Simplesmente
30 Capítulo 30: Imprevisto
Notas iniciais
OBRIGADA RIVERA *OOO* sua recomendação foi linda t.t ~ps: eu adoro a naya c.c~
PoV Shay
Meu corpo estava largado na cama. Usava um pijama de flanela que estava todo abarrotado e um pouco sujo já que era a roupa que eu usei basicamente o final de semana inteiro. Abandonada. Foi exatamente assim que me senti e me deixei ficar na ausência de Ivy. Era como se não tivesse muita coisa para fazer além de acordar, comer qualquer bobeira da geladeira assistindo a um filme qualquer. Sabia que ela iria chegar ao final da tarde e havia programado o celular para despertar duas horas antes para que eu pudesse arrumar a nossa casa antes que ela chegasse e surtasse com a minha bagunça.
Sim, nossa casa! No final do meu primeiro semestre ali em Oxford aproveitamos a folga entre um período e outro para ajeitarmos um cantinho só nosso. Vivemos juntas desde então... E agora não faltava mais de dois meses para que conseguíssemos nossa graduação. O estágio de Ivy a fazia viajar quase sempre, algumas vezes alguns dias, outras uma semana inteira. Era o tempo em que eu mais descuidava de mim mesmo para deixar-me morrer de saudades de minha italiana. Dessa vez ela tinha ido para Amsterdã assistir uma conferência política importante, se me lembro bem de suas horas e mais horas falando disso haveria figuras internacionais importantes. Para ela era como uma bolsa de ouro para a área que ela queria seguir. Meu trabalho era mais simples, podia ficar horas em meu escritório sem sentir o tempo passar, apenas eu e meu material. Geralmente saia apenas quando sentia fome ou carência.
Escutei um som diferente quase me despertar do sono profundo em que estava, mas não me incomodei, virei o corpo e abracei o travesseiro de Ivy... Para depois ser acordada em um susto com a porta do quarto se abrindo com força, produzindo um estrondo quando bateu contra a parede.
-Shay Williams! Que bagunça infernal é essa?!
Meu corpo saltou da cama cambaleante por causa do sono interrompido, meus pés se enroscaram no lençol que estava jogado de qualquer jeito resultando em uma bela queda de bunda no chão. Gemi alto em dor, mas nem isso deixou minha noiva mais complacente. Ela estava realmente furiosa! Seus olhos me encaravam com raiva, seus lábios apertados quase formando uma linha como sempre fazia quando se controlava para não me xingar toda.
-Você voltou mais cedo! – exclamei em uma momentânea e ingênua felicidade, até lembrar que a cozinha tinha acumulado dois dias sem a louça lavada e que não tinha tirado a sujeira de nossa sala – Espera, você voltou mais cedo! Eu ia arrumar eu juro!
-Você não tem de arrumar as coisas para me agradar! – ela gritou como sempre fazia quando estava brigando comigo, seu sangue italiano a deixava bastante expressiva e sempre gesticulando dramaticamente – Quantas vezes eu tenho de dizer para deixar a casa arrumada?! Olhe pra isso! A toalha encharcada encima da cama!
Ela pegou a peça felpuda e realmente molhada e a jogou com força encima de mim. Desviar foi impossível pois ainda me encontrava enroscada no lençol. Aquelas brigas eram até comuns, nossas personalidades eram diferentes assim como nosso comportamento cotidiano. Se enquanto namorávamos o problema era superar a sociedade, depois que noivamos o nosso desafio era sobreviver uma a outra! Ivy era organizada, elegante, uma dona de casa dominadora e que protegia seu território com unhas e dentes, por assim dizer. Eu? Desleixada, bagunceira e que só fazia as coisas em último caso, porém era extremamente rígida com minhas coisas. E como elas sempre estavam em uma bagunça “organizada”, onde sempre achava as minhas coisas, Ivy se intrometia e tentava arrumar. Ai que eu não achava mais nada.
-Shay quantas vezes tenho de dizer que nossa casa pode receber visitas a qualquer momento?! – Ivy continuou a brigar, começando a andar de um lado para o outro, as vezes passando a mão na cabeça como se assim pudesse manter o controle – Eu tenho até medo de trazer meus amigos do estágio para cá e quando passar pela porta eles verem a casa nesse estado deplorável! Será que é tão difícil assim manter as coisas organizadas? É pedir demais por acaso?!
-Ah sim, trazer o Trevor para cá? – a provoquei sentindo uma ferida antiga que ainda me incomodava.
-O assunto não é esse! – ela gritou brava pelo desvio de tema – Eu já disse que tenho a situação sobre controle quanto a ele e o que aconteceu não vai se repetir.
O garoto era um novato no mesmo estágio que Ivy e ela ficou de orientá-lo. Acontece que ele caiu de amores pela minha italianinha, o que não era difícil de acontecer já que ela era apaixonante. Ele fazia tudo por ela, babava o chão que ela passava até que um dia ele a ajudou a trazer documentos para casa e se declarou para ela. Eu estava descendo as escadas na hora e quase o chutei para fora de casa. Apesar de nunca negarmos nosso compromisso não saiamos espalhando a nossa intimidade ao vento. Depois disso a levei para comprarmos alianças de noivado e a fiz nunca mais tirar, apesar de que o fiz da forma mais romântica possível ela notou que um dos motivos era para que todos vissem que ela era muito bem comprometida.
-Ragazza stupida! Olhe só, estou estressada novamente e a culpa é sua! Eu vou ter um ataque de nervos qualquer dia desses! – Ivy exclamava pondo a mão no peito em drama.
Porém eu sabia que era verdade. O final do curso, os relatórios e publicações estavam nos deixando a flor da pele. Ainda mais ela que lidava com relações humanas e tinha de ter uma delicadeza peculiar por se tratar geralmente de pessoas importantes. Ia falar algo, mas me senti culpada pelo meu desleixo. Provavelmente ela quis fazer uma surpresa voltando mais cedo e se deparou com uma das cenas que mais odiava: uma casa deixada ao leu. Entretanto ao observá-la melhor meu coração ficava cada vez mais disparado. Ela estava linda em uma roupa social com direito a um blazer feito sob medida, salto alto preto e o cabelo trançado, mas com algumas mechas rebeldes caindo na lateral de seu rosto. Seus olhos azuis que tanto me encantavam estavam vívidos, apesar de ser raiva de mim, se tornavam afiados e ameaçadores.
Ela continuou resmungando, ignorei e me desenrolei. Quando livre corri para seus braços e a agarrei com força, a surpreendendo quando a levantei do chão e a rodei no ar. Ivy me bateu e até mordeu para que eu a colocasse no chão, ri e gemi ao mesmo tempo a pousando e recebendo novos tapas enquanto minha boca ia de encontro dela em um verdadeiro beijo roubado.
-Eu senti tanta a sua falta! – falei realmente feliz, com um sorriso enorme que não seria retirado tão fácil – Desculpe pela bagunça, não vai acontecer novamente. Mas eu me sinto muito sozinha sem você, já disse isso, sem vontade de fazer quase nada. Você é minha vida esqueceu?
-Terá de ser menos depende Shay, sabe que eu vou viajar muito no futuro – Ivy avisou ainda fazendo bico zangado – Não justifica nada essa bagunça toda!
-Eu sei que não, por isso estou pedindo desculpas. Porque se a casa estivesse arrumada sei que você teria se jogado em minha cama gritando surpresa! – disse com certo pesar – Olha, tome um banho, um daqueles bem demorados. Eu vou tomar um no banheiro de baixo e arrumar tudo está bem?
-Eu não sei o que fazer com você! Lo giuro su Dio!
Sorri de lado e a beijei, dessa vez de um jeito mais calmo e profundo. Apesar dela demorar a corresponder ao que parece a saudade falou mais alto e ela se rendeu. Quase esqueci de meu propósito de ir arrumar a casa, mas Ivy logo me afastou e apontou o dedo para a porta como se ordenasse seu cachorrinho a sair do quarto. Suspirei exasperada e dei um último selinho antes de finalmente sair.
Foi só quando eu comecei a arrumar eu tive noção da bagunça que eu fiz. Não costumava exagerar tanto, mas ao que parecia aqueles dias havia ficado carente e sozinha o suficiente para me superar nisso. Tentei ser rápida apesar de saber que Ivy costumava demorar cerca de uma hora no banho era muita coisa para ser ajeitada! Assim que terminei a cozinha, ajeitei a sala e corri para o quintal para tirar uma das rosas do nosso jardim. Era uma ótima terapia parar de fazer as coisas que nos estressava em Oxford e nos dedicar àquele jardim. Voltei para o quarto, o ajeitei da melhor forma possível e coloquei as rosas sobre o travesseiro dela com um bilhete com um simples “Mi dispiace, ti amo.” escrito rapidamente. Peguei uma muda de roupa e fui tomar um banho rápido no banheiro do andar de baixo.
Nossa casa possuía apenas um andar superior, onde ficava nosso quarto e duas salas que transformamos em nossos escritórios. Espaços sagrados que uma mal ousava entrar no outro, apenas quando o meu estava bagunçado demais e Ivy insistia em se intrometer. Embaixo ficava a cozinha espaçosa, praticamente o reino de Ivy era ali já que a maioria das coisas foi ela quem comprou para fazer suas especialidades e até fazer algo novo por capricho. Nossa sala era menor, com apenas um sofá que ela trouxe do antigo apartamento dela por ser super confortável, uma TV de tela plana e um console de game que fiz questão de comprar. A sala de jantar era em conjunto com a cozinha, a mesa tinha espaço para cinco pessoas apenas. O nosso quintal era o nosso orgulho, o espaço verde ficou bastante bonito por causa do jardim e os bancos eram entalhados em uma bela madeira avermelhada. Apesar de ser relativamente simples para o dinheiro que ganhávamos nos estágios e trabalhos extras, estávamos economizando para o futuro.
Ivy havia mudado nisso. Apesar de ainda ser vaidosa e mimada com seus artigos, ela tinha uma noção financeira já que agora tudo saia de nossos bolsos. Eu tinha de mandar dinheiro para Sean, meu irmão não quis vir para Londres por estar finalmente se dando muito bem na escola, com uma namoradinha e tudo o mais. O deixei sobre cuidados de Alejandro e Brandon que o tratavam como um filho, então mensalmente tirava uma boa quantia de meu dinheiro para que Sean tivesse tudo o que queria. Eu a Ivy fomos aprendendo aos poucos o convívio de casal, sinceramente não é nada fácil. Como eu disse havia brigas e mais brigas, tinha vezes que ela me expulsava do quarto quando eu a irritava demais e orgulhosa ela não me deixava voltar até que sentisse saudades. Ai então eu fazia birra e drama o que fazia uma briga simples durar quase uma semana ou até nenhuma das duas aguentarem mais e a reconciliação era extremamente deliciosa. Tivemos de aprender a amar os defeitos uma da outra para sobreviver.
Quando terminei meu banho e me achei cheirosa o suficiente, voltei para o quarto. Ivy estava deitada na cama segurando as rosas que deixei com ela, acariciando a pétala da rosa vermelha distraidamente. Aproximei silenciosa, deitei ao seu lado e roubei a rosa branca de sua mão. Os olhos azuis me fitaram acusadores enquanto um sorriso teimoso brincava nos lábios dela.
-Você joga sujo, sabe que gosto dessas pequenas surpresas – ela acusou em um tom dengoso.
-Claro que sei, como acha que estou viva até hoje? Você já teria me matado há muito tempo atrás se não tivesse aprendido a te convencer que me ama mais do que quer me esfolar.
Ela riu gostosamente e me abraçou apertado. Deixamos as rosas de lado e ficamos ali, abraçadas na cama enquanto Ivy me contava como foi na Holanda, os lugares que conheceu com estagiários de outros lugares. Obviamente me certifiquei se houve flertes e ela até me provocou dizendo que uma espanhola não parava de olhar para seus seios que ainda eram tão perfeitos e avantajados quanto antes. Isso resultou em um ataque de beijos e cócegas até ela repetir três vezes que aqueles seios italianos eram apenas meus. Uma coisa foi levando a outra, aos poucos os beijos iam ficando mais intensos, cheio de saudades e com toques cada vez mais insinuantes. Mas quando comecei a levantar a blusa dela, Ivy me parou e afastou o corpo.
-Espera, aconteceu algo que eu preciso te contar – a italiana falou e sentou na cama.
A seriedade deixava seus ombros tensos. Imitei o seu ato de sentar e a olhei desconfiada. Ivy me olhava sem jeito, parecendo procurar as palavras enquanto me fitava de um jeito incerto. Isso tudo me deixava ainda mais apreensiva.
-Fale logo – pedi sentindo ansiedade.
-Conheci Antony Franzoi. Ele é uma figura importante da política italiana, trabalha na embaixada e tudo o mais – Ivy começou a explicar assumindo uma postura neutra, quase a que ela usava quando estava trabalhando ou apresentando algo – Estava em um almoço ontem com os outros e ele pediu pra se sentar conosco, eu não sabia quem ele era e no espirito que estávamos pensamos que fosse outro estagiário. O assunto era polêmico, direito das mulheres em cargos altos e o preconceito em geral. Eu e ele entramos em um debate muito difícil, o homem sabe mesmo argumentar, mas eu sou teimosa demais e continuei com meu ponto de vista... E isso pareceu impressioná-lo.
-E...? – perguntei quando ela começou a hesitar em continuar.
-Hoje bem cedo, assim que entrei no encerramento do evento ele me chamou e se apresentou formalmente. Levei um baita susto, mas não pedi desculpas por ter me alterado um pouco. Então... Bem, ele me fez uma oferta de emprego.
-Como assim?
-Eu fiz quase a mesma pergunta – ela sorriu amarelo – Mas era algo direto, ele queria que eu trabalhasse com ele em Roma. É um cargo em que eu passaria seis meses para ganhar experiência e depois algo mais definitivo.
-Roma? – repeti um pouco surpresa.
Não fazia parte de nossos planos nos mudarmos ainda. Iriamos terminar a graduação, tínhamos emprego garantido em nossos estágios e que daria uma ótima renda mensal. Só depois iriamos ver no que dava. Ivy mordeu o lábio e mexeu no cabelo, um sinal de que estava ficando nervosa.
-Ele ficou impressionado com meu discurso espontâneo no almoço e disse que era um tipo de proposta única. É mais ou menos como o Leonard fez com você... Mas dessa vez ele deu um prazo muito pequeno. Era coisa do tipo pegar ou largar, ele tinha de por meu nome nos escalados até amanhã. Fui pressionada a dar uma resposta imediata e... e...
Eu estava paralisada no lugar. O fato dela ter de decidir algo tão importante sozinha estava me deixando angustiada. O que ela teria feito? Iria me deixar? Iria para a sua terra natal? Como seria as coisas? Deus, porque estava tão insegura? Acho que o jeito como eu estava a deixou ainda mais sem jeito.
-Seria um emprego muito, muito bom. Entraria direto para o que eu quero, sem rodeios ou ter de ir pelas beiradas até conseguir o que eu quero, como acontece um pouco na política. É minha grande chance e...
-Você aceitou? – a cortei, meu tom saiu mais frio do que eu pensei.
-Não – ela murmurou e seus ombros caíram – Eu fiquei só pensando em você. Ele disse que teria de terminar a faculdade a distancia e me mudar em uma semana. Minha mente ficou muito confusa, a excitação pela proposta, o terror de me lembrar como foram dois anos longe de você. Deus eu nem estava aguentando um final de semana longe! Eu simplesmente não consegui decidir isso sozinha apesar de saber que seria provavelmente a melhor oportunidade de minha vida.
Eu estava paralisada. Ivy era do tipo obsessiva em seus objetivos. Fazia de tudo para ser a melhor de um jeito justo e realmente conseguia fazer algo brilhante. Seu temperamento deixava apenas um charme e chamava mais a atenção. E ela estava deixando aquilo tudo por mim, por não conseguir me deixar. Da mesma forma que ela se sentia confusa, eu estava naquele momento. Eu sabia que era bom para ela, mas só de pensar que ela iria partir em uma semana me deixava louca!
-E o seu estágio? O contrato? – perguntei em um fio de voz.
-Está para acabar – respondeu e buscou minha mão como se procurasse por segurança – Seria perfeito, mas eu não vou deixar você.
-Eu não conseguiria – comentei distante – Eu não conseguiria ir, meu contrato vai até o fim da universidade, iria sofrer no mínimo uma multa, mesmo tendo o Leonard do meu lado.
-Eu sei! Também pensei nisso! – Ivy apertou mais minha mão – Eu não iria sem você.
Mesmo com ela dizendo isso minha mente repetia as palavras “É minha grande chance”. Meu coração parecia se partir em pequenos fragmentos enquanto eu percebia o que tinha de fazer realmente. Levantei da cama quase que em um modo automático e olhei para o relógio. Era três da tarde, daria tempo para fazer tudo o que queria.
-Vou sair, me espere para o jantar – anunciei ainda em um modo desconhecido para mim.
-Para onde vai? Ficou chateada? Mas eu vou ficar Shay! – Ivy saltou da cama me agarrando por trás – Não fique brava comigo.
-Não estou – garanti, mas me soltei – Só preciso espairecer um pouco. Prometo que volto, só... Preciso sair.
Não olhei para trás, simplesmente sair do quarto sem dizer mais nada, porém podendo escutar soluços reprimidos atrás de mim. Ela estava chorando. Apesar de toda brava e valente, a Ivy era bastante sensível. Porém se eu voltasse, se eu a olhasse iria desistir de fazer o que era certo, então corri praticamente para fora, indo até a garagem para pegar o carro sedan que tínhamos comprado com certo sacrifício. Podia sentir meu corpo gelado por dentro, meu coração gritava para que eu não fizesse isso, que eu voltasse e agarrasse a mulher de minha vida sem me importar em ser egoísta. Mas eu não podia fazer isso, eu não queria esse tipo de prisão para ela.
Foi pensando nisso que eu dirigi até a mansão de Leonard. Assim que me identifiquei no portão as enormes grades de ferro se abriram e eu dirigi por mais alguns metros até parar em uma entrada majestosa. O homem era realmente poderoso e rico afinal de contas. Já tinha estado ali algumas vezes, até mesmo com Ivy do meu lado para comemorarmos o desfecho de nosso romance conturbado. Quem abriu a porta foi Morris, um mordomo inglês que lembrava muito o Alfred do Batman.
-Boa tarde, Srta. Williams – ele cumprimentou educado como sempre – O senhor a espera na sala principal queira me acompanhar, por favor.
Geralmente eu iria perturbá-lo por causa dessa formalidade toda, mas naquele momento nada passava em minha mente além do meu atual problema. Seguimos por um largo corredor até que o mordomo abrisse uma elegante porta de madeira negra e bem talhada. Aquela era a sala onde geralmente Leonard encontrava os seus visitantes, era ampla e cheia de acentos, além de um exótico tapete de cores vibrantes que ele disse ter comprado na Índia. Assim que entrei Leonard levantou de sua cadeira e veio me cumprimentar com um abraço apertado, desde que passamos a trabalhar juntos nossa relação foi ficando cada vez mais intima. Ele era como um pai que todo ser humano queria ter, gentil, atencioso e divertido. Notei que a sua esposa, Margareth, também estava ali e logo tratei de abraça-la.
-O que a trás para uma visita tão inesperada? – Margareth, ou Maggie, como preferia ser chamada, logo perguntou desconfiada.
-Estou com um problema enorme e não tenho com quem conversar direito sobre isso – não fiz rodeios.
-Brigou novamente com a Ivy? – Leonard tentou adivinhar, ele sempre dizia que quando estava de mal-humor queria dizer que estava brigada com minha italiana, o que era verdade.
-Pior que isso – revelei e suspirei alto – Vamos sentar, é uma história pequena, mas bem problemática.
Eles dois sentaram em um sofá e eu em outro logo a frente. Morris pediu licença e logo se retirou do aposento nos deixando a sós. Eu esfreguei minhas mãos procurando palavras para reproduzir a minha angustia. Era tão complicado!
-Ivy viajou recentemente para a Holanda – comecei a falar um pouco distante – De forma resumida, ela conseguiu um contato muito importante. Um cara que trabalha na embaixada italiana. Pelo que ela disse tiveram uma discussão calorosa que obviamente ela brilhou e chamou atenção. Então ele propôs um emprego para ela do tipo... Do tipo a melhor oferta que ela poderia receber em anos.
-Isso não seria algo bom? – Leonard questionou confuso.
-Ele exigiu uma resposta imediata. Ela teria de estar em uma semana em Roma para cumprir seis meses de experiência – expliquei sentindo meu estômago revirar.
-Ela aceitou? – Maggie tinha os olhos bem abertos quando me questionou, estava surpresa.
-Não. Disse que ficou muito feliz, mas começou a pensar em mim. Eu nunca poderia ir com ela, tenho o contrato do estágio que se estende até o fim da graduação. Ela não conseguiu me deixar.
Respirei fundo sentindo meus olhos lacrimejarem. Olhei um pouco para o alto tentando contê-las, não podia chorar, precisava ser forte para o que estava prestes a fazer. Meu pé batia freneticamente no chão denunciando o meu nervosismo, eles me deram um tempo para respirar e logo eu retornei a falar.
-Quais as chances que eu tenho em Roma? – perguntei encontrando minha voz.
-O que quer dizer? – Leonard indagou.
-Que assim que terminar a universidade vou para Roma. Ivy tem de ir agora, ela não vai perder essa chance por minha causa. Mas eu preciso ter certeza de que estarei lá daqui a três meses ou até antes se conseguir adiantar algumas coisas – contei o meu plano – Por mais que me doa, eu não posso ser responsável por prendê-la a mim e faze-la perder uma chance dessas.
-Seria complicado remanejar você dentro da rede. Ao menos de inicio levaria um bom tempo e a burocracia é muita – Leonard inclinou em minha direção e me olhou confiante – Mas Shay, você faz uma arte muito bonita e significativa, a sua visão espacial e de mundo faz com que seus desenhos de arquitetura sejam como ouro. Você conseguiria um bom emprego em qualquer lugar. Além é claro de uma carta de recomendação feita diretamente por mim. É uma perda muito imensa para a Dodgers, mas é uma saída e você um dia voltará até mesmo com uma experiência melhor. Ainda acho que será minha sócia um dia.
Eu não consegui aguentar mais as lágrimas. A confiança dele em minha capacidade me abalou profundamente. Primeiro porque eu sempre fui esforçada, mas como era muito sozinha na adolescência era pouco elogiada. Leonard era o homem que eu mais admirei nessa vida, tanto em personalidade quanto como meu chefe. Se ele dizia que eu iria conseguir, quem era eu para questioná-lo? O problema mesmo era pensar que Ivy teria de ir embora dali a uma semana, que passaríamos novamente um tempo longo sem nos ver. Porém naquele conflito interno uma ideia cruzou minha mente como em um raio.
-Posso pedir um favor estranho? – pedi com os olhos brilhando.
-Diga criança – Maggie confirmou com carinho em seu tom.
-Vocês tem uma casa na França não é? – perguntei hesitante.
-Sim, nossa casa de férias – Leonard confirmou curioso, franzindo o cenho e me fitando intensamente – O que está planejando?
-Em sequestrar minha noiva – respondi sorrindo verdadeira pela primeira vez – Vou fazer ela se casar comigo antes de viajar!
Notas finais
PS: acho que to ficando dodói ;.; então qualquer erro eu peço imensas desculpas >
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