Sinapsis
12 O Preço de ser onipotente
Acordei com um gemido baixo, o corpo inteiro latejando como se tivesse levado um surra. A dor de cabeça veio logo depois forte e repentina — um pulsar quente bem atrás dos olhos, tão intenso que por um segundo o quarto inteiro girou. Sentei na cama de uma vez, apertando as têmporas com as palmas das mãos. Respirei fundo, tentando afastar a sensação, mas ela só piorava.
Cambaleei até o espelho da penteadeira. O reflexo me deixou paralisada.
Sangue.
Um fio grosso escorria do meu nariz, descendo devagar pelo queixo e pingando na pia. Toquei o líquido quente com os dedos trêmulos. Usar aquele poder todo tinha sido… surreal. Por um momento, dentro de Sinapsis, eu senti que podia fazer qualquer coisa — mover uma cidade inteira, parar uma lança no ar, chutar um Líder da Unidade como se ele fosse feito de papel. Mas agora… essa dor, esse sangue… quase não parecia valer a pena. Era a primeira vez que eu gastava tudo de uma vez. E meu corpo estava cobrando o preço de um jeito que eu ainda não entendia direito.
Meu celular vibrou com força em cima da escrivaninha. O nome na tela fez meu coração apertar.
David.
Atendi antes do segundo toque, a voz rouca.
— Lorie? — A voz dele saiu urgente, baixa, quase sem fôlego, como se tivesse acordado no mesmo instante que eu. — Você está bem? você foi ejetada. mas derrotou o Líder… Voce usou todo seu REM. Foi como perder um duelo. Eu quase surtei aqui.
Eu ri, um som fraco e amargo, enquanto limpava o nariz com as costas da mão.
— Nariz sangrando. Dor de cabeça que parece que meu crânio vai rachar ao meio. Fora isso… tudo ótimo. — Minha voz falhou um pouco.
— Eu não consegui ficar parada, David. Vi vocês três quase… Eu só reagi.
Do outro lado, ele soltou o ar devagar, aliviado, mas ainda com um tom sério.
— Você salvou a gente, Lorie. De verdade. Se você não tivesse feito aquilo… eu não sei se a gente teria saído de lá. Meu pai e minha mãe ainda estão processando. Eles disseram que nunca viram nada igual. Mas agora chega de Sinapsis pra você. Pelo menos por uns dias. Nada de corredor, nada de treinos, nada de portas. Sua energia precisa se recuperar. O corpo cobra caro quando a gente força assim.
Eu me sentei na beira da cama, sentindo o pânico subir rápido.
— David, espera. A Unidade sabe onde está a porta da minha mãe. Eles estavam indo atrás dela… Eu não posso simplesmente ficar longe disso tudo...
— Já estamos tomando contramedidas agora mesmo — ele me interrompeu, a voz firme, mas gentil. — Existe um jeito de mover as portas dentro de Sinapsis. Não é simples, mas é seguro. A gente desloca elas pra outro setor do corredor, como se trocasse o endereço de uma casa. Longe de qualquer rastreador da Unidade. Sinapsters experientes estão fazendo isso neste exato momento com a sua porta e com a da sua mãe. Elas vão ficar escondidas. Você não precisa mais se preocupar com isso hoje. Eu prometo.
Fiquei em silêncio por um segundo, sentindo um peso enorme sair dos meus ombros. Ainda assim, uma pontinha de inquietação ficou. Era estranho depender de outras pessoas para proteger a minha mãe… e a mim. Suspirei aliviada.
— Tá… tudo bem. Obrigada.
David continuou, o tom mais leve agora, quase tímido:
— E-eu queria te convidar pra sair...Hoje à tarde, se você estiver melhor. Nada de Sinapsis. Nada de Unidade. Só… um dia normal, sabe... A gente mal teve a chance de se conhecer direito no meio dessa loucura toda. Eu quero te conhecer de verdade, Lorie. Sem duelos, sem portas, sem nada disso.
Eu pisquei, surpresa. Um sorriso pequeno escapou antes que eu pudesse segurar.
— Espera… isso é tipo… um encontro? — questionei ainda meio atordoada, do sono e principalmente por conta daquele convite.
Ele riu baixinho do outro lado, e eu quase consegui imaginar as orelhas dele ficando vermelhas.
— Pode chamar do que quiser. Eu só… quero um dia normal com você. Tem uma sorveteria nova perto da escola que faz sorvete de manga com calda quente. Depois a gente pode caminhar um pouco...
Eu olhei meu reflexo no espelho — cabelo bagunçado, manchas de sangue seco no rosto, a mesma garota de sempre. Suspirei.
— David… aqui fora eu sou só… eu. A garota que passa despercebida o dia inteiro, que não tem nenhuma história épica pra contar, nenhum poder brilhando. ou roupa incrivel, Lá dentro eu consigo ser mais. Aqui eu me sinto… comum. Como se eu não tivesse muito a oferecer além de notas aceitáveis e silêncio.
David ficou em silêncio por um segundo. Quando falou, a voz estava mais quente, mais firme, como se ele realmente acreditasse em cada palavra do que dizia:
— Eu me recuso a acreditar nisso, Lorie. Lembra o que meu pai disse? o que a gente é em Sinapsis não é mágica nenhuma… é só o reflexo de quem já somos aqui. Lá dentro a gente não consegue se conter. Mas a força, a coragem, a criatividade… tudo isso já existe em você. Eu vi. E tenho certeza que você é tão incrível aqui fora quanto é lá dentro. Eu só quero que você também consiga enxergar isso.
Senti um calor subir pelo peito, algo leve e borbulhante que me deixou sem fôlego por meio segundo. Meu coração deu um pulinho estranho — uma mistura de felicidade e excitação que eu não sentia há muito tempo. Fiquei em silêncio por um instante, sem saber o que dizer, um sorriso bobo se abrindo no meu rosto. Era bom ser vista assim. Ser… valorizada.
— Tá bom… sorvete de manga com calda quente e um dia normal. Estou dentro. Vamos ver se você consegue me convencer que o mundo real também pode ser incrível.
David riu baixinho, a voz mais suave e sincera:
— Combinado. eu te busco em sua casa.
Desliguei o telefone e fiquei olhando o espelho por mais um tempo. O sangue tinha parado. A dor ainda estava lá, latejando devagar, começando a dar sinais de que ia parar.
Talvez o mundo real pudesse ser um pouco menos comum. Pelo menos por um dia.
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