Notas iniciais
.......... ♥ .......... ❝Hoje tomei a decisão de ser EU. Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser EU, de viver à altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, e plebeia sociabilizacão de mim, do Interseccionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Gênio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu caráter nato quer que EU seja; e MEU Gênio, com ele nascido, ME impõe que EU não deixe de ser. Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que SOU. Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste. O último rasto de influência dos outros no MEU caráter cessou com isto. Reconheci – ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de 'lançar o Interseccionismo' – a tranquila posse de MIM. Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci.❞ (Fernando Pessoa, 'Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação') .......... ♥ ..........

(...)

Chegado ao local do desfile, Armando dispensa o manobrista e estaciona o carro no local já reservado para ele. Não desce de imediato. Fica ainda por alguns minutos pensando em Beatriz e relembrando momentos felizes entre os dois. Olha pro alto e sorri sozinho... Contempla a própria imagem no espelho do carro e parece não se reconhecer. Se pudesse, largaria tudo e voltaria correndo para a Ecomoda, mas não podia! Tinha que entrar naquele desfile e encarar Marcela e toda sua família...

ARM- ❝Marcela! Deus, eu não a suporto mais! Não a suporto mais!... Eu não posso me casar com essa mulher!❞.

Armando sabia que havia cometido muitos erros, inclusive, com Marcela, e que ela não merecia nada disso. Mas uma coisa é o que diz a razão, outra, o coração... sua razão sabia do compromisso com a noiva, da importância que isso tinha para os Valência e para os Mendonça, por tudo o que esta união representava... mas seu coração estava em Betty...

ARM- ❝Ai Betty... Betty, Betty, Betty... você vai me enlouquecer, sabia???❞.

MAR- ❝Armando, o que está acontecendo com você?❞ – Seus pensamentos são abruptamente interrompidos.

MAR- ❝Você estava aí parado com uma cara... e deu pra ficar falando sozinho, meu irmão?❞ – Era Mário Calderón, que também acabara de chegar.

ARM- ❝Não é nada Mário. Pelo menos nada que você tenha a capacidade para entender!❞

PAT- ❝Boa noite Armando.❞ – Interrompe Patrícia Fernandez, que tinha ido ao desfile de carona com Calderón. ❝Mário, eu já vou entrar... nos vemos lá dentro?❞.

MAR- ❝Espere por isso Patrícia❞.

(...)

Na Ecomoda, Beatriz pensa nas palavras de Armando... em seus beijos, em suas lágrimas, na forma como ele se colocou em suas mãos àquela noite...

BET- ❝Eu tenho que ajudá-lo... Eu vou ajudar!❞.

(...)

Há tanto a ser feito! Mas Beatriz não ficará sozinha na Ecomoda! Dr. Gutierrez, sabe-se lá com que propósito, delegou a Áurea Maria uma tarefa de última hora... e deixou bem claro que enquanto não fosse terminada, ela não poderia sair da empresa... e o Quartel, solidário como sempre, decide ficar para ajudá-la...".

SAN- ❝Escuta Betty, você não vai ao desfile?❞ – Interroga Sandra.

BET- ❝Não... é que eu estou trabalhando... preciso terminar isso ainda hoje❞.

AUR- ❝Hum... é que está trabalhando, ou não te convidaram, querida???❞ – Desta vez questiona Áurea Maria.

BET- ❝Bom... Não posso, porque... Não me convidaram! E também eu não estou com vontade!❞

SAN ❝Bom, e até que horas vai ficar trabalhando aqui então?❞ – Sandra pergunta.

BET- ❝Bom, até que eu termine. Eu já disse que preciso terminar isso hoje. É muito importante que fique pronto para a reunião de diretoria de amanhã.❝.

SOF- ❝Mas você ainda não terminou isso, Betty? Você está aí desde cedo...❞.

BET- ❝Sim. Terminei.❞.

SOF- ❝É o que está fazendo se já terminou?❞.

BET- ❝É que eu preciso organizar as pastas e deixar tudo pronto para a reunião. Amanhã eu não terei tempo de fazer isso...❞.

SOF- ❝E você acha que termina até que horas?❞.

BET- ❝Acho que até as onze horas.❞

Sofia fica preocupada. Quer saber o porquê do atraso e se oferece para ajudar sua chefe. Beatriz agradece, mas esclarece ao Quartel que se trata de documentos sigilosos, que só competem a ela e aos membros da diretoria.

SAN- ❝Bom Betty... em todo caso estaremos lá fora se você precisar...❞ – Diz Sandra em nome do Quartel.

BET- ❝Tá. Obrigada meninas!❞.

Sozinha, Beatriz confessa a si mesma:

BET- ❝Eu vou fazer simplesmente porque não quero vê-lo sofrendo. E porque apesar de tudo, eu ainda o amo...❞.

(...)

O telefone toca. É Nícolas querendo saber da amiga. Beatriz já não lhe esconde nada... confessa que decidiu, mais uma vez, se prestar ao jogo do chefe...

BET- ❝Nícolas é que... eu estive falando com o seu Armando e...❞.

NIC- ❝E daí Betty? E daí?❞.

BET- ❝Ai Nícolas... O seu Armando precisa de mim! Precisa que eu o ajude! Precisa que eu lhe entregue este balanço maquiado senão ele vai se comprometer!❞.

NIC- ❝Ah... Eu já entendi! Eu não acredito, mas acho que você está com pena desse sujeito! Você não disse que não ia continuar com o jogo!... Que ia desmascarar ele na frente da diretoria?❞.

BET- ❝Sim Nícolas! Mas eu não posso fazer isso com ele no último momento!❞

(...)

O evento já havia começado há algum tempo e os convidados não paravam de chegar. Também pudera! Foram distribuídos muitos convites, e vários setores da imprensa se faziam presente. Por toda parte se viam repórteres, compradores, representantes de moda... Mas Patrícia não teve muita dificuldade em avistar Marcela, que acabava de se servir de um Whisky... e não seria este nem o primeiro, nem o último daquela noite...

PAT- ❝Marcy, Marcyyyy...❞ – Grita de longe. ❝Marcy, eu acabei de chegar... Você nem sabe o suplício que eu tive que enfrentar Marcela! Sim, porque você saiu antes de mim e nem sequer me deixou o dinheiro pro táxi! Eu tive que implorar pro Mário me dar uma carona, Marcy...❞.

Marcela parecia não ouvir a amiga... Seus pensamentos estavam em outro lugar.

PAT- ❝Marcy, sabe quem eu vi lá fora que também acabou de chegar? O Armando!❞ – Marcela para de beber e olha para a amiga, desta vez interessada – ❝Ai Marcy... ele está muito estranho... muito estranho...❞.

MARC- ❝Como assim Patrícia? O que ele tem?❞.

PAT- ❝Ai Marcela... e eu é quem vou saber?! Você sabe que ele não me suporta, e eu é que não seria louca de perguntar... Ele chegou com o carro e ao invés de entrar ficou lá parado dentro dele... O Mário ficou lá com ele... Já devem estar entrando... Ai Marcela... Será que o Armando tá planejando alguma coisa com a outra quando acabar o evento?❞.

MARC- ❝Patrícia, não comece!!!❞.

PAT- ❝Ai... Não precisa morder! Credo! Eu só falei por falar...❞.

(...)

Armando se dirige até seu lugar, ao lado da noiva. A passarela é tomada pelas modelos. Todos os convidados parecem bastante satisfeitos. Todos os olhares refletem felicidade e alegria, menos os de Marcela, que não para de beber...

(...)

Na Ecomoda, todo o Quartel procura auxiliar Áurea Maria a terminar a tarefa delegada por Gutiérrez. Enquanto isso, Beatriz desabafa com Nícolas, explicando-lhe os motivos pelos quais decidiu voltar atrás e colaborar com Armando.

Nicolas tenta argumentar com a amiga, que depois de tudo que Armando fez é um absurdo que ela ainda se compadeça dele.

NIC- ❝Você não disse que iria desmascarar ele na reunião?❞.

BET- ❝Eu não posso fazer isso com ele...❞.

Beatriz já tinha por certo que ajudaria seu chefe e que logo após a reunião se demitiria e nunca mais voltaria a vê-lo em sua vida e que dali para frente, Armando deixaria de existir para ela...

Pediu à Nícolas que deixasse o balanço da Terra Moda pronto para o dia seguinte, e perguntou se ele poderia buscá-la mais tarde, pois tinha consciência de que naquele momento, o que ela mais necessitava na vida, era de um ombro amigo onde pudesse chorar...

Nícolas, no entanto, mesmo solidário à amiga, lembra de que esta noite ele tem um compromisso muito importante:

NIC- ❝É a minha última noite com a Paty. Eu fiquei de ir até o apartamento dela às dez da noite!❞.

Armando se dirige até seu lugar, ao lado da noiva. A passarela é tomada pelas modelos. Todos os convidados parecem bastante satisfeitos. Todos os olhares refletem felicidade e alegria, menos os de Marcela, que não para de beber...

(...)

Na Ecomoda, todo o Quartel procura auxiliar Áurea Maria a terminar a tarefa delegada por Gutiérrez. Enquanto isso, Beatriz desabafa com Nícolas, explicando-lhe os motivos pelos quais decidiu voltar atrás e colaborar com Armando.

Nicolas tenta argumentar com a amiga, que depois de tudo que Armando fez é um absurdo que ela ainda se compadeça dele.

NIC- ❝Você não disse que iria desmascarar ele na reunião?❞.

BET- ❝Eu não posso fazer isso com ele...❞.

Beatriz já tinha por certo que ajudaria seu chefe e que logo após a reunião se demitiria e nunca mais voltaria a vê-lo em sua vida e que dali para frente, Armando deixaria de existir para ela...

Pediu à Nícolas que deixasse o balanço da Terra Moda pronto para o dia seguinte, e perguntou se ele poderia buscá-la mais tarde, pois tinha consciência de que naquele momento, o que ela mais necessitava na vida, era de um ombro amigo onde pudesse chorar...

Nícolas, no entanto, mesmo solidário à amiga, lembra de que esta noite ele tem um compromisso muito importante:

NIC- ❝É a minha última noite com a Paty. Eu fiquei de ir até o apartamento dela às dez da noite!❞.


Apesar de não concordar em nada com este "romance", Beatriz já tinha aceitado o fato de que Nícolas também tinha o direito de sonhar, mesmo que este sonho se convertesse, mais tarde, em tristeza e desilusão...

(...)

De volta ao desfile, todos os olhares estão atentos às modelos, que ocupam toda a passarela e invadem o ambiente com glamour e sofisticação. Armando se tranquiliza ao perceber que Roberto está encantando com tudo o que vê, embora seus pensamentos e sua alma tenham ficado com Beatriz, na Ecomoda.

Marcela observa o noivo em silêncio. Já percebera que Armando andava muito distante, mas naquela noite, era como se ele estivesse ausente... em outro lugar... e isso, à poucas horas do casamento.

A certa altura do desfile, Armando pede licença e vai até um salão, mais reservado, para matar a saudades de sua amada... Precisava mais que tudo, ao menos ouvir sua voz, saber se estava tudo bem, se ela estava com fome... se precisava de alguma coisa!

Marcela também pede licença. Seu sexto sentido lhe dizia que havia alguma coisa errada acontecendo. E ela precisa descobrir o que era. Decide segui-lo e observá-lo de longe...

(...)

Armando sequer procura em sua agenda o telefone da Ecomoda. Tem pressa e sabe de cor. Do outro lado da linha, uma voz atende sua ligação.

BET- ❝Presidência, Ecomoda...❞.

ARM- ❝Oi Betty. Como vai?❞.

BET- ❝Bem doutor! Estou trabalhando duro nisto.❞.

ARM- ❝Não, não... Eu não me refiro ao balanço, me refiro a você. Como está? Como se sente?❞.

BET- ❝Bem doutor...❞.

ARM- ❝Olha, não quer que eu te leve alguma coisa pra comer?❞.

BET- ❝Não, não! Eu não quero nada, pode ficar tranquilo. Eu só quero terminar isso.❞.

ARM- ❝Betty, eu me sinto muito feliz, mas muito feliz de verdade! Há que horas você acha que estará tudo pronto?❞.

BET- ❝Eu acho que as onze eu terei tudo pronto!❞.

ARM- ❝Então eu passo ai as onze horas, Beatriz.❞.

BET- ❝Não doutor, não é necessário.❞.

ARM- ❝Para você não. Mas para mim, sim!❞

Armando desliga o telefone. Beatriz fica pensativa, tentando entender o que Armando pretendia com essa atitude...

.

.

AUTORIA: Adriana Fiuza / Carmemdf

COLABORAÇÃO: Jamille Nascimento