Simplesmente Tita

5 Capítulo 5 - Do alto da janela


Meire nunca omitiu de ninguém o desprezo por Helena desde a primeira vez que a viu e não me deixou participar do que classificou como “palhaçada”. De pirraça, levou-me ao Beto Carrero e deu-me bonecas novas, até o trailer da Barbie, que era um olho da cara.

Se papai escolheu Helena, mesmo discordando, tive de me habituar ao vazio, ao fato de que tudo aquilo que vivemos antes era uma lembrança que se tornaria distante à medida que o tempo passasse.

Horácio era gremista de família. Quando passavam os jogos do time dele na televisão, dava um jeitinho de assistir, senão apelava para o rádio. Foi daquela forma que nós nos aproximamos mais porque o futebol para ele era o Chaves para mim. Conversávamos bastante e a hora passava. Quando os torneios acabaram, já fazia contagem regressiva para a edição seguinte.

Eu adorava ver novelas. Tudo sempre terminava bem no final. As mocinhas mirins terminavam fazendo shows para milhares de pessoas, com amigas, namoradinho e superavam os traumas. As madrastas feias e perversas nunca tinham finais felizes, a menos que se redimissem e estivessem dispostas a mudar.

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Gosto dos sucessos do É o Tchan daquela época porque me lembro da gente dançando e rindo no recreio. Aos moralistas de plantão, nossa alegria era brincar, ouvir a música, pois, para ser bem franca, eu nem entendia a conotação da letra; a maldade está sempre no coração de quem a encontra, vão por mim.

Eu curtia o que chamam de tuch-tuch, aquele som que vinha da Europa, embora não possa dourar a pílula. Por volta dos meus sete, oito anos, dançava Short dick man, jogando os cabelos para o lado, me sentindo a diva e nem imaginava a tradução. Pior, pior ainda, a cantora se apresentar no Programa do Rubão e o povão na maior animação sem nem ter ideia do que cantava.

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Pouco depois do meu décimo aniversário, Horácio e Meire contaram-me que iríamos mudar de casa porque o proprietário daquele imóvel onde morávamos pediu-o de volta, tínhamos quarenta dias — contando com o recesso de final de ano — para deixarmos aquele lugar e enquanto os adultos visitavam a imobiliária, pegavam chaves e saíam para conhecer nosso novo lar.

Como sempre, teve a tradicional festinha de despedida onde a professora, por ordem de chamada, escrevia o nome de cada aluno na lousa e perguntava o que cada um poderia trazer.

Peguei a Prof.ª Dulce no amigo oculto. Por sempre ver uma agenda de couro em cima da carteira dela, decidi lhe presentear com uma, a edição do ano seguinte, 1998. No entanto, não tive a mesma sorte porque Bruna me deu uma caixa de lenços de papel amassados e usados.

Minha única motivação para ir à festinha foi o fato de ser escolhida como a oradora da classe e escrever um discurso para ler quando nossos diplomas fossem entregues.

Eu não havia pensado naquilo antes, só me interessava concluir aquele ano e pensei que Dulce sempre seria minha professora, porém, quando ela me contou que teríamos um professor para cada disciplina e tudo o mais, tomei um susto.

Dias antes, todos levamos na mochila algumas peças de roupa para a foto de formatura e a professora também anotou nome por nome e o que traria cada pessoa para a confraternização. Cássia Reis ficaria responsável pelo bolo de chocolate, Erick pelo refrigerante, sendo assim com os docinhos, salgados, copos e talheres de plástico, os guardanapos e o rádio.

Levei uma bandeja de papelão com cinquenta brigadeiros e não cheguei a comer nenhum. O uso do uniforme era facultativo no último dia, então estreei um vestido jeans que ganhei de aniversário, passei uma loção com cheirinho de bebê nos pulsos, penteei o cabelo para trás, coloquei uma tiara colorida e saí toda formosa com a bolsinha do Alladin nas costas.

Desci até o pátio para participar da entrega dos diplomas. Rezei mentalmente para que o meu anjo da guarda me ajudasse, subi ao palco quando o meu nome foi chamado, a professora me entregou o microfone e pediu para a criançada fazer silêncio. No entanto, tudo que podia dar errado, deu. Prato cheio para que Cássia e os seus amigos começassem a zombar de mim.

— Fala com a boca, otária! — Berrou Cássia.

— Volta para o pré, sua analfabeta! — Gritou Bruna.

— Tá se achando muito para quem vai catar lixo! — repetiu Camila.

Dulce encostou o dedo indicador na boca para pedir silêncio ao quarteto do mal, surtiu o efeito contrário. Não lembro do que discursei, apenas da voz embargada e da visão embaçada de lágrimas.

Após a troca de presentes do amigo da onça — ganhei um batom desses usados em amostras e usado, o que era pior ainda —, todos foram autorizados a descer para brincar no parquinho e nem do balanço eu podia me aproximar, o quarteto de Cássia sempre o monopolizava.

Por falar na abelha-rainha, ela adentrou a classe na companhia de mais três amigas, cercou-me na porta, impediu minha passagem e já foi engrossando o tom:

— Passa essa bolsa para mim, dentuça! — Ordenou ela, para o deleite das asseclas que impediam minha passagem.

— Não vou te passar nada!

— Ah, não vai, é? — Debochou ela, levantando uma das sobrancelhas.

— Não me enche!

— Não me enche! — Arremedou ela, que apanhou minha bolsinha e jogou-a na direção das outras meninas enquanto eu corria de uma parte a outra para tentar me apossar daquele objeto e servir de bobo-da-corte para aquelas abestalhadas.

Cansada daquela situação, num dado instante olhei bem nos olhos de Cássia Reis e desferi uma bofetada bem forte no rosto dela, que me empurrou contra uma carteira em retaliação. Lavei a alma, enchendo-a de bolsadas após passar quatro anos sem revidar as perseguições, porém me dei mal porque a Prof.ª Dulce flagrou o ato.

— Mas o que está acontecendo aqui? — Berrou a professora, separando os briguentos.

— Professora, ela estava tentando roubar a minha bolsa! — Bruna escandalizou.

— Cala a boca! — Vociferou Dulce.

— Professora, foi a Cássia que…

— Eu disse para você calar a boca! Estou cheia de você e do seu tatibitate. Estou cheia de você, ainda bem que não vou mais precisar olhar para a sua cara no próximo ano. Você é a causadora de todos os problemas nessa turma. Para a senhorita aprender uma lição, ficará aqui de castigo até a hora da saída!

— Mas…

— De castigo. Nem um pio.

Dulce fechou a porta atrás de mim e saiu acompanhada do quarteto de Cássia.

Do alto da janela, avistei a turma toda confraternizando e senti uma dorzinha no coração, aquela tristeza que me tocava em todos os aniversários, quando Meire punha na mesa um bolo de chocolate e três pratos porque, além dela, de mim e de Horácio, nunca havia mais ninguém.

Não me agradava passar a vida inteira olhando tudo acontecer do outro lado da janela. Estava cansada de ser maltratada, mal interpretada, solitária, invisível.

Se no final daquela manhã de dezembro as outras crianças estavam chorando e abraçando a Prof.ª Dulce, entregando-lhes cartõezinhos de Natal, optei por despedir-me dela em alto estilo: vi um tubo de cola branca aberto em cima da carteira da Cássia Reis e não pensei duas vezes, abri a bolsa daquela mulher antipática e grosseira, despejando todo o conteúdo lá dentro.

Em vista das palavras amargas que daqueles beiços enormes escutei, não era nada.

Notas finais
A versão de 2019 ficou muito maçante e rebuscada, então passei um facão nas cenas desnecessárias, optando por ser mais direta ao assunto, como antigamente, mas sendo mais cuidadosa, corrigindo erros de continuidade, a estrutura gramatical, sem perder aquela essência. O interessante do trabalho de edição e revisão às vezes é cansativo e solitário, porém me permite me colocar no lugar dos leitores, ter a devida sensibilidade de procurar por palavras, locuções verbais e até frases de lugar-comum que expressem, ainda que sem intenção, algum tipo de preconceito. Além disso, refleti que num dado momento da vida, pesei a mão na hora de escrever, esperando expelir o veneno dos traumas e fantasmas, todavia, quase destruí tudo que construí com tanto amor e esforço, precisando de uma pausa por tempo indeterminado. Hoje sinto satisfação só de escrever, revisar, de ver o capítulo publicado, agradeço imensamente a quem lê, pela educação dos leitores, um aspecto que sempre fez do Nyah um bom lugar para publicar histórias e cujos fãs de ST me proporcionaram uma incrível rede de apoio. Aos leitores que me acompanharam naquela época, vocês sempre estarão nas minhas lembranças mais agradáveis. Alguns registros perderam-se no decorrer do tempo, mas mesmo que hoje vocês tenham me esquecido e seguido outros rumos, vocês estiveram presentes e me mostraram haver muitas pessoas boas no mundo, alegrando aquela jovem tímida e chorosa que até hoje tenta se encontrar entre uma lapada e outra da vida.