Sinais
11 Mães e Amigos
Notas iniciais
Mathias
Eu vejo minha mãe uma ou duas vezes na semana. Ela trabalha como diarista sem carteira assinada em duas casas diferentes. Normalmente ela fica de segunda até quarta numa casa, dormindo lá, e depois trabalha quinta, sexta e sábado em outra. Domingo ela folga. Ela vem para casa na noite de quarta, mas eu não a vejo mesmo assim porque chega quando já estou dormindo.
Domingo é a única exceção sempre e mesmo assim não é uma exceção, sabe? Domingo ela está cansada, depois de almoçar se joga na cama e dorme até o dia seguinte. A gente basicamente só conversa por mensagem e sempre bem rápido porque ela tem medo de que a patroa a veja mexendo no celular.
Mas, mesmo nos vendo pouco, minha mãe e eu nos dávamos bem, bom... O quão bem é possível quando se convive tão pouco. Ela sempre parecia saber o que estava acontecendo na minha cabeça mesmo me vendo tão pouco. Quando não estava muito cansada, me puxava para deitar um pouco com ela e passava as mãos pelo meu cabelo até cairmos no sono.
Suspirei, afastando esses pensamentos e ergui os olhos.
Ícaro olhava tudo na minha casa com ares curiosos. Era bem menor que a dele. Não tínhamos sala, a mesa da cozinha era, na verdade, uma escrivaninha velha e bamba que uma das patroas da minha mãe quis jogar fora e minha mãe resolveu pegar.
As grades das janelas eram enferrujadas e o mofo escuro nas paredes cor de creme era realmente incômodo. Pintávamos por cima do mofo ao menos duas vezes por ano, mas sempre voltava. Esfregávamos a parede com vinagre toda semana, mas nunca adiantava. Ícaro espirrou logo que entrou e fiquei na dúvida se era pelo cheiro do mofo ou do aromatizador de madressilva e flor de laranjeira.
“Eu juro que arrumei tudo antes de ir te encontrar.” — garanti e ele deu risada, fungando e espirrando logo em seguida, se encolhendo no moletom preto que usava e colocando a mochila sobre um dos bancos.
Bancos.
Não cadeiras. Não tínhamos mais cadeiras.
Apenas dois bancos velhos e brancos, daqueles de plástico.
Me perguntei se o Ícaro estava percebendo todos esses pequenos detalhes que sempre chateavam e irritavam tanto eu e minha mãe. É difícil uma casa parecer aconchegante para visitas quando não se tem cadeiras, minha mãe sempre dizia isso.
Ainda assim, era uma casa confortável. Tínhamos muito copos, minha mãe amava copos bonitos. E a cor da parede onde o mofo não tinha pego era bonita. Os cômodos eram pequenos, mas eram confortáveis, os azulejos do chão eram brancos e mesmo assim não se via um grão de poeira de tão bem que eu tinha limpado. Era pequeno e mofado, mas era limpo e organizado. Isso que importava.
Prendi a respiração enquanto ele se virava para mim, ainda parecendo curioso.
“E sua mãe? Onde tá?”
“Trabalho. Deve chegar tarde.”
Ele virou o rosto e espirrou de novo, esfregando os olhos. Resolvi tirar o aromatizador da mesa e colocá-lo na escada da área de serviço, bem longe da cozinha.
Quando voltei, Ícaro estava estalando os dedos das mãos e encarando o chão, parecendo um pouco sem graça.
"Tudo bem?" — perguntei, hesitante.
Ele coçou o rosto e assentiu dando um sorriso.
"Sua casa é bonita."
Fiz careta.
"A gente... Se esforça para deixar ela arrumada. Minha mãe e eu. A gente tenta." — respondi hesitante e ele assentiu, abrindo mais o sorriso e apontando para as paredes.
"Gostei das fotos."
Ri sem graça.
As paredes estavam cheias de fotos de vários anos diferentes: mostravam eu ao longo dos anos, com diferentes roupas, mas sempre exibindo a mesma medalha de "Aluno Nota 10" que recebia no final do ano escolar.
As medalhas eram dadas a partir da sexta série.
Não teve um ano que eu não tenha recebido a medalha de aluno com melhor nota, então tinha uma coleção de tipo... Cinco fotos assim.
"Eu não tenho tantas medalhas." — Ícaro falou se encostando contra a mesa e me olhando. — "Ganhei uma num curso de fotografia. Melhor foto da turma."
Arqueei a sobrancelha.
"Legal."
"Eu tinha uma de música também, mas a Lexi pegou e diz que é dela." — ele fez careta enquanto falava. — "Aí eu peguei a medalha dela de natação. E eu nem sei nadar."
Dei risada, um pouco mais relaxado. Ícaro estar na minha casa era novidade demais pra mim e senti um certo alívio em perceber que ele não parecia ter odiado o lugar. Agora era torcer para que desse tudo certo quando minha mãe chegasse...
"Que horas sua mãe chega?"
"Normalmente, ela chega quase meia-noite." — dei de ombros. Ícaro mordeu o lábio e virou o rosto, esfregando os olhos de novo. Ainda dava para sentir o cheiro de flor de laranjeira na cozinha. Ele suspirou fungando e voltando os olhos para mim com um sorriso de canto nos lábios.
"Você não parece bem."
"Eu to bem." — garanti enquanto ele vinha para perto de mim, me analisando com cuidado.
"Você não queria que eu conhecesse sua mãe ainda, não é?" — ele não fez bico e nem pareceu irritado enquanto perguntava, pelo contrário, tinha um olhar condescendente no rosto, parecia estar tentando decifrar meus pensamentos.
"Não é isso." — respondi, sentindo meu rosto ficar quente. — "Eu só... Nunca cheguei a apresentar ninguém pra ela. To um pouco nervoso."
Ele deu risada e respirou fundo pondo as mãos nos meus ombros um instante, me dando um beijo na bochecha.
"Você tá muito nervoso." — declarou se afastando. — "Eu fico nervoso quando você fica assim."
"Desculpa."
Ícaro balançou a cabeça. — "Não precisa se desculpar. Sei que você fica nervoso com coisas assim. Mas, a gente tem tempo até sua mãe chegar, tá bom? Não precisa ficar assim. Vamos fazer alguma coisa para passar o tempo até lá."
Concordei com a cabeça, engolindo em seco. Ícaro suspirou alto enquanto me olhava e balançou a cabeça outra vez, rolando os olhos antes de sorrir de novo. Eu sabia que ele estava tentando ser paciente e sabia que normalmente, isso não era algo que lhe vinha com naturalidade, então... Provavelmente era melhor eu pensar em algo.
"O que você quer fazer?" — perguntei por fim, sem mais ideias.
Ícaro me olhou um instante de cima a baixo e de baixo a cima antes de erguer as mãos para falar:
“A gente tá sozinho em casa até noite?”
Assenti, sentindo um arrepio na coluna e contendo um sorriso conforme ele me olhava de um jeito meio malicioso e vinha pra perto de mim. Agarrei-o pela cintura, mas, antes que eu pudesse beijá-lo, ele me empurrou rindo.
“Não. Você tem prova hoje.”
Neguei com a cabeça.
Volta e meia, Ícaro inventava de eu ter que fazer provas de Libras. Não era tão difícil, sabe? Ele perguntava algumas regras, via se eu lembrava todos os parâmetros, como estruturar as frases, fazia várias configurações de mão e eu tinha que me lembrar de um sinal para cada configuração, me fazia soletrar algumas palavras cheias de T e F pra ver se eu tinha aprendido a diferença afinal...
Eu odiava essas provas.
Não que eu fosse mau em todas, na verdade, eu ia até que bem na maioria, mas, não gostava. Eram normalmente provas longas e cansativas, faziam minhas mãos doerem. Além do mais, no momento parecia haver coisas bem mais interessantes para fazermos invés de uma prova.
Ícaro pareceu tentar falar o que eu tenho quase certeza que foi “vem” e me puxou, ainda olhando ao redor com curiosidade, suspirei dando um puxão no seu braço para pode passar na frente e guiá-lo até meu quarto.
Me joguei na cama e me sentei em seguida, observando o jeito que o ele olhava tudo, ao mesmo tempo, sem graça e curioso. Ícaro pareceu hesitar antes de vir se sentar do meu lado, colocando uma perna sobre a minha, ainda olhando para as paredes claras e os móveis descombinados.
Puxei seu queixo devagar.
“Prova, então?”
Ele concordou com a cabeça e eu suspirei cansado, me preparando para aquilo. Ícaro mordeu os lábios antes de tirar os sapatos e colocar os pés na cama.
"Só pra você saber..." — ele apontou pro colchão encostado na parede. — "Eu não vou dormir no chão."
Franzi a testa. — "Como é, folgado? E você vai dormir onde, posso saber?"
Ele sorriu, apertando o lençol da cama um instante, os olhos brilhando enquanto encolhia os ombros. — "Eu sou visita, Mathias. Seja educado."
"Você não vai dormir na minha cama."
"Quer apostar?"
Fiz bico. — "Eu posso dormir na cama com você?"
"Não. Sua cama é pequena demais pra dois. Você vai dormir no colchão no chão."
"Você nem chegou na minha casa ainda e já tá querendo mandar, é?"
Ícaro deu risada, encolhendo os ombros antes de ficar sério.
"Prova só de configuração de mão." — falou e fez a configuração de Y. Suspirei tentando deixar o assunto sobre onde cada um ia dormir pra lá e me focar.
Franzi a testa tentando lembrar um sinal com essa configuração.
"Avião." — respondi.
"C."
Abri e fechei a mão em C em frente a boca, no sinal de laranja. Ícaro fez um sinal que consistia na mão com os dedos separados, dobrando o dedo do meio.
"Namoro." — respondi e ele sorriu, concordando com a cabeça antes de fazer careta e mexer no meu cabelo, colocando uma mecha pra trás da minha orelha.
Arqueei a sobrancelha para ele.
"Não gosto quando seu cabelo fica muito na frente do rosto." — explicou.
"Atrapalha pra enxergar a expressão facial?"
"Não. Não muito." — ele pareceu ponderar um instante. — "Seu cabelo é muito bonito. Mas solto assim ele cai na frente do seu olho e eu gosto dos seus olhos. São bonitos. Prefiro quando você faz tiara de trança."
"Vou lembrar disso."
Ícaro fez careta, não parecendo gostar muito da resposta.
"Não precisa." — riu sem graça. — "Também não gosto do cabelo da Alexia e da minha mãe solto. É só uma frescura minha."
Dei de ombros e ele suspirou voltando para a prova. Ainda aguentei mais dezessete outras configurações de mão antes de começar a desviar minha atenção para detalhes bobos como o fato de ele ter pintado o cabelo de novo e do roxo estar realmente brilhante, ou como ele ficava bem naquele moletom ou como sempre desviava os olhos logo antes de me fazer alguma pergunta, como murmurava sílabas desconexas enquanto fazia as configurações de mão e como as unhas dele estavam pintadas de preto. Era bonito.
Droga.
Como alguém podia ser simplesmente tão agradável de olhar?
Ícaro beliscou meu braço e eu o olhei confuso.
"Responde."
"Qual foi a pergunta?"
Ele revirou os olhos.
"Soletra seu nome."
Fiz careta.
"Eu não preciso mais soletrar meu nome. Eu tenho um sinal agora. Não preciso de nome."
"Soletra."
Suspirei, exasperado. — "Por quê? De que adianta ganhar um sinal se você ainda me faz falar meu nome manualmente?"
"É pra ver se aprendeu a diferença de T e F."
"Você vai jogar isso na minha cara até sermos dois velhos, não vai?"
"Vou."
Suspirei outra vez antes de levantar a mão esquerda para soletrar. Ícaro observou com atenção e eu senti certo alívio quando não corrigiu quando fiz o T, indicando que eu tinha acertado. Mas, ele uniu as sobrancelhas no final.
"Faz de novo. Devagar."
Obedeci, me sentindo outra vez tenso e olhando minha mão enquanto soletrava.
"Você tá confundindo o A e o S." - ele fez bico, me olhando com desdém. — "Você nunca vai aprender a soletrar?"
"Eu tenho um sinal! Soletrar meu nome é irrelevante!" — repeti e Ícaro levantou as mãos como se fosse contestar, mas antes que pudesse, me joguei sobre ele, acertando sua cintura com cócegas, o fazendo deitar na cama.
Ele riu alto me empurrando e deitando a cabeça no meu travesseiro. Pressionei um pouco o joelho contra sua coxa e imediatamente ele afastou as pernas. Contive um sorriso percebendo que a prova tinha acabado afinal.
"Você é um péssimo aluno." — declarou quando me afastei após deixar um ou dois beijos no seu pescoço.
"Ou você é um péssimo professor."
Ícaro cerrou os olhos, parecendo ofendido quando eu disse isso e balançou a cabeça em negação, apoiando as mãos no colchão para se sentar.
"Você é ruim. Me surpreende que tem tanta medalha." — bufou e rolou os olhos antes de passar os braços em volta do meu pescoço e me puxar para um beijo rápido. — "Tirou 8 na prova."
8.
Eu nunca conseguia mais que isso nas provas de Libras dele.
Mas, me consolava em saber que a maior nota em Libras dele era 7,5.
Deitei o rosto em seu ombro e lhe dei um beijo no pescoço, Ícaro riu, enganchando as pernas na minha cintura e virando o rosto para me olhar. Uma de suas mãos apertou minha camisa e senti ele dobrar os dedos no sinal de "te amo". Sorri, deixando uma das minhas mãos entrar por baixo do seu moletom e fiz o mesmo sinal contra sua cintura.
Ícaro riu, as mãos subindo de novo até minha nuca e começando a fazer carinho no meu cabelo. Respirei fundo, sabendo que ele estava para puxar. Ele gostava de puxar meu cabelo.
E, para minha própria surpresa, eu gostava quando ele fazia isso.
***
Acordei ouvindo um barulho no quintal e tateei em volta procurando pelo meu celular para poder ver as horas, a dormência tentando abandonar meus músculos.
23:47.
Suspirei cutucando o Ícaro que estava com a cabeça deitada no meu peito. Ele grunhiu irritado e puxou minha mão. Demorei a entender que ele estava soletrando com a mão encostada na minha.
“M-E D-E-I-X-A D-O-R-M-I-R.”
Ok, isso era novo. Franzi a testa, surpreso enquanto a mão dele relaxava na minha e ele voltava a se encostar melhor em mim. Suspirei pegando sua mão e tentando soletrar como ele havia feito.
“M-Ã-E C-H-E-G-O-U”
Isso foi o bastante para que Ícaro se levantasse num pulo e tentasse ajeitar as roupas amassadas e o cabelo amassado. Continuei deitado, observando seu esforço para ficar apresentável. Vendo que eu não tinha me mexido, Ícaro puxou a coberta de cima de mim, irritado. Dei risada puxando a coberta de volta, com frio.
“Levanta!”
Dei risada, escondendo o rosto no travesseiro e segurando a coberta outra vez quando ele tentou puxá-la novamente. Puxei com mais força e Ícaro acabou caindo em cima de mim, a cara fechada.
“Levanta!”— repetiu, parecendo nervoso. – “Sua mãe vai ter má impressão de mim.”
“Impossível. Você é muito fofo.”
Ele bufou se sentando e mexendo no cabelo de novo, parecendo nervoso.
Suspirei me sentando e olhando em volta tentando assimilar que hoje ainda era hoje. Depois do jantar, viemos assistir no meu quarto e a julgar pelo fato da TV ainda estar ligada... Cara, aquele filme era realmente chato.
Ícaro dormir em filme nacional é compreensível, porque essa porra nunca tem legenda disponível, mas eu quase nunca durmo em filmes. Suspirei voltando pra baixo da coberta, disposto a voltar a dormir, mas, meus planos foram interrompidos com um beliscão nas costas.
— Ai, garoto! Me deixa! To com sono! – reclamei escondendo o rosto embaixo do travesseiro, ignorando completamente o fato de que tava falando alto com um surdo. O sono torna difícil ser bilíngue.
Enquanto Ícaro seguia me dando beliscões e eu seguia tentando empurrá-lo entre risos, a porta do meu quarto abriu. Imediatamente ele deu um pulo se afastando e voltando a arrumar o moletom, envergonhado. Suspirei, me sentando e olhando para minha mãe que tinha a testa franzida parada nos observando.
O cabelo dela era curtinho, num castanho escuro. Tinha olheiras escuras debaixo dos olhos verdes e marcas de expressão na testa. Ela arqueou a sobrancelha com ares cansados.
— Tudo bem?
— Oi, mãe. – sorri, confortável. — Como foi seu dia? Olha só, eu desencalhei! E a sua semana como foi? Foi boa?
Ela deu um sorriso de lado.
— Foi sim. – então se virou pro Ícaro estendendo a mão para cumprimentá-lo. — Cristina, prazer.
Observei a cena com atenção. Ícaro comprimiu os lábios, apertando a mão da minha mãe.
— Tudo bem?
Ele me olhou com as sobrancelhas levantadas, esperando que eu traduzisse.
— Tá tudo bem sim, mãe. – respondi, tentando falar oralmente e por sinais ao mesmo tempo, o que era um pouco difícil e me fazia falar devagar. — O Ícaro é surdo, lembra? Eu te disse isso.
Ela arregalou os olhos, as bochechas ficando vermelhas de vergonha.
— Ah, certo... Eu achei... Não sei. O jeito que você falou... Pensei que era mais num sentido figurado, ou que você tava brincando – abaixei as mãos enquanto ouvia, me recusando a traduzir o que ela tinha dito. Foda-se que o Ícaro iria ficar confuso ou irritado, ele não precisava saber isso. — Como... É... Como vocês... Tipo conversam?
— Mãe, eu to fazendo aula, lembra?
— Ah, é. – ela suspirou parecendo realmente sem graça. Ícaro balançou os pés do meu lado e senti sua mão apertar minha orelha de leve. — Bom, certo... Eu não ia imaginar que era literal mesmo. Tipo, ele é tão bonito, nem parece... É, enfim... — minha mãe uniu as sobrancelhas e esfregou os olhos, como se tentando se recompor.
Franzi a testa, tamborilando os dedos sobre meu joelho sem nem saber o que dizer. Amada?
Outro puxão leve na minha orelha.
— Que tal a gente pedir uma pizza? – ela sugeriu. — Só vou tomar um banho. Querem de que?
— Eu quero de queijo. – pedi e me virei pro Ícaro.
“A gente vai pedir P-I-Z-Z-A, quer de quê?” — perguntei e ele arqueou a sobrancelha, me olhando irritado um instante antes de virar a cara respirando fundo.
Com um suspiro, ele me mostrou o sinal para pizza.
“Quero de C-A-L-A-B-R-E-S-A” — ele soletrou antes de fazer o sinal próprio pra calabresa, sabendo que eu ainda não conhecia.
— Meia queijo e meia calabresa. – falei, voltando o olhar para minha mãe que nos observava de testa franzida.
— Tá bem. – murmurou após um longo instante, saindo do quarto e pegando o celular dentro da bolsa.
Ícaro se levantou, estalando os dedos e respirando fundo.
"Sabe... Esse combinado de eu puxar sua orelha quando você faz algo errado não funciona se você ignora." — ele fez careta enquanto falava, se encostando ao lado da porta. — “O que você não traduziu?”
Suspirei me encostando do lado dele e fazendo carinho em seus cabelos. Ele fechou os olhos um momento, estendendo as mãos para o meu pescoço, mexendo os dedos num cafuné leve.
“Minha mãe falou algo que não valia a pena traduzir. Não importa.”
“Mathias, me fala.”
Hesitei, antes de dar de ombros encostando a minha testa na dele. Senti suas mãos no meu rosto fazendo carinho um instante antes de se afastar.
“Fala.”
Hesitei antes de traduzir o que ela havia me dito. Ícaro suspirou abaixando o rosto.
“É bem normal dizerem isso. Como se surdo tivesse cara.”
“Não acho que tenha sido por mal. Ela só...” — ele ergueu as mãos antes que terminasse.
"É, tenho certeza que não foi. Tem muitas coisas ridículas que as pessoas falam sem ser por mal. Mesmo assim, diz muito sobre o que pensam."
Outra vez, suspirei sem ter mais ideia do que dizer. Deitei o rosto em seu ombro, o abraçando. Ícaro suspirou antes de retribuir o abraço, fazendo carinho no meu cabelo.
“Sua mãe foi besta em falar isso.”
“Ela só tá cansada.”
Ele me olhou irritado antes de concordar com a cabeça a contragosto.
“Certo. Que seja." — rolou os olhos e respirou fundo, como se tentasse se acalmar. — “Trabalho de intérprete é difícil. Mesmo se ela falar essas coisas, traduz, ok? Não vou ser ignorante pra responder, prometo.”
Concordei com a cabeça e Ícaro me ofereceu a mão, aceitei indo para a cozinha de mãos dadas com ele. Minha mãe estava no banho. Abri a porta de casa e me sentei no quintal, acendendo a luz dali. Ícaro se sentou do meu lado.
“Esperar a pizza?”
“Sim. Me ensina sinais de comida?”
Ícaro deu risada antes de concordar levantando as mãos para começar a aula.
***
A parte da conversa foi estranha.
Ou diferente.
Servir de intérprete era uma experiência nova ainda.
Eu tinha que traduzir o que minha mãe dizia para libras e o que o Ícaro dizia para português então era como ser duas pessoas da conversa ao mesmo tempo. Além disso, eu também me envolvia no assunto, respondendo perguntas e falando várias coisas. Era muito difícil. Era ser todos os personagens de uma vez e tive a impressão de que isso tudo ficaria carregado em mim por muito tempo ainda. Meu Deus, como a Alexia aguentava?
— A mãe dele é bailarina. Eu vi um vídeo dela dançando e... Nossa! Você ia adorar, ela é muito boa. — falei quando minha mãe perguntou sobre os pais do Ícaro.
Ele deu um sorrisinho orgulhoso do meu lado apertando minha mão.
"Ela também foi modelo."
— E ela foi modelo! E ela é linda pra caralho mesmo! — acrescentei, animado, tentando falar em português e em Libras no mesmo ritmo. — Não sabia que ela tinha sido modelo.
Ícaro deu de ombros. — "Faz tempo."
— Você estuda aonde, Ícaro? — minha mãe questionou, pegando outro pedaço de pizza.
Dei um sorriso enquanto traduzia. Felizmente, tudo estava correndo bem. Eu esperava que depois de saber o que minha mãe tinha dito, o Ícaro fosse ficar de cara fechada o tempo inteiro, mas ele parecia realmente estar tentando manter o assunto, parecia até relaxado conversando com minha mãe e respondia de forma realmente educada, mesmo as perguntas ignorantes. Normalmente, logo depois de responder essas, ele empurrava meu pé embaixo da mesa, não tenho certeza do que queria dizer com isso, mas relaxava em ver que estava tudo indo bem na medida do possível.
Minha mãe também parecia relaxada. Estava sorrindo daquele jeito que eu raramente via.
Falei o nome do colégio do Ícaro e ela sorriu perguntando onde ficava. E aí, fez a pergunta ruim:
— E você já aprendeu a escrever?
Ícaro franziu a testa quando traduzi e assentiu forçando um sorriso. Senti seu pé encostar no meu de novo por baixo da mesa enquanto sua expressão ficava tensa.
— Que fofo. — minha mãe riu.
Respirei fundo, lutando contra a vontade de cobrir o rosto.
Mulher, por favor!
Ícaro me encarou um instante depois que traduzi e eu suspirei, encolhendo os ombros sem saber ao certo como interpretar seu olhar... Era... Frio.
"Não vou comer mais. Já enchi. Vou lá pra dentro, ok?" — declarou por fim, dando um sorriso.
"Ok."
Observei ele cruzar a cozinha e me virei pra minha mãe.
— Fofo? Sério? O que tem de fofo em alguém saber escrever? Isso não devia simplesmente ser o normal? E de onde que veio essa pergunta? — cobri o rosto, enrolando as mechas do meu cabelo nos dedos e puxando em frustração.
—... Desculpa, eu só pensei...
— Que ele saber fazer algo simples é uma conquista enorme? — cortei. — Mãe!
— Desculpe. — ela murmurou por fim após um longo instante em silêncio, o rosto vermelho. — Só fiquei surpresa.
Suspirei alto enquanto pegava outro pedaço de pizza. Pelo menos agora ia ser mais fácil comer. Comer enquanto se traduz é muito difícil.
— Eu peço desculpas pra ele também.
— É uma boa. — concordei e senti ela colocar meu cabelo atrás da orelha.
— Seu cabelo tá muito grande.
— Tá igual o seu. — dei de ombros, relaxando um pouco. — Na verdade, o seu ainda tá maior.
— Por que você não cuida mais?
— Mãe!
— Eu compro um monte de cremes para hidratar o cabelo, filho. Você pode usar também. Ou cuida desse cabelo, ou corta!
Suspirei, encarando o teto um instante.
— E você tá de olho naquela maquiagem? Você nem usa mais aquilo tudo, Mathias! Tem que ver passou da validade pra jogar fora. Fora que tudo mofa aqui, não é?
— Mãe! — grunhi, olhando pra ela e tentando não rir. — Deixa minha maquiagem em paz!
— Eu não! Eu também uso ela! E se você deixar tudo mofar e eu precisar? Vou fazer o que, menino? Cuide dela que quem comprou fui eu.
— Então você cuida!
Ela me olhou fazendo um beicinho de deboche e eu suspirei me rendendo ao riso enquanto a olhava. Ela riu também voltando a passar a mão pelo meu cabelo.
***
Ícaro estava sentado na minha cama, abraçado com o travesseiro. Dei um meio sorriso quando ele me olhou e fechei a porta atrás de mim.
“Minha mãe gostou de você.” — falei.
“Bom, eu acho.” — ele revirou os olhos enquanto falava e pareceu hesitar, antes de colocar o travesseiro de lado e se endireitar. — "Desculpa ter saído. É que aquela pergunta foi demais para mim."
Concordei com a cabeça me sentando ao lado dele. — "Tudo bem, eu entendo. Eu devia ter falado com ela sobre essas coisas antes."
"Tudo bem." — ele encolheu os ombros, abaixando os olhos. — "Alexia diz que a maioria dessas perguntas e pensamentos é motivada por ignorância e não preconceito de verdade. Minha mãe concorda. Mas, sei lá... Independente da causa, me irrita do mesmo jeito."
Justo, pensei levantando a mão para fazer carinho no cabelo dele, mas ele se afastou, percebendo o movimento. Uni as sobrancelhas, confuso enquanto Ícaro erguia os olhos pra mim timidamente.
"Desculpa, eu só..." — ele fechou os olhos, levantando as mãos num sinal de espere e respirou fundo algumas vezes antes de voltar a falar. — "Só to um pouco irritado com isso. Me deixa só..."
Observei um instante ele respirar fundo outra vez, tamborilando os dedos como se estivesse tocando teclado antes de abaixar as mãos e abrir os olhos, parecendo um pouco mais relaxado. Sorri passando as mãos em volta do seu pescoço e dei um beijo em sua bochecha.
Ícaro me olhou confuso. Dei um sorriso e lhe dei outro beijo antes de me afastar. Ele ficou quieto, me observando antes de dar um suspiro cansado e levantar as mãos perguntando:
"A gente pode mudar de assunto?"
Concordei com a cabeça e cerrei os lábios, pensando um instante. -“O que é aquilo que você fez na minha mão?”
“Do que tá falando?”
Puxei o seu braço, soletrando “pizza” com a mão encostada na dele. Ícaro uniu as sobrancelhas, parecendo estar tentando entender antes de responder:
“Libras tátil. Surdo-cego usa para falar. Eu uso quando tá escuro.”
— Ah...
Ficamos em silêncio um instante com ele me encarando e eu sem saber o que dizer. Ícaro coçou o rosto e desviou o olhar, parecendo sem jeito. Uni as sobrancelhas tentando imaginar o que se estava passando na cabeça dele.
“Mathias... Não tem problema se sua mãe não gostar de mim, né? Ou... Se eu não gostar muito dela por isso, sei lá.”
Dei risada, observando sua expressão adoravelmente agoniada e tive vontade de dar uma leve alfinetada sobre ele ter acabado de pedir para mudar de assunto, mas resolvi não ser tão malvado quando ele parecia estar tão estranhamente frágil.
“Quem tem que gostar de você sou eu, amor. Não tem problema. E... Eu entendo se você não gostar dela por essas perguntas.”
“É que seus amigos já não gostam de mim. Aí agora se sua mãe não gostar também...”
“Ícaro, tá tudo bem. Sério.”
Ele assentiu minimamente enquanto erguia as mãos. — "Mas, é chato não é? Meus pais gostam de você e meus amigos também e sei que isso te ajuda a relaxar quando vai lá em casa... E sei que você também fica tenso quando eu saio com seus amigos porque sabe que eles não gostam de mim e nem eu deles e você fica nervoso com a ideia de fazer algo errado e... Não sei. Não queria dar mais razão pra você ficar nervoso..."
"Tá tudo bem, verdade." — repeti, interrompendo sua explicação e me sentindo pego de surpresa. Aquilo não era nem um pouco o tipo de coisa que eu esperava ver o Ícaro falando, tipo... Ok, eu sei que ele se preocupava quando eu ficava muito nervoso, eu só... Não achava que se preocupava tanto.
Ele suspirou antes de se ajeitar, encostando a testa no meu peito e apoiando as mãos na minha cintura, manhoso. Dei risada de novo, passando os braços ao redor de seu pescoço e começando a fazer carinho em seu cabelo. Ele puxou um dos meus braços e senti sua mão alcançar a minha para soletrar:
“T-E A-M-O.”
Dei um meio sorriso dando um beijinho no alto de sua cabeça.
“Não se preocupa com minha mãe, tá bom?” — perguntei, me afastando um pouco.
Ícaro assentiu, sorrindo forçado.
“Além do mais, ela gostou de você. Ela só tá sem graça, mas ela gostou de você.”
Ele mordeu a bochecha e concordou de leve, não parecendo acreditar muito no que eu tinha dito e voltando a se encostar em mim.
***
Uma semana depois, eu estava com o Eric e a Samantha uma sorveteria perto de casa tentando decidir como iria ser meu aniversário, porque se tinha um dia em que eu exigia ter um mínimo de paz mental, era esse. E por perto da minha casa, eu quero dizer que a sorveteria ficava há uns quarenta minutos de onde eu moro.
Mas, é... Perto.
— Não sei não. – murmurei, sem graça para a Samantha. — Não acho que o Ícaro iria querer vir.
Ela revirou os olhos. — Ai, sério? Qual é? Você não pode querer cancelar só por isso!
— É meu namorado, Sam. Eu quero ver ele no meu aniversário, não tem nada de errado nisso.
Eric deu uma colherada no sorvete da Samantha e levou um tapa na testa enquanto a garota se encostava melhor.
— Exatamente, é seu aniversário. Mesmo que ele não goste, ele pode fazer um sacrifício e ir por você, né?
Tamborilei os dedos na mesa, sem ânimo. — Sam, eu não vou fazer meu namorado ir se ele não se sente confortável. Eu gosto de ir pra praia com vocês, mas...
— Entendi, entendi. – ela suspirou. — Qual é? A gente sempre comemora seu aniversário, nós três juntos! Agora que você tá namorando vai cancelar? Que injusto!
— Você entende o porque, né? – murmurei, sem graça.
— Entendo. – ela suspirou, cansada. — Espero que ele pelo menos te dê um presente bem legal. Bem legal mesmo. Do tipo só você vai ver e não do tipo "comprei numa perfumaria."
Dei risada, sem graça.
— Ok, chega, Sam. – Eric interveio lançando um olhar irritado para a garota antes de se virar para mim num tom mais suave. — A gente pensa em alguma outra coisa para comemorar, algo que dê pra por o teu namoradinho.
— Valeu.
Samantha suspirou concordando com a cabeça, — Você se esforça tanto, sinceramente espero que ele faça o mesmo, gatinho, porque se tem uma coisa bosta é se doar demais e receber de menos.
— Sam... – antes que o Eric terminasse de falar, eu interrompi.
— Valeu a preocupação, Sam, mas eu não lembro de ter pedido sua opinião sobre meu namoro.
Ela arregalou os olhos enquanto o Eric dava risada.
— Além do mais... – ele continuou, aproveitando a deixa. — Você não pode falar assim sendo que não sabe nada sobre o namoro dos dois e nem como demonstram sentimentos um pro outro, Samantha.
— Obrigado. – murmurei.
***
— Eu não sei o que você vai escolher pra comemorar... – Eric começou pegando sua bicicleta do lado de fora da sorveteria. — Mas, é pra gente participar. Entendeu?
— Tá.
— E eu sei que ele tá te fazendo bem. Você não levanta a voz daquele jeito pra falar com ninguém. Eu não acho que seja ele propriamente dito, mais toda essa coisa que você vem aprendendo. Aprender outra língua parece ter te deixado mais confiante e direto, sei lá. – falou, me olhando com atenção. — Só não liga pro que a Samantha disse. Se fosse algo ruim, você não ia parecer tão vivo.
— Exatamente!
Eric deu risada. — Só to dizendo isso porque tenho medo da sua auto sabotagem. Você quase largou a bolsa da escola umas vinte vezes ano passado porque dava ouvido pro que os idiotas de lá falavam.
Fiz careta. — É, bom... Não é como se meu namoro tivesse mais de vinte pessoas me enchendo e me fazendo duvidar de tudo que tem fazendo, só tem eu mesmo fazendo isso... Ainda é muito claro, mas... É diferente.
— Bom que seja, eu gosto de te ver feliz assim. E, sério, cê sabe que a Sam só ficou chateada, né? A gente comemora junto tem uns quatro anos. Ela se chateia com a ideia de você por ela de lado.
— Ei, a Sam é tudo que eu tenho desde que você mudou de escola, sem chance que eu vou por ela de lado! — revirei os olhos, tentando soar o mais brincalhão que possível.
Eric deu risada de novo, balançando a cabeça. — Você tá aguentando bem lá?
— Tá brincando? – forcei uma risada. — Eu literalmente desmaiei da última vez que tive que apresentar um trabalho! Eu to morrendo lá dentro!
Ele assentiu relutante. — Imaginei que não ia tá fácil. Mas, vai ficar, tá? Já tá acabando, são só mais três meses para as férias e ano que vem é o último. Você vai aguentar.
— Não sei como! A Samantha se forma esse ano, literalmente eu...
— Cara... – Eric pôs a mão no meu ombro. — Relaxa, se alguém te fizer qualquer coisa, eu venho correndo dar uns sacode, tá? Não deixa eles te afetarem tanto.
—... Tá legal. — obriguei minha voz a sair enquanto o Eric me analisava como se tentando descobrir exatamente o que vinha acontecendo no colégio só com o olhar. Virei a cara, desconfortável. Não queria pensar nisso.
— Eu vou nessa. A gente se fala mais depois, beleza?
— Tá. Tchau.
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