Sinais

30 Conversas e Jogos


Notas iniciais
Obrigada Minnie, heywtl, Isah Doll e fran_silva pelos maravilhosos comentários ♥ Batemos 5K ♥

Ícaro

Tem algo no humor dos filmes da Marvel que realmente me incomoda. Sei lá, eu acho que exageram na comédia na maioria dos filmes e muitas vezes em momentos que realmente não deviam ter comédia.

Mas... Homem-Aranha Longe de Casa até que foi legal.

Não foi perfeito, teve alguns momentos meio forçados, mas... Eu até gostei.

Claro, teve muita coisa que eu não entendi porque apesar dos esforços do Mathias, eu não vi todos os filmes, então... Mas, deu para entender o suficiente. De vez em quando, nesses dois meses passados, Mathias me convencia a ver algum dos filmes de alguma das fases. A maioria era só tão entediante...

Joguei a minha latinha de refrigerante no lixo enquanto saía do cinema e entrelacei o braço com o do Mathias, bocejando. Ele estava conversando com a Samantha e com a amiga da Alexia de que eu não lembrava o nome, não estava traduzindo, mas não me importei. Encostei a cabeça em seu ombro e praticamente deixei-o me arrastar enquanto andávamos.

Franzi os lábios enquanto repassava o dia na cabeça e dei um suspiro, parando. Droga de cabeça, pensei enquanto dava um puxão no braço do Mathias.

Ele tropeçou enquanto parava, surpreso.

“Que foi?”

Hesitei, mexendo os pés.

Mathias olhou sobre o ombro e falou algo para os amigos que deram de ombros voltando a andar.

“Que foi, vida?” – ele perguntou, me olhando daquele jeito carinhoso e colocando uma das mãos no meu ombro em seguida.

Mexi meus pés de novo, sem saber bem como explicar. Eu sinceramente não gostava do jeito que minha mente funcionava.

“Vai parecer idiota eu só tá pensando nisso agora...”

Mathias arqueou a sobrancelha, esperando que eu concluísse.

“É estranho. Muito estranho.”

“Amor, você tá me deixando nervoso.”

Mordi os lábios. – “Deixa pra lá.”

“Não. Agora fala.”

Respirei fundo. – “Aquela vez que o Eric ficou me puxando no mercado... Ele ficou falando. Sei que já tem meses, mas...”

“Mas, agora você tá curioso sobre o que ele disse?” – adivinhou.

Concordei com a cabeça, hesitante.

“Quer que eu pergunte pra ele?”

Dei de ombros.

Mathias suspirou e ofereceu o braço. Sorri enlaçando meu braço com o dele novamente e encostando a cabeça no seu ombro enquanto voltávamos a andar.

Os amigos do Mathias estavam vendo coisas numa daquelas lojas que vende de tudo. Eu fiquei pessoalmente impressionado com uma estante que só tinha coisas do Mickey Mouse. E não to falando de coisas tipo brinquedos, eram frigideiras do Mickey, talheres do Mickey, escorredores de louça do Mickey, copos do Mickey, panos de mesa do Mickey, ganchos de parede do Mickey e tudo que fosse considerado necessário para montar sua cozinha temática do Mickey Mouse. Tinha tudo em vermelho e também em branco, assim você poderia escolher uma paleta mais neutra ou mais cheguei.

Para quê?

Enquanto eu refletia sobre porque alguém iria querer uma cozinha completa na decoração do Mickey e pensava que aqueles talheres eram de fato muito bonitos e que talvez se o preço fosse em conta eu poderia comprá-los, Mathias estava falando algo com o Eric.

Me assustei com um toque no ombro.

Deus, eu sei que sou surdo, mas as pessoas precisam me cutucar com tanta força? Querem me chamar ou quebrar meu ombro?

Eric cruzou os braços quando o olhei irritado. Ele indicou um dos corredores da loja com a cabeça e deu as costas. Olhei confuso para o Mathias, mas ele apenas deu de ombros. Bufei para o teto antes de seguir o loiro babaca idiota.

Era o corredor de jogos.

Senti meus olhos brilharem para os tabuleiros. Tinha um jogo de Batalha Naval, Gamão e... Arregalei os olhos porque tinha certeza que era praticamente impossível encontrar aquele. Agarrei a caixa com o Jogo da Onça animado. Meu pai falava desse jogo o tempo todo, dizia que ele e tio Flávio costumavam jogar o tempo todo quando crianças e quase se matavam toda vez.

Eu e Lexi sempre quisemos jogar.

Coloquei o tabuleiro de baixo do braço sem me incomodar em olhar o preço enquanto voltava minha atenção para o Eric novamente. Apesar do dinheiro apertado, acho que meus pais não se importariam se eu comprasse um jogo novo.

Eric me observava com a sobrancelha arqueada e deu risada, tirando o celular do bolso e digitando algo antes de me mostrar.

“Mat disse q vc queria falar cmg. Q foi?”

Mordi os lábios, pegando meu celular e tentando equilibrar o tabuleiro com medo de deixá-lo cair.

“Foi só uma coisa que eu pensei... Aquela vez q vc esbarrou comigo no mercado falou várias coisas, mas eu n sei oque foram. Pode me contar?”

Ele fez careta e bufou. – “Ngc de meses atrás e vc tá pensando nisso agr? Pq? Quem garante q eu lembro oq falei naquele dia?”

Dei de ombros indo mais para o fundo da loja e me sentando no chão, num espaço entre várias cadeiras e bancos de plástico. Eric revirou os olhos sentando do meu lado.

“Pareceu importante. Então acho q vc lembra.” – escrevi minha explicação. – “N dei importância na hr pq fiquei irritado com vc em cima de mim como se eu precisasse de ajuda sendo q n pedi. Mas to pensando agr”

Ele deu um longo suspiro e me olhou torto antes de começar a escrever, digitando rapidamente. Mordia a bochecha, fazendo careta, o cabelo loiro caia em frente aos olhos, batendo o pé com ansiedade enquanto os dedos voavam pelo teclado do celular.

Tive tempo de olhar bastante ao redor e de ler duas vezes as regras do Jogo da Onça enquanto ele escrevia.

Finalmente acabou e me entregou o celular:

“Sinceramente eu nem sei pq inventei de falar tudo aquilo naquele dia. Mas, sla, eu tava me sentindo meio mal. Mat é péssimo em equilibrar amizade e namoro então ele tava super distante e tipo, ele me lembra muito meu irmão em muitas coisas, sabe? Os dois são super ansiosos, estudiosos, gentis, e tem esse olhar q faz parecer um cachorrinho q caiu do caminhão de mudança mas q tbm conseguem ser bem ácidos quando levados ao limite... Sinto muita falta do meu irmão e meio por isso eu me apeguei rápido ao Mathias, n que ele substitua ou qualquer coisa, mas meio q me ajuda a n esquecer, se isso faz sentido. E ele era o único que sabia da minha soropositividade então é muito importante pra mim saca? Eu ficava triste de ele tá se distanciando mas tbm ficava feliz de ele ta bem pq é raro ver ele tão bem. Ele passa por muito E me sinto meio culpado tbm, talvez se quando eu estudava com ele eu tivesse incentivado a fazer mais amigos as coisas seriam mais fáceis hj. Mas, ele dizia q n queria tentar interagir com outras pessoas e eu ficava com medo de forçar e deixá-lo mal, foi um milagre convence-lo a conversar com a Sam, ent fico culpado de ele ser tão solitário hj. Ai ele se distanciou e eu n sabia se ele tava bem e ficava preocupado mas tipo, eu torcia para que ele estivesse conseguindo se abrir pra desabafar com vc e ficava feliz q ele tivesse mais gnt pra apoiar ele e tal. Foi basicamente isso q eu falei aquele dia, nada dms.”

Precisei ler e reler várias vezes para entender tudo. Normalmente eu tinha mais facilidade em entender textos informais, mas, Eric usava tantas abreviações que mesmo eu sabendo precisava de uns dois ou três segundos para lembrar o significado e entender como encaixavam na frase.

“Entendi. O Mathias gosta muito de vc, sua amizade e importante pra ele . eu te acho meio babaca mas .. amizade de vc dois bonita”

Eric riu do que escrevi e revirou os olhos enquanto voltava a escrever.

“Certo, eu mereci essa. N q justifique nada pq eu realmente sei q n justifica, mas quando eu era pequeno eu tive minha soropositividade exposta e comecei a ficar muito na defensiva com estranhos pq eu n sei q proporção aquela exposição tomou. Pra vc ter uma ideia, pelo q eu sei a atendente dessa loja pode saber q eu tenho HIV e eu n saber q ela sabe. Isso me deixa paranoico. Estranhos me deixam paranoico. Então eu saia com meus amigos e de repente estava um desconhecido lá q fazia descaso quando minhas amigas tentavam incluir ele e eu só ficava muito na defensiva. E a melhor defesa é o ataque. N q estivesse fazendo nada tão ruim quanto podia, saca? Eu só ficava desconfiado e preferia manter as coisas o mais desconfortáveis possível pra vc pra ngm perceber q eu tbm tava desconfortável. N justifica e foi péssimo. Quando o Mat começou a se afastar por ta namorando com vc eu fiquei com um tantinho de raiva, virou pessoal e tbm teve aquela vez q vc saiu no meio do passeio sem avisar ele e o garoto quase teve uma crise de pânico na hr e é bem difícil pra mim ser legal com quem quase fez meu amigo surtar. Mas vcs se resolveram e ele tbm ja puxou minha orelha ent...”

“Ciumento.” – rolei os olhos e ele deu de ombros, voltei a escrever. – “Eu n gosto de sair com ouvintes, fico muito excluindo. Meu pai me obriga pq quando eu fico muito tempo sem sair de casa eu fico muito mal, mas eu n vinha pq eu queria. Eu tava mal.”

“Mat falou por cima algo assim, ele se preocupa muito com vc” – Eric pareceu hesitar antes de continuar. – “Eu fico preocupado de ele começar a se preocupar ao ponto de n conseguir separar quais problemas são dele e quais são seus. Tipo ok vcs namoram, dividir problemas faz parte e pah, mas tenho medo pq tem coisas q só vc vai conseguir fazer por vc e se ele absorver dms pode n entender isso e ele já tem muita coisa pra lidar sem se sentir responsável pelos seus problemas tbm”

Fiz careta.

“Sei q soa rude e intrometido da minha parte, foi mal.” – digitou rapidamente. – “Eu só to acostumado a cuidar muito dele, só isso.”

Concordei com a cabeça porque eu meio que entendia essa preocupação toda. E pelo que eu conhecia do Mathias, era meio que válida, na verdade.

“Entendi. Vc falou muita coisa naquele dia msm”

Eric deu risada de novo, encolhendo os ombros.

“desculpa ter sido um merda ctg, Mat já chamou minha atenção sobre isso, é só q slaaaa”

“Vc n muito melhor q ele pra interagir ne?” – adivinhei, cerrando os olhos.

Ele deu de ombros. – “N, n muito. Como eu disse, estranhos me deixam desconfiado. Fazer amizade com sua irmã foi um inferno, mas dps ela me arrastou pro grupinho de amigos dela.”

“Alexia tem mau gosto pra amigos”

Só depois de ter mostrado a mensagem percebi como aquilo podia parecer e fiz careta prestes a me corrigir, mas Eric apenas concordou e se levantou, oferecendo a mão para me ajudar a fazer o mesmo.

***

Alexia deu um gritinho animado quando eu mostrei o jogo para ela. Os amigos dela olharam assustados e a Simone cobriu os ouvidos na hora.

Minha irmã não se importou em olhar o preço mais do que eu, já foi correndo para o caixa toda animada.

“Vocês dois...” – Mathias me olhou com a testa franzida.

“É um jogo muito bom.” – garanti. – “É um jogo de dois, aí um dos jogadores é uma onça e o outro é doze cachorros.”

“Isso não parece justo.”

“É um jogo de estratégia.” – revirei os olhos. – “Se os cachorros encurralarem a onça, a onça perde. Se a onça devorar seis cachorros, ela ganha. Tem que ser inteligente para ganhar como a onça.”

“A gente nunca vai jogar isso junto.”

Meu sorriso desmanchou.

“Mas...”

“Não.” – ele negou com a cabeça. – “Eu vou sair desse jogo completamente humilhado.”

Dei risada.

“Você vai jogar sim.”

“Não.”

“Vai sim.” – dei um sorriso. – “Sabe que eu vou acabar te convencendo. Eu sou muito convincente quando quero.”

Mathias arqueou a sobrancelha, um sorrisinho brincando no canto dos seus lábios. – “É mesmo?”

Concordei com a cabeça. – “Você sabe que eu sempre consigo o que eu quero.”

“É, você é muito mimado.” – ele riu e eu fiz careta. – “Mas, sério, se quiser me fazer jogar um jogo que eu claramente vou perder no primeiro movimento, você vai ter que se esforçar muito.”

“Eu aceito o desafio.” – sorri e meu namorado arqueou a sobrancelha mais ainda. — "Tenho certeza que vou precisar só de alguns movimentos pra te convencer." — mordi os lábios, descendo os olhos um instante e erguendo novamente, contendo um sorriso.

Mathias abriu um sorriso de lado, entendendo e cruzou os braços um instante para descruzá-los em seguida, os olhos brilhando enquanto falava:

"Vou adorar ver você tentar."

“Vocês podem parar de flertar igual tarados?” – Alexia falou vindo pro meu lado e senti meu rosto arder. Às vezes era fácil esquecer que minha irmã estava perto e que não devia ser tão difícil assim entender as entrelinhas.

Mathias deu um sorriso envergonhado, o rosto incrivelmente vermelho. Tive de resistir a vontade de pôr a mão na bochecha dele para ver se não estava muito quente. Mas mesmo sem ter tocado, tenho cem por cento de certeza de que devia dar para fritar um ovo na cara dele porque ele realmente ficou muito sem graça.

Tadinho.

“Comprou o jogo?” – perguntei a minha irmã, voltando minha atenção para o que realmente importava

“Comprei, a gente joga assim que chegar em casa.” – ela sorriu porque Alexia era ainda mais louca por jogos do que eu. Jogos de tabuleiro, jogos de carta, jogos online, jogos, jogos, jogos. Ela amava. Coisa do meu pai, ele sempre arranjava tempo para jogar com a gente quando éramos crianças.

A ideia que meu pai tinha de me por de castigo era ficar dois dias sem jogar comigo. E o pior era que realmente funcionava... Por algum tempo, porque logo eu voltava a bagunçar na sala de aula, eu realmente não suportava quando as professoras mandavam em mim.

“Mathias, você vai lá em casa hoje?” – Lexi franziu a testa e eu tentei esconder o bico porque já sabia a resposta.

“Não. A cota do bilhete único é menor nas férias então eu tenho que economizar. Direto pra casa.”

“Você podia dormir lá em casa.” – Alexia deu de ombros. Ergui os olhos tentando não ficar muito esperançoso.

“Não dá. Minha mãe vai pra casa hoje, a gente tá tentando conversar mais.”

Suspirei, mexendo os pés.

Mathias beliscou minha bochecha percebendo meu desânimo súbito.

“Outro dia, vida.”

“Tá bom.” – concordei contendo um suspiro e tentando não fazer bico porque não queria parecer tão mimado.

Ok que eu claramente sou muito mimado, mas, existem limites.

***

“Me avisa quando chegar em casa.” – pedi.

“Aviso. Você também avise.” – Mathias sorriu antes de me puxar para um beijo.

Sorri retribuindo e apoiando minha mão em seu queixo, fazendo carinho. Seus lábios estavam com gosto de batom, era meio estranho, mas não me importei. Uma de suas mãos apertava suavemente minha cintura enquanto a outra segurava minha nuca com firmeza.

Eu podia me esquecer do mundo e continuar a beijá-lo para sempre. Mas eu não consegui me esquecer do mundo.

Me afastei, meu rosto quente, olhos no chão.

“Desculpa.” – pedi envergonhado, olhando ao redor sem jeito, com certo nível de medo embora não parecesse ter qualquer razão para esse medo naquele momento.

Meu Deus, que ridículo, pensei. Passei o dia todo bem, sem me importar em andar de mãos dadas com meu namorado ou de ficar me encostando nele e de repente, sem razão nenhuma, meu cérebro entrava em pânico e eu já não estava tão bem. E isso não fazia sentido porque não aconteceu nada para causar pânico e mesmo assim meu coração estava disparado.

Escondi o rosto nas mãos, frustrado.

Ridículo, Ícaro, ridículo.

Mathias apertou meu ombro de leve e eu ergui os olhos.

“Tá tudo bem. Eu sei que você ainda tá se acostumando com isso de novo.”

“Desculpa.”

“Não peça desculpas.” — ele revirou os olhos enquanto falava. – “Você sabe que não precisava pedir desculpas por isso, amor.”

Assenti hesitante. Não gostava disso, não gostava de estar precisando de tanto tempo para me reacostumar com o simples. Por um lado, eu precisei de menos tempo para voltar a sair de casa, mas estava precisando de muito mais tempo para voltar a agir normal do que das outras vezes e isso me assustava.

Baunilha ficava assustada com facilidade lá em casa. Ela era um filhote.

Eu andava tão assustado quanto um gato filhote.

E odiava isso.

Odiava.

Alexia colocou uma mão no meu ombro, encostando o queixo na minha bochecha um instante.

“Vamos?”

“Vamos.”

“Tchau, Mathias. Até outro dia.”

“Tchau, Alexia. Tchau, amor.”

Levantei a mão no sinal de “te amo”, porque apesar de estar indo embora, não queria ter que dizer tchau.

***

"Você fez o exame?" — perguntei para minha irmã antes de mover a onça pelo tabuleiro.

Alexia franziu os lábios, ajeitando o pijama da Minnie que usava antes de mover um dos cachorros pelo tabuleiro. Estávamos jogando no chão da sala, meus pais estavam terminando de arrumar as coisas na cozinha antes de vir para cá. Era noite de filmes.

Meus pais gostavam de tirar um dia do fim de semana para assistir dois ou três filmes comigo e com minha irmã na sala. Ok, minha mãe dormia antes da metade do primeiro filme 90% das vezes, mas, enfim... Era algo que fazíamos praticamente toda semana, não todas sem falta porque às vezes estávamos cansados demais para isso, mas, tentávamos fazer disso um evento assim como os almoços com tio Flávio e tia Viviane. Para os meus pais, tempo de qualidade com a família sempre foi muito importante.

Eu gostava da noite de filmes e do almoço em família, mas tinhas vezes que era chato. Tipo, depois de passar o dia todo fora, sendo obrigado a interagir com ouvintes e ver toda uma briga completamente desnecessária sobre soropositividade... Eu preferiria muito mais passar o tempo derrotando a Alexia num jogo algumas vezes e ir dormir.

"Fiz. Só esperando o resultado." — respondeu, fazendo careta. Ela ainda estava nervosa com isso e eu sabia, mas parecia um pouco mais calma. Acho que depois de todas as coisas que o Eric e o Mathias tiveram que explicar mais cedo, ela ficou mais calma. Ainda nervosa e assustada, claro, mas, acho que já não parecia o fim do mundo.

Concordei sem ter nada a acrescentar e movi outra peça. Minha irmã deu um sorrisinho enquanto movia um dos cachorros. Franzi a testa para o tabuleiro e precisei de dez segundos para perceber estar cercado.

"Perdi?"

"Venci!" — Alexia riu.

Fiz bico. — "Revanche!"

"Acho que agora têm mais alguém querendo sua atenção." — ela indicou com o queixo para trás de mim.

Me virei.

Baunilha estava agachada como se fosse pular nas minhas costas, mas se ajeitou quando percebeu que eu estava olhando e começou a miar repetidamente. Fiz careta.

"Baunilha, você não pode miar pra mim, amor! Eu sou surdo! Não escuto!" — ela continuou miando enquanto eu explicava e veio para o meu colo, esfregando a cabeça no meu peito.

Suspirei começando a lhe fazer carinho e sentindo-a começar a ronronar logo em seguida.

Manhosa!

Acho que ela se acostumou comigo estando a maior parte do dia por perto... Eu ter ficado tanto tempo fora deve ter deixado a coitada confusa. Tadinha.

Alexia começou a guardar as peças do jogo enquanto eu ia me sentar no sofá tentando dar a Baunilha toda a atenção que ela queria.

Meus pais vieram trazendo um balde de pipoca da Mulher-Maravilha.

"Com manteiga?" — perguntei.

"Leite condensado." — minha mãe respondeu.

Sorri pegando um punhado e comendo de uma vez.

"Já cansaram do jogo?" — meu pai perguntou.

"Alexia ganhou de mim seis vezes." — dei de ombros. — "Quer ver o que eu ensinei pra Baunilha?"

"Ícaro, você sabe que ela é um gato e não um cachorro, não é?" — minha mãe arqueou a sobrancelha.

"Mas na internet dizia que dá pra ensinar truque pra gato também, aí eu tentei... Muito. Nas duas últimas semanas. Espera."

Coloquei a Baunilha no chão e fui à cozinha pegar uns petiscos para ela. Voltei para sala e me sentei de frente para Baunilha. Mostrei um dos petiscos pra e deixei que ela cheirasse, mas antes que tentasse comer, rapidamente escondi.

"Não me faz passar vergonha agora, tá bom?" — sorri e fiz carinho atrás de suas orelhas um instante. — "Senta."

Baunilha obedeceu, piscando os olhinhos para mim.

"Muito bom, Baunilha. Deita."

Dei-lhe um petisco e lhe fiz carinho. Meus pais riam no sofá.

Levantei a mão como se fosse fazer um high-five e ela encostou a patinha na minha mão.

"Gira."

Baunilha ficou me olhando.

"Gira." — repeti. — "Treinamos esse. Gira!"

Ela miou, provavelmente reclamando, antes de obedecer e se sentar em seguida, me olhando com desdém.

"Parabéns, feia!" — fiz careta antes de lhe fazer carinho. — "Aqui, Baunilha, pode pegar." — entreguei outro petisco porque nessa fase do treinamento ela só obedecia com recompensa.

Talvez em um mês ou dois eu tentasse fazer ela obedecer sem os petiscos.

"Esse a gente ainda tá treinando, é difícil. Eu vi um gato surdo fazendo num vídeo e quis tentar ensinar." — expliquei olhando para os meus pais e respirei fundo voltando a atenção para minha gatinha. — "Dança."

Baunilha se apoiou nas patinhas traseiras para se equilibrar e deu uma volta, voltando a deitar no chão em seguida.

Dei risada.

"Lindo, Baunilha, lindo! Aqui, você merece!" — entreguei mais dois petiscos e minha gatinha comeu-os alegremente. Ergui os olhos para os meus pais. — "Viu? Dá pra ensinar truque pra gatos!"

Meus pais deram risada de novo.

Alexia fez um afago em Baunilha antes de ir para o sofá. Franzi os lábios percebendo que ficaria no chão.

"Não esquece que você tem sessão depois de amanhã" — minha mãe falou de repente, como se tivesse se lembrado disso de repente. — "Fez o exercício que o Tales pediu?"

Engoli em seco.

Peguei Baunilha no colo e escondi o rosto no pescoço dela um momento antes de erguer meus olhos. Eu só tive duas sessões com o Tales até agora, mas estavam sendo melhores que as sessões com a psicóloga que tentamos antes porque na minha humilde opinião, ela era um monstro. Mas... O Tales era legal... Ele tinha esses funkos de Divertidamente e eu sempre usava para descrever o que sentia mais facilmente.

Mas, apesar de estar conseguindo desenvolver bem as coisas com o Tales, eu ainda não estava gostando muito desse negócio de ir fazer terapia. Não sei. Era estranho. Acho que não assimilei a ideia bem até agora. Ele passava dever de casa, coisas que eu tinha que anotar, exercícios de respiração que tinha que testar... E que eu sempre esquecia de fazer.

"E se eu não quiser ir essa semana?" - perguntei.

"Ícaro..." — meu pai me lançou um olhar de repreensão.

Suspirei. — "Entendi."

"É pro seu bem, Ícaro." — minha mãe suspirou.

"Eu sei." — encolhi os ombros e contive um bocejo. — "Vou pro meu quarto."

"Não quer ficar com a gente?" — meu pai me olhou preocupado. — "É noite de filmes. Você pode escolher o primeiro hoje." — oferta tentadora, mas depois do dia de hoje eu estava cansado demais para que fosse tão tentadora assim.

"Não, obrigado." — forcei um sorriso. — "Não precisa se preocupar, não vou ficar sozinho. Baunilha vai comigo."

Peguei a gatinha nos braços e fui para o quarto sob o olhar preocupado dos meus pais.