Simplesmente
25 Capítulo 25: Redação
Notas iniciais
Pov Ivy
Era meu aniversário. Lembro-me remotamente de uma época em que esta data seria comemorada com uma grande festa, com direito a adolescentes idiotas e bêbados, além de uma enorme bagunça. Mas agora? Meus 20 anos apenas anunciavam que aos 18 eu estava exatamente onde eu queria, porém agora tudo o que me restava era uma determinação de sobreviver. Nada mais que isso. Os anos me fez amadurecer e virar uma mulher séria e comprometida com os estudos e estágio na universidade. Tudo o que foi possível para me tornar independente de meus pais eu conquistei. Era a única forma que encontrei para que quando eu a reencontrasse e pudesse voltar para minha casa eles não pudessem reclamar. Não me importava mais em ser deserdada ou excluída de minha família. Bastou os primeiros meses de separação para entender que estaria bem apenas ao lado de Shay.
Agora morava sozinha em um apartamento perto do campus da Oxford. Era um lugar menor do que teria escolhido alguns anos atrás, com apenas dois quartos para quando Fred viesse me visitar, uma sala de estar ampla, cozinha e sala de jantar. O que mais me encantava, entretanto, era a sacada de meu quarto que era dotada de uma visão da cidade de Londres. Morava no ultimo andar de um prédio de 20 andares, sendo a maior parte dele composto por estudantes universitários. Então não foi de se estranhar quando cheguei na recepção encontrar meus amigos me esperando agrupados e bem agasalhados para enfrentar o frio londrino.
-A italiana chegou! – gritou Gerrad, um moreno de quase dois metros de altura.
-Congratulazioni a te! Congratulazioni a te! – eles cantaram parabéns para você em um italiano muito mal pronunciado, mas que mesmo assim me fez rir.
-Não precisava disso – fingir reclamar.
A primeira a me abraçar foi Karen, uma garota baixinha de cabelos castanhos encaracolados, ela estava estudando direito, porém um semestre abaixo do meu. Era definitivamente a minha melhor amiga atualmente, já que Lindsey estava do outro lado do continente estudando e com três namorados. Sim, três namorados! Depois veio Benjamin, um garoto irlandês de uma animação e espírito sem igual, era o mais divertido do grupo e alguém que eu queria manter perto para distrair minha mente de problemas. Ele cursava Relações Internacionais, mas morava no quarto andar do prédio. E por último Gerrad, um nativo inglês de cabelos e olhos negros, queixo quadrado e aparência impecável. Era elegante, educado e um dos maiores festeiros que eu já conheci.
-Espero que esteja pronta para a festa à noite! – Gerrad exclamou com autoridade e sotaque britânico carregado.
-Você sabe que eu não quero festa! – protestei e fiz beicinho contrariado.
-Vamos para o Sunset Pub, o seu favorito – Karen explicou e deu seu melhor sorriso chantagista – Precisamos comemorar também o fim da maratona de provas, só unimos o útil ao agradável. Não nos decepcione!
-Portanto, você não tem nenhuma escolha – Benjamin completou finalizando aquela discussão.
Revirei os olhos dando-me por vencida. Seguimos para fora onde Gerrad me daria carona enquanto Karen iria fazer companhia a Benjamin. O caminho era pequeno, mas o orgulho daqueles garotos em mostrar seus carros esportivos era tão grande que nem mesmo o valor da gasolina parecia aplacar o exibicionismo. Ao chegarmos no campus Gerrad segurou meu braço me impedindo de abrir a porta para sair, inclinou um pouco e pegou de dentro do porta luvas um estojo preto.
-Seu presente – ele explicou com um sorriso charmoso.
-Não precisava Gerrad, você sabe que eu não ligo para meu aniversário – disse um pouco incomodada.
Gerrad sempre mostrou indícios de gostar romanticamente de mim. Não mentirei dizendo que por vezes brinquei com isso quando estava alterada por causa da bebida, era divertido saber que eu ainda tinha o poder sobre os outros apesar de meu coração pertencer a alguém.
-Não aceitarei de volta, é um presente – ele argumentou calmamente.
Resmunguei baixinho e aceitei o presente. Quando o abri meu fôlego perdeu-se por um momento. Ali estava um colar de corrente de prata, mas com um pingente em forma de coração feito de diamante, era pequeno e discreto, porém sabia ter custado um valor alto.
-Gerrad... – comecei o meu protesto.
-Não diga nada. É apenas um presente. Simples até para o que eu realmente queria te dar, mas achei que seria um bom jeito de dizer que talvez esteja na hora de você mudar o seu colar.
Engoli em seco e automaticamente minha mão foi até a minha blusa, pegando o anel pendurado por uma corrente de prata desgastada. Raramente eu tirava o anel de compromisso de Shay do pescoço. Depois de um ano ali em Oxford cheguei a passar uma semana sem usá-lo, porém a sensação que eu tinha era de estar nua e com tanto frio que não poderia ficar nunca sem aquele acessório. Era uma das poucas coisas que tinha dela comigo. Meu pai havia levado meu celular, notebook, revistado meu quarto levando todas as nossas fotos juntas. Tinha restado apenas o anel e o MP4 que ela me deu de presente com gravações que até hoje escuto.
-Sei que foi um grande amor, Ivy – Gerrad começou a falar baixo, com aquela voz grossa e sensual – Sei que ainda sente algo por essa garota. Mas você não pode ficar parada no tempo, é uma garota linda e incrível, merece ser feliz no presente... E não presa ao passado.
Apertei com mais força o anel. Com tantas pessoas ao meu redor foi fácil algumas vezes esquecer o verdadeiro motivo de estar ali. Mas em algum momento do dia a saudade preenchia meu peito com uma força tão esmagadora que era difícil manter-me em pé. Com o tempo fui aprendendo a conviver com a sensação, mesmo que ela nunca fosse realmente embora. Encarei ao Gerrad imaginando como seria namorá-lo. Ele era leal, divertido e ao mesmo tempo sério com seus compromissos. Era definitivamente bonito e conquistador com seu sorriso. E enquanto o fitava o vi aproximar-se evidentemente inclinando para beijar meus lábios. Por um momento pensei “porque não?”. Mas logo meu coração tratou de lembrar: “Porque ele não é a Shay”. Virei meu rosto no último segundo, recebendo um beijo em minha bochecha.
-Poderia dizer sim a você, durar um mês ou dois. Mas no fim é nela em que estarei pensando Gerrard. É um amor que não consigo esquecer ou superar. Sinto muito. – disse em conseguir nem ao menos olhá-lo nos olhos.
Sai do carro e respirei aquele ar gélido da Inglaterra tentando oxigenar meu cérebro. Tudo o que eu menos precisava era de confusão de sentimentos. Segui caminhando para a minha turma de um jeito quase distraído até que esbarrei com força com alguém, deixando todo o meu material e bolsa caírem. Resmunguei irritada e logo abaixei o meu corpo para pegar minhas coisas antes que meus papeis importantes voassem pelo campus. A pessoa baixou-se e eu lancei um olhar zangado. Era aparentemente uma garota, não saberia definir por suas roupas. Usava um casaco com capuz que cobria seu rosto, calça um pouco folgada e tênis. Porém ainda assim havia algo... Ela entregou minha bolsa e partiu sem dizer nada. Era só o que me faltava, além de esbarrar em mim não pediu nem desculpas! Segui agitada até a minha aula, forçando cumprimentos por ter meu humor abalado. Primeiro Gerrard, depois essa bagunça de esbarrão.
-Por favor turma, peguem seus módulos! – exclamou o professor animado – Continuaremos sobre a psicologia jurídica...
Abri minha bolsa e comecei a remexer até encontrar um envelope estranho. Franzi o cenho e o peguei. Não havia nada escrito e estava colado com um adesivo de raio. Ainda estranhando o abri e descobri que havia apenas um papel ali dentro, o peguei e quando o desdobrei meu coração falhou várias batidas. Poderia ter uma parada a qualquer momento enquanto lia o cabeçalho do colégio Lyon. Onde havia o espaço para o nome do aluno ali estava escrito: Shay Williams. Com as mãos trêmulas li que era um papel de redação e logo como título em letras de forma e centralizado estava escrito: “Redação Obrigatória sobre a Italianinha”.
Minhas memórias foram ativadas prontamente. Afinal de contas eu e Shay não havíamos passado a nos relacionar por causa da redação que a diretora havia nos mandado fazer uma da outra? Uma tentativa de nos fazer parar de brigar e nos conhecermos... Pus a mão sobre a boca e esqueci completamente do mundo ao meu redor, coloquei o papel sobre a mesa por não conseguir ler com minha mão tão trêmula. Aquela letra era indiscutivelmente a de Shay, havia trocado tantos bilhetinhos na aula com ela que nunca esqueceria aquelas letras desleixadas e nada femininas:
“De uma forma naturalmente forçada pela senhora diretora aqui estou para escrever sobre essa garota. Ivy é uma garota mimada, egoísta, consumista e popular. Acrescento metida, pois ela se vangloria por seus seios grandes e poder de conquista. Nada contra os seios, são lindos e deliciosos. Coisa que descobri muito depois. Inicialmente eu a odiava, essa prepotência e sua mania de meter-se em minha vida só por não estar dentro de suas regras irritava-me como nunca qualquer outra coisa conseguiu. Mas então ela descobriu um pouco mais sobre mim e se viu presa a uma verdadeira novela que costumo chamar de minha vida.
Sempre fui atraída pela italiana, mas apesar de enlouquecida pelas suas atitudes, bastou um pouco de contato civilizado para que essa atração começasse a crescer de uma forma descontrolada. Em nosso primeiro beijo, a beira da piscina, descobri que não haveria sincronia mais perfeita do que aquela. Aquele foi o fim de anos de briga para o inicio de uma história cheias de controvérsias. Mas esta redação não tem como finalidade contar o que aconteceu, mas sim sobre como descobrir e aprendi a amar essa garota.
Ivy é protetora, carinhosa, manhosa e cuidadosa. Sabe cozinhar e orgulha-se toda vez que prepara algo para alguém e este a elogia até que seu sorriso seja impossível de crescer mais. Foi a primeira pessoa a dizer que cuidaria de mim de verdade, a abraçar-me com força para que eu não fugisse. Enquanto a tivesse do meu lado eu sentia como se pudesse conquistar o mundo. Ela também é ciumenta e briguenta, chega a discutir por coisas bestas e infantis, mas nada que um bom e forte beijo não resolvesse, seguido de um verdadeiro “eu te amo” dito olhando em seus olhos. Por falar em olhos, os dela são os mais bonitos que eu já vi, é olhando para eles que descubro o que ela realmente está sentindo e quando ela me olha como se quisesse dizer o quanto me amava eu perdia-me por completo dentro deles.
Ela me tornou dependente de seu sorriso, de seu cheiro, de seus beijos. Eu a amo como nunca amei a alguém ou pensei amar um dia. Não sei mais o que ela sente por mim, passamos dois anos sem ter contato algum, mas agora tudo o que eu posso fazer é agradecer a Deus por ela está comemorando mais um ano de vida. Queria ser uma mosca só para ver a sua reação ao ler esta redação Ivy, pense o que quiser, essa é a brincadeira.
Feliz aniversário.
Algumas coisas podem ser realmente eternas como uma tempestade.”
Como? Como isso era possível? Como esta redação poderia estar em minha bolsa? Minha mente estava confusa, eu não percebia que chorava até sentir falta de ar. Shay, minha Shay, estava ali, naquela carta!
-Ivy, você está bem? – perguntou o professor agachado a minha frente. Ao que parecia todos olhavam para mim surpresos e alguns preocupados – Está se sentindo bem?
-E-eu... – gaguejei sem nem ao menos conseguir pensar – Eu vou sair, não estou bem. Desculpe.
Peguei minhas coisas e sai correndo dali. Precisava ficar só, precisava pensar e chorar toda a dor da saudade. Prontamente liguei para Karen e mandei ela me encontrar no jardim da universidade, ficava na parte detrás onde poderíamos conversar em paz. Estava andando de um lado para o outro, agitada e relendo tantas vezes fosse possível.
-Ivy? – Karen me chamou – O que aconteceu? Você estava chorando?!
-Olhe! Eu não estou louca – entreguei a redação para ela – É da Shay, eu tenho certeza!
Meus amigos sabiam da Shay, foi uma das primeiras perguntas íntimas que eles me fizeram depois de meses de convívio. Eu era conhecida por minha beleza e seriedade, mas principalmente por não namorar ou flertar com ninguém. Karen lia rapidamente e ficava tão surpresa quanto eu.
-Mas como isso é possível? Onde encontrou? – Karen questionou.
-Na minha bolsa. Eu não entendo. Não é possível! – eu tentava pensar, mas era impossível.
-Quando se afastou de sua bolsa? Como alguém teria acesso a ela? – Karen perguntava e gesticulava – Ela não é mutante ou ninja, deve ter alguma explicação!
-Espere! Espere! O esbarrão! Hoje antes da aula alguém esbarrou em mim derrubando tudo. Não vi seu rosto, o capuz do casaco tampou tudo. Só pode... Só pode...
-Era ela?!
Eu senti minhas pernas tremerem fortemente. Teria sido ela? Teria Shay ter estado tão perto de mim e eu não ter visto. Karen veio a tempo de me segurar e me ajudar a sentar no gramado ou eu teria simplesmente caído. Como ela pode ter chegado tão perto e não ter falado nada? Se pronunciado? Mas teria sido mesmo ela? Ou alguém mandado por ela? Então como descobriu onde eu estava? Ah eu iria enlouquecer! Karen precisou de meia-hora para me acalmar e convencer a voltar para o apartamento.
Meu impulso era de sair procurando Shay por todos os cantos de Oxford, mas minha razão dizia-me que era impossível. Desabei em minha cama assim que cheguei ao meu apartamento, peguei o MP4 e fiquei relendo todas às vezes possíveis a redação ao mesmo tempo em que escutava Shay cantando as músicas que cantou pensando em mim. Era como uma sensação masoquista, pois estava me machucando por algo que não sabia ser real. Mas no fundo algo mais forte crescia dentro de mim de uma forma incontrolável e indomável.
Eu estava criando esperanças.
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