Simplesmente "Maria"
13 E a vida continua lhe apresentando contradições
Como toda mãe que já perdeu um filho sabe, que a vinda de outro filho, nunca substitui a ausência do filho distante.
É totalmente distinto, cada ser é único. Mas a notícia da nova gestação, amenizava um pouco toda aquela dor.
Quando Maria pensava em como Abrahan devia estar, chorava de saudades, mas tentava seguir sua vida, pois o que não tem remédio, remediado está. Ela sabia que deveria aguardar a decisão da justiça, e que não tinha mais nada a fazer, do que já havia feito.
A barriga cresceu muito, com quatro meses já parecia que estava de seis meses. Maria continuava no salão atendendo suas clientes, ela sempre teve uma saúde perfeita, e na gestações não era diferente. Maria trabalhava até o dia de ganhar o bebê. E assim fez.
Mas a sua vida já dava sinais de mudanças, e mudanças que ela demoraria muito tempo para aceitar.
Odilo depois de um tempo, começou á ficar ciumento, no começo Maria via como cuidado e carinho, aquele medo natural de perder á pessoa que se ama.
Ele fechava um pouco mais a gola de uma blusa dela, não gostava de saia que marcasse o corpo, maquiagens, coisas desse tipo. Mas depois da intimidade ir aumentando e a rotina ir se acomodando na relação, ele começou a ter ciúmes mais fortes.
Como em um dia que esfriou e Maria vestiu a camisa de seu irmão, e quando Odilo chegou para busca-la e, perguntou de quem era a camisa, após ela falar, iniciou-se uma discussão absurda, e ele disse que nunca mais ela deveria vestir camisas de outro homem. Mesmo sendo seu irmão.
Logo ele passou a ofendê-la, quando tinha crises de ciúmes do nada, ele começava a humilha-la, á chamava de nomes vulgares.
Se eles iam á um restaurante e o garçom que servia, fosse bem apresentável, Odilo já imaginava que Maria estaria paquerando, e começava as brigas.
Ela já nem olhava mais para os garçons, tamanho o medo que foi pegando de brigas. Quando estava com ele, ela já andava de cabeça baixa.
No elevador do prédio, se um homem entrasse, e Odilo achasse que ela somente olhou-o, pronto, já era motivo de brigas.
A cada dia, as crises dele por ciúmes foram aumentando, e mesmo Maria estando grávida e com aquela barriga enorme, ele achava que todos os homens á queriam, e pior, achava que ela tivesse interesse neles, tamanha era sua insegurança.
Maria já tinha desde sempre, o costume de nunca olhar para homens, ela nem mesmo sabia paquerar, pois ela achava que o primeiro contato é sempre do homem, um papel masculino;
Agora imagina, quando ela estava com o homem, que a vida toda ela esperou, é claro que jamais teria motivos para olhar para outro homem, com desejo.
Mas Odilo não entendia, e as ofensas foram piorando, e em uma tarde, ele furioso, perdeu a cabeça e pela primeira vez bateu em Maria.
Ela só chorava, e quanto mais ela chorava, mais ele batia, ela não sabia nem o porquê, e doía muito nela, apanhar e ainda gravida de um bebê. A dor era muito forte.
Quando ele não batia, ele a humilhava muito, dizia que ela não era ninguém, pois não tinha formação, que nem uma faculdade tinha completado, que não tinha pai, que a própria mãe não á quis, e porque ele iria querer?
Ele fazia tantas ofensas nesses momentos de ataque de fúria, que Maria se perguntava, Meu Deus, cadê aquele homem que eu conheci?
Oque aconteceu com ele?
Quando ele se dava por satisfeito, ele parava, e depois de umas horas, falava que não queria que isso tivesse acontecido, mas que ela o irritava muito, com o jeito dela, a falta de estudo, etc...
E assim, Maria dormiu no paraíso e acordou no inferno.
Ele havia mudado muito. Com Maria de sete meses de gestação, Odilo em uma crise de nervoso, deu um chute em sua barriga.
Com ela no oitavo mês de gestação, ele pegou sua cabeça dentro do carro, e jogou com toda força no freio de mão, como doía demais e ficou hematomas, ele depois á levou ao hospital e disse que ela deveria falar que caiu da escada de sua casa.
Depois desses momentos, ele voltava á ficar bom por um tempo, mas esse tempo, cada vez foi diminuindo mais, até que se tornou rotina, ele se acostumou a descarregar sua raiva em Maria diariamente.
Ela não conseguia ser violenta nem com palavras para ele, e quanto mais ela era doce, mais ele tinha raiva.
Parecia que o jeito de Maria ser o incomodava, era como se ele estivesse muito arrependido de estar com ela. Mas se ela falava em deixa-lo, ele ficava mais furioso ainda.
Maria não tinha coragem de contar á ninguém o que estava passando. Muitas mulheres que sofrem violência doméstica sentem vergonha de compartilhar com alguém. Pois depois dela ter falado as amigas da felicidade que vivia, e agora grávida dele, como dizer tudo o que se passava em quatro paredes? E também para que?
Ninguém poderia ajuda-la, pois ela mesma sempre o perdoava.
Ás vezes ela conseguia escapar dele, e ficava em seu salão, sua casa antiga, mas ele a perturbava a noite toda, e ela acabava perdoando e voltando.
Era uma relação de idas e vindas.
Nesse clima Aben estava sendo gerado. Maria pensava em como ele recebia esse pai, se a ciência diz que o feto senti tudo?
Ela também pensava em como Odilo havia mudado tanto? E por quê?
Para ela deveria ser uma provação, que ela deveria passar e suportar, pois ela acreditava que com a fé dela e muita oração iria muda-lo.
Mas sinto informar, que ás vezes, por mais que se ore, jejue, por mais que sua oração seja justificada nos altos escalões do mais alto céu, há momentos que Deus se cala.
E ela estava nesses momentos. Suplicando á Deus um milagre!!!! Mas sem resposta alguma.
Chegou o dia do parto, nasceu o Aben, graças á Deus, perfeito. Foi uma das maiores realizações de Maria.
Mesmo com o pai que ele teria, Maria em momento nenhum reclamou com Deus, e quando ela olhou os olhos daquele menino, que carinhosamente amamentou, ela sentiu, que todo sofrimento que estava vivendo, e viveria com Odilo, valeu á pena.
Maria já acostumada a sofrer, foi levando aquela vida com Odilo, não por comodismo, mas porque em seu coração ainda existia a mesma quantidade de amor que existiu no primeiro dia do encontro no jantar.
Nada do que ele fazia conseguia atingir seu coração. Pelo contrário, ela tinha pena de ver como ele ficava furioso por nada de real, como ele tinha ciúmes infundados, mas que ela sentia que para ele parecia verdadeiro, e observava que ele sofria com tudo aquilo também, mas não conseguia mudar.
Eles foram vivendo aos trancos e barrancos, Odilo tinha ciúme do filho também, se Maria desse muita atenção ao bebê ele reclamava e já começava a discussão.
Maria foi tentando driblar, mas mesmo tentando com todo afinco, era impossível, ele criava brigas. Depois de três anos, nessa luta, Odilo á cada dia ofendendo mais profundamente Maria, agora em frente aos seus amigos ele sentia prazer em humilha-la, enfrente á família dele, que nunca aceitou o relacionamento dos dois, por Maria não ter uma formação e uma família digna deles, a mãe de Odilo e irmãs se diziam de outra classe, u,a classe superior.
Era uma família tradicional, mas muito arrogante, preconceituosa na cidade. E para eles Odilo, havia decaído muito o nível em se relacionar com Maria, uma Zé ninguém na sociedade. Apesar delas viverem nos primeiros bancos da principal igreja católica da cidade.
E depois de três anos e Maria tentando á toda custo que esse relacionamento desse certo, com muita dificuldade de fazer um rompimento que era necessário. Talvez até porque Maria se via cansada de tanto romper.
Maria tem uma decepção maior com Odilo, ela descobre que ele esta tentando reencontrar uma ex-namorada de infância. Maria o questiona sobre o assunto e de imediato ele nega, mas ela pega o telefone dela em sua conta de telefone, pois era de uma cidade de fora, e Maria acaba ligando para ela, e pergunta sobre Odilo.
E para sua total decepção, Maria descobre que eles tiveram um encontro na cidade de Odilo, que ela veio em um final de semana, que os dois tinham rompido, e que passou seu aniversário com ele, no apartamento dele, enquanto Maria estava em sua casa no salão.
Nesse dia, o fim foi decretado dentro de Maria.
O mundo caiu sobre ela.
Ela poderia aceitar crises de ciúmes, humilhação, até ataques de violência, mas traição para ela era demais.
A confiança que ainda, mantinha por Odilo acabou.
Ele chegou e ela pôs tudo em panos limpos. Ele como não tinha saída confessou.
Maria nem quis saber os detalhes. Só pediu para que ele não á procurasse mais. Que só viesse se quisesse ver o filho que tiveram. E foi o que ele fez, pela primeira vez, ele aceitou o final dessa relação, ele deixou de insistir e só vinha para ver Aben, Ele passeava um pouco com ele, e logo devolvia.
Tinha domingos que ele nem aparecia.
Mais uma vez Maria diz, só quem amou de verdade, só quem entregou sua vida, sua alma á um homem e foi traída, sabe a dor que é. Agora, depois de tudo o que já perdeu, ela perdia os sonhos.
Agora pela primeira vez, Maria sentiu que perdeu a vontade de viver de fato. Ela passou a aceitar que sua vida seria cercada de tristeza, por mais que ela tentasse o contrário, parece que sempre a dor vinha e falava mais alto.
Sua vontade de viver foi embora, mas ela sabia que teria de continuar pela criança que tinha em sua responsabilidade. Então ela ia levando os dias, trabalhando e sorrindo por fora. Mas chorando muito por dentro.
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