Sinais
22 Surtos, Ansiedades e Memórias Indesejadas
Notas iniciais
Ícaro
Duas semanas sem sair de casa e eu já estava enlouquecendo.
Andava pelos cômodos em círculos, com o coração disparado e os olhos vidrados, sem saber bem o que estava fazendo, ansioso e ocioso ao mesmo tempo, a fadiga tomando conta do meu corpo. Sem forças para me mover e sem paciência para ficar parado, bagunçando meu cabelo e estalando meus dedos várias e várias vezes.
A sensação de ansiedade era nauseante e os pensamentos vinham em ondas avassaladoras. As imagens daquele dia pareciam ficar indo e voltando repetidamente diante meus olhos, e, a noite, nos meus sonhos eu fugia de uma matilha de cães eternamente. Ao olhar pela janela durante o dia, era como se aqueles dois cães e o velho maldito estivessem do outro lado da rua, me observando.
Lembro de ter ficado tão feliz quando ele morreu, mas de uma partezinha de mim, ter ficado mal por essa felicidade, porque ficar feliz com a morte de alguém não parecia do bem, né? Mas, quer saber, no fim das contas a morte dele foi digna de felicidade sim! Afinal, ele era um velho nojento que ficava atiçando cachorros para cima de mim e olhando de forma tarada para Alexia. Morreu foi tarde!
E eu sei que disse que a pior parte era os pensamentos sabotadores, mas acho que mudei de ideia. A pior parte são os olhares e as brigas.
Os olhares irritados dos meus pais, como se me julgassem, como se pensassem o tempo todo o quão eu era ridículo, idiota e decepcionante... As brigas por qualquer coisa que eu deixasse de fazer, como quando eu não queria jantar ou sair do quarto. As brigas eram realmente horríveis, as cobranças deles deixavam bem claro o quão decepcionante eu era e eu estourava e brigávamos e eu só conseguia pensar no quanto eu queria desaparecer da face da Terra.
Os olhares de pena da Alexia também eram péssimos, ela me olhava com pena, como se eu fosse um coitado, um mísero grão de poeira perdido em algum lugar, e ela tentava me ajudar, não porque queria me ajudar, tentava por pena. E eu me irritava e a gente brigava porque eu não queria pena. Não queria a pena de ninguém. Especialmente, não precisava de pena dela. Me sentia injusto, mas meio que culpava ela por eu estar surtando de novo. Sei que ela quis ajudar, mas ela não tinha que se meter.
Até a quarta semana, meus amigos ainda me mandavam mensagem. Às vezes eu respondia. Eles vinham aqui também, mas eu me trancava no quarto logo que chegavam e eles ficavam conversando apenas com meus pais e com Alexia, provavelmente rindo da minha infantilidade e infortúnio.
Na quinta semana, pararam de perguntar se podiam vir.
Na sexta, as mensagens começaram a diminuir.
Na oitava, não mandavam mais mensagens e nem vinham.
Dois meses em casa.
Eu não precisava ir longe para ver o quão ruim estava.
Meu reflexo no espelho apontava cada um dos efeitos que estar trancado havia já deixado em mim.
Meu cabelo estava desarrumado, os cachos esticados e desbotados de uma maneira que nem a melhor hidratação do mundo resolveria. Claramente a falta de refeições tinha me feito perder peso demais rápido demais. Olheiras roxas sob meus olhos deixavam cristalina a minha privação de sono. Minha pele estava cinzenta e eu não parava de roer as unhas e de arrancar a pelinha dos lábios. Meu corpo estava completamente dolorido pelas horas sem fazer nem mesmo um alongamento, largado na cama sem me mover, a energia acumulada parecia que faria minhas pernas caírem em breve. Meus dedos da mão doíam de tanto estalá-los. Minha barriga doía de fome, mas eu não ligava. Não sentia realmente vontade de comer. Teria de sair do quarto e isso não queria.
Se meu corpo não fosse prova o bastante da bagunça mental que eu estava enfrentando, meu quarto era.
A cama bagunçada, os livros jogados sobre meu teclado, a câmera esquecida em uma prateleira, os quadros tortos e as roupas colocadas de qualquer jeito no guarda-roupa. Sapatos jogados pelo chão, alguns sem nem ter par. A coberta caindo da cama. O cheiro de mofo atacando minha rinite enquanto eu me recusava a abrir a janela. Uma camada de poeira fina começava a se formar na cabeceira da minha cama e em cima do meu teclado.
E a dor, o medo e a ansiedade continuavam vindo, como os três fantasmas do Natal que atormentaram Ebenezer Scrooge por uma noite inteira, esses sentimentos vinham como três demônios me atormentarem o dia todo e a noite toda. Um misturado ao outro até eu não saber identificar o que exatamente estava sentindo, apenas sentir dor e vontade de chorar.
A culpa estava ali também, claro. Mãe de todos os sentimentos negativos, a culpa me perseguia me atormentando com minha própria humilhação enquanto parecia rir do quão mal eu estava fazendo aos outros e a mim mesmo. Tenho certeza que minha desgraça era o maior deleite da culpa.
Isso e a minha auto piedade ridícula, é claro. E o meu talento para a dramaticidade.
Suspirei, tentando ajeitar a cama e o quarto o mínimo possível para que o lugar ficasse parecendo apresentável enquanto reunia coragem para ir abrir o portão.
Dois meses e o Mathias ainda estava vindo.
E eu que era o teimoso da relação.
Fiz careta lembrando brigas antigas que pareciam atormentar minha mente sempre que o via entrar. Brigas terríveis onde verdades cruéis me foram jogadas na cara sem a menor dó. Marcelo era o rei das brigas terríveis e cada uma delas parecia estar na minha cabeça enquanto Mathias insistia em vir.
Quanto tempo até acontecer exatamente o mesmo que aconteceu com Marcelo? Esse pensamento martelava na minha mente vezes e vezes seguidas, como se estivesse andando em círculos.
Quanto tempo?
Quanto tempo?
Quanto tempo?
Tentar encontrar a resposta dessa pergunta era como me afogar.
***
“Xeque.”
Franzi a testa para o tabuleiro quando Mathias disse isso.
Como?
“Como fez isso?”
“Você tá distraído. É mais fácil ganhar de você assim.”
Bufei.
“Você não ganhou ainda.”
“Se você continuar assim, eu vou logo, logo.”
Ergui os olhos para ele, uma mistura de sentimentos ainda maior me atingindo.
Angústia, ansiedade, tristeza, medo, raiva... Sempre raiva.
Eu estava fazendo de novo.
Apertei meus braços, as lembranças voltando com força o bastante para me deixar enjoado, exatamente como antes. Mãos apertando meus braços, tentando me arrastar para fora, minhas costas arranhando no chão da garagem, eu me debatendo e gritando, marcas roxas nos meus braços, lágrimas nos meus olhos... Eu estava mal ao ponto de levar Marcelo ao limite e ele tentar literalmente me arrastar para fora.
Eu o levei ao limite.
E eu não queria levar ninguém ao limite outra vez.
Com certeza não queria levar o Mathias.
Mas eu não conseguia simplesmente dizer isso porque minha cabeça estava girando com raiva de mim mesmo e com raiva dos meus pais e da minha irmã pela forma com que me olhavam e também estava com meus amigos por... Nem sei bem o porquê, porque eu não os julgava por não vir, afinal eu estava sendo um amigo idiota e egoísta e surtado.
Mas, eu estava com raiva.
E o olhar do Mathias era uma mistura perfeita entre o olhar dos meus pais e o da Alexia: pena, raiva e decepção se escondiam por trás de uma falsa complacência. E isso machucava e irritava e me punha em defensiva e minha cabeça estava girando.
Cobri o rosto com as mãos, sentindo dor de cabeça enquanto, novamente, meu coração acelerava sem motivo, trazendo consigo um aperto no pescoço que passava uma sensação nauseante.
Senti sua mão sobre a minha e o afastei imediatamente, grunhindo.
“Por que você tá aqui?”
“Você me chamou pra vir.” – deu de ombros, ajeitando a trança sobre o ombro.
“Ok. Mas, por que você ainda tá vindo?”
Mathias franziu a testa como se finalmente percebendo que eu não estava falando sobre hoje exatamente.
“Porque eu sei o quão ficar sozinho por muito tempo pode fazer mal. Quero te ajudar.”
Eu não queria, mas não consegui não rir.
Meu Deus!
Minha vida era uma piada de mau gosto.
“Amor, como você espera isso? Você não consegue nem ajudar a você mesmo.” — ri de novo, sem conseguir conter o sarcasmo enquanto as lembranças ruins seguiam repetindo na minha mente, até meus braços parecerem doer.
Mathias arregalou os olhos, me olhando surpreso e senti meu rosto arder.
“Desculpa, isso foi cruel. É só... Tudo te deixa ansioso então não é como se você fosse de grande ajuda.”
Fechei os olhos.
Aquilo tinha sido ainda mais cruel.
Por que eu estava sendo tão cruel? Não sei. Eu só... Não queria aceitar ajuda de ninguém. Não queria ajuda. Também não queria pena ou condescendência.
E parecia que isso era tudo que tinham para me oferecer.
Eu não precisava de abraços e carinhos, só precisava de espaço, de tempo, precisava que meu cérebro voltasse para o lugar e eu pensasse direito. Não precisava de pessoas me cercando e me fazendo sentir ainda mais raiva.
Meu orgulho não me deixava aceitar isso.
Abri os olhos e Mathias me olhava como se eu tivesse lhe dado um tiro.
Ergui a mão para pedir desculpa, mas ele foi mais rápido.
“Você não vai jogar?”
Engoli em seco, baixando os olhos de volta para o tabuleiro e suspirei, movendo um cavalo e removendo um bispo do jogo.
“Xeque.”
Mathias suspirou, esfregando os olhos e eu não precisava perguntar para saber que ele estava remoendo o que eu tinha lhe dito. E sabia que ele remoeria por um bom tempo ainda.
Suspirei, empurrando o tabuleiro da cama, irritado. Mathias deu um pulo de susto, provavelmente por causa do barulho, mas não dei atenção alguma às peças que se espalhavam pelo chão.
Cobri o rosto com as mãos. Eu estava prestes a cair ao mar, sabia que estava.
Foco.
Subi em seu colo, segurando seu rosto entre minhas mãos e encostei a testa na dele. Dava para sentir sua hesitação enquanto apoiava a mão na minha cintura, dava para sentir um certo temor, como se esperasse tudo de mal de mim naquele instante.
Me odiei por fazê-lo esperar por isso.
Dei um selinho em seus lábios e me afastei um pouco, me ajeitando em seu colo.
"Me perdoa. Eu não devia ter falado isso, foi errado." — suspirei. — "Você só quer ajudar, eu sei. E você também não tá bem e eu sou um egoísta por jogar isso na sua cara desse jeito, sou um idiota. Desculpa. Eu só... Não to bem."
Mathias mordeu a bochecha enquanto me olhava. Respirei fundo tentando me impedir de cair no choro. Não queria parecer estar me fazendo de coitado, não queria ser o tipo que chora quando sabe que foi o errado.
"Me desculpa, de verdade, eu não quis falar isso. Ficar aqui tá sendo um inferno e me sinto péssimo por não conseguir sair. Mas é tudo menos pior quando você vem ficar comigo... Mas, eu também me sinto mal por você tá cuidando tanto de mim e eu estar tão mal que não consigo retribuir e cuidar de você do mesmo jeito. Eu..." — ergui os olhos para o teto, respirando fundo enquanto meus olhos ardiam. — "To cansado e irritado e acabei descontando em você a raiva que to de mim, foi sem querer. Desculpa. Não quero desperdiçar seu tempo... Ou te irritar por não tá ficando bem... Ou..." — desisti de falar. — "Me desculpa, por favor, meu amor."
Mathias suspirou, assentindo minimamente com a cabeça, apertando meu ombro e me olhando daquela maneira complacente que eu tanto odiava.
Me levantei, respirando fundo enquanto tentava voltar a me acalmar. Não queria ficar irritado, mas estava com tanta, tanta raiva de mim naquele instante... Eu odiava tanto desabar na frente de outras pessoas. Flashes passaram na minha cabeça como se me lembrando de que eu estava certo em odiar isso.
“Quero ficar sozinho.”
Ele me olhou hesitante. – “Amor...”
"Por favor." — supliquei porque sabia que estava para cair, a qualquer segundo agora... E não queria ninguém por perto para presenciar o desastre que seria. — “Mathias, eu quero ficar sozinho. Você não precisa me ajudar, não é sua obrigação me ajudar, então só vai embora, por favor, porque eu preciso ficar sozinho. Desculpa ter te chamado pra cá, eu não devia e também desculpa ter sido rude agora, é só que... Eu to cansado. Mas, você não precisa me ajudar, tá? Tenho certeza que você tem coisa mais importante para fazer e tem seus próprios problemas para lidar. Além do mais, eu não preciso de ajuda, eu preciso de uma máquina do tempo pra me levar de volta pra quando eu tinha treze anos e me obrigar a beijar dentro de casa porque isso evitaria muitos traumas.”
Respirei fundo outra vez.
Eu não estragaria tudo daquele jeito de novo.
Mathias me olhou hesitante.
“Quer mesmo que eu vá embora?”
“Quero.”
Ele abaixou os ombros, olhando pro chão e coçando a bochecha, acho que estava meio sem saber o que fazer.
“Ok, se você quer ficar sozinho tudo bem. Mas, tem certeza que você vai ficar bem?”
“Absoluta.”
Outra vez, Mathias olhou para o chão antes de se levantar apertando de leve a minha mão e me dando um beijinho na bochecha. Ele fez o sinal de "te amo" contra minha mão e saiu do meu quarto.
E da minha casa.
Respirei fundo, minhas mãos estavam tremendo enquanto me jogava na cama novamente, gritando no travesseiro até minha garganta doer, outra e outra onda de ansiedade tomando meu corpo enquanto meu cérebro condenava minhas atitudes. Eram tantas coisas que eu não devia ter dito...
Eu queria tanto sumir.
Praticamente já podia sentir minhas costas batendo no mar. O primeiro impacto antes do afogamento. Icarus.
***
Não era uma boa ideia, pensei desarquivando a conversa.
Mas, o tédio da noite me deixava sem boas ideias.
E obviamente, eu podia ir falar com a Alexia, mas eu realmente não queria falar com ela. Eu estava com tanta, tanta raiva dela. Ficava lembrando daquele cachorro em cima de mim e quanto mais lembrava, pior parecia a atitude da minha irmã. Como se tivesse planejado que aquilo acontecesse, como se quisesse me ver desse jeito de novo. Como se ela quisesse me humilhar!
Não importava que ela tivesse pedido desculpas quando deu tudo errado, eu estava tão chateado e irritado.
Eu podia ter passado os dois últimos meses bem, indo a escola, conversando com meus amigos, saindo com meu namorado e... Mas, não! Minha irmã tinha que me fazer surtar de novo. Sei que não devia, mas eu culpava.
Então, não fui falar com ela.
[Ícaro]
Oi
Voltei a mim e apaguei a mensagem, bloqueando o Marcelo em seguida.
Minhas mãos tremiam, uma súbita vontade de vomitar me atingindo em cheio e me deixando tonto enquanto meu coração disparava mais do que conseguia aguentar.
Não seja idiota, pensei. Sabe que falar com o Marcelo só vai piorar a situação, Ícaro. Falar com Marcelo sempre piorou a situação!
Deixei minha mente voltar para aqueles meses trancado no ano passado. Às vezes que Marcelo debochava do meu medo de sair, como revirava os olhos e falava como se eu fosse uma vergonha por estar tão assustado... Era tão ruim.
Suspirei.
Não é que tudo sempre tenha sido ruim, eu tinha boas memórias dessa época, é só que... Chegou um ponto em que tinha de pensar vinte vezes antes de fazer qualquer coisa e isso era ruim. E quando eu surtei e me tranquei, me tornei um peso para ele e tudo piorou.
Não queria me tornar um peso de novo.
Lembrei de quando voltei a sair de casa e ir à escola e descobri que Marcelo estava namorando o Fernando.
Fernando era o tipo de cara que vivia para dançar e malhar. O corpo era um conjunto de características de um perfeito dançarino que você vê em vídeos de academias francesas. Corpo esguio, pernas longas, cintura fina, costas largas, músculos torneados, bíceps, barriga tanquinho e, assim como minha mãe, várias vezes ele parava na ponta dos pés, ou na quarta posição, ou então, se agachava fazendo plié. Os cabelos crespos coroavam a cabeça e a pele preta brilhava, refletindo a luz como se fosse prata.
Ele era lindo, inteligente e não um doido que tinha medo de sair de casa. Lembro que Marcelo fez questão de jogar isso na minha cara. Lembro o sentimento que veio quando ele me chamou de doido.
Não sei porque minha mente insistia em voltar aquilo agora. Acho que era porque não tinha mais muito para pensar. Chega uma hora que seu cérebro cansa de te atormentar com uma lembrança e começa a te atormentar com outra, acho. De que adiantava passar todos os dias lembrando de cães me perseguindo e me atacando se não lembrasse também o que esse trauma já tinha me tirado e ficar me perguntando quanto faltava para tirar de novo?
Não que eu ainda ligasse para o Marcelo de forma romântica, Marcelo é pior que uma matilha de cães acredite, é só que... Era tão assustador a ideia de ter surtado a um ponto que prejudicou meu namoro de forma irreversível... E seria tão ruim se acontecesse de novo. Não queria esse tipo de culpa de novo. E não queria perder o Mathias por estar surtado.
Eu já tinha dificuldade de ajudar ele e me aproximar quando estava no meu melhor estado, eu já cometia muitos erros quando estava no meu melhor estado. Agora então... Agora, eu estava tão descontrolado que seria uma questão de tempo para que ele começasse a me odiar. Tinha certeza absoluta disso.
Eu não queria brigar, não queria me comportar como estava me comportando, juro. Não queria falar errado com o Mathias, nem com meus pais e definitivamente não queria falar errado com a Alexia. É só que... Era tudo tão confuso! Eu tava tão estressado e tão cansado de tudo... Sabe quando você sente as coisas de uma forma tão intensa que não consegue pensar direito e por não pensar direito acaba fazendo coisas que não faria se pensasse antes e dizendo coisas que não falaria se estivesse bem?
Era isso. Eu só estava tão esgotado mentalmente, com pensamentos tão obscuros e confusos, que mal prestava atenção no que dizia. Eu queria fugir do que estava sentindo e estava fugindo falando o que não devia. E eu sei que isso é errado, mas... Mas, eu só estava muito além do autocontrole. Muito cansado para me importar direito.
Sei que o Mathias achava chato quando eu fazia cara feia e me afastava numa briga ou discordância, mas eu acho bom fazer isso. Quando eu ficava nervoso e começava a pensar com menos clareza, me afastava antes que dissesse algo errado até me acalmar e assim, sem me levar demais pela emoção, a gente conseguia resolver. Mas, agora? Agora eu nunca estava pensando com clareza. Nem mesmo quando achava que estava!
Droga, ele ia me odiar, eu tinha certeza disso. Ele ia me odiar e ia acabar tudo porque eu tava completamente surtado e ninguém gosta de gente surtada.
Meu coração acelerou com esses pensamentos.
Eu iria morrer de taquicardia se meu coração continuasse fazendo isso do nada.
Respirei fundo alcançando meu celular novamente, os pensamentos ainda atormentando minha cabeça enquanto tentava decidir o que fazer. Era como as vibrações das batidas de um martelo.
Bam. Bam. Bam.
Briga. Briga. Briga.
Um respiro de racionalidade.
[Ícaro]
Ei, desculpa de novo por mais cedo
De vdd, eu n devia ter falado aquelas coisas
Tipo, vc ajuda o quanto pode e isso é suficiente, eu n tenho o direito de falar como se n fosse ou te cobrar mais do que vc aguenta, ou falar como se fosse sua culpa eu ainda ta aq quando a culpa é so minha. E eu sei q vc tbm ta passando por muito o q só piora o jeito q eu agi
E é, vc fica nervoso super fácil e as vezes isso me irrita, mas, vc tem uma rede de apoio bem menor q a minha e aguenta uma pressão diária dos infernos então faz sentido vc ser tão mais ansioso que eu e n tenho direito de criticar isso pq não é algo que vc controle e eu sei
Me perdoa de verdade. Não devia ter dito nada daquilo, tbm n devia ter mandado ir embora daquele jeito, foi idiotice minha
Eu só to estressado demais por tá trancado aqui e nervoso demais pra sair e to enlouquecendo. De vdd n queria descontar em vc, principalmente pq se n gosto quando vc ta muito estressado e desconta em mim, o mínimo q devia fazer é não descontar em vc quando to assim
Me perdoa por favor
Te amo
Coloquei o celular de lado e me levantei um instante, pensando em abrir a janela e deixar o ar frio da noite entrar, talvez isso afastasse o cheiro de mofo... Mas, apenas me levantar pareceu ser suficiente para sugar todas minhas forças, então voltei a me deitar, abraçando meu travesseiro com força.
Tamborilei meus dedos sobre o colchão um instante.
Faça algo útil.
Faça algo útil.
Algo útil.
Útil.
Por que eu era tão inútil? Por que precisava tanto de atenção?
Peguei o celular novamente abrindo a conversa com Marcelo e relendo uma mensagem que ele tinha mandado muitos meses antes, ainda no ano passado logo que eu surtei.
“Você é tão carente assim de atenção que precisa surtar ao menos uma vez por ano?”
Reler isso era como me torturar, pensei bloqueando o aparelho. Mas, não era mentira afinal de contas, não é? Eu estar assim de novo era prova disso.
Por que eu tinha de ser assim? Por quê? Por quê? Por quê?
Fechei os olhos enquanto as lágrimas molhavam meus cílios, minha respiração parecia superficial. Abafei um grito com o travesseiro porque sabia que Alexia estava em casa. Minha cabeça doía. Meus olhos ardiam.
Senti que estava me afogando.
Eu nunca soube nadar.
E sempre odiei a sensação de falta de ar.
Naquele instante, odiei mais ainda.
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