Sinais
17 Física e Filosofia
Notas iniciais
Mathias
Uni as sobrancelhas quando Alexia veio abrir o portão.
— Ele me pediu pra vir abrir. – respondeu vendo meu rosto. — Não saiu do quarto hoje. Minha mãe teve que levar café na cama.
— Eu pensei que o cachorro não tinha feito nada. – murmurei entrando e dando um abraço nela.
— Ah, ele fez. – Alexia garantiu. — Fez ele lembrar que tem um medo fodido de cachorro. Era só o que precisava. Mas, tem males que vem para o bem, né, amorzinho? Eu consegui convencer ele a passar com uma psicóloga. Agora só vamos ter que convencê-lo a sair de casa no dia da consulta. Nada de mais. – apesar do tom relaxado, pude perceber quão preocupada ela estava.
— Lexi, ele tá bem mesmo, não é?
Ela parou, umedecendo os lábios antes de declarar:
— Eu não sei. Eu quero acreditar que sim, mas... Isso só o tempo vai dizer.
Suspirei, concordando com a cabeça e a acompanhando para a sala.
— Eu tenho umas lições para fazer, amorzinho, mas... É... O Ícaro tá no quarto dele. Vai lá. Mas, porta aberta, viu? Meu pai tá em casa e ele é bem mais rígido com essas regras do que minha mãe. – enquanto Alexia falava isso, o pai dela veio da cozinha para me cumprimentar.
“Oi, Felipe. Tudo bem?” — sorri e ele confirmou com a cabeça antes de me dar um abraço apertado. Dei risada.
Eu adorava o carinho dos pais do Ícaro. Eles eram só tão... Gente boa!
“Alexia já contou o que aconteceu?”
“Ícaro me contou ontem.” — fiz careta. – “Ele tá mal mesmo né?”
Felipe suspirou, o olhar nublado como se recordasse más lembranças. – “Podia ser pior. Ele já esteve pior.”
“Eu vou lá ver ele, ok?” – dei um sorriso e Felipe concordou, bagunçando meu cabelo.
A porta do Ícaro estava aberta. Suspirei entrando e observando a cena.
Ele estava sentado na cama, abraçado com o travesseiro e mexendo no celular com uma das mãos. Me sentei do lado dele, e ele colocou o celular de lado, me dirigindo um sorriso fraco.
“Oi. Tudo bem, amor?”
“Tudo bem sim. E você?” — perguntei sorrindo de lado.
Ícaro deu de ombros, lançando um olhar ansioso em direção a porta, antes de se ajeitar, colocando o travesseiro atrás das costas.
“Ok, o que a gente vai estudar?”
“Me diz que você é bom em física.”
Ícaro fez careta. – “Razoável. Dá pra passar.”
“Ok, vai ter que servir.” – dei risada. –
"Eu tenho um amigo muito bom em física, qualquer coisa a gente manda mensagem pra ele."
“Ok. Certeza que quer me ajudar a estudar? Você parece cansado e...”
Ícaro segurou minha mão, me impedindo de falar. Olhei-o nos olhos e suspirei. Ele não disse nada, mas tinha uma súplica na sua expressão.
Sem perguntas, sem preocupação, sem pena.
Concordei com a cabeça e ele sorriu, soltando minha mão.
“Vamos estudar então.”
“Obrigado.”
“Eu que agradeço.” — sorri.
***
Franzi a testa para a prova de filosofia e passei a mão pelo cabelo, tentando afastar as mechas do rosto enquanto analisava a questão.
Normalmente, NORMALMENTE, eu sou bom em filosofia. Mas, aquela prova parecia estar em grego, o que não fazia sentido porque já tínhamos passado dos filósofos antigos há muito tempo.
Encostei as costas contra a cadeira tentando pensar um pouco, Descartes... Descartes... O cara do “penso, logo existo”... Francês... Idade Moderna... Racionalismo... Ideias inatas... Abri os olhos, relendo a questão e girando a caneta azul entre os dedos tentando lembrar as fases do método científico segundo ele.
Vamos lá, você lembra dessa Mathias. É como uma série, pensei. Como um episódio de uma série criminal. Primeiro: cena do crime... Evidências. Sorri começando a escrever:
“Segundo o método estabelecido, evidências são...”
Me interrompi dando um grito ao sentir minhas pulseiras estalarem contra minha pele quando deram um puxão. Ergui os olhos, irritado e vi Cássia rindo enquanto passava para entregar a prova dela para a professora.
Soltei a caneta e tirei as pulseiras, massageando o pulso. A pele estava vermelha onde os metais e o nylon tinham acertado. Tinha a vaga consciência da professora Pâmela chamando minha atenção por gritar, mas, não dei importância.
Arregalei os olhos vendo a mão de Cássia passar sobre minha mesa e se fechar em volta da minha pulseira de berloque enquanto ela voltava para seu lugar.
— Me devolve! – gritei, me levantando enquanto ela guardava a pulseira no bolso.
— O quê? – piscou, se fazendo de sonsa.
— Me devolve agora, sua fingida! – gritei de novo, agarrando seu braço.
— Mathias, sem escândalo! – a voz da professora soou atrás de mim. — O que aconteceu?
— Ela pegou minha pulseira! – bufei sobre o ombro. — Cássia, me devolve! Foi presente, caralho!
— Mathias! – novamente a professora, enquanto Cássia seguia me olhando com desdém, os lábios franzidos.
Eu sabia que era briga perdida.
Mais ainda, sabia que não devia me meter em briga.
Não quando minhas notas estavam tão ruins e eu estava correndo sério risco de perder a merda do desconto. Não quando eu devia estar fazendo prova.
Mas... Era a minha pulseira! Ela não podia pegar!
— Devolve a maldita pulseira pra ele, Cássia! Eu quero acabar essa droga de prova. – Ana Clara falou do meu lado, olhando irritada para nós dois, como se fossemos moscas incômodas.
— Cássia, você tá com a pulseira do Mathias? – a professora perguntando, a voz séria.
Cássia suspirou, ainda me olhando com olhos semicerrados, parecendo pensar se eu valia os gritos que ela estava tendo de ouvir.
— Pode soltar meu braço? – perguntou, a voz carregada de nojo.
Suspirei, soltando.
Ela tirou a pulseira do bolso e jogou para mim, revirando os olhos e indo se sentar. Nojenta.
— Ok, acabou o show. – a professora falou em seu melhor tom imperativo enquanto eu tornava ao meu lugar. — Concentrem-se nas suas provas e... Mathias, depois dessa aula, quero que venha falar comigo, tá?
Risos se espalharam pela turma enquanto eu me encolhia.
Merda.
***
Talvez eu devesse ter deixado ela ficar com a pulseira, pensei observando todo mundo se espalhando pelo pátio durante o intervalo enquanto eu acompanhava a professora até a sala de professores, ajudando-a a carregar as pilhas de provas de diversas turmas.
— Então... O que aconteceu? – ela perguntou pegando um copo plástico e parando em frente a cafeteira.
Observei a sala dos professores um instante.
As paredes eram do mesmo tom de verde-claro do resto da escola, a mesa branca de pedra parecia brilhar. Prateleiras de livros de pedagogia e de livros do material escolar se encontravam numa das paredes enquanto as outras eram cheias de armários e balcões onde os professores dispunham suas coisas, em um dos balcões tinha uma cafeteira e um micro-ondas, ao lado uma pequena geladeira.
Coloquei as provas sobre a mesa, observando os armários cheios de desenhos infantis colados. Desenhos que alunos mais novos faziam para os professores. Alguns tinham assinatura com data e vinham de três, quatro anos antes... Eu sinceramente sempre achei que os professores jogassem essas coisas fora. Não achei que guardassem por anos a fio e nem que deixassem onde sempre fossem ver.
— Mathias? – ergui os olhos quando a professora chamou meu nome. — Pode sentar.
Hesitei antes de puxar um banco perto dela. — Onde tão os outros professores? Eles não lancham agora?
Professora Pâmela deu de ombros. — Tem a nova sala de professores lá embaixo. A maioria prefere. Eu gosto daqui, tem luz.
— Entendi. Então... O que você queria conversar?
— O que aconteceu?
Franzi a testa e dei de ombros. — A Cássia pegou minha pulseira. Só isso.
— Não. – ela me olhou com mais atenção. — O que realmente tá acontecendo?
— Vocês, professores, não conversam? – arquei a sobrancelha, desconfiado. — Não devia parecer surpresa.
— Eu não falo com a maioria dos meus colegas. – ela encolheu os ombros. — Você pode ficar surpreso... Mas até aqui temos panelinhas.
— Ah.
Ela deu um gole no café enquanto me observava. Suspirei, abaixando os olhos.
— Mesmo assim... Vocês veem a gente todo o dia. Eu tenho uma aula com você por semana. Não é como se você não visse por si mesma o que acontece sempre.
— Eu acho que perco algumas peças. – ela falou. — Eu dou aula e vejo que você é muito bom e que presta muita atenção e faz várias anotações. E eu vejo que você fica ansioso nas apresentações e que todos te fazem perguntas... E que eles te olham torto a aula inteira... Mas, eu nunca vi eles tentarem te machucar puxando suas pulseiras daquele jeito.
Cerrei os lábios pensando um instante.
— Você não vê todo o resto?
— Não.
—... Eu não quero falar sobre. – murmurei. — Mas, não é a primeira vez que tentam isso... Também não vai ser a última. É só... A primeira vez que eu fiz algo. Eu não to encrencado por isso, estou?
— Não. – a professora colocou uma mão sobre a minha. — Você devia tentar reagir mais vezes.
Fiz careta. — Não... Não sou bom nisso. E também não posso reagir sempre, algumas implicâncias vêm dos professores.
Ela fez careta. — Quais?
— O professor Marcos de educação física e o professor João de física. – murmurei. — A professora Michele de matemática também.
Professora Pâmela respirou fundo e concordou com a cabeça. — Ok. Ainda falta um pouco para o intervalo acabar, pode descer.
— Ok.
— E se precisar de algo... – ela segurou minha mão enquanto eu me levantava. — Pode me falar, ok?
—... Ok.
***
Levei um susto ao voltar para a sala.
Era uma piada, só podia ser uma piada. Ou um pesadelo, tinha que ser um pesadelo! Meu coração acelerou enquanto eu corria até minha mesa. Meus cadernos...
Minhas mãos tremiam.
Olhei em volta atordoado.
Alguém tinha arrancado todas as folhas dos meus cadernos... Respirei fundo. As folhas estavam caídas, amassadas, pisoteadas e algumas até mesmo rasgadas, em volta da minha mesa. Meus cadernos agora não eram nada além de capa, quarta capa e espiral.
Mexi nas folhas, tentando encontrar as que estavam em branco, torcendo para que o professor de biologia demorasse ainda para entrar na sala. Ele sempre ditava textos, longos textos, eu precisava das folhas e... Minha cabeça parecia estar rodando enquanto eu juntava todas as folhas dos vários cadernos das matérias do dia.
Não tinha tempo para ficar puto e questionar quem tinha feito isso. Não tinha tempo para lamentar ou cair no choro. Não tinha tempo para todos aqueles sentimentos que tavam se revoltando dentro do meu peito e me deixando tonto. Tinha de ser prático e empurrar tudo isso para baixo. Tinha de ser racional e... E eu só queria chorar de raiva.
Respirei fundo pegando duas folhas em branco e abrindo meu estojo, tentando pensar o que fazer. Eu tinha alguns trocados... Podia comprar cadernos novos e passar a matéria do bimestre a limpo. Eram muitas matérias e ia levar tempo, mas... Eu podia copiar só as atividades ou os textos mais importantes, ou...
Franzi a testa para meu estojo.
Vazio.
Nem canetas, nem lápis, nem borrachas, apontadores, marca-textos ou corretivos. Completamente vazio.
Olhei embaixo da mesa engolindo em seco, mas sabia que era inútil. Sabia que não ia achar uma caneta caída no chão milagrosamente. Cobri o rosto com as mãos, o nervosismo aumentando.
Respira, apenas continue respirando... Continue respirando... Me levantei pegando meu celular e sai da sala. Não aguentaria mais nem um minuto ali dentro, estava tudo tão... Era como se o chão tivesse desaparecido.
Esbarrei com o professor no corredor, mas, como sempre ele não pareceu se importar. De forma geral o professor Otávio não ligava muito para quem assistia sua aula ou não, então normalmente os alunos aproveitavam para andar pelo colégio.
Subi as escadas que levavam ao auditório onde eram realizadas apresentações e palestras em datas comemorativas. Tinha um palco alto com escadas que rangiam e cortinas pretas. Atrás das cortinas era sempre um bom esconderijo pra matar aula, então fui para lá.
Me sentei no chão empoeirado e encostei a cabeça na parede observando o tecido escuro da cortina enquanto tentava seguir segurando o choro. Pensei em mandar mensagem para o Eric contando o que tinha acontecido, mas, não era como se ele pudesse fazer algo a essa altura. Não era mais como quando ele estudava comigo e podia fazer algo a respeito.
O sentimento que eu tava sentindo era tão ruim... Quanto tempo eu ainda iria aguentar tudo aquilo? Sei que o ensino aqui é bom, sei que esse desconto é simplesmente uma chance de ouro para eu desperdiçar indo para outro colégio, mas... Mas às vezes... É só que... Esse lugar parecia exigir tanto da minha sanidade. Sei que já era o segundo ano, que já estava na metade e logo isso tudo acabaria, mas... Mas, eu não sei se aguentaria até o fim. Não sei quanto tempo mais ainda aguentaria. E as coisas pareciam estar ficando tão, tão piores. Como eu aguentaria até o fim se pareciam estar dispostos a me enlouquecer mexendo nas minhas coisas, me empurrando e mexendo com minha cabeça?
Fechei os olhos.
Só respira, só respira, só... Escondi o rosto nos joelhos, tentando não cair no choro. Tentei me convencer a levantar e voltar a sala, mas... Eu só não conseguia. Não conseguia me levantar, nem me mexer...
E nem respirar.
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