Simplesmente Tita
2 Capítulo 2 - Inferno no playground
Nunca levei minha querida Ciça para o Dia do Brinquedo por receio de que as meninas pudessem fazer alguma maldade com a boneca. Bruna tinha uma Barbie loira e a professora repetia toda semana que queria ter gêmeas e torcia para que elas fossem fisicamente parecidas com Cássia e a melhor amiga.
Atividades recreativas na quadra esportiva, uma ova. Aquilo era sinônimo de uma Tita chorosa, fugindo das boladas que Cássia e as outras crianças teimavam em acertar na minha cabeça.
Foi numa fatídica ocasião que acertaram a bola de basquete com tanta força na minha cabeça que só me recordo de cair na calçada da quadra. Para que Meire e Félix se encontrassem no hospital, o incidente foi muito sério.
Não sei quem me salvou, mas expresso aqui a mais sincera gratidão. Segundo a professora Dulce, machuquei-me “sozinha” durante a aula de Educação Física.
Se até o lado ruim tem vantagens, passei alguns dias longe daquele inferno. Félix vinha me visitar depois do trabalho e sempre trazia um doce, um brinquedinho, mas não parecia nada satisfeito com a versão da professora, por isso tentava fazer com que eu me abrisse acerca do “acidente”. O nó na garganta fazia as palavras vacilarem, o queixo tremia e os olhos ardiam de tanta dor.
— Você não pode falar para a mãe — implorei.
— Por quê? ― Rebateu Félix, amuado.
— Eu não quero mais voltar à escola!
— Mas por quê? — ele insistiu.
— Porque… eu não gosto da escola.
— Sim, eu entendi, mas você precisa me contar o que está acontecendo, princesa. O papai não consegue adivinhar.
— As meninas sempre jogam a bola para acertar a minha cabeça. — Mordi o lábio inferior sem coragem de fitá-lo: — Todo mundo me trata mal e me chama de favelada na escola. — Chorei abraçada ao papai.
— Por quê?
— Eu não tenho um tênis. — Eu não conseguia nem concluir a frase de tanto que chorava porque meu único par de tênis estava muito apertado e a sola tinha se arrebentado, mas o abraço terno de papai me fazia perder o medo de desabafar, ainda que mais tarde Meire me batesse o dobro por “reclamar da vida” e fazer chantagens.
Félix reparou que eu estava mais magra e abatida e insistiu para que Meire aceitasse uma ajudinha com as despesas de alimentação. Ela era orgulhosa demais para aceitar qualquer coisa que viesse do ex-marido, entretanto, em razão da lastimável situação, engoliu a raiva e concordou com o auxílio.
— Assim que você melhorar mais um pouquinho, nós vamos sair para você comprar o tênis mais bonito que você encontrar — prometeu-me Félix.
— Não mime a Renata! — advertiu a troglodita. — Não se preocupe com essa questão, minha mãe vai fazer um crediário para comprar um tênis novo para a Renata.
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Vovó abriu um crediário numa lojinha no centro da cidade, no entanto, o único modelo disponível para o número que eu calçava e dentro do orçamento era uma chuteira. A alegria não foi plena porque eu tinha consciência de que as outras crianças ririam de mim.
Dito e feito. Além de pisarem em cima do calçado de super-heróis para “batizar”, saíram correndo atrás de mim, até que eu tropeçasse em falso e despencasse de um monte de terra onde outras crianças apostavam corrida.
O sinal do intervalo tocou. Chorando e mancando, cheguei até a minha sala.
— Sempre chorando — admoestou Dulce —, o que foi agora?
Qualquer pessoa adulta que me visse com ferimentos nos braços e com dificuldades para andar, no mínimo, teria se comprazido. Todavia, Dulce, se fosse minha progenitora, não seria nada diferente de Meire: me bateria por ter me machucado.
— Não, você não vai entrar! — Declarou ela, impassível.
— Professora, eu…
— Eu… — arremedou-me ela. — Eu…
— Professora, por favorzinho, eu quero entrar!
— Não vai entrar! O sinal já tocou faz tempo! Olhe só para você, não posso te deixar entrar desse jeito.
Tentei explicar o que se sucedeu, no entanto, a audição de Dulce era bastante seletiva.
— Pare de inventar problemas porque, na próxima vez que você vier com chantagens, vou te mandar para a sala da Norma para ver se ela dá um jeito em você.
Dulce fechou a porta e ignorou meus apelos para adentrar a sala. Fim de papo.
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Não era indiferente a papai que eu nunca convidava nenhuma amiguinha para passar o fim de semana comigo ou vice-versa, nunca era chamada para festinhas, tampouco tinha “namoradinhos”.
— Você é uma menina tão legal, Tita. — Disse papai. Estávamos caminhando de mãos dadas pelo Parque Barigui, admirando a paisagem. — Logo você vai fazer outras amiguinhas.
— Tomara!
— Mesmo assim, te sinto tão tristinha, princesa. Parece-me que você não gosta mesmo da escola.
Temerosa de que ele relatasse a Meire de novo e eu apanhasse por “blasfemar”, não contei que, se pudesse, nunca mais queria pisar naquele lugar.
— Alguma menina faz maldade para você?
A ausência de resposta pode ser a mais esclarecedora de todas.
— Fazem maldades com você, princesa?
Félix parou de caminhar, ajoelhou-se para me fitar e segurou meu ombro, exigindo que eu o respondesse.
— As outras crianças fazem maldades para você, princesa? Não minta para o papai!
— Elas não gostam de mim. — admiti, relutante, pois não queria que aquilo fosse verdade.
— Por quê?
— Bom, eu não tenho uma lancheira rosa… e todas as outras meninas têm… e eu acho que deve ser por isso que elas não gostam de mim!
— Elas não gostam de você por causa disso? É um motivo muito bobo, não acha?
— Talvez a Cássia parasse de me xingar se eu tivesse uma lancheira rosa.
— Quem é Cássia?
— Uma menina aí…
Félix ficou pensativo por alguns instantes.
— Estuda na sua sala?
Fiz que sim com a cabeça.
— Bom… ela fala coisas feias para mim…
— Que tipo de coisas?
Dei de ombros, encabulada, não queria que ele visse meus olhos marejando.
— Coisas feias... do tipo... que sou feia, burra, favelada. Ela não gosta de mim porque eu não tenho nada rosa, só pode ser isso.
— A Meire sabe que essa Cássia te xinga?
Fiz que não com a cabeça.
— E a sua professora? Ela não pede para a Cássia parar de te xingar?
— A professora não gosta de mim.
— Ora, mas Meire me disse que você é a melhor aluna da turma.
— Minha professora diz que sou uma menina muito má, problemática e intragável, pai. É verdade? Sou uma menina muito má?
Ele se agachou de novo, como se não acreditasse em tudo que lhe dissesse. Seus olhos castanho-esverdeados externavam consternação.
— Nunca pense uma coisa dessas, princesa. Você é uma menina muito doce, amável e especial, você é muito especial para o papai, sabe disso, não sabe?
Félix me abraçou tão forte que me senti aquecida, como se estivesse repousando numa nuvem de algodão.
♏♏♏
A fim de me alegrar, papai me presenteou com uma lancheira cor-de-rosa simples, sem o decalque de nenhum personagem e Meire, por sua vez, criticou a atitude de Félix, argumentando que ele me corrompia ao atender supostamente a todos os meus caprichos.
— Conheço uma solução eficaz para os problemas de menina mimada: porrada. Comigo, foi assim. Levei bastante porrada quando era criança, me endireitei e não tenho trauma nenhum.
— Que maldade, Meire! Ela é só uma criança! — Félix me defendeu. — Não é usando a violência que os problemas desaparecem, é com o diálogo.
— Não interfira no meu método de educar a Renata. Não tente me ensinar como criar a minha própria filha.
— Pelo menos posso presentear a minha filha com uma lancheira? — Félix interveio.
— Você é que sabe, já que acha que sua tarefa de pai é só pegar minha filha a cada 15 dias, levá-la para sua casa, fazê-la se empanturrar de porcarias e viver no mundinho do faz-de-conta, mas sou eu que fico com a parte mais difícil. Assim, até eu iria querer ser pai.
— Se você não quer que eu interfira no seu método de criação, não interfira no meu. E, sim, eu darei tudo do bom e do melhor para a minha filha, goste você ou não… porque ela também é minha filha. Você não pode mudar isso.
♏♏♏
Estreei a lancheira com um bolinho com recheio de doce-de-leite, uma embalagem de achocolatado com canudinho e o coração quase não cabia no peito quando Cássia Reis me cumprimentou na hora da entrada.
— Uau, que lancheira linda! — Exclamou a garota, escandalosa que só.
— Gostou? Foi meu pai que comprou!
— Gostei! — disse Cássia, balançando a cabeça.
As outras amigas de Cássia me rodearam.
— Que lancheira mais linda! — Bruna olhava para a lancheira de um jeito estranho e até acrescentou: — Sua lancheira é tão linda que vou pedir uma igualzinha para a minha mãe!
— E aí? Quer lanchar com a gente no recreio?
— Sério? — Perguntei, impressionada.
— É claro que é sério! — Insistiu Cássia.
— Mas vocês não gostam de mim?
— Quem disse isso?
— Vocês sempre pegam no meu pé.
— A partir de hoje, não mais. A gente até que gosta de você, Tita. Você é que se isola da gente.
— Vocês nunca me convidaram para lanchar com vocês antes.
— Agora a gente está convidando e não vale dizer que não.
— Se for assim, então eu aceito.
Quando o sinal para o recreio soou, tirei a lancheira de debaixo da carteira, alisei-a com carinho e senti-me feliz como nunca havia acontecido desde que entrei na escola. Procurei pelas meninas no local onde Cássia estendeu a toalha da Barbie e todas compartilhavam suas gostosuras.
Quando acenei, deveria ter notado que havia algo de errado, pois as amigas de Cássia estavam disfarçadas e a ruiva se fazia de desentendida, como se horas antes não tivesse me convidado para passar o recreio ali.
— Oie! — Fiz questão de mostrar a lancheira, a fim de mostrar que era uma delas, que queria viver em paz.
— Que bom que você veio! — Cássia se levantou e indicou onde eu deveria me sentar.
Apoiei a lancheira em cima da toalha, um pouco ansiosa para abrir, me perguntando sobre o que deveria falar ou se era melhor que elas puxassem conversa. As meninas se levantaram e eu fiz o mesmo, mas Cássia impediu-me com um gesto.
— A gente já volta. Fica aí, tá? — Pediu Cássia Reis, acompanhada pelas demais asseclas.
Sentada sob a toalha com a lancheira cor-de-rosa no colo, aguardei as meninas, julgando que tivessem ido ao banheiro ou coisa assim, entretanto a professora Dulce chegou um tempo depois e me levou aos puxões de orelha até a coordenação. Cássia Reis, chorando, acusou-me diante dos adultos de ter tentado furtar a toalha de piquenique dela. Tomei uma advertência.
Ao sair do gabinete da coordenadora e voltar para o pátio, uma das amigas de Cássia pediu-me um pedaço do bolinho recheado e eu dividi o lanche em duas partes, a fim de sacramentar uma trégua. No entanto, fui surpreendida por um empurrão.
Uma, duas, três crianças.
Tudo ficou embaçado e, quando dei por mim, estava caída na calçada e atordoada por conta dos empurrões, chutes e tapas que levei. Antes fosse só o quarteto do mal. Tinha criança mais velha participando daquela selvageria. A pele ardia, o cabelo estava todo arrepiado e eu me apoiei num degrau de concreto com muita dificuldade. Não havia um único adulto por perto. O bolinho e o achocolatado foram pisoteados.
As amigas da abelha-rainha jogavam a lancheira de uma para a outra quando eu lhes pedia para me devolverem. Cássia pulou repetidas vezes em cima do objeto até que este se quebrasse e jogou-o na minha direção.
— Toma a sua lancheira, favelada!
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