Sinapsis
23 Lorie
Eu não caí. Fui arrancado.
Um segundo eu estava ajoelhado no vazio onde Lorie tinha estado, o grito ainda preso na garganta, ecoando no nada. No outro, o ar explodiu ao meu redor como se a própria Sinapsis tivesse me cuspido para fora. Foi um ataque primitivo, brutal. Meu corpo onírico se despedaçou em mil estilhaços de luz e dor, e eu senti cada microfratura na minha mente estourando ao mesmo tempo.
Acordei num solavanco violento, puxando o ar com tanta força que minha garganta rasgou. Engasguei, o peito ardendo como se tivesse levado um golpe direto no coração.
O quarto da mãe dela estava escuro. A garoa fina continuava batendo no vidro da janela. O lençol da cama de casal ainda pesava em cima de nós.
Eu me virei para o lado, ofegante.
Lorie estava deitada de costas. Os olhos fechados, o rosto sereno. Parecia que estava apenas dormindo profundamente depois de um dia exaustivo. Mas o silêncio ao lado dela era ensurdecedor. O peito dela não subia. Não descia. A mão que eu tinha segurado até adormecermos, horas atrás, estava caída frouxa ao lado do corpo, os dedos ligeiramente curvados, como se ainda tentasse alcançar alguma coisa no escuro.
— Lorie?
Minha voz saiu rouca, quase inaudível. Toquei o ombro dela.
Gelado.
Um frio antinatural que subiu pela ponta dos meus dedos, percorreu meu braço inteiro e se alojou como uma âncora de gelo no meio do meu peito.
— Lorie, acorda.
Nada. Nem um suspiro. Nem um movimento.
Puxei o lençol para baixo com as mãos trêmulas. O cabelo dela estava espalhado no travesseiro. O rosto... o rosto que eu tinha beijado, a pele que irradiava calor contra o meu peito depois de fazermos amor na noite anterior. Agora estava pálido. Frio como a própria madrugada lá fora.
Eu sentei na cama de uma vez, o pânico tomando conta de cada nervo do meu corpo. Segurei o rosto dela com as duas mãos. Tão frio. O peso da cabeça dela cedeu contra as minhas palmas, mole. Apertei meus olhos com força, como se a dor pudesse forçar a realidade a voltar para o lugar.
— Lorie... por favor... não, não, não...
As lágrimas vieram antes que eu pudesse segurá-las. Grossas, quentes, caindo no rosto imóvel dela, escorrendo pelo seu queixo. Eu a puxei para mim, abraçando o corpo sem vida, balançando-a devagar enquanto o choro rasgava minha garganta em soluços secos que me deixavam sem ar.
A porta do quarto rangeu.
O corredor lançou um feixe de luz amarela para dentro. Minha visão estava embaçada pelas lágrimas, mas vi a silhueta de Linry na porta, segurando uma xícara fumegante de café. Ela não tinha pregado o olho. Havia ficado de vigília a noite inteira, andando pela casa, lutando contra o cansaço para nos vigiar enquanto mergulhávamos naquele pesadelo. Ela nos cedeu a própria cama para nos manter a salvo, debaixo dos olhos dela.
Vi a esperança nos olhos cansados de Linry morrer no exato milésimo de segundo em que encontrou o meu rosto desfigurado pelo desespero.
A xícara escorregou das mãos dela.
O som da porcelana estilhaçando contra o chão de madeira soou como um tiro no quarto silencioso. O café quente espalhou-se pelas tábuas, escuro e espesso como sangue.
— Lorie?
A voz de Linry não passou de um fio estrangulado. Depois veio o movimento. Ela correu para a própria cama, tropeçando cega, me empurrando para o lado com uma força que eu não sabia que ela tinha. As mãos dela voaram para a filha, trêmulas, frenéticas, tocando o rosto, apertando o pescoço, buscando o pulso, espalmando o peito imóvel.
— Lorie. Lorie, acorda. Filha, por favor... filha...
Ela deu um tapa leve no rosto de Lorie. Depois outro, um pouco mais forte. O corpo de Lorie apenas balançou de leve com o impacto, sem resistência, vazio.
As mãos de Linry pararam no ar. A respiração acelerada dela travou.
Ela entendeu.
Eu vi a ficha caindo atrás daqueles olhos marejados. Foi o entendimento puro, definitivo, sem espaço para negação. Só o abismo da dor crua.
— O que... — ela engasgou, a voz quebrando. — O que aconteceu?
Eu tentei falar, mas minha garganta estava fechada. As palavras saíam mastigadas, destruídas pelos soluços.
— Foi... foi do nada. Um feixe... um feixe roxo. Eu acho que foi o Victor… não deu tempo... Eu não... eu não consegui fazer nada. Eu jurei que ia proteger ela, dona Linry, eu jurei...
Minha voz morreu. A culpa me esmagava de um jeito físico. Eu não conseguia continuar. Só conseguia olhar para o corpo na cama, para o rosto que não ia mais sorrir, para a garota que eu não consegui salvar bem debaixo do teto da mãe dela.
Linry me encarou por um segundo que pareceu durar uma eternidade. Os olhos dela estavam vermelhos, dilatados de terror, mas bizarramente secos. Como se todo o choro do mundo tivesse ficado preso em um lugar fundo demais para alcançar.
— Saia — ela disse.
A voz saiu baixa. Firme. Mortalmente fria.
— Dona Linry, me desculpa...
— Saia do quarto. Agora.
Ela não gritou. Não precisou. O tom era de quem já não tinha absolutamente nada a perder. Linry me ignorou completamente no segundo seguinte. Ela subiu na cama e se deitou ao lado da filha, puxando o corpo frio de Lorie para os braços, enroscando-se nela, abraçando-a com desespero, como se pudesse aquecer o que já não tinha mais calor, como se pudesse transferir sua própria vida para ela. Ela começou a balançar devagar para frente e para trás, murmurando coisas abafadas contra o cabelo da filha — memórias antigas, o nome dela repetidas vezes, promessas que a morte havia acabado de roubar.
Eu recuei, tropeçando cego, meus pés descalços pisando na porcelana quebrada e no café morno sem sentir nada. Atravessei a porta e fechei a madeira atrás de mim com as mãos tremendo incontrolavelmente.
Apoiei as costas na parede do corredor escuro e escorreguei até bater no chão.
E então eu ouvi.
O choro dela.
Não foi um choro normal. Foi um lamento grosso, gutural, primitivo. Um som que não parecia humano, que saía do fundo do peito de uma mãe como se a própria alma dela estivesse sendo rasgada de dentro para fora com um alicate. Soluços altos, agonizantes, misturados com o nome da filha gritado em um desespero cego.
Lorie. Lorie. Lorie.
Como se gritar o suficiente pudesse forçar o universo a devolvê-la.
Eu tapei os ouvidos com as mãos, cravando as unhas no meu próprio couro cabeludo. Não adiantou. O som cortava a madeira da porta, atravessava minhas palmas e se enfiava direto no meu cérebro, marcando a ferro quente o meu fracasso. Eu curvei o corpo para frente, a testa encostada nos joelhos frios, e chorei junto com ela — um choro silencioso, covarde e seco, sem força sequer para fazer barulho enquanto o mundo que eu conhecia desabava.
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