Simplesmente "Maria"
6 Recomeçando
Maria hospedou-se naquele hotelzinho simples, que ficava no centro, mas depois de tudo que passou anteriormente, ela se sentia em um palacete, agora tinha um pouco de paz, pelo menos teria quinze dias para se organizar e conseguir um emprego.
Indo ao supermercado ao lado, ela viu que havia moças de seu tipo físico, fazendo promoções de marcas de produtos de renome, e foi até elas perguntar, como poderia se candidatar ao cargo de promotora.
Uma delas lhe passou o endereço de uma agência, que ficava nas proximidades e no mesmo dia ela foi preencher seu Curriculum.
Eram empregos temporários, mas pelo menos tinham salário.
Na mesma semana ela pegou quinze dias de promoção para a marca de chocolate Arcor.
Ficava segurando uma bandeja e oferecendo provas aos clientes do mercado, e em quinze dias faturou o dinheiro, correspondente á um salário trabalhado o mês inteiro.
Feliz da vida pagou mais quinze dias do hotel, e guardou mais dinheiro para comer por mais quinze dias também.
Maria já não aguentava comer pão com manteiga, e então fez uma comprinha de bolachas e coisinhas mais gostosas, foi muito bom.
Quando acabou essa promoção, dias depois já foi chamada para outra, agora era da cerveja Brahma também quinze dias, só que com salário melhor.
O que claro, ela aceitou com gosto, e assim foi fazendo bicos.
Uma vez ela conseguiu pegar até de modelo para uma feira de automóveis com uma maquiagem bem feita, trabalhou três dias que lhe garantiram dias sossegados.
Havia dias que de uma promoção para á outra ela ficava um tempo sem trabalho, mas não muito ao ponto de ter que ser despejada e voltar ás ruas. Eram dias em que a comida voltava a ser uma única vez ao dia, mas pelo menos tinha onde dormir.
Assim foi passando os dias, ela na correria nem se lembrava da cidade do interior de onde tinha vindo, mas, no seu coração estava enraizada a saudade.
Um dia as colegas que tinha conhecido nos vários supermercados que trabalhou, á chamaram para ir comemorar o final da semana em um restaurante meio chique, e badalado, e lá se foram as três, dividiriam um táxi e a conta.
Elas estavam felizes e sorridentes em uma mesa boa, tomando um vinho razoável e contando anedotas, quando o garçom do lugar se dirige até Maria e diz que um senhor sentado na mesa na ala vip, á estava convidando juntamente com suas amigas á irem até a mesa dele.
E com o pedido, envia uma garrafa de vinho bom e caro, Maria olha para o senhor da mesa, agradece o garçom e aceita a bebida, mas diz que se alguém tiver que mudar de mesa, que seja ele, que poderia sim se dirigir até a dela, e não vice-versa. E comenta com as amigas que esse é um papel de um cavalheiro.
O garçom vai até lá e dá o recado, mas volta com outro recado.
Ele diz baixinho no ouvido de Maria, que o senhor Jaime até poderia se dirigir á mesa dela, mas como ele já estava comendo e a mesa dele ficava em lugar melhor, ele pedia o favor de que elas fossem até ele, nesse instante lá do alto, Jaime sorri um sorriso franco para Maria. E ele estava mesmo em uma ala onde a mesa ficava em um piso superior, ficando assim com uma visão privilegiada do lugar.
Sendo assim, ela pergunta ás duas amigas, que de pronto aceitaram, e vão para mesa de cima.
Depois das apresentações formais, todos se sentam, ele estava comendo carpaccio e salmão, pergunta o que todas querem, e depois dos pedidos feitos, agora ele e Maria poderiam conversar mais calmamente para se conhecerem melhor.
Ele um homem muito bonito, um jovem coroa grisalho, vestido elegantemente em um terno cinza claro impecável, postura digna de rei, português perfeito, olhar forte e sincero, mostrava ter nascido em berço de ouro e possuir muitas posses.
Maria falou de onde vinha, e coisas do tipo onde trabalhava e onde morava.
Ele por sua vez se mantinha muito seguro e agindo naturalmente continuava falando e em momento nenhum tinha um assunto romântico para o lado dela. Ela que havia pensado como qualquer mulher pensaria nessa situação, que ele á estava paquerando...mas por enquanto, ele era muito formal e não demonstrava ter nenhum interesse mais íntimo.
No meio do jantar, ele fala á Maria que a convidou para á mesa com um propósito, que ele queria que ela o acompanhasse até o MASP museu de obras de arte, para que ela avaliasse uns quadros de pintura abstrata.
Maria surpresa, riu muito e disse que ela não entendia nada de pinturas, muito menos abstratas, e que como ela já havia dito, vinha do interior e era uma pessoa simplória, que nunca teve contato com artes desse nível.
Ele disse que esses detalhes eram irrelevantes e que mesmo sabendo disso, ainda mantinha de pé o convite.
Ela olhou seus olhos diretos e sinceros, e disse, que até poderia ir, mas que como não se conheciam muito bem , gostaria de confirmar se ele realmente era o presidente da bolsa de valores de São Paulo como ele havia falado no início das apresentações.
Ela achava que ele provavelmente teria um cartão para confirmar esses dados, e se não o tivesse, ai ela poderia começar á desconfiar, apesar de estar na cara, que ele seria incapaz de qualquer atitude deselegante, ela quis ficar mais segura.
No mesmo instante ele retira um cartão e lhe mostra, com o cargo dele e o nome Jaime etc e Tal.
Ela combina com as amigas que iria embora com ele, pois eles iriam para á exposição do MASP e que depois ele á levaria para casa. No estacionamento ela entra pela primeira vez em uma Mercedes, o carro parecia flutuar, nem barulho fazia.
No caminho, ela ainda pensou que talvez ele fosse tentar toca-la, ou quem sabe tentar beija-la, mas nada disso, se manteve educado, sério e formal.
Chegaram á um cruzamento da Avenida Paulista e ele parou o carro, foram caminhando até a avenida paulista, ele do lado de fora da rua, e em dado momento, com aquele andar que também parecia de diplomata ou juiz, ele á olhou nos olhos e disse, Maria diga minha data de nascimento, dia, mês e ano?
Ela já bem falante e sorridente com toda aquela situação, olhou para ele e disse que não sabia uai? E abriu um sorriso largo. Ele respondeu que era para ela falar qualquer data que lhe viesse a mente.
Ela topou o desafio e disse, 28-02-1946? Ele continuou andando tranquilamente e como se nada tivesse acontecido, disse: EXATAMENTE!
Ela olhou para ele novamente, mas agora assustada, disse como? Exatamente?
Ele respondeu, Exatamente!
Como se fosse algo mais comum e natural possível.
Ela falou, não posso acreditar, agora só acreditarei se você me mostrar seu documento de identidade, nesse momento, ele adentra sua mão ao bolso do terno e tira sua carteira, pega a sua identidade e dá á Maria, que fica sem voz!!!!
Era Exatamente o que ela disse.
Ela pergunta para ele, feliz e encantada, mas como pode ser?
Ele á olha e responde, Maria você sabe tudo!
E assim eles chegam ao MASP, passam por uma corrente pequena e sobem até onde estão expostos os quadros.
E eles vão andando, e observando um a um os quadros, e o S.R. Jaime a cada quadro exposto pergunta á Maria, o que essa obra transmite?
E ela respondia o sentimento que lhe vinha á alma, e a cada quadro, ele falava: Exatamente!
E seguia para o próximo.
E assim foram à exposição inteira, e eram muitos quadros, mas em todos Maria dizia o que sentia, uns eram amor, outros paixão, medo, tristeza, depressão, inocência, etc...e em todos os que Maria avaliava ,ele dizia Exatamente!
Até que finalizaram, voltaram ao carro, ele á deixou em sua casa e nunca mais se viram.
Até hoje Maria pensa, em quem seria aquele homem, um Deus? Um anjo?
Algum enviado de outro planeta? E qual o motivo de tudo aquilo?
Ele não tinha interesse nenhum em um romance com ela, ele parecia que sabia mais quem era ela, que ela mesma.
Ele não se surpreendia com nada, era como se tudo já estivesse previsto para acontecer assim.
Talvez se as duas amigas de Maria não o tivessem visto, ninguém acreditaria, e talvez ela mesma achasse que teria sido um sonho ou algo assim.
Mas foi bem real, tudo aconteceu assim, de fato, sem tirar nem por.
Mais madura, anos depois, ela pode analisar melhor oque ele queria mostrar...e aos poucos todos nós vamos entender, devagar, no tempo necessário que cada um tiver que ter, mas todos entenderemos.
Será com uma luz, um insight que nos abrirá a mente, aqueles que estão mais preparados a revelação virá mais rapidamente, mas nem por isso, os que forem revelados somente no final do livro, serão menos agraciados.
Acredito que em vão, ninguém lerá esse livro, que como tantos outros livros inspirados por Deus, chega ás mãos certas, no momento certo, esse também não será diferente.
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