Sinapsis
3 A morte do prefeito
Puxei o ar com força, sentindo o peito subir e descer rapidamente, como se tivesse acabado de correr uma maratona. Minhas mãos estavam agarradas aos lençóis com tanta força que os nós dos meus dedos doíam. A transição não havia sido suave; o corte foi abrupto, violento, deixando um gosto amargo de adrenalina na minha boca.
Fiquei deitada ainda na penumbra por alguns minutos, encarando o teto e tentando desacelerar a respiração até que a inércia chata e segura do mundo real começasse a se impor. Levantei-me ainda um pouco anestesiada me levantei da cama e me arrastei até a cozinha.
Minha mãe já estava sentada à mesa, passando manteiga em uma fatia de pão, com os olhos fixos na pequena TV sobre o balcão, ela ja estava vestida com o impecavel uniforme de corretora de imóveis que ela vestia todos os dias bem cedo pela manhã.
— Bom dia, filha. Caiu da cama? — ela perguntou, notando a minha expressão amassada.
— Quase isso — respondi, puxando uma cadeira e desabando nela.
— Tem café fresco na garrafa. Toma logo para não esfriar — disse a mamãe, sem desviar a atenção da tela.
Servi meu café com movimentos mecânicos, a cabeça ainda presa na imagem daquele portal instável e no rosto aterrorizado do prefeito. Foi quando minha mãe aumentou o volume da TV.
— …os documentos vazados durante a madrugada revelam um esquema milionário de desvios em licitações públicas, lavagem de dinheiro e extorsão envolvendo o prefeito e vários secretários. A oposição já pede impeachment imediato e a Polícia Civil abriu investigação…
Eu parei com a xícara a meio caminho da boca. Prefeito?
A imagem dele ajoelhado, implorando diante daqueles homens de terno, piscou na minha mente. Eu sonhei com o prefeito ontem à noite… e agora ele é notícia?
Antes que eu conseguisse processar, a transmissão deu um solavanco. A âncora tocou o ponto eletrônico no ouvido, visivelmente confusa.
— Nós… acabamos de receber uma atualização urgente — disse ela, a voz vacilando. — O prefeito foi encontrado morto nesta madrugada, em sua própria cama.
Minha xícara tremeu na minha mão.
A repórter continuou, agora com tom grave:
— A causa preliminar é parada cardiorrespiratória durante o sono. Não há sinais de arrombamento, agressão ou envenenamento. A morte ocorreu poucas horas depois do vazamento dos documentos.
Minha mãe soltou um suspiro, balançando a cabeça.
— Meu deus, que coisa horrivel...— disse ela com um expressão de surpresa.
Um frio subiu pela minha espinha. Eu tinha visto. Aqueles homens de terno o mataram dentro do sonho dele. E, de alguma forma que eu ainda não entendia, o prefeito também havia morrido no mundo real.
A cidade entrou em colapso
nas horas seguintes. As aulas foram suspensas por dois dias devido ao caos que tomou conta das ruas e da prefeitura. Para mim, o isolamento em casa foi carregado de uma tensão constante, mas o meu maior medo não era o noticiário. Era a noite.
A ideia de dormir me aterrorizava. Eu não queria fechar os olhos e correr o risco de ser puxada de volta para aquele corredor cheio de portas, tinha medo de dar de cara com aqueles assassinos, ou pior que eles ainda estivessem me procurando.
Mas, pela primeira vez desde a infância, os sonhos sumiram.
Durante duas noites seguidas, fechei os olhos e encontrei apenas o escuro absoluto. Um vazio denso, sem céu azul, sem gravidade zero, sem cidades de vidro. sem porta, e para ser totalmente honesta, foi um alívio. Era como se o meu mundo tivesse sido trancado por fora, mantendo tudo o que era perigoso longe de mim.
dois dias depois, quando a escola finalmente reabriu, o clima nos corredores era tenso. O único assunto era a "Morte Súbita" e a "Queima de Arquivo". Caminhei até a minha sala de cabeça baixa, carregando o peso de um segredo absurdo que eu não podia contar a ninguém sem ser internada como louca.
Entrei e sentei no meu lugar de sempre, no meio da sala, o território dos invisíveis. O sinal ainda não havia tocado e o professor não estava na sala. O ambiente era um caos de alunos sentados sobre as mesas, conversando alto e trocando teorias da conspiração amadoras.
Foi então que a porta abriu.
O som das conversas morreu gradualmente, substituído por um murmúrio confuso e algumas risadinhas das garotas nas primeiras fileiras. Levantei os olhos, curiosa.
Meu coração falhou uma batida.
Lá estava ele. Usava o uniforme da escola, segurava uma mochila jogada sobre um dos ombros e mantinha uma expressão tranquila. Não havia porco alado, não havia luzes saindo de suas mãos. Mas não havia a menor dúvida. Era o garoto do sonho.
A minha mente juntou as peças com rapidez. Eu o conhecia de vista. Ele era do conselho estudantil, de uma das turmas do último ano. Um daqueles garotos populares que viviam em uma esfera social completamente diferente da minha. Alguém que nunca, em sã consciência, teria motivo para dirigir a palavra pra mim.
Ele ignorou os olhares de curiosidade, dirigiu-se a nossa presidente de turma, perguntando algo que não pude ouvir, mas que ficou claro quando a presidente apontou para minha mesa.
Ele caminhou até mim e parou. Senti o peso do olhar dele sobre mim, mas, de perto, aquela postura inabalável e imponente que ele tinha no pesadelo alheio pareceu dar lugar a uma leve hesitação. Ele franziu um pouco a testa, me analisando, como se tentasse ter certeza de que era eu mesma.
No meio daquele silêncio denso que se formou ao redor da minha carteira, ele finalmente abriu a boca. A voz saiu um pouco mais contida e estranhamente nervosa do que eu esperava.
— Você é a... Lorie, certo? — ele perguntou, parecendo de repente apenas um garoto comum do ensino médio, sem saber muito bem o que fazer com as mãos. — A gente pode conversar um segundo?
Fale com o autor