lucy estalou o dedo enquanto apontava para Lyon.
— Exatamente, vocês já ouviram falar dos ''Sete Mistérios da Escola'' ?
— Não é aquela coisa que diz que toda escola possui sete mistérios não solucionados ou algo assim? — Wendy se proclamou. Lucy apontou o dedo indicador para ela.
— Exatamente!
— Ah, sei do que estão falando. — Eu entrei na conversa. — Geralmente são mistérios como ''O piano que toca sozinho na sala de música'' ou ''O esqueleto da sala de ciências que anda pela escola à noite'' e coisas assim. Mas não sabia que nossa escola tinha seus próprios ''sete mistérios''.
— Esquelet-— Você tá falando sério?! — David olhou para mim com cara de espanto.
— Está com medo, David? — Simon disse, provocando. David olhou pra ele e depois virou a cara, com os braços cruzados sob o peito.
— Claro que não! Ninguém acredita numa coisa dessas... — Ele falou, estalando a língua.
— Enfim, ignorando esse pequeno chihuahua barulhento chamado David, — Meu irmão gritou um ''EI!'' em protesto, mas Lucy fingiu não ter ouvido enquanto continuava. — Existe alguns mistérios sim, porém, existe um que anda chamando bastante atenção entre os estudantes.
— E seria essa tal de ''Arcana''. — Simon disse, ligando os pontos.
— Exatamente. Alguns alunos dizem que se você aparecer na escola após escurecer, você pode se encontrar com a Arcana. Ela é um tipo de vidente ou cigana, que pode ler seu passado, presente e futuro. E dizem que suas previsões estão sempre certas!
— Passado, presente e futuro... — Wendy disse, refletindo.
— Mas dizem que ela cobra um preço por sua visita!
— Um preço? — Lyon perguntou.
— Que preço? — Meu irmão perguntou, não parecendo levar muita fé nessa história.
— Sua alma. — Simon disse perto da orelha de David, fazendo-o saltar e se distanciar as pressas. Lucy estava gargalhando à esse ponto, ela e Simon deram um high-five.
— SIMON, DE QUE LADO VOCÊ ESTÁ?? — David gritou.
— Isso mesmo! Venha para o lado negro da força! — Lucy dizia apertando o punho. — O lado que vai infernizar a vida de David eternamente.
A esse ponto todos nós já estávamos rindo, exceto, é claro, meu irmão.
— DE QUALQUER FORMA! — Ele disse, chamando nossa atenção — Qual é a porcaria do preço à se pagar?
— Vinte conto. — Lucy disse finalmente. — E ai? Quem aqui quer gastar parte da mesada pra receber umas previsões comigo?
— Sabia que isso iria acontecer. — Eu falei, massageando minha têmpora.
— Eu topo, pra falar a verdade estou bem curioso sobre isso. — Simon dizia sorrindo. Ele e Lucy trocaram outro high-five.
— Simon é dos meus! — Ela disse, virando para Wendy e Lyon. — E vocês?
— Hum.. Parece divertido, por mim tudo bem. — Lyon disse, dando de ombros.
— Não tenho certeza se é uma boa ideia mas... — Wendy falou, com uma expressão incerta. Depois ela fez um cara de determinação. — Mas quero viver perigosamente!
Isso fez Lucy rir.
— ISSO MESMO GAROTA! — Ela deu batidinhas nas costas de Wendy, e virou para mim. — E você?
Eu simplesmente dei de ombros, sorrindo.
— Não tem nada que eu possa fazer, onde o bonde for, eu vou junto.
Todos nós olhamos para meu irmão. Ele fez uma expressão de puro terror.
— O QUE É?
— Você vem? — Eu perguntei. Ele cruzou os braços e empinou o nariz.
— Mas...MAS É CLARO!
Nossa, ele deve estar se cagando de medo.
Vou zoar ele com isso pelo resto da vida.
— Então,... Só o que temos que fazer é esperar até anoitecer? — Lyon perguntou.
— Exatamente, nós nos encontraremos aqui as 19:00. Por que não quero ficar mais horas na escola que o necessário. — Lucy disse, e nós nos separamos para irmos para casa.
Bom, hoje vai ser uma aventura...
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O céu já estava escuro quando cheguei na escola junto a David. No portão , Lucy e os outros já haviam chegado, eramos os últimos.
— Desculpe a demora, David arrumava desculpas para não vir. — Eu disse.
— O QUE?! ERAM MOTIVOS SÉRIOS! — Ele disse em oposição.
— Claro, David. Por que não vir aqui só porquê acabou o leite lá de casa realmente é um motivo muito sério. — Eu disse, revirando os olhos.
— OLHA AQUI, LEITE É MUITO IMPORTANTE PARA A SAÚDE E--
— Claro, David, você tem toda razão, vamos. — Lucy disse, passando pelo portão. Ela se virou para trás e estalou os dedos. — Ah e... Rapazes, certifiquem-se que ele não vai fugir.
— Huh? — David perguntou em confusão, até notar que Lyon e Simon estavam andando bem ao lado de meu irmão, impedindo-o de qualquer tentativa de fuga. Os meninos sorriam. — Isso é... Jogar sujo, Lucy!
Ela apenas sorriu em resposta.
— Okay, vamos caçar essa tal vidente aí. — Eu disse estalando os dedos enquanto nós entrávamos na escola.
Era a primeira vez que eu entrava na escola depois do escurecer, e acho que era bem o que eu esperava. O clima era diferente, me sentia num jogo de RPG de terror.
— Lucy, você sabe onde nós podemos.. huh.. encontrar Arcana? — Wendy perguntou;
— Hum... Não exatamente. Os alunos que falaram que a viram disseram que estava no segundo andar do segundo prédio.
— Nossa hein, meio longe né? Pois é, que tal nós voltarmos para... — David disse, se virando para a saída mas bateu de frente com Simon e Lyon de braços cruzados atrás dele.
— Agora que o cachorrinho já calou a boca, vamos! — Lucy disse se dirigindo à escada, sendo seguida por nós, enquanto David era levado à força pelos dois garotos. A cena fazia parecer que Lucy era uma líder de Máfia, e os meninos, seus leais guarda-costas. E David... Um pobre coitado que ficou devendo dinheiro.
Andamos pelos corredores do primeiro andar, passando pelo ginásio, e subindo a escada para o segundo andar. De repente, algo me ocorreu;
— Espera, é esquisito que tenhamos conseguido entrar na escola depois de fechar... — Eu realizei. — Lucy, como conseguiu abrir a porta?
Ela virou para trás com um sorriso enorme, como se aguardasse alguém fazer essa pergunta à séculos. Girava um conjunto de chaves unidas por um chaveiro de dinossauro em seu dedos indicador.
— Isso é...
— A chave do diretor... eu suponho? — Lyon completou.
— Exatamente. — Lucy piscou para nós.
— Wow wow Espera, como você conseguiu pegar as chaves do diretor?? — David perguntou.
— Oh... Isso não vai acabar bem... — Wendy disse, apesar de estar sorrindo singelamente.
— Não foi difícil, só tive que esperar o horários de almoço que é quando ele levanta a bunda gorda dele pra fora da sala. Ai só peguei emprestado, eu devolvo antes de irmos embora!
— Isso não vai acabar bem... — Eu imitei Wendy. Lucy fez movimentos com a mãos em desleixo, assegurando que iria ficar tudo bem.
Chegando ao fim da escada, começamos a andar pelos corredores do segundo andar. Olhávamos em salas de aulas aleatórias quando senti alguém tocar no meu ombro.
— Vocês fazem muito isso por aqui? -Simon perguntou, se aproximando de mim e falando em meio sussurro.
— O que? Tipo, andar pela escola no meio da noite atrás de um mito que nem adolescentes burros e inconsequentes de filmes de terror? Não muito. — Eu disse, o que arrancou uma gargalhada curta dele. — Mas sempre passamos por coisas assim, acho que nós só temos um azar muito grande quando se trata de atrair problemas.
— Mesmo assim é divertido! — Ele disse sorrindo para mim, para depois olhar para o grupo mais à frente. — Fico feliz em saber que durante esse tempo todo você esteve com pessoas tão interessantes, e se divertindo. Você não ficou sozinha...isso realmente me alivia.
— Simon...
— WAHH! — Nos viramos para frente em susto. Meu irmão estava caído no chão em frente a porta de uma das salas.
— QUE SUSTO DAVID! NÃO GRITE ASSIM DO NADA! — Wendy disse, dando um tapa na cabeça de meu irmão mais velho. Ela deve ter se assustado mesmo pra fazer algo do tipo.
— Ah..ah... Foi mal... — Ele disse, enquanto Lucy ajudava-o a se levantar. — O esqueleto da sala de ciências me assustou por um segundo...
— Francamente... — Lucy suspirou. — Vamos continuar!
Por algumas salas, estávamos andando em silêncio. Nenhum sinal da tal ''Arcana''.
— Quais salas faltam para vermos? — Simon perguntou.
— Acho que só três... — David disse, pensativo. — Temos quatro se contarmos com o refeitório...
— Temos a biblioteca, a sala de artes e... A sala de música...
— Sala de música? Mas passamos por ela algumas salas atrás, não? — Lyon perguntou.
— Não é essa sala de música. — Eu expliquei. — É a 'sala de música 3'. Era uma sala que continha o grupo de coral, mas esse grupo foi desfeito então a sala não está sendo mais usada. Acho que é usada como depósito...
— É o lugar mais suspeito até agora, não concordam? — Wendy disse, coçando a bochecha.
— Vamos lá então! — Lucy disse, pegando a mão de Wendy e David (as pessoas mais próximas dela) e correu, puxando-os enquanto cantava. — ''KISS KISS FALL IN LOVE!!''
— Há! Eu peguei a referência! — Simon disse, com um estranho tom orgulhoso.
Olhei pros dois garotos do meu lado e suspirei.
— Acho melhor não ficarmos para trás né?
Lyon sorriu.
— Melhor não.
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A sala de música abandonada ficava no final do corredor, meio clichê não é mesmo?
Andamos enquanto conversávamos. O corredor estava escuro (resolvemos não acender as luzes para não atrair atenção de alguém do lado de fora) e nos guiávamos pela luz de nossos celulares. Tenho certeza que se isso fosse um filme de terror ruim, iria acontecer algo do tipo ''a bateria do celular acabar'' ou coisas do tipo.
— O que é aquilo? — Wendy perguntou, apontando pro final do corredor. Na frente na porta da sala de música, estava uma mesa. Alguém estava sentado ali, olhando para nós.
Ao me aproximar, vi que a pessoa estava usando uma capa preta que lhe cobria o corpo e a maior parte do seu rosto.
— YES! Eu sabia que ela era real!! — Lucy disse, correndo para frente da pessoa desconhecida. -Você é Arcana, certo?!
—...Que bizarro... — David disse, meio escondido entre Simon e Lyon.
— Ora, veio um grupo numeroso dessa vez. — A pessoa disse, — Sim, sou Arcana. Posso lhes dizer seu passado, futuro e presente... À certo preço, é claro. — Arcana disse sorrindo, revelando dentes ligados por fios metálicos de um aparelho dental.
— Esse certo preço seria...vinte conto? — Simon perguntou.
— Pelo visto já sabe como funciona. — Ela sorriu novamente. — Um por vez, vocês irão entrar na sala e começaremos a sessão, entendido?
Todos concordaram com a cabeça enquanto ela dizia:
— Quem é o primeiro?
— Serei eu! — Lucy ergueu a mão. — Já que fui eu quem deu a ideia, nada mais justo que eu ser a primeira!
Assim, começou as sessões de leitura do futuro ou ...algo assim.
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Minha vez não demorou a chegar, fui a terceira a entrar. Logo depois de Lucy e Wendy.
A sala de aula estava escura e desarrumada, mas havia apenas uma carteira no meio que possuía um pano de mesa vermelho-vinho cobrindo-a. Arcana disse para que eu sentasse. Na mesa havia umas velas e um bolo de baralho.
— Tarô? É assim que você vê as coisas? — Eu perguntei, notando que tipo de cartas eram.
— Sim, mas posso sentir coisas através de sensações. — Ela disse, sentando. — O que esperava? Que eu lesse sua mãos ou contasse a quantidades de espinhas você tem na cara?
— Algo por aí... — Eu disse, esfregando meu rosto instintivamente. Não tenho tantas espinhas assim...
— Vamos começar. Seu nome e idade.
— Olivia, 16.
— Nome dos irmãos e parentes.
— David, meu irmão, Nathalia, minha mãe, e Felix, meu pai.
— Hum... — Ela pego o baralho e começou a embaralha-lo — Eu vou ler um pouco sobre você antes de começarmos a responder as perguntas que todo adolescente com hormônios quer saber e blá blá blá.
Ela colocava cartas viradas para baixo sob a mesa e pedia para que eu as escolhesse em ordem. Isso se repetiu várias vezes e eu não consegui ver direito quais eram as cartas selecionadas. Mas a garota à minha frente olhava para cada carta como se estivesse resolvendo uma conta matemática, procurando resultados. Depois de mais ou menos cinco minutos, ela reorganizou as cartas enquanto falava:
— Você,... é uma pessoa comum. Mas ao mesmo tempo, interessante. Você não chama atenção mas ao mesmo tempo, tem algo em você que faz com que as pessoas gostem e te queiram por perto. Você, mais para trás, era uma pessoa solitária, eu suponho? Como se você... Não quisesse se aproximar das pessoas? Por medo? Hum... — Ela usava um capuz que lhe cobria o rosto, mas eu podia dizer que ela olhava diretamente nos meus olhos, me analisando.
—De qualquer forma. Você não tem muito conhecimento daqueles à sua volta, ou de si mesma.
Eu permaneci em silêncio.
— Eu não sei dizer se esse silêncio é por que eu acertei em cheio,... Ou se é por que eu falei um bando de besteira nada a ver. — Ela sorria de canto.
— Sinceramente... nem eu... — Respondi. Ela suspirou.
—Isso só prova o que eu falei. Você não tem o menor conhecimento de si mesma.- Ela se ajeitou na cadeira, chegando para frente. — Ok, vamos para a parte do que você quer saber. Algo em específico?
— Hum... Algo sobre meu futuro, talvez? — Eu vim mais pela parte da experiência, então não tinha pensado muito no que perguntar.
O processo não foi muito diferente, misturar e escolher entre as cartas. O pessoal parece ter saído rápido de suas leituras, eu estava demorando mais ou era só sensação? Demorou mais alguns minutos até ela começar a falar novamente.
— Vejamos... Não pude ler muita coisa mas... Você vai passar por situações que podem ou não ser complicadas, depende apenas de como vai reagir a elas. Você também vai ter muitos encontros novos e principalmente...reencontros.
— Reencontros?
—Sim, mas não posso falar mais que isso. — Ela balançou a cabeça. — Você também vai passar por algumas situações complicadas no amor.
— No amor?? — Eu engasguei — O que você quer dizer? Com quem??
— Não sei, veja bem, não sou uma vidente, eu sou uma leitora... Uma comunicadora. Posso saber as coisas pelo o que as cartas e meu sexto sentido me diz. Eu não vejo rostos ou nomes. -ela balançou a cabeça. — Isso é o que elas me falam. Para você se preparar e começar a ficar mais atenta as coisas à sua volta.
—...Entendo... -As coisas eram muito vagas mas eu estava sentindo um mal pressentimento com tudo isso.
— Você está levando tudo na boa, geralmente as pessoas me enchem de perguntas e previsões. — Ela apoiou o queixo com a mão.
— Eu não ligo muito pra essa coisa de saber o futuro... Eu só vou ficar mais preocupada ainda se eu souber o que pode acontecer. — Eu dei de ombros.
—Hum.. — Ela sussurrou. — Você é...desinteressante.
—Hã?
— Já acabou para você, pode ir. — Ela disse, mexendo as mãos como se dissesse ''xô, xô''. Eu dei de ombros de novo e saí da sala.
Não pus o pé pra fora da sala e Lucy já stava em cima de mim, perguntando como havia sido. Disse que não havia nada de interessante, ela insistiu mais, mas depois deixou de lado. Depois de mim foram David, Simon e Lyon nessa ordem. Ficamos esperando no corredor até todos terminarem. Entre o que ''Arcana'' falou, apenas algumas coisas me fizeram pensar. A coisa do amor, problemas no amor... O que isso quer dizer? Faz tempo que não penso sobre minha vida amorosa... O quanto isso pode me afetar? Ou... Afetar Lyon?
A esse ponto, não posso mais negar que SIM, eu gosto dele. Mas... Ele também sente algo do tipo? Ele nunca pareceu ligar. Depois do dia do beijo parece que nada realmente mudou, parece que tudo foi uma brincadeira e que não significava nada demais... E isso é o que me preocupa. Acho que talvez eu seja a última pessoa que pode falar isso, por que nunca demonstro que vejo ele de outra forma... Isso é TÃO complicado! Por isso não gosto de saber o futuro antes, só aumenta minha ansiedade!
Outra coisa que me deixou pensando, foi a coisa dos ''reencontros''. Recentemente eu pude me reencontrar com Simon depois de anos e muita coisa aconteceu. Talvez ela estava falando sobre isso? Eu não conheço tantas pessoas assim para ter algum encontro milagroso (de novo).
Enquanto eu pensava comigo mesma, Lyon saiu da sala sendo seguido por Arcana. Vendo ela em pé, mesmo que por alguns segundos, mostrou o quando ela era baixa. Quantos anos ela tem?
— Ok, agora que já respondi suas perguntas nem um pouco clichês e super originais — ela disse, se sentando em sua cadeira — meu dinheiro, please.
Todos nós pegamos as notas de vinte e entregamos à garota. Ela continuou com a mão erguida.
— O resto? — Isso nos fez franzir os cenho. Foi Wendy quem falou:
— Huh... Nós demos o dinheiro...
— Oh — Arcana riu, uma risada aguda como a de uma hyena — Acho que temos um mal entendido aqui. — Sua voz passando para um tom morbitamente sério. Ela levantou, ficando em nossa frente.
— Você falou que era vinte conto por pessoa! O que há de errado?? — Foi David quem se expôs.
— Eu disse vinte reais — ela deu uma pausa, e continuou, sorrindo. — por pergunta.
Pode-se ouvir o uníssono do arquejo de surpresa de todos ao mesmo tempo.
''por pergunta''
— Cada um de vocês fez pelo menos três perguntas. — Arcana pôs a mão aveludada por cima da boca, como se tentasse esconder um sorriso maligno (o que provavelmente era verdade) — Vocês me devem no mínimo sessenta reais.
Ficamos todos parados, trocando olharem procurando saber o que fazer. Quando começamos a -lentamente- pegar nossas carteiras do bolso, Lucy gritou;
— CORRE NEGADA!
Milésimos de segundo depois, já estávamos todos descendo a escada a toda velocidade enquanto ouvíamos os gritos de protesto vindo do final do corredor.
— EI!! — Foi a ultima coisa que ouvimos antes de estarmos correndo em direção à saída da escola.
Do lado de fora do portão principal, todos estavam com as mãos nos joelhos, buscando ar depois da corrida.
— Você acha que foi uma boa ideia... Fugir dela assim? — Lyon disse, entre arfadas.
— Ah... Nem ferrando que eu iria... Pagar sessenta conto pra ela.. — Lucy respondeu, a mão sobre o busto.
— Bom,... Não é como se ela pudesse cobrar da gente...
— Nossa,... que loucura que foi essa noite... — David falou, sentando no chão.
— Eu achei divertido! — Simon sorriu, limpando os resquícios que suor que começavam a surgir em sua testa.
— Foi uma experiência que nunca imaginei que teria, sinceramente. — Eu disse.
— By the way! Como foram as sessões de vocês? — Lucy perguntou, ajeitando os seus óculos cor-de-rosa.
— Ela era assustadoramente... precisa. — Wendy disse, todos concordaram com a cabeça.
— Vocês acham? Ela parecia certa em tudo mas... para mim foram muito vagas. — Eu falei.
— Sério? Vai ver seu futuro só é difícil de se ver? — Simon olhou curioso.
— Ou normal demais para ter algo para dizer. — David deu de ombros.
— O que ela falou de você, David? — Eu perguntei curiosa. Ele virou a cara e eu podia JURAR que seu rosto estava corado.
— Nada de importante, só um bando de besteira. — Ele olhava para o chão com súbito interesse.
Wow, o que ela falou para meu irmão??
— Poderia ser que... — Lucy sorriu maliciosamente — ela mencionou algo sobre AMOR na vida de nosso pequeno David?
David virou a cabeça em quase 360º graus.
— Claro que não!
— Ho ho ho ho! Então eu estava certa? — Lucy ria com malicia.
— E você? Ela falou algo sobre isso com você certo?!
— Claro, mas não foi nada para eu me preocupar. — Ela disse mexendo a mão — Só que eu vou ''Perceber que amor vem de maneira e pessoas inesperadas'', para não me preocupar com isso.
— Ela não viu nada sobre amor no meu futuro próximo,...Então não preciso me preocupar muito. — Wendy sorriu timidamente.
— OW WENDY! — Lucy correu para abraça-la forte. Ela começou a falar de forma dramática — Não se preocupe my child, o único amor que você precisa é o NOSSO.
Wendy riu, abraçando-a de volta.
— Você tem razão. — Lucy sorriu com ela e me puxou para o abraço também.
— QUEM PRECISA DE BOY QUANDO SE TEM AS MIGA, NÃO É MESMO? — Lucy usou sua força para nos levantar um pouco do chão num abraço de urso. Nós riamos juntas.
—... — Simon olhou para os dois garotos ao lado dele e ergueu os braços, como se fosse o Cristo Redentor. — Então... Vocês também não... sabe...?
Lyon e David trocaram olhares e depois para Simon.
— Não, valeu, to de boa. -David disse com uma sobrancelha erguida, negando com a mão. Lyon tampava a boca com as mãos, tentando não sorrir.
— Ah... — Simon abaixou os braços. E Lyon não conseguiu conter a risada, gargalhando alto.
''É bom ver que os meninos estão se dando bem''— eu pensei, rindo.
Vendo o quanto já estava tarde, todos nós nos despedimos e fomos para casa.
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— Lucy, por quê você está escondida ai? — Eu perguntei, para a a garota de cabelos negros, que estava agachada atrás dos armários como se fosse algum tipo de espiã.
— Shh! Eu estou fazendo um pesquisa! — Ela respondeu, ajeitando os óculos.
— Um pesquisa?
— Sim, eu quero descobrir quem é a Arcana! — Lucy disse, se levantando. Ela encarava qualquer pessoa que passasse.
— Não sei por que não estou surpresa. — Eu revirei os olhos. — Aliás, aonde está Wendy?
— Ela está me ajudando na minha busca de campo. Mandei ela procurar por qualquer suspeito perto do refeitório. — Lucy respondeu — Ah, e David também está nessa. Se bem que acho que é só uma desculpa para ele olhar as garotas.
Eu pus a mão no rosto. Ela pôs até meu irmão nisso.
— Bom, já que não posso te impedir... Como posso ajudar? — Eu perguntei, sorrindo sem perceber.
— Verifique os corredores do segundo andar. Analise qualquer aluno dos pés a cabeça! Qualquer pista de que ele ou ela possa ser Arcana!
— Garotos também? Mas ela não é uma garota? Qual a relevância?
— Ah amiga, depois que conheci Rita, eu desconfio de tudo e todos! — Ela disse, me fazendo rir.
Sem muito mais enrolação , fui para o meu lugar designado (no caso, o corredor do segundo andar) e só fiquei olhando as pessoas passarem. Mandei uma mensagem aos outros meninos, explicando a nossa situação atual. — Algo como ''Estamos em uma missão. Líder (a.k.a Lucy) ordena a presença de todos. Alvo atual: Arcana.''- para que participem também na busca pela cigana caloteira.
Fiquem aproximadamente quinze minutos parada, encostada na parede do corredor enquanto observava os alunos passarem. É meio estranho, mas quando você observa alguém desconhecido por muito tempo, você começa a tentar imaginar como é a vida dele. Para onde está indo? De onde está vindo? Por que está com pressa? Por que parece tão cansado? Eu fiquei brincando de ''The Sims'' mentalmente, tentando imaginas e adivinhar as vidas dessas pessoas. Se bem que depois de um tempo eu só estava inventando e criando histórias loucas mesmo.
''Olha, ele parece muito cansado hoje. Está usando a blusa ao avesso... Deve ter ficado a noite toda estudando — pensei, enquanto via o pobre menino de óculos (que não ajudavam muito na hora de esconder as fundas olheiras sob os olhos) -... Ou talvez ele ouviu um barulho de madrugada, achando ser um assaltante ou espírito e varou a noite sem conseguir dormir. Mas no final era só o gato do vizinho...
Continuei no meu estado de transe imaginado milhões de coisas, até que ouvi uma voz mais alta falando. Virei meu rosto para olhar para duas garota que passavam pelo corredor.
— Por favor Nath! Você é a única que pode me ajudar agora! — A menina de cabelos castanhos bem curtos falava. Ela tinha um rosto bem feminino e delicado, aparentava ser mais nova ( Uns quatorze anos talvez?). Apesar do tom de voz estar intrigado, ela dava um sorriso amarelo.
— Você sabe muito bem que sou PÉSSIMA com essas coisas de ''amor'' e ''crush''! — A garota do lado respondia irritada. Ela tinha cabelos azuis escuros-quase-pretos presos em um rabo de cavalo que não parece ter sido feito com muito esforço, e presilhas coloridas enfretavam sua cabeça. O rosto era marcado com várias pequenos pontinhos de sardas.- Você é a única que quer se confessar para essa pessoa, por que eu ajudaria?
A menina de cabelos castanhos curtos abaixou o olhar de mesma cor para o chão.
— Por que você é...- Ela parou por um momento, parecendo hesitar, depois olhou diretamente para a outra garota. Ela mexia com as mãos sob o peito, sorrindo. — ... Minha melhor amiga!
A outra menina olhou para ela e depois para as mãos dela que, só agora eu havia percebido, estavam cobertos de band-aids coloridos envolvendo seus dedos. A garota de sardas suspirou pesadamente e depois sorriu levemente para a outra.
— Tudo bem... Mas só por que você é horrível na cozinha e sempre se machuca com objetos afiados! Sei uma receita de cupcake que não vai precisar de nada muito... perigoso.
A menina de cabelos curtos sorriu animada e era quase possível ver estrelas em volta dela. Enquanto elas voltavam a caminhar pelo o corredor despreocupadamente, eu notei algo.
A menina com sardas.
Ela usava aparelho nos dentes.
Notando isso, eu só pude fazer uma coisa: Seguir a menina.
Aproveitei o momento para mandar uma mensagem à Lucy sobre a principal suspeita no momento, descrevendo-a.
Após guardar o celular, tentei andar o mais longe possível, sem perde-la de vista ao mesmo tempo. Percebi que era uma tarefa difícil, dois minutos depois, quando não via sinal dela...
Olhando de um lado para o outro, pensei no único lugar que ela poderia estar indo naquela direção; O refeitório.
Quer dizer, eu acho...espero.
Caminhei até o lugar designado e procurei por duas cabeças familiares. Não foi tão difícil de acha-la, mas notei que a amiga de cabelos curtos não estava mais acompanhando-a. A menina de aparelho estava parada, perto de uma parede, encarando alguma coisa no meio das pessoas. Tentei seguir seu olhar que estava direcionado para o meio das pessoas, e fiquei surpresa de ver que ela estava na verdade era encarando Lyon.
''O que é que..?'' Não completei o pensamento ao notar que ela ia em direção a ele.
Ela ficou na frente dele e disse algo que, devido a distância, não consegui ouvir o que era. A garota chamou Lyon como se o dissesse para segui-la. Ele pareceu um pouco confuso mas seguiu-a mesmo assim, dirigindo-se para um canto mais vazio do lugar.
Nessa altura do campeonato eu já não fazia ideia do que estava acontecendo.
Mas é claro que isso só fez minha curiosidade e incerteza crescerem aos 90%, e eu os segui.
Apoiada numa parede à alguns metros de distância deles, eu tentava ouvir o que diziam.
— O que uma menina do 8º ano quer com o Lyon? — Eu perguntei suspeita, não esperando uma resposta.
— Ela parece ser do 9º ano na verdade.
— Deve ter o que? Uns quinze anos?
Virei para a direção das vozes em susto, me segurando para não gritar e revelar minha posição. Não havia notado duas pessoas que estavam ao meu lado, espionando curiosos como eu.
— LUCY, SIMON, QUE SUSTO! — Eu gritei em sussurro. Eles apenas reponderam com um sorriso. — O que vocês estão fazendo aqui?!
— Não é todo dia que você vê Lyon sendo convocado por garotinhas. — Lucy respondeu — Segui ele e veja só quem eu encontro aqui espionando na berlinda! — Ela sorriu, senti meu rosto ficar quente.
— Não estou espionando! Apenas fiquei curiosa e me escondi para ver... — Eu disse, meu tom de voz diminuindo à cada palavra.
— Isso é espionar, Olivia. — Simon disse, escondendo um sorriso.
— Não te perguntei nada Simon! — Eu falei, tentando manter meu tom de voz baixo.
— Wow, rude. — Ele disse, mas ainda estava sorrindo.
— E você, o que está fazendo aqui? — Eu perguntei para ele, que respondeu dando de ombros.
— Eu só vi vocês passando por aqui e vim ver o que tava rolando.
Suspirei pesadamente e quando abri a boca para responder, percebi a voz de Lyon falando. Fiz um sinal de silêncio para os dois em minha frente enquanto chegava mais para frente para ouvir melhor.
— Então... Você é a Arcana, certo? — Lyon perguntou, meio incerto.
—Sim exato. — Ela respondeu diretamente.
— YES! Eu sabia! -Lucy comemorou em sussurro. Fiz movimentos com as mãos para que ela ficasse quieta.
— Você parece meio nova. — Lyon disse sinceramente, cabeça virada para baixo para poder olhar diretamente nos olhos da outra.
— Eu sou nova, qual o problema? — A garota respondeu de forma irritada, as mãos nos quadris. — Sim, eu sou a Arcana. Mas fora do meu turno prefiro que me chame só de Nathalíe.
— Ok, Nathalíe. — O garoto deu um sorriso incerto — Em que posso ajuda-la?
—... — Ela encarou Lyon silenciosamente, como se o analisasse, antes de responder -A questão é como EU posso ajuda-lo.
Sem entender, Lyon fez uma expressão confusa.
— O que você... — Mas foi interrompido pela menor.
— Eu sinto... Uma coisa estranha em você. — Ela disse finalmente. — É como uma aura. Uma aura de morte.
Com isso, os olhos de Lyon se arregalaram, juntamente com os meus e os dos dois aos meus lados. Trocamos olhares sem entender.
— O que-- Ele começou mas foi interrompido novamente.
— Você por acaso tem alguma ligação com à morte de alguma forma? — Tanto o tom de voz e o olhar de Nathalíe estavam sérios, direcionados diretamente para Lyon, que engolia em seco. — Alguém que você conheça que tenha morrido recentemente? Ou algo do tipo?
O garoto olhou para o chão e depois para as paredes, mordendo o lábio inferior.
— Do que ela está falando? — Simon sussurrou para mim, ao meu lado.
— Eu não sei, eu não--
Interrompi minha fala ao ouvir a voz de Lyon novamente.
— Na verdade sim, à alguns anos atrás.. -Ele disse vagamente, olhando nos olhos da garota menor.
— ... Entendo. — Ela fechou os olhos por um momento, antes de abri-los novamente e continuar. — Sabe, desde que eu era menor eu sempre pude ver e ouvir coisas que os outros não podiam. Sentir coisas também. Eu acredito que eu tenho uma ligação muito forte com coisas que não são desse mundo, pelo menos, não mais. — Ela encarou a própria mão por alguns segundos antes de continuar — Enfim, nunca estamos sozinhos, isso é um fato. Eu sempre pude sentir a presença de alguma coisa perto de certas pessoas... pessoas como você.
— Uma presença..?- Lyon falou com cuidado.
— Sim, é como um ar quente que te abraçasse por completo. Você já passou ou sentiu coisas estranhas? Algo que você nunca pode entender? Como uma sensação de estar sendo observado, ou calores intensos sem motivos? Algo do tipo?
Lyon engoliu em seco, ele olhava para nada em específico, como se estivesse pensando profundamente. Nem um de nós falou nada, prestando atenção completamente para os dois à alguns metros à nossa frente.
— Eu.. Não sei. Acho que sim. — Ele falou, um pouco confuso, o que fez a menina suspirar novamente.
— O que eu sinto... eu acredito que seja à pessoa que você perdeu anos atrás. — Lyon arfou em surpresa. Nós três trocamos olhares surpresos.
— Ela ta falando da mãe de Lyon?? — Lucy, que estava quieta até agora, se proclamou.
— Que coisa louca, cara! — Simon olhava de um lado para o outro assustado.
— Isso parece tão... surreal...- Eu comentei, sem tirar os olhos da menina e de Lyon.
— Eu te chamei aqui para te oferecer uma sessão comigo. — Nathalíe disse — Sabe, pessoas que passaram dessa para melhor muitas vezes tendem a ficar presos a coisas importantes. Isso acontece o tempo todo. Muitos acham que isso não é um problema, pois gostam de saber que a pessoa ainda está ali com eles mas... É algo muito diferente. E a existência prolongada deles perto de nós pode trazer algumas coisas... não muito legais.
Lyon ficou em silêncio por alguns segundos, processando a informação. Ele parecia muito mais calmo do que eu esperava, apesar de estar com uma expressão de conflito, ele não parecia desesperado e também não fazia muitas perguntas.
Ou ele estava muito calmo,
ou muito assustado.
— Mas por que você incomodaria em me ajudar? — Ele perguntou confuso. — Tipo, você não é obrigada a nada, então por que..?
A garota deu um suspiro e ,involuntariamente, começou a brincar com o colar que envolvia seu pescoço, prateado em forma de algo que parecia um tipo de pentagrama.
—Nada demais, apenas tive uma amiga muito importante que passou por algo parecido. — Ela suspirou novamente e largou a joia. Ela parecia muito mais velha do que realmente é. — Enfim, geralmente uma comunicação com os ''outros'' que partiram é o melhor jeito de fazer com que eles ''descansem em paz''. — Ela disse fazendo aspas com os dedos.
—Ela quer fazer um ritual espiritual?? — Lucy sussurrou animada, os olhos brilhando em excitação, uma completa mudança do humor dela à alguns momentos atrás. Ela começou a chegar mais para frente, se apoiando em mim.
— E--Espera Lucy você está me empurrando! — Eu a alertei, tentando puxar a garota para trás, mas isso só fez com que meu corpo fosse ainda mais para frente, fazendo com que eu esbarrasse em Simon que estava na minha direção. Com um gritinho de susto, fomos todos levados para o chão.
Maldita gravidade.
Lyon olhava para nossas figuras caídas no chão surpreso, em comparação, Nathalíe nos olhava com um olhar de puro desinteresse.
— Gente..? O que vocês.. — Lyon começou mas foi interrompido pela menina (Jesus, ele não consegue terminar UMA frase!)
— Finalmente, estava esperando pra ver por quanto tempo mais vocês ficariam espionando atrás da parede. — Eu, Lucy e Simon trocamos olhares assustados.
— Você sabia que estávamos aqui?? — Simon perguntou, mais surpreso do que assustado.
— Mas é claro, vocês são muito barulhentos. — Ela disse dando de ombros.
A coisa bizarra disso tudo é que ela estava de costas para nós, nem Lyon que estava virado em nossa direção havia nos visto.
Nós trocamos olhares novamente, essa garota é assustadora.
— De qualquer forma, não é com vocês que eu vim falar. — Nathalíe falou, virando-se para Lyon novamente. — O que vai fazer? Estou oferecendo uma sessão comigo, vai aceitar?
Lyon ficou em silêncio apenas olhando para a menina, e depois para nós. Num tom de voz mais baixo e respondeu:
— Eu... não tenho certeza. Posso te responder mais tarde?
A garota franziu as sobrancelhas um pouco irritada e fez que 'sim' com a cabeça.
— Ok, se souber a resposta é só falar comigo. Minha turma é a A-2, no primeiro andar.
Com isso dito, ela passou por nós e foi embora.
Todos nós ficamos quietos por uns momentos, apenas nos olhando, mas fui eu quem quebrou o silêncio.
—...Lyon... — Eu me aproximei e pus a mão em seu braço. Era para ser um gesto reconfortante mas ficou mais parecendo que eu estava chamando-o, pois isso tirou ele do estado de transe em seus pensamentos, fazendo-o olhar para mim. — Você está bem?
Podia ser uma pergunta idiota, mas não tinha muito que falar quando se descobre que sua mãe morta pode estar do seu lado nesse exato momento.
Isso soou pior do que achei que soaria...
— Ah sim, eu acho. — Ele disse , dando um sorrisinho. — Só estou um pouco surpreso e... confuso talvez.
— Bom, ninguém pode te culpar por isso. — Simon disse, coçando a nuca. — Toda essa história é bem louca. O que ela quis dizer com tudo isso afinal?
— Vocês acham que ela pode... sei lá, ver espíritos ou algo assim?? — Lucy perguntou, olhando para nós. Um arrepio percorreu minha espinha.
— Se isso for verdade... — Eu me virei para Lyon — O que pretende fazer?
— ... — Lyon olhava para nada em especifico, em silêncio.
Após alguns longos segundos, ele suspirou.
— Não vou fazer nada. Pelo menso, por hora. — Ele focou em nós, e um pequeno sorriso formado em seu rosto. — Acho melhor deixarem Wendy e David fora disso. Não queremos mais gente pensando demais sobre essas coisas.
— Principalmente David. — Simon disse, dando um risinho.
— Falando nisso, acho que já esta na hora de irmos-- Lucy começou, mas uma voz que percorreu toda a escola a interrompeu. Paramos para escutar no momento em que os auto-falantes do colégio começaram a falar.
''Aqui quem fala é o diretor Batatovisky --
Foi possível ouvir muitas gargalhas vindas dos corredores, incluindo de Lucy e Simon ao meu lado. O nome do diretor nunca perde a graça.
'' EU SEI QUE VOCÊS ESTÃO RINDO! PAREM, CONSIGO OUVIR DA MINHA SALA! '' Ele pigarreou, tentando manter a compostura.
'' Enfim, como todos bem sabem, é extremamente PROIBIDO a entrada não autorizada de alunos na minha sala. Ontem, algum aluno entrou sem autorização e pegou algo de suma importância. Exijo o retorno IMEDIATO do objeto se não haverá CONSEQUÊNCIAS quando descobrir quem o pegou! DETENÇÃO E SUSPENSÃO POR DUAS SEMANAS SE NÃO MAIS, DEPENDENDO DO MEU HUMOR. TENHAM UM BOM DIA ''
Sem dizer uma palavra, todos nós nos viramos para Lucy, que havia parado de rir e estava olhando para os auto-falantes fixamente.
—Ah. — Foi o que saiu de sua boca sorridente, sem mudar um fio da expressão
— VOCÊ NÃO DEVOLVEU AS CHAVES?? — Nós gritamos em uníssono, Lucy estremeceu.
— E-Eu..Eu.. esqueci... — Ela disse, a voz diminuindo aos poucos.
— Lucy, sua louca! — Eu disse, dando um tapa no braço dela. — Você disse que iria devolver antes mesmo dele chegar na escola!! Se eles descobrirem que foi você, você pode ser SUSPENSA!
— EU SEI! Acabei me distraindo com toda a situação da Arcana que acabei esquecendo!
— Okay, isso não importa. É melhor você devolver as chaves antes que alguém descubra e você seja punida. — Lyon falou, cruzando os braços
— Por sinal, aonde a chave está? — Simon perguntou
— Oh, hum... — Lucy colocou a mão no queixo, pensativa, para logo depois dar um sorriso amarelo. — Talvez na...mochila do David?
— ???!!!
— COMO? POR QUE ESTÁ LÁ??
— Eu botei na mochila dele para não perder em casa e poder devolver no dia seguinte! — Ela ajeitou os óculos — Nada demais.
— Lucy, se alguém achar as chaves na mochila do meu irmão...
— Vão acha que foi ele quem pegou! — Simon completou
— E ele vai ser punido no seu lugar! — Lyon terminou.
— Ótimo! Assim eu fico de boa, todo mundo feliz!
— LUCY!!
— OK OK EU JA ENTENDI! — Ela gritou, mexendo os braços para cima e para baixo, irritada — Eu vou devolver a chave depois da escola acabar, assim não vai ter problema de e pegarem. FELIZES?!
— Ótimo, mas antes vá pegar a chave com David antes que descubram. — Era engraçado como, de braços cruzados e olhar repreensivo, Lyon podia soar como uma mãe dando sermão num filho. Não posso julga-lo, as vezes agimos muito como crianças mesmo.
— Ah, verdade! — Com isso dito, Lucy partiu para os corredores veloz como Sonic depois de tomar muito Redbull, deixando-nos parados, observando ela sumir algumas portas depois.
— Tudo aconteceu... muito rápido e de repente. — Simon comentou, quebrando o silêncio após a saída de Lucy.
— Bem vindo ao nosso mundo. — Eu suspirei
— Tadaima— Ele respondeu sorrindo. Dei uma cotovelada na sua barriga. — Ai!
— Ah por favor, não fale como se estivesse num anime — Eu falei sorrindo. — Você já está crescido demais para isso!
—Hidoi!— Comecei a dar vários socos em suas costas enquanto ele caia numa gargalhada
— Para com isso! — Eu ri junto, enquanto ele tentava desviar dos meus ataques. — TIPO SÉRIO, PARA, QUE VERGONHA!
— Ai ai ai! — dessa vez estava tentando acertar tapas em sua cara que eram facilmente defendidos pelos braços do garoto.
Parei de atacar Simon quando percebi que Lyon estava em silêncio. Virei meu rosto para o mesmo e percebi que ele também estava no próprio mundinho, com um olhar distante e pensativo. Virei para olhar para Simon novamente e ele pareceu ter percebido a mesma coisa. Saímos de nossa posição de ataque e defesa e paramos para falar com Lyon.
— Lyon, cara? Você esta legal? — Simon foi mais rápido, perguntando primeiro e tirando o outro de seu estado de transe.
— Hm? Ah, sim, estou bem. — Lyon olhou para nós, passando o olhar de Simon para mim e vice-versa, até voltar a olhar para o chão. — Apenas um pouco pensativo.
— Acho melhor irmos para casa, você parece cansado. — Eu disse, um pouco preocupada.
— Acho que você tem razão. — Lyon deu um pequeno sorriso
— Ainda está cedo para ir embora, vamos passar para comer alguma coisa antes! — Simon disse, colocando ambos os braços envolta dos nossos ombros.
Lyon respondeu com um ''dar-de-ombros'' e saímos juntos da escola.
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O resto da tarde foi de certa forma, monótona.
Simon, Lyon e eu andamos pelas ruas visitando livrarias, bancas, algumas lojas de roupas que nós sabíamos que não iríamos comprar mas fomos mesmo só por ir, tomamos picolé nas esquina, etc. Era só um jeito de passar o dia sem fazer nada em especifico, mas sem ter que ficar em casa também. Foi relaxante e divertida em vários momentos, como quando o sorvete de Lyon pingou em sua perna e um cachorro passando na rua pulou em cima dele para lamber. Ou quando Simon estava vendo uma revista ruim da banca e quando virou para me mostrar, percebeu que a pessoa do seu lado não era eu, mas uma senhorinha assustada. Ou quando passávamos por um café aqui perto e eu tropecei, esbarrando na mesa de um casal, derramando café quente na virilha do homem (EU SINTO MUITO).
O céu já escurecia quando o celular de Simon tocou.
— Fala aí! — Ele atendeu, e pela a forma como o fez, deve ser alguém que já possui intimidade. — Hum... Não, valeu, eu já comi! — Ele fazia sons com a boca em resposta
— Já disse, não quero pizza. E eu sei que você só ta falando isso por que VOCÊ quer e ainda quer que EU compre! — Apesar do tom de voz irritado, ele não parecia bravo de verdade. Ele olhou para a loja de conveniência ao nosso lado e suspirou pesadamente. — Ok, vou levar uma pizza, mas vai ser do sabor que EU quero!
Deu para se ouvir reclamações do outro lado da linha, mas foram cortadas quando Simon desligou o aparelho, sorrindo.
— Foi mal, era meu primo. Vou ir ficando por aqui, vocês vão na frente. Vejo vocês amanhã!
Com outras palavras de ''até mais'', Simon acenou e entrou na loja, deixando somente a mim e Lyon andando na rua.
Pelo trajeto que estávamos fazendo, supus que estávamos indo a caminho de minha casa, apesar de estarmos alguns quarteirões antes. Caminhávamos em silêncio pelas ruas ,agora escuras, da cidade. Dei uma olhada de leve para ele, notando que ele novamente estava fora daqui, em um mundo de seus próprios pensamentos.
— Não pense muito sobre isso ok?
— O que? — Ele disse, parecendo não ter processado o que eu falei.
— Essa coisa que a Nathalíe disse — Eu respondi — Não pense muito sobre isso.
Entendendo o que eu queria dizer, ele sorriu minimamente num sorriso triste.
— É um pouco difícil de ignorar, sabe.
— Sei.
Toda essa história de Arcana e futuro é muito para mim. Me pergunto se devo acreditar cegamente nas palavras de uma estranha ( de 14 anos ainda por cima! ) sobre o que vai acontecer comigo ou com os outros a minha volta, ou apenas me manter ignorante sobre as consequências que minhas próprias ações podem trazer no futuro. Algumas palavras dela ainda ficavam presas na minha cabeça, insistindo em me fazer pensar.
''Você também vai ter muitos encontros novos e principalmente...reencontros.''
''Você também vai passar por algumas situações complicadas no amor.''
Não acredito nesse tipo de coisa, posso ser ingênua para muitas coisas mas não sou tonta para por confiança em algo tão vago e tão sem cabimento. Porém,... reencontros? Situações complicadas? Sinto que esses tipos de coisas tem acontecido meio que bastante e frequentemente, o que me preocupa. Já chega né, Universo? Já teve muitos encontros inusitados e situações esquisitas me envolvendo, só quero relaxar e fingir que nada de errado possa acontecer.
Ainda perdida em pensamentos, suspirei sem perceber, chamando a atenção de Lyon que virou a cabeça para me olhar. Um dos cantos de seus lábios subiu, num leve sorriso.
— Você também parece pensativa hoje. — Ele disse, me fazendo encarar seus olhos verdes. Ah, eu esqueço como eles são bonitos e brilhantes, cheios de pura gentileza. Não percebi que estava-o encarando até ele mover a cabeça levemente para o lado, confuso pela demora da minha resposta. Virei rapidamente para o outro lado, minhas bochechas esquentando.
— Nhm, não é nada. — Eu balancei a cabeça levemente como um sinal para ele não ligar. — Apenas coisas sem sentido.
— Que tipo de coisas? — Seu tom de voz era calmo e com um leve toque de curiosidade, como o som de pequenas ondas num mar calmo.
— Nada para se preocupar! — Dito isso, ele parou de andar, me fazendo ser obrigada a parar do seu lado e olha-lo curiosa.
— Você passou o dia todo preocupada comigo, e poucos segundos atrás você disse para eu ''não pensar demais''. — Seu tom parecia mais sério, mas não bravo. Ele deu um sorrisinho, o mesmo tipo de sorriso que um garotinho usaria depois de ter feito merda e se safado dela. Um sorriso de canto — Meio hipocrisia de sua parte, não acha? — ele disse.
Ah, como eu gosto quando Lyon sorri desse jeito.
Também gosto de seus ombros largos. Gosto quando a blusa é larga e mostra suas clavículas também.
Gosto de seus cílios negros e largos, escurecendo seus olhos. Seu cabelo igualmente escuros e macios, e a metade raspada que depois de tempo sem refaze-la, agora parece apenas aparada.
Seu queixo, que quando o conheci era fino e sem forma, agora anguloso e mais masculino. Seu nariz era fino e parecia não ter defeitos a não ser por ser levemente arrebitado, o que eu achava fofo.
Suas sobrancelha grossa era bem definida apesar de nunca ter sido feita.
Havia tantas coisas que eu gostava nele, as vezes queria só ficar parada olhando para ele.
Percebendo que eu não havia respondido sua pergunta retirei meu olhar dele e tentei voltar a encarar seus olhos e notei que naquele momento ele também estava olhando para outro lugar, me analisando. Nossos olhos se encontraram novamente.
Naquele momento, palavras não ditas ecoavam no ar.
'' E agora? ''
A lembrança do dia dos namorados voltou em minha mente.
Sem perceber, me aproximei dele, e o mesmo, parecendo seguir meus passos, também diminuiu a distância entre nós. Nossos olhos nunca perdendo o contato um do outro, ignorando o movimento dos carros da rua e dos pequenos comércios da esquina.
Ambos pulamos em susto quando a música You, My Everything começou a tocar de repente.
Era meu celular.
Respirando forte o ar que não sabia que havia prendido, viramos o rosto e nos afastamos rapidamente.
Suspirando forte, peguei o aparelho para ver a imagem do rosto de Lucy na foto de chamada. Deslizando o dedo pela tela e colocando-o em minha orelha, falei.
— Lucy? Estranho você me ligar uma hora dessas. — Conseguia ver Lyon prestando atenção pelo canto do olho.
— Então, sabia que o Cabeça e Batata tem cinco gatos?— Lucy disse, falando referindo-se o nosso diretor — Quando ele falava sobre as ''queridinhas'' dele, achava que eram filhas ou algo assim! Mas é obvio que ele não teria uma esposa ou algo assim.— Suspirei pesadamente
— Lucy, você me ligou só para falar isso? E como diabos você sabe sobre-- -Travei imediatamente quando um pensamento passou pela minha mente. — Lucy... Aonde exatamente você está agora?
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Girando a cadeira de couro vermelho, a garota colocava os pés em cima da mesa de carvalho, o celular grudado a orelha enquanto ela sorria, girando as chaves em seu dedo indicador.
— Realmente, não esperava que a cadeira do diretor fosse tão confortável. Deve ser por isso que ele nunca tira aquela bunda gorda daqui. — Lucy deitava na cadeira reclinável dando um suspiro de agrado.
— Lucy-- Eu não acredito que você está na sala do diretor DE NOVO. — O suspiro irritado da garota do outro lado da linha era claramente audível, fazendo o sorriso da outra aumentar. — O que você esta fazendo aí??
— Ora! Você mesma disse para eu devolver as chaves! É isso que estou fazendo. — A menina de óculos retirou os pés da mesa, movendo-se para frente e apoiando os cotovelos da madeira de forma relaxada.
—Bom... Só devolva logo isso e saia daí rápido para evitar mai--— A voz de Olivia foi cortada quando um som alto de livros e pastas caindo foram ouvidos vindo do interior da sala.
— Ops.. — A voz do menino pode ser ouvido enquanto ele se apressava para pegar os papéis e livros caídos.
— Porra David! Reclamou o caminho inteiro falando que não queria que fossemos descobertos e saí por aí fazendo barulho! — Lucy bufou irritada, recebendo um olhar irritado do garoto enquanto ele voltava ao trabalho.
—Lucy, por que diabos você arrastou meu irmão aí também??— A voz alta da menina irritada do outro lado da linha fez com que Lucy tivesse que afastar o aparelho do ouvido.
— Como assim ''arrastou meu irmão também''?? Ele, como um amigo fiel e leal que ele é, juntou-se a mim por vontade própria. — Ela respondeu, o peito estufado. Um som de surpresa e indignação ressoou e detrás das prateleiras lotadas de livros, a cabeça de David surgiu expressando pura indignação.
— ''Vontade própria''??? — Sua voz meio esganiçada pela raiva -Lucy você literalmente me agarrou na esquina de casa, me puxando pelas orelhas e ainda disse que se eu dissesse um pio contra você iria pendurar todas as minhas cuecas nos murais da escola!!
Mais rápido do que o garoto pudesse esperar, um sapato foi arremessado atingindo diretamente sua testa, fazendo-o cair no chão com um grunhido de terror.
— Não escute o chiuahua latindo ao fundo, já pus a focinheira. — Lucy falou para o telefone, dando língua para o garoto que a encarava com raiva, esfregando a marca vermelha na testa.
Um suspiro foi ouvido do outro lado da linha, Olivia nem sabia mais por que se preocupava. Antes que pudesse dizer algo, foi interrompida pela voz de David.
— Ah! Lucy acho que eu achei! — O garoto levantou um conjunto de pastas brancas.
Um sorrisinho surgiu no rosto de Lucy, levantando-se da carteira e se aproximando do garoto de olhos bicolores.
— Bom garoto, você fez bem. — Ela disse, passando a mão pelo maxilar do mesmo, seguindo até a ponta do queixo, fazendo um leve carinho. A ação fez com que o rosto de David ficasse quente e ele empurrasse as pastas para Lucy de forma agressiva.
— Por que está agindo como alguma vilã de filme? Eu hein.. — Ele disse, virando o rosto, arrancando um leve sorriso da menina.
— O que vocês estão procurando, exatamente?— A voz no telefone perguntou, apesar do medo da resposta.
— Huhu nada demais, Olivia minha flor~~ — Lucy dizia com voz manhosa
—.... ai meu deus, você ta procurando as nossas provas da próxima semana não está??
Com um sorrisinho em seu rosto, Lucy sentou-se novamente na cardeira de couro vermelho, admirando os papéis em suas mãos.
— Lucy, eu juro por Deus você é insana...Apenas... Saia logo daí o mais rápido possível.— Ela disse, Lucy podia praticamente ver Olivia massageando as têmporas. - E NÃO FAÇA NADA RIDÍCULO.
— Está tudo bem! Não vou roubar nem nada, apenas dar uma olhada, ok? — Ela dizia, David se aproximando para se juntar na análise.
Pegando uma das pastas, o garoto começou a folhea-las a procura dos documentos.
— Devem estar em algumas dessas, são as que estão adereçadas para semana que vem — Ele disse enquanto passava os olhos pelas linhas. — Esse aqui são só documentos de reuniões eu acho?
— Não me interesso pelo o que quer que eles falam nas reuniões, então não ligo. — Lucy disse, pegando uma outra pasta.
Depois de mais algumas olhadas nos papéis, a dupla estava tendo dificuldades de encontrar o que queria, enquanto Olivia tentava para-los do outro lado da linha (não que estivesse dando muito resultado)
— David! Esses não são as provas! São só alguns papéis inúteis! — A garota de cabelos negros reclamava, ajeitando os óculos com um suspiro — Essa pasta aqui é só arquivo dos alunos.
— Mas não faz sentido, por que essas pastas estariam endereçadas para semana que vem?
—Já que não acharam o que queriam, por que não vão embora antes que se metam em mais confusão?— Olivia disse, tentada a desligar o aparelho.
— Não sei, só sei que não é o que eu estou procurand-- huh? — Lucy parou numa folha específica, semicerrando os olhos para o conteúdo. — Isso é...
Curioso pela mudança de comportamento da outra, David se aproximou, ficando atrás da garota, para ver o que chamou sua atenção.
Ao se abaixar para a folha, olhos se arregalaram em realização.
Se aquela folha estava endereçada para semana que vem isso iria dizer que...
— What the fuck... — Eles disseram em uníssono
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Olivia e Lyon estavam encostados na parede de um prédio comercial numa esquina que ela não lembravam o nome. Ela com o telefone no ouvido acompanhando a aventura dos dois do outro lado da linha enquanto Lyon ouvia tudo entretido e comendo um donut para passar o tempo. A leve chuva serenava enquanto se protegiam dos respingos.
Já haviam se passado mais de meia hora desde que a ligação iniciou (sorte quem ligou foi Lucy, Olivia não queria nem pensar na conta que iria sair disso) e sinceramente ela nem tentava mais impedi-los, já estava ficando quase que curiosa com o fim de tudo isso.
Lyon olhava de um lado para o outro, admirando o lugar e as pessoas a sua volta. Como a rua era comercial, estavam cercados por mercadinhos, cafés, restaurantes e vários tipos de pequenos negócios que já estavam para fechar à esta hora. Ele curtia apenas ficar na companhia da menina e deixar o tempo passar.
Ele gosta de admira-la quando ela parece não estar prestando atenção. Ele sempre achou ela muito bonita, com olhos azuis que combinavam com sua franja, pele pálida e lábios finos. Ele lembrava de ter sentido esses lábios nos dele, não a muito tempo atrás. Lyon nunca esteve em um relacionamento ou algo do tipo, por isso quando ele a beijou na quele dia, ele achou que estivesse esclarecido tudo, trocando as palavras por ações. Ele não sabia o que Olivia sentiu (ou ainda sente) em relação à isso, nem o próprio garoto sabe. E o pior de tudo é que ele não teve tempo (nem o lugar) para falar com ela sobre isso depois da chegada de Simon, que pareceu roubar a atenção de todos, principalmente de Olivia.
Seus pensamentos foram cortados quando ele ouviu a voz da mesma.
— Lucy? David? — Olivia chamou, confusa com a agitação repentina.
Enquanto ela tentava entender o que estava acontecendo, Lyon sentiu um olha sobre eles. Virando sua cabeça para o lado procurando por algo que ele não tinha certeza do que. Pelo canto do olho, ele pode ver uma silhueta negra do outro lado da rua. Semicerrando os olhos para tentar ver melhor a pessoa que os encarava.
Lentamente, a sombra começou a se aproximar de forma casual. Seu guarda-chuva manchado pelas gotas da chuva.
— Olivia você não vai acreditar no que a gente encontrou..— Lucy dizia pelo telefone, a voz abafada de David podia ser ouvida no fundo.
— O que? O que houve? — A garota não estava entendendo nada, e tinha certeza de que não tinha nada a ver com as provas.
Ao tomar melhor conhecimento da sombra que se aproximava, Lyon ficou incerto. Percebendo detalhes como o guarda-chuva, que era enfeitado com babados negros que combinavam com os ornamentos de seu vestido, mas ele não tinha certeza sobre por causa da falta de iluminação do céu do anoitecer.
— Juntos da pasta dos alunos... Será que é apenas o mesmo nome?— Lucy perguntou, parecendo se direcionar para David.
—Não... Pela foto dá pra ver que é a mesma pessoa...— A voz de David pode ser ouvida.
— Gente do que vocês estão--
— Olivia... — Lyon disse, cutucando o ombro da menina, interrompendo-a.
Olivia tirou a atenção do aparelho para olhar para o garoto, que estava virado para outra direção. Ele apontava para algum lugar a frente deles. Uma sombra estava parada em direção a eles, rosto escuro pelo guarda-chuva.
Depois de alguns segundos ela percebeu que não era uma sombra, mas sim alguém com roupas bem escuras. A saia rodada estava enfeitada de babados e laços de mesma cor, misturando-se com as meias-calças e sapatos igualmente negros. O objeto em suas mãos não era diferente. A única coisa que parecia destoar na pessoa em questão, eram seus cabelos. Cabelos longos e lisos, uma cor exoticamente magenta.
A pessoa sorriu, levantando o objeto que a protegia da chuva levemente, o suficiente para poder mostrar seu rosto. Na noite, era impossível de distinguir a cor de seus olhos, mas não era preciso pois Olivia lembrava da cor de seus olhos.
Se não estava errada, eram de um azul bem escuro que quase se fingia de preto. Um azul mentiroso.
— Oh... — Nesse momento Olivia só conseguia pensar em xingamentos para Arcana. Reencontros? Sério? Mas a perplexidade de encontrar uma pessoa depois de tanto tempo foi mais forte — Você...
Seu sorriso se amplificou, os olhos seguindo a ação, diminuindo vagamento.
— Olivia. — Ela disse baixo, mas a voz cheia de entretenimento
— Mei?
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