Sinapsis

1 Meu mundo Ideal


Notas iniciais
Oi gente, estou de volta! Só pra deixar claro: eu comecei a escrever essa história lá em 2015. É bem anterior a essa onda de "dimensões paralelas" e "portas mágicas" que virou moda por aí (sim, Stranger Things, estou falando de você!). Como eu já tinha tudo registrado muito antes dessas séries estourarem, gosto de brincar que elas é que me copiaram, mesmo que ninguém nunca tenha lido meu rascunho. Minha única inspiração real foi Inception, mas o conceito aqui é mais embaixo, bem mais profundo. Estou voltando agora para o hábito de escrever depois de muito tempo parado, então deem um desconto se o texto parecer meio "travado". Estou literalmente desenferrujando os dedos e tentando reencontrar meu vocabulário. Espero que curtam a jornada!

A vários quilômetros de altura, o ar era puro e vivo.

Inclinei o corpo além da borda do terraço e mergulhei no vazio. O vento cortava através de mim, levando embora toda frustração que eu nem sabia que ainda carregava. Abaixo, a metrópole de luz que eu mesma havia construído se aproximava cada vez mais, as torres de vidro refletindo cores que não existem em nenhum céu real.

No instante em que o impacto parecia inevitável, anulei a gravidade com um único pensamento.

A queda virou voo. Disparei para frente rente às fachadas espelhadas, o cabelo solto chicoteando o ar, os pés livres do chão, livres de tudo. Ali não havia corredores para atravessar invisível, não havia cadeiras para ocupar em silêncio. Havia só eu, o vento e uma cidade inteira que existia porque eu quis que existisse.

bzzzz! bzzzzz! bzzzz!...

A gravidade agiu sobre mim de uma vez só, pesada e definitiva, e o teto opaco do meu quarto substituiu o céu que eu mesma havia pintado. Fiquei parada por um momento, olhando para o nada, sentindo o colchão sob as costas como uma sentença.

De volta a vida real.

Me levantei arrastando os pés, seguindo o cheiro de café que vinha da cozinha. Minha mãe, Linry, já estava na mesa, equilibrando o celular no ombro enquanto rabiscava um contrato com caneta vermelha. O caos era o estado natural dela. Mas assim que me viu entrar, parou tudo e me avaliou de cima a baixo com um sorriso irônico.

— Bom dia, zumbi. — Ela empurrou uma caneca fumegante na minha direção. — Você tem dormido tanto que eu espero de verdade que tenha uma vida dupla, porque essa cara de alguem que acabou de chegar do turno noturno não está me ajudando.

Não consegui evitar. Um riso frouxo escapou, o primeiro sorriso real da manhã. Sentei-me à mesa e peguei a caneca, roubando o calor com as duas mãos.

— Não tem turno nenhum, mãe. São só os sonhos.

— De novo? — Ela baixou a caneta. — Lorie, você sonha mais do que vive. — Não era bem uma crítica. Era uma observação precisa.

Eu tinha sonhos lúcidos desde os dez anos, mais ou menos. No começo eram só flashes, momentos em que eu percebia que estava dormindo e tentava não desperdiçar isso. Com o tempo fui aprendendo a moldar o cenário, a estabilizar as imagens, a dobrar as regras daquele lugar até que ele obedecesse completamente à minha vontade. Virou um refúgio. Virou o único espaço onde eu não era uma adolescente mediocre.

Ela deu mais um gole no próprio café antes de apontar a caneta vermelha para mim.

— Falando sério, Lorie... vê se comete algum delito juvenil leve hoje. Picha o muro da escola, responde a um professor de forma sarcástica, ou pelo menos tropeça e derruba a bandeja de alguém no refeitório. Eu sou uma mãe moderna com uma filha de dezesseis que até o momento me deu zero trabalho, como eu posso viver assim!

O tom era puro sarcasmo, mas tudo que eu precisava pro meu dia estava ali, bem forte debaixo da piada. Era o jeito dela de dizer “eu vejo você, e eu quero que o mundo te veja também”.

— Prometo que vou tentar ser suspensa hoje, mãe. Só por você.

Ela piscou para mim, satisfeita, e voltou a atacar o contrato com a caneta vermelha.

Terminei o café em dois goles longos, sentindo o líquido quente me prender de vez à realidade, e fui me arrumar.

Minutos depois, no espelho do banheiro, o reflexo não mostrava ninguém especial. Mostrava apenas a Lorie de sempre: o rosto pálido, os ombros instintivamente encurvados para ocupar menos espaço e o uniforme escolar sem graça. A armadura perfeita para meu arquétipo mundano. Joguei a mochila nas costas, ela era pesada o suficiente para me puxar de vez pra realidade, destranquei a porta da frente e saí para o ar frio da manhã, pronta para mais um dia inteiro de diversos nadas.

Era um dia como qualquer outro dia.

Atravessei os portões da escola, os corredores e as salas de aula no piloto automático. Eu não olhava para as pessoas, e elas, por sua vez, não tinham motivo para olhar para mim.

Na aula de Biologia, o professor Harrison explicava algo sobre o cérebro humano que o meu próprio se recusou a guardar. A voz dele era um ruído de fundo, como chuva no telhado. Na fileira ao lado, duas garotas trocavam mensagens pelo celular escondido debaixo da mesa e sufocavam risadas. Na minha frente, um garoto desenhava no canto do caderno com uma concentração que eu quase invejei. Eu estava lá, ocupando minha cadeira, mas minha mente já estava a quilômetros de distância.

Na saída, alguém esbarrou na minha mesa sem nem olhar pra trás. O estojo caiu, os lápis rolaram pelo chão. Ninguém parou. Eu abaixei devagar e fui pegando um por um, sem pressa, sem irritação. Só o movimento mecânico dos dedos e o barulho distante da sala se esvaziando.

Eu não odiava aquelas pessoas. Eu só não tinha interesse nelas. A realidade era um compromisso chato que eu era obrigada a cumprir antes de voltar para o lugar que realmente importava.

Quando o último sinal tocou, eu já estava com a mochila no ombro.

O caminho de volta era longo. As ruas do bairro sempre tiveram esse jeito — calçadas irregulares, fios elétricos cruzando o céu, o mesmo cachorro latindo na mesma grade de sempre. Eu passava por tudo aquilo todo dia sem realmente ver. Naquela tarde não foi diferente. Tudo que eu queria era poder voar como em meu sonho, para poder chegar o quanto antes.

Cheguei em casa já com a penumbra da noite tomando as ruas, entrei pela porta e joguei a mochila no sofá. Nele, minha mãe estava dando alguns minutos de paz a si mesma, sentada diante da TV ligada enquanto segurava um balde de pipoca.

— Sobreviveu? — ela perguntou, batendo no lugar vago ao lado dela no sofá.

— Por pouco — respondi, sentando-me e deixando minha cabeça descansar no ombro dela.

Ficamos ali, assistindo a um capítulo qualquer da novela das oito e comendo pipoca. Eu gostava daquele ritual. Era fascinante ver como as pessoas na tela choravam, gritavam e amavam com uma intensidade que parecia projetada para convencer o espectador de que a vida real era interessante. A novela era uma ficção tentando emular a realidade, enquanto eu usava a realidade apenas como uma sala de espera para a minha própria ficção. Olhando para as cores saturadas da TV, percebi que o que me prendia àquele sofá não era a trama, mas o calor do braço da minha mãe contra o meu. A única constante positiva daquele mundo.

O sono começou a pesar antes que eu percebesse. Uma pressão doce atrás dos olhos, os sons da novela perdendo nitidez, o ombro da minha mãe ficando cada vez mais confortável de um jeito perigoso. Eu sabia que se ficasse ali mais alguns minutos, não ia conseguir mais me mover.

Linry bocejou, esticando os braços e desligando a TV.

— Quer saber? Chega de novela por hoje. Vou dar uma de Lorie e ir dormir cedo também, boa noite filha.

Ela me deu um beijo na testa e se levantou. Eu fiquei parada por um segundo, sentindo o espaço que ela havia deixado no sofá ainda quente. Depois me arrastei até o meu quarto, troquei de roupa no automático e me enfiei debaixo das cobertas.

O colchão recebeu meu peso como uma promessa.

Fechei os olhos.

A transição foi suave.

Abri os olhos e já estava lá, flutuando a poucos metros acima da minha incrivel cidade de cristal. O silêncio era absoluto, a paz que só o meu mundo sabia oferecer. Comecei o meu voo matinal — ou noturno, o tempo ali não importava — deslizando por entre as torres espirais, sentindo a energia da cidade pulsar sob o meu comando. Tudo estava exatamente onde eu havia deixado.

Ou quase tudo.

Pousei suavemente no centro de uma praça circular. O chão era feito de um material que lembrava espelhos azuis, refletindo o céu. Mas, bem ali no centro, onde deveria haver uma fonte de luz, havia um erro.

Uma porta de madeira rústica, descascada e pesada, estava fincada no meio do nada.

Franzi a testa, sentindo uma pontada de irritação. Aquilo não era meu. Não combinava com nada ali. Tentei apagá-la. Fechei os olhos, imaginei o espaço vazio e ordenei que a geometria da praça fosse restaurada.

Quando abri os olhos, a porta continuava lá. desafiando minha onipotência naquele mundo

Aproximei-me devagar, meus pés descalços sentindo o frio do meu chão. O ar ao redor da porta parecia diferente, mais denso, como se ela estivesse sugando a luz da minha cidade. Não havia paredes, não havia casa, apenas a moldura de madeira sustentando uma folha de madeira escura que parecia ter séculos de idade.

Pela primeira vez em anos, senti um calafrio que não vinha do vento. Aquilo era uma anomalia. Algo tinha vazado para dentro do meu refúgio, uma rachadura na minha perfeição.

Estendi a mão, hesitante. O toque da madeira era áspero, real demais, quente de uma forma desconfortável. Meus dedos envolveram a maçaneta de ferro frio. Eu sabia que se a abrisse, a sala de espera do mundo real não seria mais o meu único problema.

Respirei fundo, girei a maçaneta e empurrei.