Sinais Apaixonados

10 Lagrimas de quem Sofre Calado


Estávamos a uns 15 minutos no café, perguntei quem era o cara em questão que pelo jeito é amigo dela, ela me explicou que o nome dele é Quasimodo e que foi criado por um senhor fanático religioso que o via como um castigo, criar uma criança "deformada e feia", então o manteu escondido por anos, até que alguém o denunciou, foi para um lar melhor e agora é garçom, a parte boa é que o senhor o ensinou sobre como era a vida la fora e ensinou que pessoas podem ter outros tipos de "anormalidade" e o ensinou a se comportar com essas pessoas, aprendeu a ler em braile como também a escrever no mesmo, inclusive aprendeu linguagem de sinais, e eles se conheceram no café mesmo, como Anna era a unica que não sentia repulsa ao ser servida por ele, então Quasimodo agora é amigo dela:

"Não vejo problema, afinal, sou uma aberração como ele"

Era triste pensar desta maneira, mas não deixava de ser "verdade" já que ambos tem algum tipo de deficiência, mas seria bom que as pessoas não vissem só pela aparência, como as pessoas que deixam de conversar com a Anna por ela ser surda, eu não conseguia parar de pensar como as pessoas são intolerantes, porque? Mas o que eu to pensando agora é que to com muito frio nas mãos! Eu devia ter voltado para pegar as luvas quando eu lembrei no ponto de ônibus, apertava as minhas mãos, em uma hora coloquei as mãos dentro das mangas, não conseguia mais me concentrar no que ela escrevia, não conseguia mais escrever de tanto frio nas mãos, tava baforando as mãos, quando a Anna me deu um pacotinho branco junto com um papel:

"Aquecedor de mãos"

Ou sou a pessoa mais transparente ou ela repara demais em mim, espera, ela reparou em mim? Ela percebeu que eu estava sentindo frio nas mãos? Não, ela deve carregar em caso de emergências, mas não recusei, peguei p pacotinho e apertei entre as minhas mãos, sentia um alivio e a dor que estava sentindo do frio cortante foi embora, me senti tão bem, Anna sorria, até que vi que Anna se assustou, eu realmente ouvi alguma coisa, parecia uma vibração, uma vibração de celular? Mas realmente era, vi ela tirando do bolso que estava na calma um celular, eu pensei como uma pessoa surda fala no celular, decidi apenas assistir, ela atendeu e segurou o celular na frente um pouco afastado, me ofereci para segurar, assim o fiz, ela começou a falar com alguém em linguagem de sinais, aí eu entendi, ela tava usando o facetime do celular, a pessoa com quem ela estava conversando devia ter o celular do mesmo modelo que o dela, eu entendi algumas coisas que ela disse como "gato" "fome" e coisas mais simples, provavelmente ela tem um gato e a pessoa perguntou se ela esta com fome, em um momento ela pediu pra eu virar o celular, pude ver quem tava falando com ela, uma moça loira dos olhos bem azuis, assim Anna segurou o celular para mim, e pude conversar um pouco com ela:

"Olá, você é o Kristoff não?"

Assustei por ela começar a falar, não que pensasse que ela fosse surda também, mas é meio esquisito pois nunca usei o facetime

"ah, sim, você deve ser a Elsa, a irmã da Anna, ela comentou sobre a senhorita"

Senti ela soltando uma risadinha, eu não devia ser tão formal, as pessoas devem pensar que eu to puxando o saco por as vezes tratar pela denominação certa, não gosto muito de chamar por "você", só chamo de "você" quando tenho intimidade com a pessoa.

"Não precisa ser tão formal, provavelmente temos a mesma idade então não é tão necessário, mas enfim, Anna deve ter te levado no café como forma de agradecimento, ela me contou o que aconteceu ontem e quero te agradecer também, obrigado por proteger minha irmã"

Elas não pareciam irmãs, Elsa era tão formal e educada enquanto Anna (pelo menos comigo e até onde eu pude ver) é animada, sorridente, e sempre dizia o que pensava, o que as diferencia é a parte física também, Elsa tinha a pele bem clara e um loiro bem claro, provavelmente é descolorido, aprendemos no curso que esse tom não existe em seres humanos, loiro de nascença é o meu por exemplo, e também denuncia o fato das sobrancelhas serem escuras, na maioria das vezes é 1 ou 2 tons mais escuros, mas se fosse assim a sobrancelha dela teria a cor do meu cabelo, outro fato que destoava era os olhos bem azuis dela, provavelmente ela deve ter puxado os olhos azuis dos pais já que o gene ruivo da Anna é defeito genético assim como as sardas mais aparentes que Anna apresentava, o nariz de ambas era idêntico como o formato dos olhos, eu infelizmente só iria saber disso se um dia eu conhecesse os pais da Anna.

"Ah, não foi nada, só fiz o que alguém normal faria em uma situação daquelas, mas infelizmente linguagem de sinais não é muito compreendido então apenas quis ajudar..."

Elsa apenas deu um leve cumprimento com a cabeça.

"Anna é meio assustada, então gostaria que fosse amigo dela para que ela não desconfie tanto dos ouvintes"

Me senti bem por ter a aprovação de um membro da família dela.

"Isso não precisa pedir, eu faria isso mesmo que a sen...quero dizer, você não pedisse"

Quando comecei com o "senhorita" ela levantou a sobrancelha de um jeito meio querendo que eu evitasse que eu completasse a palavra, lembro de terem me dito que mulheres não gostam de serem chamadas assim por se sentirem velhas.

"Peça para a Anna virar o celular, foi bom conversar contigo, espero ve-lo em breve"

Isso foi uma indireta? Assim o fiz, falei pra Anna virar o celular, foi apenas para se despedir da irmã, assim pudemos conversar sobre assuntos banais do dia-a-dia, mas algo estava me incomodando desde a hora que a levei até o bloco dela, sobre aquela moça loira que a tratou com tanta frieza e preconceito.

"Anna, queria te perguntar uma coisa, quem é aquela moça loira no qual você passou no seu bloco?"

Ao terminar de ler, Anna me olhou com um rosto levemente assustado e logo em seguida com tristeza, eu num devia ter perguntado aquilo, logo peguei o caderno para me desculpar e que ela não precisava responder se não se sentia confortável com aquilo, mas ela abaixou o caderno da minha mão, o tomou e começou a escrever, era rápido, frenético, provavelmente pela primeira vez estava desabafando, pude ver seus olhos marejando de lagrimas, era uma coisa horrível ver ela começar a chorar novamente, assim que ela terminou de escrever, abaixou a caneta, leu o que escreveu e tirou um lenço do bolso, estava chorando.

"O nome dela é Aurora, ela entrou junto comigo e ela não admite o fato de uma "pessoa como eu" tirar notas melhores que ela sendo que não escuto e estou totalmente por fora do mundo dos ouvintes, provavelmente para ela nos somos burros, o pai dela é um politico conservador e acha que pessoas "não normais" devem ser colocadas junto com pessoas iguais para que não "apodreçam" o ambiente, ela e os amigos dela sempre falam que eu devia voltar para a escola especial para surdos de onde eu nunca deveria ter saído e não me meter no meio das pessoas "normais", eu só quero ter o meu lugar junto com elas, eu também sou normal, apenas não escuto! Ela convenceu um grupo de estudantes do nosso curso que eu devo fazer algo "a mais" ou que os professores tem dó de mim, por isso minhas notas altas e meus artigos publicados, então todo o dia que eu entro no bloco ela fala coisas assim para mim, então eu apenas fecho os olhos, abaixo a cabeça e passo reto"

Li com um pouco de dificuldade pois algumas palavras estavam borrando por causa das lagrimas que ela derramou enquanto escrevia, pude ouvir ela gemendo e chorando, estava nervosa, tirei seu pulso, a pressão estava alta, logo fiz um sinal para que Quasimodo viesse.

"Por favor traga uma garrafa d'água"

Assim ele o fez, abri, coloquei na mesa e me aproximei dela, tentei tirar a mão dela dos olhos, ela não queria tirar, provavelmente estava com vergonha de chorar na minha frente, não tinha escolha, tinha que acalma-la da unica maneira que dava, sentei-me perto dela, puxei pelos ombros e a deixei pousar o rosto sobre meu ombro, passei meus braços ao redor do seu corpo e apertei, a abracei com força, pude sentir o meu casaco molhando com suas lagrimas, não imaginava que uma pessoa tão boa como Anna, poderia sofrer assim! Estava com raiva, mas precisava passar tranquilidade, só assim ela se acalmaria, assim que senti que ela parou de soluçar a tirei do meu ombro e a ajudei a sentar, Quasimodo veio até mim.

"O que houve com a Anna?"

Não quis responder, era vergonhoso, mas pelo menos ela conseguiu tirar um pouco da pressão que ela tinha sobre os ombros, ela estava mais calma mas as mãos tremiam.

"Pode perguntar a ela se ela esta mais calma?"

Assim feito, Quasimodo lhe deu um lenço para secar as lagrimas e bebeu a garrafa d'água que estava na mesa, ela respondeu que sim, que estava mais calma, achei melhor sairmos de la, o ambiente estava um pouco pesado, assim saímos de la, estávamos agora dentro do ônibus, Oaken havia trocado de turno hoje, sua filha estava doente, o ônibus estava vazio então Anna sentiu do lado da janela e eu do lado do corredor, me senti um idiota, o maior dos babacas, como não tive semancol pra perceber que este é um assunto delicado para ela? Meus pensamentos pararam quando eu vi que ela dormiu com a cabeça encostada na janela, em um solavanco do ônibus, ela bateu a cabeça com muita força, ela acordou e soltou um gemido, parecia que ainda estava meio sonolenta, pois apenas mudou o lado da cabeça e voltou a dormir, o lado em questão era meu ombro, não vejo problema nenhum nisso, afinal, melhor que bater a cabeça novamente, mas pude sentir uma certa tranquilidade no rosto dela, um sorriso discreto, talvez essa conversa levemente incomoda não foi um resultado tão desastroso, mas provavelmente me sentirei culpado por uns 4 ou 5 dias, só o tempo dirá.