Simplesmente "Maria"
4 Acidente libertador
Depois de tantos sofrimentos, Maria toma a atitude e pede a separação á Oscar seu marido.
Ele tenta argumentar, não aceita, mas ela já nem o quer ouvir. Pega suas coisas e o deixa.
Nessa época, com vinte e dois anos, e já cansada de tanto sofrer, mas com muita energia para viver, ela e uma amiga intima, na casa da qual ela dormiria naquela noite, resolvem comemorar a separação em grande estilo.
E as duas vão para uma discoteca badalada da cidade, na festa da tequila.
Quando adolescente Maria não tinha grandes dotes de beleza, além de seus olhos carismáticos.
Mas com o tempo, ela foi encorpando, já não usava mais óculos, agora eram lentes de contato, o cabelo estava sempre escovado, e assim, até desfiles de passarela, ela já tinha feito. Por onde andava, agora ela chamava atenção.
Tinha lábios carnudos, e um corpo elegante.
Andava com muito charme, se vestia muito bem e se comunicava como ninguém.
A gagueira ela ia controlando, e muitos dos amigos nem sabiam do problema.
Chegando à balada, elas começam beber, já no meio da noite as duas estavam muito bêbadas, tequila não era bebida que elas estavam acostumadas beber, e praticamente de estômago vazio, o álcool subiu depressa.
Juntando a sensação de liberdade ao desejo de se rebelar, foi um prato cheio, para um porre.
Maria passando mal, acaba aceitando carona de um amigo de infância que encontrou lá, sua amiga Carol não quis acompanha-la e ficou com outras colegas, tudo seria natural se não fosse pelo fato que esse amigo, Josemar , estava quanto ou mais embriagado que Maria.
Eles saíram de madrugada da boate, em direção á casa de Carol, onde Maria iria dormir, por essa noite, pois os pais de Carol estavam viajando.
Foram pela avenida principal da cidade e em alta velocidade, conversando e rindo muito, Josemar perdeu a direção, e entrou com o carro em uma árvore bem na esquina da avenida.
Ele se segurou ao volante, mas ela que estava sem cinto de segurança foi com tudo para as ferragens do carro.
O carro entrou do lado do passageiro nessa árvore e a lataria do carro, e os vidros entraram no rosto de Maria.
Ela só sentiu o impacto, quando retirou seu rosto das ferragens, era tanto sangue, que seu macacão jeans azul já estava inteiro na cor vermelha.
Como as pernas estavam intactas, ela e ele saíram do carro, para pedir socorro, poucos carros passavam na avenida naquele horário, alta madrugada.
O primeiro carro que passou, viu a cena, e por medo, ou por não querer sujar seu carro com tanto sangue, resolveu seguir reto.
Mas logo em seguida, outro carro aparece e finalmente essa para e presta socorro.
Ja em direção a Santa Casa de Misericórdia, hospital de sua cidade, os dois no banco de trás do carro, Maria olha para Josemar e vê que passa bem, tem só um pouco de sangue no supercílio, enquanto ela não para de sangrar.
Nesse momento, ela leva sua mão ao seu rosto, e para espanto total, percebe que não tem mais o nariz.
Ela se toca e toca novamente, e sente que só ficou um buraco, onde deveria estar o nariz, assustada ela vira para Josemar, e diz:
—Josemar, cadê meu nariz?
Ele olha e só agora vê o estrago do rosto dela, ele não suportando o que viu, desmaia ali mesmo; cinco minutos antes de chegar ao hospital.
Maria já internada, ouve duas enfermeiras falando que ela tinha perdido a visão de um olho.
Desesperada começa gritar, imediatamente deram algum remédio que a fez dormir e acordar em outro lugar, um quarto escuro, com varias pessoas doentes e magras, esperando não sabia para que, mas parecia que essas pessoas esperavam a morte, ou estavam em estágio final de câncer ou AIDS.
A enfermeira vem depois e diz que pela quantidade de álcool ingerida, ela teria que esperar para ser operada.
O cirurgião finalmente chega, e ela é levada para a sala de cirurgia ,ai jã não vê mais nada.
Acorda horas depois, em um quarto, já iluminado, e sozinha.
Com faixas na cabeça, e deitada.
A primeira coisa que vem a sua mente, é ver seu rosto. Ela pede um espelho.
Mas as enfermeiras não deixam.
Sua mãe havia viajado e só retornou dois dias depois.
Nesse interim, ela recebe a visita de alguns conhecidos que souberam do acidente. Poucos curiosos.
No segundo dia ela conseguiu pegar um espelho no corredor, e ver o estrago, foi como ver um monstro. Assustador!
Ela havia rasgado seu rosto de fora a fora do lado direito, o nariz foi costurado novamente naquele buraco, o corte encima dos olhos, graças á Deus não á cegou, mas foi por pouco.
Ela havia perdido os dentes da frente, e estava benguela, os nervos do lado direito do rosto foram rompidos, e seu lábios só mexia metade da boca que ainda respondia, fazendo assim uma deformação mais monstruosa ainda.
Seu ex-marido veio visita-la, ela desesperada pediu perdão e para ele voltar com ela, ele disse não, e não voltou mais para vê-la.
Chegou o dia fatídico, sua mãe chega.
E ao olhar a filha diz:
—Agora você se acabou, as únicas chances que tinha era pela beleza, arrumar outro marido, mas agora nem rosto você tem.
Ela olhou a filha e disse, você é OCA, FRIA, E VAZIA. E na minha casa não te quero mais.
Uma amiga de sua mãe, logo em seguida chegou ao hospital, olhou a cena, e as duas falaram sobre trivialidades, sorriram, como se fosse um dia comum e feliz e foram embora. Maria pensava que aquilo poderia ser um pesadelo, pois não era possível tamanha frieza.
Chegou o dia da alta, sem ter para onde ir, nem para quem voltar, acaba indo de casa em casa, pedir ajuda.
Ia primeiro naqueles colegas mais abastados financeiramente, pedia para ficar em sua casa, mas quando eles olhavam para aquele rosto cheio de pontos, aquela boca torta, sem dentes, eles a despachavam rápido.
Quem iria querer ajuda-la nessa situação, se nem a mãe quis?
De casa em casa, ela cansou de tanto ouvir não. Até uma prima distante se negou.
Carol sua amiga de balada até que tentou, mas seus pais não permitiram que ela ficasse lá e disseram que era coisa de família e que eles não deveriam se meter.
Sendo assim, sua ultima saída, era ir á uma imobiliária e pedir a chave de uma casa para alugar, e como no molho de chaves vinham muitas copias, ela pegou uma.
E o plano foi, que enquanto não alugassem a casa, de noite, ela poderia dormir lá, no chaõ.
Foi o que fez por três dias, tomando banho frio em um cano sem chuveiro e quase sem comer.
No terceiro dia era dia de Natal, e ela não suportando mais tanto abandono e dor, com seus últimos oitenta centavos, pediu carona á um policial que ela sabia que sua rotina, era ir á São Paulo e assim se foi
Ele não sabia que ela não conhecia nada lá, além das novelas onde via aquelas placas que diziam que tinha bastante emprego. Não conhecia a cidade, pois a primeira e ultima vez que esteve la foi aos cinco anos e não se lembrava de nada.
E ele também não sabia, mas ela não tinha nem um conhecido ou parente em bairro nenhum da cidade ,Maria pensava no caminho:" por Deus nunca me vi tão só"...
E lá chegando, ela olhou pela primeira vez para um metrô de verdade, e também pela primeira vez, e graças á Deus ultima; ela pediu dinheiro para passagem á um senhor bem vestido que viu por lá.
Esse senhor a olhou estranhamente, e depois de pensar lhe deu exatamente o dinheiro de uma passagem.
Como Maria via nas novelas, ela teria que ir para praça da republica, pois lá é que tinham os empregos que ela iria escolher para trabalhar.
Inocência, loucura ou desespero?
O que dizer de tal atitude, mas para ela, passar fome, não ter onde dormir em sua própria cidade, seria pior que enfrentar pessoas desconhecidas em uma cidade grande que ninguém te conhece. A vergonha e humilhação seriam menor.
Ela usava band-aids em seu rosto, pois a primeira cirurgia plástica que fez de emergência no hospital, foi mal feita e os pontos, mais de sessenta para costurar todo aquele rosto e nariz ficavam visíveis, pois ela teve queloide.
Os dentes ela havia refeito em sua cidade mesmo, com uma dentista sua conhecida, mas não podia sorrir ainda, pois a boca estava torta ,e a cena ficava constrangedora para ambas as partes.
Para falar a verdade, ela tinha tantos problemas imediatos para resolver com urgência, que sua aparência física, se tornara secundária.
E com sua fé, sua coragem, seus oitenta centavos e uma passagem de metrô, ela partiu em direção á Praça da Republica em São Paulo, capital.
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