Sinais Discretos

2 Capítulo 2 - Os Beijos


Notas iniciais
Esse capítulo é apenas uma ponte para o desfecho da história. Espero que gostem.

Os pensamentos de Carlos foram tocados de uma forma tão abrupta, pelo que havia acabado de ler, que o jovem ficou parcialmente em êxtase naquele momento pós-leitura. Não era de causar estranheza que um jovem inexperiente afetivamente, ao ler uma declaração, ficasse no mínimo estático. Afinal o que era aquilo? Não queria pensar no que tinha lido, mas não podia. Por que seu coração acelerava? Estava quente?

Lembrou-se dessa mesma sensação, de conforto, no instante que foi abraçado por Carlos. Não sabia o que fazer a partir de então, sim, realmente gostava daquele afago mais severo e ao mesmo tempo das pitadas de virilidade do outro menino. Era só uma mera admiração? Até por que o mais velho tinha o porte que todo garoto “normal” deve ter.

– Estou me enganando. – pausa com os olhos distantes e para baixo – também quero ele perto de mim. – retrucou silenciosamente olhando o vazio da casa, ainda sentado sobre a cama do seu garotão.

[ FIM DO FLASH ]

***

Agora estavam os dois. Sozinhos na sala e lado a lado no sofá. Carlos não olhava de frente o "irmão", permaneceu com a cabeça baixa durante seu pequeno relato. Obviamente relatou apenas o que leu, não fez nenhuma crítica ou devaneou sobre suas próprias incertezas. Gostaria na verdade de nem estar nesta situação.

A vergonha o jogava contra parede, lendo o que não era seu descobriu não somente as inseguranças do seu irmão de consideração como também as suas próprias. O clima de brincadeira não poderia durar eternamente para disfarçar isso. O que Ulisses iria dizer?

Este permanecia com o corpo projetado para frente, sentado bem ao lado, com a cabeça baixa e voltada para o lado oposto ao do “andrógeno”, seus braços flexionados apoiavam-se sobre as coxas, a La Top Model. Pernas bem abertas denotavam certo ar de conformidade, em definitivo não estava tenso nem com a espada na garganta, foi “todo ouvidos” por esse pouco tempo. E, sem ter pronunciado uma palavra sequer diante da exposição dos fatos, colocou sua mão no queixo do irmão, guiando a cabeça do menino até a frente do seu rosto, sem resistência do mesmo é claro. O clima de brigas ou de gracejos aí não cabia. Sussurrou diante de sua boca com uma voz rígida, baixinha, um: “Eu sempre te quis.”

Era como se, pelo olhar, Ulisses tivesse capturado aquele garoto de tal maneira que não podiam mais olhar para o mundinho em que se encontravam, somente um para o outro. Primeiro foi uma aproximação instantânea dos corpos, um abraço macio e em seguida, após um ligeiro, “Espera um pouco...” de Carlos, Ulisses posou gentilmente seu dedo indicador sobre seus lábios. E em gesto de silêncio falou: “Calma, eu quero apenas um pouco de você.” Aproximou-se ainda com o dedo pressionado nos lábios do garoto – o dedo a última barreira para ambos – e tirado este...

A princípio foi algo totalmente precipitado, a sede e a vontade de beber se uniram nesse beijo, o juntar destes dois, a mão de Ulisses pressionando o rosto de Carlos, que por sua vez podia apenas repousar seus braços sobre o peito amado, aliás, a mão direita segurava puxando a camisa de Ulisses, em sinal entrega. Os dois estavam realmente muito próximos abraçados no sofá da sala.

A entrega era total. Mas algo sufocava Carlos, aquele sentimento de dúvida misturado com culpa, pelas suas ações rotineiramente familiares com Ulisses. Sim, ocorreu-lhe a idéia do Errado de uma hora para outra, sem mais nem menos, as sensações misturadas confundiram sua cabeça. Quis sair, porém nesse exato momento foi conduzido pelo grandalhão até deitar-se no sofá.

Não podendo mais teve de empurrá-lo abruptamente.

– Por que isso agora? – uma pausa seguida de olhar repreensivo – É disso que você gosta! É dessa merda que você gosta?! Sinceramente pensei que tu eras apenas confuso, só que não...

Carlos ficou quieto, imóvel sobre a capa de sofá amassada.

– Você é um covarde. – em tom de voz enfático e mais calmo.

– Espera aí, não é isso... Quero mais tempo por que essas coisas não são assim... Por favor – forçando um choro – isso foi especial... Só que...

– Fala, então... Eu aqui sendo ridículo por você, fazendo o que nunca fiz por você e me vem com essa de donzela. “Foi especial.” – tom de voz irônico – Eu conheço a tua ideia de especial, é ficar pelos cantos dessa casa caindo aos pedaços se lamentando por ter uma adolescência normal. É se vestir desse jeito como se tivesse morrido para vida, é fazer essa cara de cínico quando te falam de sentimentos e também deve ficar fantasiando coisas antes de dormir. Desprezível... Vai a merda cara!

Não saber lidar com o que sentiam era uma barreira nas suas vidas, e somente agora Ulisses havia ultrapassado a nítida dificuldade que ele tinha quanto aos seus desejos. Foi acabando de dizer, tudo que pode despejar sobre o irmão após o beijo, que ele foi para sua toca, retirou-se daquela situação não sem antes afastar o “irmão” parado a sua frente, ainda digerindo tudo que escutara.

Caminhou para o quarto sem olhar para trás, Helena estava no meio do caminho do mesmo, passou e acariciou gentilmente a cabeça da menina. Carlos acompanhou o irmão com o olhar e ao deparar-se com a irmãzinha ficou surpreso com o gesto de reprovação da mesma. Parece que ele errou feio.



Notas finais
Revisei apenas uma vez. Aguardo você para o próximo capítulo dos dois. Quero comentários (risos) e críticas construtivas que possam me ajudar a melhorar em alguns sentidos.