Simplesmente "Maria"
8 O retorno.
Nessas situações, de primeiro momento a gente não quer acreditar, tenta argumentar, mas contra fatos não há argumentos plausíveis, e depois de todas essas etapas de negação até a aceitação, que não deve ter passado de minutos, ela resolveu ser prática e encarar a situação objetivamente.
Pensou em como poderia ter esse bebê com menos dificuldade possível, a primeira coisa séria comunicar ao pai, para ver se os dois pensando juntos poderiam entrar em um acordo, da melhor maneira de cria-lo. E foi o que fez, no mesmo dia ligou para Abraham, não o via há quase dois meses, e marcou um encontro em uma praça perto de onde ela morava.
Ele veio no horário combinado, todo feliz com o possível reencontro dos dois, mas quando ela começou a lhe contar os detalhes da gravidez, a primeira pergunta que ele fez, depois de parabeniza-la foi: e quem é o pai?
Ela indignada, disse que era ele.
Ele respondeu: Impossível Maria. Primeiro porque sou estéril, e segundo que você sumiu e sabe se lá com quem deve ter andado.
Ela ficou muito ofendida, com a acusação dele. Inocentemente ela havia esperado que ele fosse ser mais gentil e talvez até lhe dar apoio nessa hora difícil.
Mas não foi assim que aconteceu, e geralmente não é assim com a maioria das mulheres que engravidam sem planejamento, e pior de um homem estéril. Hoje para ela é compreensível sua atitude fria, mas naquele dia, foi traumático, se sentiu muito só e mais uma vez abandonada.
Ela disse que nunca mais queria vê-lo e saiu andando.
Ele nem insistiu de ir atrás dela, talvez chocado com as novidades, ficou parado ali.
Quando ela chegou a casa, sua amiga não estava, estava trabalhando, e sem ninguém para conversar, chorou e pediu a Deus que a orientasse no que fazer.
Pensou sobre como iria trabalhar com a barriga crescendo, nenhuma agencia á contrataria para eventos e nem promoções em mercado, pois ela nunca havia visto uma gestante em serviços temporários.
E como faria com esse bebê e sem trabalho, não, de favor na casa da amiga também não poderia, e por pior que pudesse parecer, ela teria que voltar para sua cidade no interior de São Paulo, e depois desse tempo que se passou, esperar que fosse melhor recebida, e tentar ficar na casa da mãe.
Mas como fazer? Se sua mãe soubesse da gravidez, primeiro iria querer que abortasse, isso já era uma certeza, e segundo que não á aceitaria em casa.
O único jeito seria chegar com a cara dura e ir ficando, até seja o que Deus quiser. O tempo já havia passado, e talvez sua mãe tivesse com um pouco de saudade, quem sabe?
E foi assim que ela voltou, e na mala trazia novidades que seriam guardadas até quando não pudesse mais esconder. Quando chegou em casa, sua mãe á olhou com olhar de frieza, sem emoção nenhuma, perguntou até quando ficaria, e se já estava sem dinheiro para as despesas?
Maria disse que pretendia arrumar um emprego rapidamente e que seriam só uns dias até se arranjar e alugar outro lugar. Sua mãe contrariada aceitou, não disse propriamente da sua boca, mas também não á mandou sair da casa.
Como estava grávida e não seria correto pegar um emprego nessas situações sem contar ao patrão, e se contasse ninguém á contrataria, ela seguiu o conselho de uma conhecida sua, foi fazer um curso de cabeleireira no Senac, e para pagar o curso, começou a vender bombons recheados e bolo gelado que ela fazia bem como ninguém.
Aliás, um dom que Maria sempre teve, foi cozinhar, tudo o que ela fazia, até o mais simples ficava especial. E no Senac mesmo, nas salas de outro cursos, ela ia fazendo as encomendas e no outro dia de aula, entregava ás clientes. Ela costumava levar uma provinha para á pessoa experimentar, e assim conquistava o cliente, pois quem provasse, queria mais.
Assim ela foi fazendo o curso e pagando, sua mãe só foi perceber a gravidez no quarto mês, e ai as coisas já estavam caminhando, pois ela trabalhava o dia todo fora de casa, e assim deixava Maria livre para fazer suas encomendas.
Muitas vezes Maria tinha uma fome maior que a de costume, devido á gravidez, mas quando ela queria repetir á comida, sua mãe não deixava, e dizia que um prato só era o suficiente.
Sua mãe ás vezes separava comida dela e comida da filha, a da filha era arroz, feijão e um ovo, e a dela era coisas especiais, como misturas mais elaboradas. Doía ver como uma futura avó fazia isso com a filha e o neto que viria nascer. Mas ela sempre meditava que melhor assim e ter um teto até acabar o curso e poder ter novamente sua independência.
Maria desde nova, sonhava em fazer uma faculdade, ela chegava a sentir a alegria de se imaginar saindo de uma universidade, com todos aqueles livros nas mãos, imaginava sua formatura etc....mas sua mãe, sempre dizia que faculdade não servia pra nada, que o ideal seria casar e ter um bom partido. E sempre que falava em estudo, sua mãe desvalorizava, dando exemplos de quantos advogados formados ela conhecia desempregado.
E por falta de apoio familiar, Maria acabou casando cedo, no casamento seu marido também simplório nunca lhe incentivou nos estudos, e assim o tempo passou e não seria agora nessa situação que ela teria forças para começar em um curso superior.
Por força de vontade sua, ela acabou o terceiro colegial, que por sua mãe, se tivesse feito só até a oitava série já estaria bom. Sua mãe nunca ia as reuniões da escola, e muito menos em apresentações, dizia que tinha que ganhar a vida, e que não podia perder tempo com futilidades.
Dona Conceição como era chamada, era uma renomada esteticista na cidade, que trabalhava muito, e com a nata da sociedade. Só pensava em dinheiro, e costumava repetir frequentemente que amor é dinheiro no bolso.
Ela não acreditava em amor, era muito fria e pratica com esses assuntos do coração. As duas falavam pouco, D.Conceição agia como se não tivesse gravidez, nem tocava no assunto, quase no final do período foi perguntar como Maria iria se virar com enxoval, já que ainda não tinha nada?
Maria disse que se sua mãe a ajudasse e comprasse o mínimo, coisas bem simples, ela iria para São Paulo depois atrás do pai, e que ele sendo de posses, iria a reembolsar com muito mais depois de ver que o filho era dele.
Sua mãe por incrível que pareça, acreditou que o filho era mesmo desse judeu estéril, a mãe conhecia bem a filha, e no fundo sabia que sua filha tinha compromisso com a verdade, mesmo as duas discordando, acreditou que ele era mesmo rico e que ela poderia no futuro lucrar com isso, e aceitou comprar o mínimo para receber o bebê.
O parto foi complicado, pelo S.U.S. pois o anestesista deu uma anestesia errada, com dosagem superior, o que fez Maria se anestesiar até na garganta e sentir sufocamento, como que não respirasse mais, gritando com falta de ar, os enfermeiros deram remédios que a apagaram, e foi feita a Cesária, ela acordou no quarto, ao lado tinha um carrinho com o bebê, e ela o viu e o pegou pela primeira vez.
Um menino, de olhos azuis como o do pai, que permaneceram assim por toda sua vida, azuis da cor do céu, ela olhou-o e foi amamenta-lo com todo carinho possível. Uma vez Abraham havia dito que se tivesse tido um filho o chamaria de Abraham, e Maria fez como ele falou, colocou o nome do pai em seu filho, ela não tinha mágoas dele, só não entendia porque tinha agido tão friamente.
Após um dia no hospital, foram para casa e ela se restabeleceu da melhor maneira que podia, pois não tinha ninguém que ficasse com ela na casa, sua mãe saia cedo, e ela tinha que se virar, com tudo, comida, trocar fraldas, casa etc...ela não soube o que é ter apoio de pai ,nem de mãe, e nem de marido, e também não tinha ninguém que se ofereceu para ficar com ela, não foi fácil, mas passou.
Ela acabou o curso de cabeleireira e em seguida já alugou uma casa, graças a uma pessoa que confiou nela, pois não tinha fiador, e na sala da casa já montou seu salão de beleza, e com o bebê no berço, ou no carrinho, ela ia trabalhando, atendendo as clientes e dando de mamar. O tempo passou e ele já tinha um aninho, a cada dia ficava mais bonito.
Ela e sua mãe iam se vendo as vezes, sempre um encontro pesado, sua mãe sempre tentando fazer Maria ir atrás do pai, pois a avo dizia que o neto não poderia ficar sem nome de pai no registro, mas o que ela mais queria era que tivesse o dinheiro que ela achava que o pai do seu neto tinha.
Maria pensava diferente, pois se ele não o quis, seria humilhante pedir para ele registra-lo, mas de tanta insistência da mãe, pensando no filho, ela vai até São Paulo ao encontro de Abraham, mas ele já havia se mudado de volta para Israel. Vendeu tudo o que possuía no bairro Bom Retiro e se foi. Maria voltou desolada. O telefone dele não atendia mais, mas ela pensou que indo até o comércio dele o encontraria, pois talvez só o número teria mudado.
Fez a viagem com o filho em vão, mas pelo menos agora ela achou que D.Conceição iria parar de perturba-la. Mas não foi assim, Ela queria agora financiar uma passagem para filha ir á São Paulo e pegar o endereço dele com o cunhado que ainda tinha uma grande empresa têxtil na cidade, e depois ir á Israel atrás do pai, e deixar o filho com ela, que ela cuidaria do menino até Maria retornar.
Mas Maria achou loucura a ideia de abandonar sua casa, seu salão, e principalmente seu filho, tudo em nome do dinheiro do pai, e pior ela correria o risco do pai querer a guarda do filho e ela acabar ficando longe dele, pois por ele ter melhores condições financeiras, após saber que o filho era mesmo dele, contrataria os melhores advogados. Ela foi radical em dizer que não, mas D.Conceição sempre á estava importunando com essa ideia maluca.
Os anos foram passando e Abraham Filho foi crescendo e a cada dia mais saudável e lindo, parecia um bebe de propaganda de televisão, loiro com os olhos azuis era mesmo muito lindo. Todos que o viam com Maria na rua á paravam para elogia-lo. O salão de beleza foi criando corpo, e não dava muito dinheiro, não sobrava nada, mas também não faltava, e assim os dois foram vivendo, era muito amor e carinho nessa pequena família, todo amor que Maria não recebeu e tinha vontade de ter tido, ela dava ao filho.
Os dois além de se amarem muito, eram amigos, Maria adorava conversar com ele de criança para criança, era amigável e ao mesmo tempo responsável. O ajudava nas lições de casa, o ensinava a ter responsabilidades com seus materiais e estudo. Também fazia o possível para ele ter lazer, fez ação de um clube onde eles iam sempre nadar juntos. Maria o ensinava sobre ter fé, acreditar no amor, ser simples e humilde.
Ela fazia a comida cheia de carinhas e sorrisos, muita verdura colorida, era muito criativa nos pratos que servia.
Poderia se dizer que para ambos a família era perfeita. O menino nem falta do pai sentia, tamanha era sua alegria de viver.
Nas reuniões de escola, nos dias dos pais, seu tio, irmão de Maria ia com ele, os dois se davam muito bem também.
Depois de Maria ter ficado dez anos, praticamente sozinha, tendo tido somente um namoro sério de um ano nesses dez anos, que não vingou, pois ela sempre queria estar mais com o filho, que em qualquer outro lugar. Na luta do dia a dia de uma mãe solteira, Maria teve uma surpresa que iria transformar sua vida.
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