Simplesmente
8 Capítulo 8: Quando o medo fala mais alto
Notas iniciais
Pov Shay
-A italiana da Shay é muito linda, você viu Brandon? – Alejandro comentou enquanto enxia o copo com cerveja.
Revirei meus olhos. Não era minha... Ainda. Não propriamente dito. Era finalmente tarde de domingo. Sean que havia dormido na casa de um amigo já havia chegado e como ninguém havia almoçado em plena duas da tarde, havíamos migrado para a casa de Ale e Brandon para comer um churrasco improvisado no quintal.
-Eles estão falando da Ivy? – Sean perguntou me olhando com um sorriso – Eu gosto dela! Ela foi lá à escola e fez os professores tremerem na base!
-Ela já está defendendo a namorada, que bonitinho – Brandon provocou já rindo.
-Ela não é minha namorada! Ainda... Mas não é. Acho que... sei lá, acho que estamos ficando – tentei explicar.
Mal havia acabado de falar e meu celular vibrou, era uma mensagem de Ivy: “Acabei de chegar em casa, já acordou?”. Sorri de lado e quando escutei o riso zombeteiro de Brandon mostrei a língua para ele, mas mesmo assim respondi: “Sim, estou em um churrasco improvisado na casa do Ale”. Botei meu celular sobre a mesa de plástico e continuei meu jogo de caça-palavras com o Sean, ele era um garoto do tipo que gostava de fazer tudo, contanto que estivesse fazendo algo. Brandon chegou com alguns pedaços de carne e tentou bagunçar meu cabelo, mas logo se afastou quando eu o ameacei com o garfo. Sean mal segurava os risos. Meu celular novamente vibrou e eu rapidamente o peguei para ver a mensagem de Ivy: “Quero te ligar”. Sorri de lado e dei a desculpa de que ia para a cozinha, mas provavelmente ninguém acreditou em mim. Enviei uma mensagem com um simples “me ligue” e não se completou um minuto para meu celular tocar.
-Buon pomeriggio! – Ivy me cumprimentou animada e logo traduziu – Boa tarde.
-Buon pomeriggio para você também – brinquei me encostando à mesa da cozinha – Conseguiu dormir?
-Nem um pouco, Lindsay tentou tirar de mim cada detalhe – ela suspirou exasperada – Às vezes lamento ter uma amiga tão curiosa.
-Ah, contou a ela que me devorou até que eu perdesse o controle? – provoquei em um tom mais baixo.
-Non! Certo che no! – ela respondeu rápida – Io não fiz isso!
-Ah, então só mordeu e chupou minha língua até eu me render? – continuei provocando sem pudor algum.
-Ragazza stupida! Io non estava no meu normal! – Ivy tentou se defender – Para de se gabar!
-Não consigo, ainda sinto seu gosto em minha boca, italiana. E é muito bom. Sinto falta de seu cheiro até. Ele é muito gostoso, já disse isso?
-Isso é assedio por telefone.
-Quando eu estiver te assediando, você vai saber.
-Io to com vontade de te bater e beijar, isso é normal?
-Não sei, mas acho divertido. Opa, estão me chamando aqui, mais tarde a gente conversa ok? Ou nos vemos amanhã na Lyon.
-Va benne. Cuide-se ok? Até amanhã.
Despedi-me e sorri boba enquanto voltava para o quintal. Eles não paravam de me perturbar sobre a minha italiana. Mas eu já não me importava, gostava de como isso soava. Por mais que ela fosse irritante, de pavio curto... Ivy não precisou me beijar para gostar de mim, ou pensar duas vezes em me defender. O churrasco perdurou até o inicio da noite, não tínhamos nada para fazer ou com no que nos preocupar. Foi um verdadeiro tempo em família, mesmo que não tivéssemos ligação sanguínea.
Durante a noite ajudei Sean com o dever de casa e revisei alguns assuntos. Eu gostava disso porque me lembrava de pequenos detalhes que por vezes esquecemos por não usarmos mais. Mantinha minha mente ativa e pronta para qualquer resposta. Era perto da meia noite quando fui deitar para dormir, porém meu celular tocou anunciando mensagem. Ivy mandava um boa noite simples, mas que me dizia que ela estava pensando em mim antes de ir. Respondi que também já estava deitada e outro boa noite, ela ainda brincou mandando eu não me atrasar para a aula.
E realmente não me atrasei. Dessa vez tinha um motivo a mais para chegar no horário. Quanto mais cedo chegasse, maior minhas chances de ver Ivy antes das aulas começarem. Porém, ela havia demorado a entrar na aula de biologia, outra aula que tínhamos em comum. Assim que ela me viu a italiana parou, sorriu e desviou um pouco sem graça, mas logo tornando a me olhar. Lindsay vinha logo depois e a turma dela logo se fechou ao seu redor. Certas coisas nem eu e nem ela podíamos mudar. Apesar de meu desejo fosse de ficar ao lado dela o tempo todo, a semana se passou assim. Troca de olhares, mensagens, ligações. Ela continuava mimada, por vezes fazendo birra por me querer perto e não ter, chegando a ser um pouco chata, mas eu era paciente. Achava uma graça quando ela me perguntava quantas deram encima de mim no trabalho. A acusava de ciumenta e ela apenas desconversava e dizia que era apenas curiosidade, além de ficar brava caso eu continuasse. E claro, eu continuava.
Era finalmente sexta-feira e já estávamos no almoço. Daquela vez estava almoçando sozinha porque estava aproveitando para estudar. A semana havia passado rapidamente e eu mal via tempo para ter o meu fim de semana. Não havia trabalho nem no sábado nem domingo, estava pensando em sair com a Ivy para qualquer lugar onde ninguém fosse me atrapalhar.
-Não Luke! Devolva meu celular!
O grito de Ivy me fez saltar da cadeira e busca-la. Ela saltitava para pegar o celular da mão de Luke que ria feito um babaca. Ele esticava o aparelho para o alto e ameaçava lê-lo. Meu corpo gelou por alguns momentos. O celular dela devia estar cheios de mensagem para mim e eu não era nada discreta. O que aconteceria se todos descobrissem que ela estava ficando comigo? Ivy não suportaria tanta humilhação, eu tinha certeza disso! Então eu agi por puro impulso, peguei meu copo com refrigerante, me aproximei e assim que pude joguei na cara de Luke com um prazer escondido.
-Ela mandou devolver o celular – falei fria e com uma falsa calma.
-O que... Shay! Você vai pagar por isso! Já estou farto de você sua vadia lésbica!
Ele saltou para cima de mim e eu o soquei com toda a minha força, driblei de um soco dele abaixando o corpo e logo aplicando um gancho. Havia coisas que se aprendia quando se estava sozinha. Uma delas era lutar com pessoas muito maiores do que você. Quando peguei o celular, joguei para Lindsay, ela estava mais perto. E isso foi o meu erro. Consegui salvar o celular, mas não a mim mesma. Luke se jogou com tudo sobre mim, me derrubando no chão e me esmagando. Pior do que isso, ele ria de um jeito amedrontador, segurou meu rosto com força e juntou os lábios sobre os meus, me beijando a força e de forma brutal. O asco que eu senti foi indescritível. Mordi o lábio dele com tanta força que senti o sabor de sangue, ele gritou e tentou se afastar, mas por mim eu rasgaria a boca daquele garoto estúpido! Henry apareceu e o puxou de cima de mim e quando tentei me levantar, sentir a dor abraçar meu corpo novamente.
-O que está acontecendo aqui?! – A Sra. Moore finalmente havia chegado.
Obviamente foi uma confusão de inicio. Ivy e Lindsay me ajudaram a me levantar. Ivy estava muito séria e brava, mas era o seu silêncio que me preocupava. Elas me levaram até a diretoria, eu havia dito que estava bem e não precisaria ir a enfermara. Era apenas dor muscular e uma vontade imensa de escovar minha boca com álcool. Lá dentro, Lindsay serviu como testemunha para tudo. Não me atrevi a falar nada, eu tremia de medo por dentro do que fosse acontecer comigo.
-Você está sendo injusta diretora! Só porque ela é uma bolsista! – ralhou Luke ao escutar que seria suspenso por uma semana.
-Está sendo suspenso depois de três advertências! – a Diretora foi irredutível – E pelo que saiba causou danos a Srta. Lazinni e um caos no refeitório. Mais uma vez! Saia daqui antes que eu tenha de chamar seu pai.
Luke teve de engolir aqui, o garoto saiu revoltado. Lindsay também foi dispensada e restava apenas eu e Ivy. A diretora olhava de uma para outra, ambas em silêncio. Porém, quando a diretora finalmente ia abrir a boca, Ivy explodiu.
-Sua stupida! – ela levantou da cadeira quase gritando, apontando o dedo para mim – Está louca? Pazza?! Você poderia ter se machucado seriamente! Pior, poderia ter sua ficha manchada! Io não acredito que fez uma idiotice dessas!
-O que? Eu estava tentando proteger você! Ele pegou seu celular, se visse o que estava ali dentro, o que acha que iria acontecer? Quer ter uma vida assim? – não consegui segurar a raiva mais, me levantando também – Eu não pensei está bem? Só quis proteger você, italianinha! Eu posso aguentar qualquer humilhação, cresci ouvindo essas coisas, aprendi a ser forte com elas. Mas você não!
-Chega vocês duas, sentem-se!
Agora eu entendia quando Ivy dizia que queria me bater e me beijar ao mesmo tempo. Sentia esse sentimento consumindo-me por dentro, meu rosto vermelho de raiva, mas ao mesmo tempo querendo proteger a italiana. Sentei quase me jogando, o que foi meu erro. Fiz uma careta de dor e desviei o olhar do de Ivy que estavam agora preocupados. A diretora respirou profundamente e juntou as mãos sobre a mesa.
-Shay, nada constará em sua ficha. Foi em autodefesa podemos usar o preconceito de Luke contra ele – a diretora começou a falar e então sorriu – Como vai a redação de vocês?
Eu olhei para Ivy um pouco em choque.
-Eu esqueci que era para escrever!
-Io também! Quanto tempo falta diretora?!
-Nenhum – A diretora finalmente suspirou aliviada – Foi só um meio de fazerem as duas se entenderem. E pelo visto deu muito bem não é?
Ficamos em silêncio. Eu queria dizer bem demais, mas a Sra. Moore pareceu entender e logo fez um movimento de mão para que saíssemos, mas mandando que Ivy me levasse à enfermaria só para ter certeza de que estava tudo bem. Caminhamos em silêncio e em silêncio ficamos até a enfermeira começar a fazer perguntas de onde doía e tudo o mais.
-Tudo o que eu preciso é limpar a boca – falei com cara de nojo – Deus, porque não me permitiu arrancar fora a boca daquele garoto?
Só então Ivy riu um pouco. A olhei um pouco mais relaxada e ela respirou fundo, aproximando e pegando a minha mão. Que praticamente esmaguei quando a enfermeira teve de passar uma pomada para dores musculares em minha cintura. Porém foi assim que ela descobriu que eu tinha uma tatuagem na lateral de minha cintura. Uma rosa com um ramo artístico.
-É linda – Ivy murmurou quando a viu.
-Sim, é muito linda – a enfermeira comentou, mas olhando para mim.
-Io acho que já esta bom – Ivy a cortou seca.
-Sim, fique de descanso Shay, estará livre daqui trinta minutos – a enfermeira riu baixo e se afastou.
Deitei na cama da enfermaria e olhei para Ivy com ciúme ainda. Deus, eu havia arriscado praticamente tudo por causa dela. Foi como um instinto tão poderoso! Segurei na mão dela e a puxei para perto. Ela logo se aproximou e sentou na cadeira ao lado da cama. Ficamos ali, de mãos dadas e em um silêncio agora reconfortante.
-Onde aprendeu a lutar? – Ivy finalmente perguntou.
-Bem... É meio complicado. Você não sabe da história completa – me encolhi só de lembrar tudo.
-Ainda há mais? – ela me olhou surpresa.
-Claro que há. Nada é fácil quando se trata de mim. Bem, vou tentar resumir. Quando era pequena fui deixada em um abrigo para crianças, meio que abandonada mesmo. Uma família me adotou, mas apenas para manter o dinheiro do governo. Porém às vezes passa uma assistente social e eles acharam que seria bonito no papel dizer que eu fazia algum esporte. De escolha logo de cara peguei um de luta. Precisava ser forte e estava cansada de apanhar. Mas isso também foi bom para aprender ter autocontrole e canalizar minha raiva.
-Mas... Onde eles estão?
-Não faço ideia e não quero saber. Quando disse que queria ficar só, me emanciparam aos 15 e aos 16 consegui minha casa própria. Foi só isso, a casa. Eu cuidaria das contas, comida, manutenção e eles continuam recebendo o dinheiro do governo.
-E ainda mais o Sean... Mio Dio!
-Hey... Eu aguento. Não se preocupe.
-Vai para o inferno! Claro que você não aguenta! – Ivy estava realmente zangada, mais do que antes – Será que só você não percebe? Você protege a todos. Menos a você mesma! Você sofre em silêncio, fica forte em silêncio. Mas você ainda é humana e por Dio, é a pessoa mais forte que conheço, isso quer dizer que também é a mais frágil!
Eu a olhei sem ar. Era como se ela tocasse em uma ferida tão antiga e profunda que ao mesmo tempo em que doía ela jogava um bálsamo. Como ela havia percebido tudo aquilo em tão pouco tempo? Ivy segurou meu rosto com ambas as mãos e me fitou séria. Eu deveria sentir um alívio por alguém me compreender e me decifrar. Mas o que tomou conta de meu ser com uma força violenta foi o medo. Medo de ficar frágil, de não saber o que viria depois, medo dessa sensação que estava sentindo e não sabia controlar. E perder o controle era a última coisa que eu poderia fazer. Não, não, não! E a culpa era daquela italiana, o que ela sabia da vida? Dizer apenas algumas palavras bonitas no momento certo sem saber que isso me amedrontava? Quem ela pensava que era para invadir minha vida dessa forma? Eu não estava preparada para ser desvendada desse jeito. Então a pior coisa aconteceu, eu me fechei completamente por dentro.
-Eu vou proteger você – ela falou em tom baixo, mas completamente determinado – E nem você vai me impedir isso. Vou cuidar, vou beijar, vou abraçar, vou deixar você chorar.
-Você não sabe o que está dizendo Ivy – neguei com a cabeça, sentindo lágrimas vindo aos meus olhos, era tão difícil lutar com elas naquele momento – Não sabe de nada sobre mim.
-Não? Acabou de me contar tudo.
-E disse que sei aguentar as coisas! Eu não preciso de você!
-Cale a boca, stupida! – ela brigou zangada – Io não vou sair de seu lado até que perceba que precisa de mim.
-Não seja convencida. Você beija bem, é gentil e tudo o mais. Mas não passa disso. Não tem como passar. Você é só uma garota mimada que está vendo algo quebrado e resolveu concertar. Mas eu não sou um brinquedo que tem concerto. Sei lidar com minhas cicatrizes enquanto você não tem nenhuma. Saberia lidar com alguém assim?
Eu a estava magoando. Sentia isso a cada palavra que soltava com raiva. Eu tremia, mas tremia de medo. Tentava parar, mas não conseguia. Queria ela longe, bem longe, por ter me exposto daquela maneira. Não queria ser frágil, não podia! E Ivy estava me fazendo ser assim, me abrir tão fácil em tão pouco tempo.
-Io agora tenho uma ferida – ela falou com raiva contida, mas não conseguia conter as lágrimas – Você está sendo idiota! Vai se arrepender disso.
-Saia daqui – eu implorei lutando com meu próprio choro – Eu não quero você. Eu não quero isso. Eu. Não. Quero.
Ao que parecia, aquela havia sido a magoa final. Só quando vi Ivy indo embora que eu realmente chorei. Chorei pelo que havia feito, pelo que eu era. Por estar deixando ir a única pessoa que quis cuidar de mim de um jeito especial. Mas minha voz morria na garganta. Eu não tinha coragem para me enfrentar. Não quando o assunto era eu mesma.
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