Sinapsis
10 Os três aspectos fundamentais
Notas iniciais
O resto do dia escolar se arrastou com a velocidade de uma tartaruga anestesiada. Eu passei a maior parte do tempo tentando focar nas equações no quadro, mas minha mente insistia em voltar para o corredor escuro de Sinapsis, para a energia letal dos agentes de terno e, infelizmente, para o abraço constrangedor daquela manhã.
Quando o sinal da última aula finalmente ecoou pelos corredores, eu já estava com a mochila perfeitamente ajustada nos ombros. Meu único objetivo era marchar até a minha casa e começar a me preparar psicologicamente para o pesadelo iminente: contrabandear o presidente do conselho estudantil para dentro do meu quarto de novo e rezar para que a minha mãe não estivesse na sala, munida com bolo e piadinhas de duplo sentido.
No entanto, assim que empurrei as portas duplas da saída principal, encontrei David. Ele estava encostado na grade de metal perto da saída com aquela habitual postura inabalável que mascarava de forma irritante o fato de ele passar as madrugadas lutando contra seitas interdimensionais.
— Tudo pronto para o nosso treinamento de hoje à noite? — ele perguntou, acompanhando o meu ritmo apressado pela calçada.
Parei subitamente sob a sombra de uma árvore, virando-me para ele com os braços cruzados e uma expressão que eu esperava ser ameaçadora.
— Olha, eu já avisei a minha mãe que a gente tem mais uma etapa do nosso "projeto de escola" para terminar. Mas se ela soltar sequer mais uma piadinha sobre conchinha, intimidade ou o quanto você daria um excelente genro, eu juro por tudo que é mais sagrado que eu vou entrar em Sinapsis, e nunca mais voltar para a realidade. O colchonete já está enrolado no canto do quarto, esperando por você.
Ele piscou, surpreso pela minha explosão repentina, antes de soltar uma risada genuína e despreocupada, passando a mão pelos cabelos escuros.
— Pode deixar o colchonete guardado no armário, Lorie. A fase constrangedora da nossa festa do pijama forçada está oficialmente encerrada.
Senti um misto de confusão e alívio imediato, apressando o passo para acompanhá-lo de volta.
— Como assim? e todo aquele papo de ontem sobre física onírica e como precisávamos manter a proximidade dos nossos corpos físicos para que a gente se encontrasse lá dentro…
— E nós precisávamos. Pelo menos até eu conseguir registrar a minha assinatura na sua porta — ele explicou, os olhos brilhando com um divertimento contido, enquanto ajustava a alça da própria mochila. — Ontem à noite, no exato momento em que eu fiz o escudo ao redor do seu selo, eu utilizei a minha própria ressonância vital. Eu literalmente “batizei" a sua existência em Sinapsis, é isso o que chamamos de “Ancora”
Ele fez uma pausa, garantindo que eu estava absorvendo a mecânica.
— Pela física estrutural de Sinapsis, isso me converteu no seu Mestre de ancoragem. Nossas portas agora estão permanentemente conectadas na mesma rede. Elas sempre vão aparecer lado a lado no corredor, independentemente de onde nossos corpos físicos decidam dormir no mundo real.
— Ahh acho que agora entendi o que é a tal “ancora” que você falou quando nos encontramos pela primeira vez…Graças a Deus! Você tem noção de que isso significa que a minha dignidade e a minha sanidade mental perante a minha mãe estão a salvo?
— Estão perfeitamente a salvo — ele sorriu de canto, embora o tom de voz tenha logo assumido uma seriedade tática. — Mas não se engane. O nosso treinamento está mais de pé do que nunca. Entrar em um duelo contra a Unidade sem que você compreenda qual é a sua aptidão REM é como lutar uma batalha perdida. é por isso que, meus pais vão nos acompanhar hoje à noite.
Meus braços caíram ao lado do corpo, a incredulidade substituindo o alívio.
— Seus pais? Dentro do meu cenário? — arregalei os olhos para ele. — David, a gente acabou de cancelar a fase de dormir no mesmo quarto e você já vai me apresentar para a família , acho que a gente está pulando umas etapas sociais de uma maneira muito esquisita. — cruzei os braços tentando conter a ansiedade que estava naquele momento.
— Eles são Mestres Sinapsters com décadas de experiência, eles precisam avaliar a sua energia bruta diretamente na fonte, dentro do seu próprio espaço, antes de qualquer coisa. hoje a noite eles vão estar conosco, esteja pronta.
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A menção a dois Mestres experientes invadindo a minha privacidade havia me deixado consideravelmente nervosa, o que fez com que o sono demorasse a vir. Contudo, quando o cansaço finalmente venceu a minha ansiedade, a transição para Sinapsis ocorreu em um piscar de olhos, fluida e natural.
Abri os olhos sentindo a brisa fresca da cidade que eu havia desenhado com tanto cuidado. O céu exibia aquele tom de azul profundo que eu adorava. Não precisei esperar muito, logo ouvi batidas vindo diretamente da minha recém descoberta porta.
David foi o primeiro a cruzar a soleira invisível, e, logo atrás dele, duas figuras imponentes pisaram no meu mundo.
No fundo, eu esperava encontrar dois anciões místicos vestidos em mantos carregados de amuletos brilhantes. Para a minha completa surpresa, os pais de David eram pessoas de aparência notavelmente moderna, mas que exalavam uma presença pesada, quase magnética, que distorcia o ar ao redor deles.
A mãe, usava roupas escuras e práticas. Ela possuía os mesmos olhos incisivos do filho, mas a expressão analítica derreteu instantaneamente assim que olhou ao redor. Ela prendeu a respiração, girando nos calcanhares enquanto varria a arquitetura imponente dos meus arranha-céus, a fluidez das ruas e a expansão infinita do horizonte.
— Inacreditável... isso é absolutamente extraordinário — ela murmurou, a voz quase falhando diante de um assombro reverente. — O nível de detalhe geométrico e a coesão deste cenário, a energia necessária para manter uma cidade desta magnitude tão sólida, sem que uma única janela oscile ou uma calçada derreta…acho que não existe em registro absolutamente nada semelhante a isso
Ao lado dela, o pai exibia uma postura relaxada, porém confiante. vestido com uma jaqueta de couro que parecia pesada demais para o clima perfeito do meu sonho. Ele analisou a estrutura com olhos arregalados, antes de fixar seu olhar em mim, um sorriso de pura expectativa rasgou o rosto sério.
— Nosso filho não estava exagerando em absolutamente nada — disse o homem com a voz grave vibrando com aprovação explícita. — Se este é o seu nível de controle bruto, sustentando um ambiente complexo inteiro sem nenhum tipo de instrução ou treinamento formal...imagine as possibilidades, seu pico de REM deve ser imensurável
— Fico muito feliz que gostem da decoração, Sr. e Sra...
— Meu nome é Helena e esse é meu Marido Arthur. muito prazer Lorie. — disse Helena olhando bem no fundo dos meus olhos, sua expressão era de puro fascínio.
— O David mencionou algo sobre testar a minha energia e descobrir como eu posso controlar o meu REM
Arthur parou a poucos metros de mim, a empolgação no rosto dele dando lugar a uma compostura de instrutor veterano.
— Por onde posso começar...bem, aqui neste espaço, o seu REM é maleável aos seus desejos, aqui não existe nenhuma regra, você está no total controle. — Ele ergueu a mão, ja em Sinapsis o sistema de poder de um Desperto divide-se em três aspectos fundamentais. Todo Sinapster desenvolve afinidade por um deles, e isso não é uma escolha consciente, trata-se de um reflexo de quem você é e do que você faz no mundo desperto.
Ele começou a caminhar lentamente ao meu redor, a voz assumindo um tom didático.
— existem os Materializadores. Como eu, Lorie — disse David com uma confiança irritante. — somos especialistas absolutos em invocar e conjurar objetos complexos, criaturas ou fenômenos físicos da própria reserva de energia. somos combatentes rápidos e versáteis, perfeitos para ataques de longa distância. temos uma vantagem tremenda contra os Especialistas, mantendo-os longe ou se movendo rapidamente com suas invocações, mas, extremamente frágeis contra os Manipuladores, que podem utilizar REM para neutralizar as invocações.
— O segundo grupo — Arthur interveio, caminhando para o meu lado — são os Especialistas, nós não conjuramos feras nem controlamos a natureza. transformamos REM em uma extensão letal do nosso corpo, especializando-se em artes que dominamos no mundo real, como esgrima, lutas marciais, e uso de técnicas de combate variadas. Eles vencem facilmente Manipuladores porque sua velocidade e força bruta são capazes de perfurar defesas elementais facilmente, mas sofrem muito contra as armadilhas dos Materializadores.
— E, por fim, temos os Manipuladores como eu — Helena concluiu, parando à minha frente. — Eles canalizam o REM para dominar e transformar forças elementais puras. Fogo, água, vento, entre diversos outros. É o estilo que oferece o maior equilíbrio entre um ataque devastador e uma defesa impenetrável. Apenas a sua imaginação e a sua reserva de energia limitam a força de um Manipulador. em troca suas habilidades fisicas são limitadas, não ficam mais fortes, resistentes ou mais rapidos, são vulneráveis a ataques diretos de Especialistas, mas muito fortes contra Materializadores que usam conjurações pra atacar
Fiquei em silêncio, tentando visualizar onde eu me encaixava. o mais estranho é que eu nunca parei pra pensar no que sou boa, afinal, eu nunca me destaquei em nada na minha vida, como eu poderia saber? decidi tentar entender um pouco mais.
— E a Unidade? — perguntei. — Em qual desses eles entram? Os poderes deles não se parecem em nada com nenhuma dessas descrições.
—Bom…eles não entram — Arthur disse, com um tom de desprezo. — Eles usam uma energia REM primitiva e maligna, uma força bruta sem doutrina. É destrutiva, mas pouco eficaz no mano a mano contra um Sinapster que sabe o que está fazendo. Por isso atacam em bandos. os agentes da Unidade, apesar de serem problematicos, não são um desafio tão grande…o problema são os outros…
— nunca se deve subestimar a liderança deles — Helena alertou, seus olhos me com preocupação. — Existem cerca de doze líderes no topo da Unidade. Indivíduos que foram treinados diretamente em uma doutrina corrompida, criada pelo Mestre Obscuro. Esses doze são Despertos brilhantes e corrompidos, que obedecem o ciclo de Materialização, Especialização e Manipulação. Se você cruzar com um deles lá fora…eles terão o mesmo nivel, senão superior, ao de um Sinapster… seu poder é tão grande quanto sua crueldade, e covardia, pois são pessoas malignas, na vida real assassinos. — Helena fez uma pausa quase enlutada.
— muitos Sinapsters foram destruídos em combates diretos contra Líderes
A imagem do líder que assassinou o prefeito voltou à minha mente como um flash frio. O zumbido daquela arma desintegrando o cenário alheio ainda me causava arrepios. Engoli em seco, cruzando os braços com mais força para disfarçar um leve tremor nas mãos.
— Certo. Eu entendi o perigo, e o sistema — respirei fundo, tentando afastar o medo e focar no que importava. — Então, como fazemos esse teste prático? Eu tenho que tentar conjurar fogo? Invocar uma espada de luz? Me digam o que fazer.
Arthur soltou uma risada fraca, mas não havia deboche, apenas uma paciência instrutiva.
— Nós não precisamos fazer você atirar energia para todos os lados, Lorie. A descoberta é empírica. Se os seus poderes são um espelho de quem você é no mundo real, a resposta já existe. Me diga: onde você gasta o seu tempo? Qual é a sua paixão mais profunda fora daqui?
Fiquei em silêncio. Franzi a testa, não compreendendo aonde ele queria chegar com aquilo.
— Minha... paixão?
— Sim — Helena sorriu, os olhos brilhando em expectativa. — Você dedica anos a algum esporte de alto rendimento? Artes marciais, talvez? Ginástica olímpica? Isso geralmente forma a base inabalável do corpo onírico de um especialista.
Senti uma pontada de desconforto.
— Não... na verdade, eu sempre dou um jeito de ser dispensada das aulas de educação física. Nunca fui boa em esportes.
— Sem problemas — Arthur continuou, sem perder o entusiasmo, gesticulando levemente com a mão. — E o campo das artes? Você tem uma dedicação profunda à pintura clássica? À música? Escultura? A disciplina artística e a abstração costumam ser o pilar mental de grandes Materializadores ou Manipuladores Elementais.
O silêncio engoliu aquela conversa. A pressão no meu peito aumentou vertiginosamente. Eu olhei para o asfalto, e a ficha caiu. O fascínio inicial que eu vi nos olhos deles começou a se transformar rapidamente em um grande ponto de interrogação.
— Eu... eu não toco nada — minha voz saiu muito mais baixa, perdendo toda a postura confiante. — Eu não sei pintar. Minha letra é horrível. Eu não faço parte de nenhum clube na escola. Eu não participo de competições acadêmicas nem de peças de teatro.
Ergui o olhar, sentindo as bochechas esquentarem. Não por vergonha de estar na frente do David, mas por vergonha da minha própria essência vazia exposta sob a luz do dia artificial que eu mesma criei.
— Eu sou apenas a garota mediana. Eu nunca fiz diferença. Eu não tenho hobbies, não tenho especialidades, eu só... preencho os espaços vazios e é isso que eu faço. A minha vida inteira no mundo físico sempre foi uma grande sala de espera até a hora de eu poder vir dormir.
Arthur não disse nada de imediato. A postura confiante dele cedeu levemente, e ele trocou um olhar carregado de consternação e profunda preocupação com a esposa.
— Entendo — a voz dele perdeu toda a empolgação vibrante, tornando-se técnica e friamente analítica. — Isso pode ser um problema Lorie.
— Eu não sirvo para nada em Sinapsis, então? — a frustração vazou nas minhas palavras.
— Pelo contrário! Você tem a energia bruta de um prodigio sem par — Helena apressou-se em consolar, dando um passo na minha direção, embora o sorriso dela fosse triste. — Mas, no mundo desperto, você nunca se deu ao trabalho de construir o seu imenso potencial...O seu REM, apesar de formidável e capaz de erguer esta metrópole de vidro, não possui absolutamente nenhum molde, nenhuma ferramenta primária.
— Se você tentar engajar em um combate contra a Unidade lá fora neste exato estado — Arthur decretou, com a franqueza implacável de um veterano —, a sua energia simplesmente vazará sem forma alguma, e o impacto do inimigo a desintegrará em segundos. Você tem a força de um furacão, mas nenhum controle...
David, talvez percebendo o quão consternada eu estava naquele momento interveio.
— E qual é o procedimento, pai? Tem que haver alguma forma de forçar um molde emergencial. Ela está na mira da Unidade. Nós não temos tempo a perder. — protestou David, mas seu pai apenas lamentou com uma respirada funda.
— Não tem o que fazer filho, você sabe como funciona…— Disse Helena com uma expressão triste no rosto.— o seu treinamento prático está temporariamente suspenso, Lorie. Se você quiser sobreviver à caçada da Unidade e aprender a lutar, Você precisa voltar para o mundo real, escolher algo real para se dedicar e forçar o nascimento de um aspecto dentro de si. Abrace um propósito, ja vimos que você tem talento…olha so esse lugar querida. eu acredito em você.
Eu abri a boca para responder, tentando formular alguma promessa de que procuraria um propósito na manhã seguinte. Mas um estrondo colossal, acompanhado por um zumbido elétrico, estilhaçou a paz do meu cenário. O som ensurdecedor não vinha do meu mundo, mas de fora dele. Nós quatro nos viramos simultaneamente. para a porta pra sinapsis, ela brilhava insistentemente, resistindo a um impacto brutal vindo do corredor. A Unidade não estava mais apenas me procurando. Eles haviam acabado de bater em minha porta.
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