Simplesmente
5 Capítulo 5: A beira da piscina
Notas iniciais
Boa leitura!! xD
Pov Ivy.
A sociedade de hoje pode estar avançada em muitos aspectos, mas em outros eram tão precária e antiquada que parecia um contraste de tudo o que se pregava. Eu havia notado a demora de Shay e fui atrás dela, a achando fácil apenas segui a multidão. O que eu vi havia me paralisado de vez. Vê-la sendo atacada daquela forma e ao mesmo tempo como ela protegia o irmão me fez sentir como uma fera querendo atacar a tudo e a todos.
E ainda no carro, aquele carinho que havia entre eles, a forma como cuidavam um do outro... Eu já desconfiava que os pais deles fossem ausentes. Mas qual a história? Qual o motivo? Deus, ela era tão forte! Havia encarado a todos aqueles olhares e ficado firme, talvez para dar exemplo ao seu irmão, mas o que eu sabia realmente?
Quando chegamos a minha casa, os dois pareciam maravilhados com tudo o que via. Certo, minha casa era uma mansão, com cinco suítes e dois quartos normais. Era de andar, com uma varanda a direito a jardim espaçoso e no fundo uma piscina e quiosque. A decoração era vitoriana e de cores claras, variando entre branco e azul claro. Sean havia escolhido pular diretamente na piscina. Nós ficamos na sala que dava acesso ao quintal para que Shay pudesse ficar olhando o irmão brincar.
-Ele é uma gracinha – Lindsay comentou olhando Sean saltar na piscina, realmente se divertindo.
-Não é tão gracinha quando fica bagunçando a casa e não quer arrumar. Mas sim, na maior parte do tempo – Shay comentou distraída com o calculo que fazia, até erguer o olhar e ver o irmão – Mas pelo menos ele está podendo ser uma criança normal.
O jeito que ela falava... Como havia sido a infância dela? Porque aquele brilho no olhar dourado que indicava orgulho pelo irmão, como se ele tivesse algo que ela não teve? Eu mal estava conseguindo prestar atenção ao trabalho, mas disfarcei, não queria conversar sobre isso com Lindsay ali. Queria algo entre eu e Shay, apenas eu e ela. O trabalho durou a tarde inteira e um pedaço da noite. Deixei os três jogando em outra sala, onde estavam os principais aparelhos de multimídia e fui para a cozinha ajudar a Carmem, nossa cozinheira, a fazer algo para o jantar.
-Não acredito que você sabe cozinhar – Shay falou da porta.
Levei um pequeno surto, quase cortando meu dedo por estar cortando tomate. Carmem sorriu de leve, era uma mexicana já de idade, desde sempre trabalhava com minha família e por vezes era como uma segunda mãe para mim.
-Ela gosta muito, desde pequena me ajudava a fazer biscoitos para depois comê-los todos – Carmem explicou orgulhosa.
-Olha só, já pode até casar – Shay brincou olhando diretamente pra mim com aquele sorriso de lado dela.
Fiquei sem jeito e tentei voltar ao meu trabalho. Mas Shay ao invés de ir embora, se aproximou mais e sentou em um banco perto da mesa central. Ela ficava me encarando em silencio, apenas observando... Até eu não aguentar mais, bater a faca contra a tábua e encará-la irritada.
-Vai ficar me olhando apenas? – reclamei.
-Desculpe – ela pediu em um tom baixo, piscando como se tivesse acordando de algo – Mas finalmente descubro algo sobre você. Preciso saber sobre a italianinha da escola, estou na mesma situação que você sobre a redação.
-Hum... Verdade. Então faça algo de útil, corte as batatas e me faça perguntas.
A careta de Shay me fez sorri, ela não tinha jeito nenhum pra isso, mas ao menos descascava a batata sem fazer muito estrago. Carmem continuava discreta, deixando um espaço visível para mim e Shay.
-Ok. Deixa-me ver... Estilo de música predileta?
-Varia com meu humor. Io sou do tipo que quando está triste escuta música deprimente para piorar a situação. Shay, per l'amor di Dio, corta a batata direito ou não sobrará nada dela quando você terminar, va benne?
-Sim senhora – Shay fez outra careta e tentou cortar mais fino – E estilo de filme?
-Só não gosto de antigos e dramas – respondi voltando a cortar os tomates – E você?
-Adoro filmes de terror. Tem medo de algo?
-Hum – parei para pensar um pouco – Ratos. São asquerosos, surgem do nada, roem tudo e são sujos. Argh! Io no gosto nem de pensar.
-Há quanto tempo está aqui? Seu sotaque italiano ainda é tão forte.
-Cerca de quatro anos já. Mas mio padre fala muito italiano em casa, diz que é para que não percamos o jeito.
-Gosto da Itália, um dia vou levar Sean para assistir um jogo do FC Millan, passear de barco por Veneza e fazer graça com as coisas velhas de Roma.
Sorri quase sem perceber, eu já havia feito grande parte dessas coisas. Quando dei por mim, eu já estava contando da minha antiga escola. Shay ajudava bem pouco na cozinha, ela realmente era um desastre naquilo e eu tinha medo que ela acabasse se cortando. Eu não me segurei, quando falava de minha odiada inimiga, a Marissa, expressava isso com um ódio interno que fazia minhas palavras saírem bravas. Acabou que falei apenas de mim e não descobri mais nada sobre Shay. Ela me olhava de uma forma que eu sabia que ela estava prestando atenção, por vezes perguntava alguma coisa para que eu pudesse dar mais informação e me deixava falar livremente, rindo de algo, se surpreendendo com outras coisas.
Quando o jantar estava pronto, descobri que Lindsay já estava bem amiga do Sean por terem ficado jogando aquele tempo todo. Mais que isso, ele não parecia uma criança de dez anos. Era maduro e brincalhão. Era bonito ver como ele olhava para Shay quando ficava em dúvida de alguma coisa e ela sorria e o ajudava. No meio da noite, para minha surpresa, mais uma delas, Shay pegou o violão que era de meu irmão e fomos para a piscina aproveitar a brisa noturna e a lua cheia.
Shay cantava e tocava. Ela era tímida nesse quesito, sorria sem graça quase sempre quando uma música terminava. Mas era tão boa e sua voz levemente grave parecia me embalar, ela cantou músicas clássicas do rock o que combinava com sua voz levemente grave. Carmem trouxe o lanchinho da noite, alguns bolinhos de queijo e suco de frutas. Foi o tempo de Lindsay e Sean quase bocejarem ao mesmo tempo.
-Eu acho que vou dormir – Lindsay comentou.
-Quer ir também, Sean? – Shay olhou para o irmão.
Os dois foram os mais ativos do dia. Pedi para Carmem mostrar os quartos e por fim estava a sós com Shay. Eu estava sentada em uma espreguiçadeira, assim que eles saíram Shay sentou ao meu lado e me olhou com um sorriso suave.
-Obrigada pelo que fez na escola – ela disse sem jeito, o que me fazia acha-la uma graça.
-Io estava certa, a proposta está de pé ainda. Eles não podem permitir um preconceito assim, ou melhor, discriminação. – disse voltando a ficar zangada.
-Ivy, você às vezes é tão inocente – riu Shay e ergueu os olhos pra lua – Eu já sou acostumada, as pessoas não aceitam o que é diferente e outras não questionam os dogmas religiosos, os tem como verdade e não se lembram de que antes de qualquer regra há o amor. O que me afeta é quando tentam atingir o Sean com isso.
Ela mexeu no cabelo tentando tirá-lo do rosto, o vento começava a ficar um pouco forte, apesar de não fazer muito frio. Respirei fundo tomando coragem, ela notou isso e virou aqueles olhos dourados hipnotizantes para mim.
-Quando você ficou só com o Sean? – perguntei de uma vez, mostrando em uma única pergunta o que eu já havia deduzido.
Shay ficou quieta, apenas me fitando por longos segundos. Tive medo dela fugir ou ficar zangada com a pergunta. Mas ela desviou o olhar para as mãos e pareceu pensar um pouco. Meu coração estava disparado em expectativa.
-A pergunta certa é quando o Sean chegou. Comecei a morar sozinha e a trabalhar aos 16. Alejandro é como um anjo para mim, me arranjou emprego no bar dele e fez minha vida profissional crescer. Consegui uma bolsa na melhor escola da região e estava finalmente crescendo sozinha, de verdade. Mas uma semana depois de que eu completei 18 anos meu pai apareceu na porta de casa. Eu havia ficado maior de idade e finalmente iria poder tomar conta de outro problema dele.
-Era o Sean? – deduzi novamente.
-Eu nunca vou esquecer. Ele tem os olhos dourados, iguais aos meus e ao de Sean. Mas estavam vermelhos por causa da... Da droga que ele havia tragado antes. As roupas imundas, a barba grande. Mas mais que isso, havia um garoto assustado ao lado dele, encolhido e com algumas marcas roxas no rosto. Meu pai, meu pai biológico, olhou para mim, invadiu minha casa junto com Sean e começou a falar coisas que eu não entendia. Quando comecei a brigar ele começou a gritar dizendo que não era culpa dele, que ele não tinha como cuidar do garoto e que a mãe dele o havia abandonado. Eu tentei recusar, mas ele... Bem... Ele não é muito gentil.
-Ele te bateu – não era uma pergunta, mas uma afirmação.
-A ultima surra que ele me deu. Ele deixou Sean com uma pequena mochila. Estavam com algumas poucas roupas velhas, os documentos necessários e vinte dólares. Como se vinte dólares desse para criar uma criança.
-Mas você conseguiu – eu murmurei incrédula.
-Eu trabalhava, passei a trabalhar dobrado. Todas as noites, todos os finais de semana, até poder me sentir um pouco melhor e poder liberar um pouco. Sean era um garoto tão assustado! Se alguém começasse a erguer a voz, ele começava a tremer. Alejandro, que na época já estava com o Brandon, mais uma vez me salvaram. Eles me ajudaram com Sean, na educação, por vezes a cuidar... Deus, teve uma vez que Sean quebrou o braço ao cair da bicicleta. Sabe quanto custou tudo? Cerca de cinco mil, por causa de um braço quebrado. Eu tinha entrado em desespero, gastei boa parte de minha economia e Alejandro e Brandon ainda me ajudaram pagando a metade.
Eu mal conseguia respirar. Aquela garota que até semana passada eu desprezava por ser desleixada, era na verdade completamente o contrário. Escutar aquilo foi como um balde de água fria em minha cabeça, em minha vida perfeitinha.
-Ah não me olhe assim, por favor, nada de pena. Por isso não falo nada pra ninguém. Eu estou bem, supero tudo que vier a minha frente, ninguém vai me tirar o direito de ser feliz – Shay falou ao ver meu estado.
Ela levou as mãos para meu rosto, acariciando de forma suave. Fui envolvida completamente por ela, pelo calor, pelos olhos dourados. A angústia ia sumindo e o encanto por aquela garota parecia triplicar. Foi como se existisse uma lei natural para esse tipo de coisa, fomos atraídas como imas opostos, inclinando nossos rostos até que nossas bocas estivessem perto. Fechei os olhos e suspirei, em minha mente não vinha à informação de que iria beijar uma garota, existia apenas o desejo de ter a boca de Shay contra a minha, e quando isso aconteceu borboletas voaram por dentro de meu corpo arrepiando-me por inteira. Foi apenas um roçar de lábios, um selinho longo e de lábios pressionado com força. Não existia frio, não existia mundo além de nós. E era um simples beijo! Quando finalmente cai em mim, me afastei assustada com o que tinha feito, levando a mão aos lábios confusa, trêmula por ter gostado tanto. E como havia! Shay aproximou um pouco e eu inclinei para trás por instinto, ela sorriu sem desgrudar os olhos de mim, tirou minha mão da boca e continuou aproximando ao mesmo tempo em que eu ia inclinando. Até perceber que havia deitado na espreguiçadeira.
-Está com medo? – ela sussurrou com os lábios tão próximos dos meus que seu hálito doce fazia cócegas em mim.
-Io... io não sei – respondi em um fio de voz.
-Ivy...
Acho que foi meu nome murmurado por aquela voz rouca que me fez entregar-me. Um arrepio passou por todo o meu corpo quando a boca de Shay colou a minha. O beijo foi carinhoso, os lábios dela moviam sobre os meus pacientes... Mais que isso, parecia experimentar, acariciar a cada novo toque. Eu fui ao delírio ao senti-la capturando meu lábio inferior e o sugar de leve. Suspirei e foi o suficiente para que Shay aproveitasse a deixa para invadir minha boca com a língua e me beijar de uma forma diferente. Inspirei fundo pelo nariz, levando meus braços para envolvê-la e puxar mais para mim, a fazendo deitar sobre meu corpo na espreguiçadeira. Ela era tão quente e macia! Eu não conseguia assimilar a tudo, o corpo, o beijo, os movimentos da língua que me enlouqueciam.
O beijo foi longo, o mais longo que eu já havia dado em minha vida. Talvez porque eu não queria que terminasse, toda vez que Shay fazia menção de se afastar, segurava a sua nuca e a pressionava mais contra mim. Então ela me beijava mais forte, com mais intensidade e roubava-me todo o ar. As mãos dela passeavam pela lateral de meu corpo sem pressa, era tão diferente de uma carícia masculina! Ela não parecia querer me devorar, ao contrário, parecia querer me dar um carinho e conhecer a tudo que tocava e podia tocar. Eu estava completamente em êxtase, meu corpo inteiro reagia a um único beijo.
Quando terminou, ou eu deixei terminar, estávamos ofegantes. Os lábios dela úmidos e vermelhos por causa da pressão do beijo. Eu lutava por ar ao mesmo tempo em que a fitava e me perdia no mar dourado dos olhos dela.
-O que dizem é verdade – murmurei corando um pouco ao lembrar do comentário que Lindsay falou no carro, que o beijo da Shay era viciante.
-O que dizem? – ela também falava murmurando.
-Nada, deixe para lá.
-Ivy...
-Temos de ir dormir – a interrompi tentando me levantar.
Balancei a cabeça, finalmente conseguia assimilar o que estava acontecendo e o que havia feito. O calor que senti nos braços dela ia sendo substituídos pelo medo do desconhecido. Estava tão confusa! Como podia gostar de um beijo dela se era hétero até algumas horas atrás? Não, isso não podia estar acontecendo, não havia explicação! A empurrei de leve e levantei quase em um pulo, evitava olhar para ela a todo custo e foi difícil achar voz para chama-la novamente. Shay não reclamou e me seguiu em silêncio, eu podia sentir os olhos dela cravados em mim apesar de não olhá-la.
O que eu havia feito?
Notas finais
Gostaram do primeiro beijo delas?
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