Simplesmente te amo
1 Capítulo Único
Notas iniciais
And she was like a starry night
Like a Ferris wheel, full of blue-green eyes
And a heart of steel, always on her own
Almost never real
Ela era como um céu estrelado
Como uma roda gigante, de olhos azuis esverdeados
E um coração de aço, sempre na dela
Quase irreal
~ Blink 182 – Even if she falls
— Aonde você pensa que vai, mocinha? — ouvi a voz da minha mãe vindo de trás de mim, mas não me virei.
Acho que por um momento devo ter pensado que só estava imaginando coisas. Eu desci as escadas no mais absoluto silêncio; não tinha como eu ter acordado alguém. E as coisas não podiam estragar agora, quando eu estava tão perto. Estava literalmente na frente da porta. Só faltava esticar a mão para destrancá-la, girar a maçaneta e sair.
— Touko, você está me ouvindo? — ela insistiu e eu não tive escolha senão me virar e a encarar.
— Estou. — respondi, suspirando.
— O que pensa que está fazendo?
— Só queria sair um pouco para tomar um ar.
— A essa hora da madrugada?! Está ficando maluca?! Pode voltar para a cama agora mesmo! — ela estava com as mãos na cintura e com as sobrancelhas franzidas.
Agora já era. Não daria nem para eu tentar sair de novo. Ela ficaria mais esperta quanto a isso de agora em diante. Apenas respondi com um “Tá!” de aborrecimento e subi as escadas, de volta ao meu quarto.
Me joguei na cama assim que cheguei lá e fechei os olhos, esperando o sono chegar. Não sei por quanto tempo fiquei com os olhos fechados até começar a ouvir umas batidinhas vindo da porta. Eram bem baixas mas ainda assim, audíveis.
No começo achei que era minha mãe e ignorei, mas depois de escutar melhor, percebi que elas vinham da janela. Abri os olhos, levantei da cama e fui até lá.
Quando abri as persianas me deparei com ele. Olhos verde-esmeralda intensos e brilhantes; cabelos longos e um boné. Sorria para mim. Devia ter cogitado a possibilidade de eu não conseguir sair de casa, então veio até aqui.
Sorri de volta e abri a janela. Percebi que ele estava prestes a falar alguma coisa então coloquei meu indicador sobre seus lábios para que fizesse silêncio. Minha mãe com certeza ainda estava acordada e devia estar atenta a qualquer barulho fora do normal. Mesmo assim, não achei que as batidas na janela eram altas o suficiente para alertá-la, já que ela não havia aparecido aqui até agora. Mas agora todo cuidado era pouco.
— Não conseguiu sair? — ele sussurrou no meu ouvido, o que me deu arrepios.
— Não. — consegui responder, no mesmo tom de voz, depois de me recuperar.
— Vamos sair pela janela — ele retrucou, no tom mais sedutor e irresistível possível.
— E se alguém nos ver? — consegui perguntar.
— Acho improvável. Não tem ninguém lá fora a essa hora da noite.
Ponderei aquilo por um momento e concedi que ele estava certo. Minha mãe devia estar aqui dentro de casa. Por mais atenta que ela estivesse, duvido muito que tenha pensado na possibilidade de eu sair pela janela.
— Tudo bem — sussurrei em seu ouvido, com um lindo sorriso em meus lábios.
Ele foi primeiro e eu o segui. Descemos com bastante cuidado, nos apoiando nas pedras salientes da parede da casa e depois de uns 5 minutos de cuidado máximo, ele finalmente botou os pés no chão e me ajudou a fazer o mesmo, me pegando no colo e me colocando no chão com cuidado.
Ele me pegou pela mão e me guiou para longe de casa. A noite estava fria, mas não me importei muito com isso. N estava do meu lado e isso era tudo que importava agora.
Quando nos afastamos o bastante da minha casa ele se virou e ficamos de frente um para o outro. Ele segurou minhas mãos e as acariciou enquanto sorria para mim. Um sorriso doce e carinhoso. Irresistível. Não pude evitar o rubor nas minhas bochechas. Sorri de volta, da mesma maneira doce com a qual ele sorria para mim.
Ele se aproximou do meu rosto, com os lábios quase encostando na minha orelha.
— Vamos para Nimbasa — ele sussurrou.
Como eu poderia recusar aquilo? Nós iríamos andar na roda gigante, com certeza. E isso sempre me trazia boas lembranças. A roda gigante era um lugar só nosso, onde conversávamos e esquecíamos o mundo por um tempo.
— Está ficando maluco? — tentei ser relutante, mesmo não querendo. — É longe demais e minha mãe vai notar minha ausência.
— Não vai — ele deu um sorriso confiante. — Que eu me lembre, até agora isso nunca aconteceu.
— É verdade... — tive que concordar. — Mas e o seu pai?
Ele pareceu aturdido quando o mencionei. Sabia que N não se dava muito bem com o pai mas eu não podia simplesmente não mencioná-lo.
— Devemos ter certeza absoluta de que ele não nos descubra juntos — falei. — Se minha mãe nos ver vai, no máximo, me dar uma bronca e me deixar de castigo mas se o seu pai nos ver... não quero nem pensar.
N manteve o silêncio; como se estivesse pensando em algo, achando uma maneira de falar alguma coisa para mim. Depois de longos segundos, finalmente falou.
— Te garanto que nem ele nem qualquer um dos lacaios dele vão nos ver. Eu juro.
Ele disse a última frase com um brilho nos olhos. Não um brilho de admiração, mas um que demonstrava um dever de vida ou morte. E era.
— Quanto à distância, — ele finalmente voltou a falar normalmente, sem aquele ar atordoado. — eu tenho o Zekrom. Ele pode nos levar lá. — levou dois dedos à boca e assobiou. Segundos depois, percebi um sombra no céu se aproximando do chão.
Um pokémon preto de olhos vermelho-fogo apareceu. Era incrivelmente grande e alto e possuía uma força aparente amedrontadora. Teria saído correndo se já não estivesse acostumada com ele. Eu tinha a Reshiram, mas o Zekrom aguentava duas pessoas na garupa sem problema algum.
— Vamos? — ele perguntou, estendendo a mão para mim e sorrindo enquanto montava no grande e robusto dragão.
Segurei sua mão, sorrindo de volta para ele e sentei em sua frente, segurando no pescoço de Zekrom.
N me abraçou por trás, tendo como desculpa se segurar em alguma coisa para não cair. Estremeci. Ele era quente e cheiroso. Quase desmaiei ali mesmo, com todo aquele charme e sedução. Foi a súbita arrancada de Zekrom que me impediu. Em menos de um segundo, ele deu um impulso gigantesco e decolou, me dando um poderoso frio na barriga. Quando percebi, já estávamos a mais de 500 metros de altura.
Senti o frio passar pela minha pele em uma velocidade altíssima. A noite de hoje já estava fria normalmente, agora imagine a uma grande distância do chão e voando a mais de 120 km/h. Apesar de tudo isso, com o N bem perto de mim era quase impossível sentir frio. Ele ainda estava me abraçando. Olhei para o lado e retribuí o sorriso com o qual me reparei. Nossos rostos estavam muito perto; perto demais.
Esqueci o mundo por um momento. Esqueci que estava voando em um dragão lendário, indo para uma cidade muito longe da minha e me arriscando de todas as maneiras possíveis. Só existia o N na minha frente, e o que viria depois.
Mal conseguia ouvir sua respiração, por causa do barulho do vento, mas eu podia sentí-la se intensificar a cada segundo. Senti um leve toque dos lábios dele nos meus e, no mesmo instante, ele virou o rosto.
Havia sido um beijo? Bom, tecnicamente sim. Estremeci só de pensar nisso. Era a primeira vez que ele havia me beijado. Meu primeiro beijo. Não foi algo que chamariam de beijo, mas foi quase lá.
Meus pensamentos foram interrompidos quando senti um frio na barriga e algo me puxando para cima. Zekrom havia dado um mergulho demasiado rápido. Segurei no pescoço do grande dragão e senti N me abraçar ainda mais forte. Estávamos perdendo altitude a uma velocidade incrível. Devíamos ter chegado a Nimbasa.
Poucos segundo depois, a velocidade foi diminuindo até Zekrom pousar de vez no chão. N desmontou primeiro, depois estendeu a mão para me ajudar a descer.
Ele sorria para mim de novo. Sempre fazia isso. Continuamos de mãos dadas, frente à frente. Desviei meu olhar do dele com dificuldade e olhei em volta. Estávamos no meio do parque de diversões. Como era de se esperar, estava vazio a não ser por nós dois. N segurou minha mão.
— Vamos? — ele perguntou, apontando para a roda gigante.
Assenti com a cabeça e fomos até lá de mãos dadas. Não percebemos isso no começo, mas segundos depois ele soltou minha mão e abaixou o olhar. Ficou com uma cara de espanto. Eu apenas ignorei. A reação dele e o nervosismo que se seguir contribuíram para deixar a caminhada até a roda gigante ainda mais longa. Não dirigimos uma palavra até chegarmos lá.
Quando chegamos lá, N entrou na cabine de operações para fazer a roda gigante funcionar. Seu olhar estava atravessado e ele parecia estar totalmente imerso em seus pensamentos, mas quando saiu da cabine, olhou para mim com um grande sorriso no rosto. Ele sempre conseguia acabar com todas as minhas preocupações com apenas um sorriso.
— Primeiro as damas — ele apontou para uma das cabines da roda gigante.
Sorri de volta e entrei, seguida por ele. Alguns segundos depois a roda começou a girar. Olhei pela janela para apreciar a linda vista que se formava a cada metro que subíamos.
— Touko — estremeci quando o ouvi me chamar. Continuei olhando para a janela, mas não prestei mais atenção na vista.
Me virei devagar para olhá-lo. Ele se se sentou mais perto de mim, mantendo o contato visual.
— Eu não estaria aqui com você hoje se não quizesse arriscar, de verdade — ele continuou.
Por um segundo, tudo de ruim que poderia acontecer passou pela minha cabeça. Algum agente da Equipe Plasma, ou o próprio Ghetsis nos descobrindo juntos. Isso já era ruim demais. Não queria pensar no que viria depois. “Morte”, pensei. Estremeci ao pensar naquilo. Não duvido que N teria o mesmo destino. Ghetsis é doente. Mataria o próprio filho sem um pingo de remorso.
— Tenho medo. — foi tudo que consegui falar.
— Tenho tanto quanto você, acredite. Acho que até mais porque sei do que ele é capaz — fez uma careta ao dizer “ele”.
— N, por favor. Você, querendo ou não, vai herdar a maior organização criminosa do país e eu sou a mocinha que vai salvar todo mundo de novo. — ele quase retrucou, mas eu o interrompi. — E você sabe muito bem o que acontece se alguém nos descobrir. O único mistério aqui é o quão horrível será a consequência.
— Eu te amo. — ele disse simplesmente. Meu coração bateu mais forte do que nunca ao ouvir aquilo. Ouví-lo confessar aquilo me deu forças para dizer o mesmo. Mas me forcei a ficar calada.
— Ghetsis não vai te machucar — ele dizia aquilo com bastante convicção. — Nem a mim.
— Quem garante isso? — perguntei, impedindo que uma lágrima caísse.
Ele desviou o olhar e pareceu refletir de novo, buscando uma resposta que não existia. Depois voltou a olhar para mim, já com os olhos marejados, quase chorando. Segurei as lágrimas de novo. Se ele começasse a chorar, eu desabaria em prantos também.
Ele segurou minhas mãos e chegou ainda mais perto de mim. A roda gigante parou. Havíamos chegado no ponto mais alto.
— Eu não vou te obrigar a fazer nada. — ele disse calmamente. — Se quiser que essa seja a última vez que estamos nos vendo, então será.
— Não quero que seja. — respondi imediatamente. E era verdade. Pensei em dizer algo em seguida, mas as palavras não vieram. Apenas encarei sua expressão melancólica, e ele encarou a minha.
— Então não vai ser. É simples.
Não era. E ele sabia disso. Estava tentando fazer com que fosse, mas não é desse jeito que as coisas funcionam.
Desabei no choro do nada. Não sei quanto tempo havia se passado entre o que ele havia falado e isso, nem sei se foi algo específico ou toda a cadeia de eventos e pensamentos que me fez chorar, só sei que chorei. Ele me abraçou na mesma hora e eu encostei minha cabeça em seu peito, molhando toda a camisa dele com minhas lágrimas.
Ele me trouxe para mais perto e apertou o abraço. Eu o abracei de volta. A cada segundo eu chorava mais e N beijava minha testa. Ele tentava me acalmar me dizendo que iria ficar tudo bem. Eu só chorava mais ainda.
Felizmente, meu choro foi se desvaindo aos poucos, mas pude ouvir alguns soluços baixinhos. N estava chorando também. Levantei meu rosto e encontrei o dele. Seus olhos estavam marejados mas ele se forçou a me mostrar um sorriso. Era um sorriso triste, o que me fez recomeçar a chorar.
Fiz menção de enterrar meu rosto em seu peito outra vez, mas ele segurou meu queixo e levantou meu rosto.
Ele não olhava para meus olhos; seu olhar estava concentrado em algo um pouco mais abaixo. Acariciou meu lábio inferior com o polegar enquanto mantinha seu olhar fixo no mesmo lugar.
Então seria assim? Meu primeiro beijo de verdade seria depois de ter chorado mais do que já chorei em toda minha vida? Pensei em impedí-lo quando ele começou a aproximar seus lábios dos meus, mas eu não queria. Não... meu coração não queria.
Quando senti seus lábios tocando os meus, aquela sensação do “quase beijo” de hoje voltou, só que bem mais forte. Ele segurou minha cintura com uma das mãos e acariciou meus cabelos com a outra. Eu quis retribuir acariciando seus cabelos também, mas estava nervosa demais para sequer retribuir o beijo.
Meu coração começou a palpitar mais forte e eu arregalei meus olhos quando ele tentou colocar sua língua na minha boca. Não deixei e então nós continuamos com o selinho.
Para minha infelicidade, ou felicidade, ele tentou de novo, e dessa vez eu não consegui resistir. Foi estranho e ao mesmo tempo, melhor do que eu imaginava que fosse.
Consegui retribuir daquela vez. Com todo o amor que eu tinha. Com todo o amor que queimava em meu peito naquele momento. Eu o amava. Eu o amava demais.
Meu primeiro beijo de verdade me fez esquecer o mundo. Acho que era exatamente isso que N queria; que eu esquecesse tudo e apenas me concentrasse naquele momento. Um momento que talvez fosse um dos poucos que teríamos em nossas vidas daqui para frente.
Por um longo tempo senti o calor de seu corpo perto do meu, por um longo tempo provei daqueles lábios, por um longo tempo achei que o mundo era nosso. Mesmo assim, quando nos separamos do beijo, achei que fora tempo de menos.
Senti como se tivesse perdido uma parte de mim. N era aquela parte. Apesar de estar em minha frente, me fitando, sentia como se já o tivesse perdido para sempre.
N estava me fitando. Quando pensei nisso outra vez foi como ter despertado. Um rubor tomou conta de minhas bochechas e abaixei meu olhar. Fiz menção de encostar meu rosto contra seu peito novamente, para que ele não pudesse me olhar. Ele me impediu de novo. Dessa vez segurou meu rosto com as duas mãos.
“Olhe para mim”. Seu sussuro foi quase inaudível mas bem claro. Ele exibia uma expressão triste, como a minha.
— Não estraguei seu primeiro beijo, estraguei? — dessa vez ele falou um pouco mais alto. Aquela pergunta me pegou de surpresa.
— Não. — respondi. — Sempre quis que fosse com você.
Seus lábios formaram um sorriso discreto. Sorri de volta, o que pareceu fazer com que ele ficasse genuinamente feliz.
Ele começou a acariciar meu rosto delicadamente, o que me fez aumentar um pouco meu sorriso. Ficamos nessa por um bom tempo. Olhando um para o outro e trocando sorrisos e carinhos. N me beijava regularmente. Eram beijos rápidos; na bochecha, na testa. A maioria deles foi em meus lábios. Selinhos rápidos mas que nos faziam sorrir ainda mais um para o outro.
Eu o amava. Eu o amava demais. Me peguei pensando naquilo outra vez. Ele me amava também. Havia dito isso antes de me beijar. Queria que ele soubesse que eu o correspondia.
— Eu — comecei a dizer algo que já devia ter dito há muito tempo. — N, eu... — lágrimas começaram a se formar em meus olhos novamente, mas eu não as deixei cair.
— Não chore, por favor. — ele suplicou. — Não chore mais.
Tive que segurar as lágrimas com mais força. O jeito que ele falou me deixou com ainda mais vontade de desabar outra vez.
— Ia dizer algo? — N perguntou. — Pode dizer. Pode dizer, meu anjo. Estou te ouvindo.
— Eu... — comecei minha segunda tentativa. — N... eu — nenhuma lágrima. Daquela vez consegui manter todas as lágrimas em meus olhos. — Eu te amo. — essa última frase saiu baixa, mas ele ouviu com clareza. — N, eu te amo tanto! — Dessa vez eu disse mais alto.
O sorriso que ele me mostrou a seguir foi deslumbrante. Infelizmente não pude apreciá-lo por muito tempo pois N me abraçou. Seu abraço compensou o fato de não ter visto seu sorriso por mais tempo. Em seus braços eu me sentia protegida de tudo que pudesse me fazer mal.
— Touko. — ele sussurou em meu ouvido. — Meu amor. Eu te amo muito. — Desfez o abraço e ficou de frente para mim, sua testa encostada na minha.
Sorríamos um para o outro. Sorrisos que eu achei que não conseguiria mostrar naquela noite. Sorrisos que achei que não veria nele.
Meu segundo beijo de verdade veio depois disso. Foi duas vezes melhor e eu retribuí com o dobro do amor que queimava em meu peito. Com o dobro de “eu te amos” e com toda a felicidade que eu tinha dentro de mim.
Porque eu te amo, N. Simplesmente te amo.
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