Simplesmente
36 Capítulo 36: Apenas um dia.
Notas iniciais
Pov Shay
10 anos depois.
O transito estava terrível e o tempo parecia imperdoável, eu sabia que já estava atrasada, mas como tudo poderia parecer complicar ainda mais a minha situação? Eu podia facilmente imaginar o rostinho emburrado dela e o jeito chateado que a deixava ainda mais fofa. Ainda assim exigiria de mim toda a chantagem possível para poder ter pelo menos um sorriso dela. Buzinei impaciente, porque aqueles carros simplesmente não andavam?!
O resultado disso foi que quando estacionei o carro enfrente a escola ela já esperava lá, de braços cruzados e olhar entediado pela espera. Tudo bem, estava atrasada quase uma hora então eu iria merecer toda a raiva dela. Respirei fundo e tomei coragem para sair do carro e me aproximar de um jeito até mesmo desleixado.
-Se eu pedir desculpas vai me perdoar? – perguntei hesitante.
-Não! Eu to com fome, mamãe!
Ela partiu em disparada para o carro me ignorando. Definitivamente ela havia puxado esse lado charmoso e briguento da Ivy. Sorri de lado e balancei a cabeça, de uma coisa eu tinha certeza: aquelas duas juntas eram a perdição de minha vida. Corri para o carro e tentei ignorar o jeito emburrado dela, mas não dava para não dizer que aquele bico era idêntico ao da Ivy. Aquela garotinha de cabelos claros e rebeldes era a nossa filha mais velha, Alexia, e estava no auge de seus sete anos de pura birra e mimos.
Foi uma das decisões mais difíceis e complicadas que tivemos. Depois de dois anos casadas veio aquele desejo de ser mães. Passamos meses para decidir se seria por doação ou inseminação artificial. No fim sabia que Ivy seria a carregar o bebê por nove meses, afinal de contas ela que foi criada para ser a esposa e mãe moderna perfeita, enquanto eu simplesmente sobrevivia. Porém o pior veio com a burocracia jurídica, conseguir por em cartório que uma criança teria duas mães e um pai que não teria direito nenhum sobre a filha. Foi um processo longo que valeu a pena quando Alexia nasceu. Eu ainda me lembrava do dia em que a bolsa de Ivy estourou e eu tive de dirigir feito uma louca para o hospital, aparentemente mais desesperada que minha própria mulher. Não tinha saído um segundo sequer de seu lado, apesar de ter vertigens a cada vez que ela apertava a minha mão com força e gritava com a dor da contração. Eu fiquei lá até escutar o primeiro choro de nossa menina.
Nossas vidas mudaram completamente com a chegada de Alexia. Primeiro que por trabalhar mais em casa fazendo os desenhos por conta própria eu meio que acabei tendo mais tempo com a pequena. O que não resultava em uma coisa ideal, eu não tinha o jeito totalmente materno e delicado de Ivy, nem sua postura de mãe autoritária. Afinal se era para ser ameaçada e exigida, era Ivy quem conseguia por ordem em Alexia. Eu era como aquela mãe bobona e coruja, que fazia traquinagem junto com a filha ao invés de ensiná-la a não fazer. Ivy chegava a brigar comigo dizendo que eu ensinava Alexia a como burlar as regras ao invés de mostrar como segui-las.
-Pronta para as negociações? – perguntei enquanto dirigia para casa.
-Isso não vai funcionar, mamma – Alexia resmungou baixo.
-Nem mesmo com um pote de sorvete extra? – arrisquei.
-Você quer que eu leve bronca da mamma Ivy? – Alexia me olhou desconfiada.
-Ela nunca saberia – sorri travessa para minha filha – Porque vou levar você e os meninos para o parque mais tarde!
Aquilo a fez vacilar em seu olhar briguento. Foi naquele momento que soube que havia conquistado a minha menina. Alexia podia ser difícil a maior parte do tempo, mas era apenas uma criança muito ativa e que gostava de aventurar-se, exatamente como eu. Sabia que Ivy iria chegar mais tarde em casa e como teria um tempo livre iria levar nossas crianças para passear como não tinha feito nesse mês ainda. Assim que chegamos em casa Alexia saltou do carro sem me esperar, sendo prontamente atacada por Luna, nossa cadela da raça pastor alemão.
-Luna, senta! – ordenou Alexia com todo um ar mandão, que nem a mãe, a cachorra prontamente obedeceu e ganhou um carinho dengoso na cabeça – Boa menina! Mamma, chegamos!
Luna e Alexia foram as primeiras a entrar, eu ainda demorei um pouco por ter ido pegar as sacolas no fundo do carro contendo o sorvete prometido e derretido além de outros petiscos que iriam estragar a alimentação de meus bebês. Assim que entrei em casa escutei um grito de guerra e dois seres pequenos saltando em minha direção me derrubando.
-Ataque furioso de cosquinhas! – gritou Leo.
Os dois garotos de quatro anos começaram o ataque que um dia já foi minha especialidade. Eles começaram a fazer cócegas em locais estratégicos e escapavam de minhas tentativas de afastá-los. Eles estavam ficando mais rápidos! Leonard e Daniel eram gêmeos, tínhamos adotados eles quando Alexia tinha três anos. Eles ainda eram bebês pequenos, tinham apenas oito meses quando os trouxemos para casa. Aqueles dois tinham o mesmo cabelo negro e olhos castanhos claros, não tão dourados quanto os meus, mas em um tom que lembrava vagamente. A pele era levemente amorenada, tinham quase a mesma altura, porém Daniel era ainda mais alto que Leo. Como eu os diferenciava? Pelo amor de mãe e muita intuição, até aquele momento eles eram absurdamente idênticos.
-Aaaah, eu me rendo! Eu me rendo! – desisti de tentar impedi-los – Por favor, parem eu vou... eu vou....
E então me fingi de morta, caindo no chão e fechando os olhos. Os dois sussurraram entre si e senti uma mão pequena tocando meu rosto como se estivesse averiguando o que tinha acontecido. De supetão levantei e agarrei ao Daniel que estava mais próximo e comecei o meu contra-ataque. Leonard tentava salvar o irmão pulando em mim, bagunçando meu cabelo, mas logo eu soltava um para agarrar o outro e encher de beijos e cosquinhas. O que resultava em uma verdadeira bagunça na sala.
-Crianças, parem – Ivy ordenou, ergui meu olhar e a encontrei na porta da cozinha – Vão lavar as mãos, vou servir o almoço. E quando falo crianças você está incluída Shay.
Eu e os gêmeos suspiramos ao mesmo tempo. Sorri para os dois e logo fiz uma aposta de quem chegaria primeiro no banheiro. Não havia dúvidas de que eu era do tipo que ficava o tempo todo brincando com os filhos, de que queria estar ao lado deles e cuidar de uma forma boba e carinhosa. Eu já não conseguia imaginar minha vida sem a felicidade de ter aqueles três fazendo uma verdadeira bagunça em meu cotidiano. Ajudei aos dois meninos a se limparem e eles correram de volta para a cozinha, chegando primeiro e já sentando em seus costumeiros lugares. Alexia já estava lá jogando alguma coisa e sendo interrompida por Leonard que queria ver o que ela estava fazendo. Fui ajudar Ivy a por a mesa, mas assim que entrei na cozinha parei tendo uma daquelas visões de tirar o fôlego.
Ela estava linda e casual. Seu cabelo estava mais curto, abaixo do ombro e mais ondulado. O ar de maturidade a circulava e parecia mostrar que agora era uma mulher na faixa etária dos trinta, terrivelmente bela, malditamente conquistadora com seu sorriso. Ivy usava um vestido até um pouco curto, estava fazendo um dia calorento e que pedia por pouca roupa. O que por sorte era seu dia em que iria trabalhar apenas mais tarde, ai sim ela teria de usar um daqueles terninhos femininos que a deixava extremamente sexy e séria. Eu? Parecia que havia mudado pouco apesar da idade estar evidente em meus traços, trajava uma calça despojada e uma regata velha que já havia ficado folgada em meu corpo.
-Alexia não estava resmungando quando chegou, o que você fez para contorna-la já que está tão atrasada? – Ivy perguntou enquanto terminava de fazer a salada.
-Não vou dizer meus truques, ainda uso eles com você também – expliquei e me aproximei dela a abraçando por trás, mesmo assim ela não parou de cortar o tomate – Eu já cheguei a mencionar que tenho a mulher mais gostosa e linda desse mundo?
Apesar de não olhar seu rosto eu sabia que nesse momento ela estava sorrindo de lado. Mas logo como resposta eu recebia uma cotovelada suave em minha barriga, um sinal claro que eu deveria me afastar.
-Não venha com seu charme, ainda estou chateada com você. Faz duas semanas que disse que ia levar o carro para lavar e que ia falar com a Samantha para ficar esse final de semana tomando conta das crianças – ela reclamou do mesmo jeito que Alexia tinha feito no carro.
-Eu vou fazer essas coisas meu amor, mas nada nesse mundo poderia me irritar, estou encantada por você. Hoje eu vou cansar bem as crianças para que possamos ter uma noite só nossa, que tal?
-Eu não acredito que depois de tantos anos eu ainda caio nessa sua lábia.
-Na verdade, você adora todo o trabalho que minha boca faz...
-Shay!
Ela corou e virou para terminar de arrumar as coisas agitada pelo que eu tinha dito. Acabei rindo e indo realmente ajuda-la. Doze anos haviam se passado desde que tínhamos mesmo começado uma vida juntas e eu ainda tinha esse lindo efeito sobre minha italiana. De deixa-la sem jeito com minhas palavras e malicia, assim como ela poderia roubar meu fôlego com seu sorriso. Quando sentamos a mesa foi uma verdadeira bagunça que eu amava, os gêmeos falando ao mesmo tempo, Alexia contando o dia na escola e de como havia respondido todas as perguntas da professora de matemática graças a minha ajuda nos deveres. Ivy buscando sempre manter o controle de um jeito sutil e rindo das coisas que as crianças fazia. Sem contar que Luna estava embaixo da mesa pegando os restos de comida que as crianças deixavam cair, de propósito ou sem querer.
Aquela estava sendo a minha vida. Como tínhamos planejado desde a lua-de-mel, agora morávamos em uma casa que tínhamos construído com todo um esforço e paciência. Uma casa que ficava quase de frente para o mar, em uma vizinhança calma o suficiente para as crianças poderem brincar fora de casa em um bairro de classe média. Não éramos propriamente ricas, mas conseguíamos nos manter com uma folga que sempre deixava que comprássemos um capricho para as crianças ou para nós.
Eu mantinha a minha linha de trabalho, mas construí uma filial a rede da Dodgers, independente, mas com uma parceria que deu lucro para ambos os lados. Leonard ainda mantinha contato e por ter sido um verdadeiro anjo nas nossas vidas no passado o nosso pequeno tinha recebido o nome dele em sua homenagem. Ainda mantinha contato com o senhor, mas infelizmente Maggie se encontrava em uma situação delicada por causa da fraqueza da idade. Ivy ainda trilhava o seu caminho almejando ser uma diplomata, enquanto isso ela trabalhava na área jurídica e simplesmente brilhava em tudo o que fazia. Ela era do tipo esforçada e não aceitava nada menos que um trabalho muito bem feito e elaborado. O que rendia horas de dedicação e noites sem dormir, além de um estresse extra pela sobrecarga. No ano passado tínhamos brigado muito por causa disso, ela se tornou ausente e até as crianças passaram a sentir falta dela. Foi quando o seu trabalho passou a exigir mais do que ela poderia oferecer, foram dias de briga dentro do quarto, ameaças e noites de choro. Mas ela percebeu o quanto as crianças sentiam a falta dela quando Alexia apresentou um desenho na escola sobre o que mais queria no momento. O que resultou em um desenho de toda a família reunida na praia, mas com Ivy a abraçando. Isso desmanchou qualquer defesa de Ivy e ela admitiu, mesmo com um bico, de que tinha de remanejar os seus horários.
Agora não tínhamos uma vida perfeita. As crianças demandavam uma energia que por muitas vezes eu acreditei não ter. Mas era tão repleto de momentos felizes que eu não poderia imaginar um futuro para mim que senão este. Naquele almoço, tão agitado quanto todos os outros, eu percebia que tudo o que eu tinha sonhado estava se realizando, mesmo que não da forma que eu planejei ou com a intensidade que eu esperava. Mas agora eu tinha minha família, uma mulher linda e complicada, mas perfeita para mim. Morava em uma casa que posso dizer ter construído, apesar de toda a decoração ter sido feita por Ivy, cada traço daquela construção foi desenhado por mim. E estávamos em um lugar praticamente a beira mar. O que mais eu poderia querer?
-Mamma, a Helena disse que é estranho eu não ter pai – Alexia disse de repente, com um olhar baixo e um pouco confuso.
Eu e Ivy trocamos olhares significativos. Helena era uma amiga de escola de Alexia, curiosa e mimada. Toquei a mão de minha menina e a acariciei com carinho enquanto dizia com um sorriso sapeca.
-Mas é – afirmei com calma – Em uma família tradicional sempre vão dizer que o certo é que se tenha um pai e uma mãe apenas.
-Então a gente é estranho? – ela me perguntou confusa.
-Prefiro pensar que somos especiais. Não é errado de jeito nenhum, mia bambina – Ivy explicou e fez carinho no cabelo – Somos diferentes, especiais. Mas nos amamos e amar não é errado. Não somos menos família do que a família de Helena ou qualquer uma de suas amiguinhas.
-Nós te amamos – resumi e sorri grande – E isso que mais importa. Então não tem problema em ser diferente, em ter uma vida que não é igual a dos outros. Qual a graça de ser que nem todo mundo?
-Mas todos ficam comentando – ela suspirou.
-É o mundo querida, muitas vezes não compreendemos eles, mas também muitas vezes ele não nos compreende. Você tem de ser forte e rir do destino senão vai chorar por algum momento não se ajustar. Mas veja, Leo, Dan, quem ama mais a Alexia?
-IO! – Daniel gritou.
-Mentila dele que sou eu! Eu amo mais minha irmã! – Leonard fuzilou o irmão com o olhar.
-Sinto muito meninos, mas erraram. Eu amo minha pequena, na verdade eu amo mais todo mundo! – disse em um verdadeiro tom superior.
-Você tem certeza disso? – Ivy questionou orgulhosa.
E o momento tenso havia passado e Alexia logo estava rindo, brincando junto com essa família animada e completamente diferente do que seria normal para a sociedade. Naquela tarde como prometido levei meus pequenos para o parque e nos esbaldamos no sorvete e algodão doce. Alexia estava brincando com as outras crianças enquanto eu corria atrás dos gêmeos. Descobri que já não tenho todo o empenho físico de uma jovem garota, minhas pernas logo começaram a doer e eu joguei a bandeira branca me rendendo. Deixei que eles fossem brincar no parquinho que tinha ali, sentando em um banco para beber água e manter os olhos neles. Não tardou para que um homem de cabelos grisalhos e porte físico saudável sentar ao meu lado.
-Está com seus filhos também? – ele logo foi puxando assunto.
-Aquela princesinha de cabelos claros – apontei com um sorriso orgulhoso – E aqueles dois, os gêmeos.
-Oh nossa, e seu marido não a ajuda? – o senhor perguntou curioso, provavelmente apenas uma tática para saber se eu era comprometida.
-A bem da verdade, não tenho um marido – respondi e o vi quase sorrindo – Mas minha mulher me ajuda muito bem com as crianças.
-Ah – ele disse tentando disfarçar a surpresa, mas o efeito logo passou quando ele sorriu mais ainda – Eu trabalho em uma revista, e me perdoe a curiosidade, como é para um casal de mulheres tomar conta assim de três crianças?
O olhei um pouco desconfiada. Essa pergunta já foi feita para a gente em tantos momentos diferentes. Nas primeiras reuniões da escola de Alexia, nos eventos do bairro além é claro das pessoas do trabalho. Porque parecia ser tão impossível ter uma família e sobreviver saudavelmente ao preconceito? Sim, era possível! Mas aquele senhor parecia genuinamente curioso. Então dei de ombro e olhei para as crianças novamente.
-Hoje disse a minha menina que ser diferente não é errado – respondi de uma forma sincera — Eu e minha mulher acreditamos fielmente nisso, ou não teríamos sobrevivido a tudo. Nossa família é diferente da tradicional, seguimos regras diferentes, mas como o mesmo principio básico que fazem as coisas darem certo: com amor e carinho tudo pode ser feito, pode ser conquistado.
-Muito interessante, senhora...
-Shay – ofereci a mão em cumprimento.
-Sou Yan. Há quanto tempo está casada?
-Por volta dos dez anos já. Ah, espere, meu celular.
Ivy estava mandando uma mensagem pedindo para que eu fosse busca-la, pois não tinha mais táxi no Fórum e ao que aparentava iria demorar de aparecer. Despedi-me do Yan e levei os dedos até a boca para assoviar alto. Aquele era o comando implícito que anunciava apara as crianças que já estava na hora de vim. Observei Leo e Dan competindo para ver quem chegava primeiro e Alexia se despedindo das outras crianças. Eles seguiram em uma agitação comum para crianças, não paravam de conversar dentro do carro. Quando parei o carro em frente ao fórum avistei Ivy saindo do pavilhão acompanhada de um homem desconhecido.
-Crianças, fiquem aqui – pedi séria.
Sai do carro e fiquei esperando por ela encostada ao capô de nosso sedan preto. Ela sorriu para mim e eu arqueei uma sobrancelha. O homem continuou a acompanha-la mesmo quando ela se aproximava de mim.
-Senhora Lazinni, eu teimo em continuar dizendo que sua apresentação está mesmo fabulosa – o homem falou e sorriu para mim – Boa tarde senhora, é uma amiga da Ivy?
-Não David, ela não é minha amiga – Ivy respondeu com falsa calma – Essa é minha mulher, Shay.
-Mamma! Vamos pra casa! – Alexia exigiu abaixando o vidro do carro – Daniel está fazendo aquelas caretas horrendas de novo!
-É mentira! – gritou um dos garotos de dentro do carro e logo rindo da pequena travessura.
-Mas... – o tal do David nos olhou surpreso – Você é casada...
-Com uma mulher e tenho três lindos filhos – Ivy contou e logo o ignorou – Mio amore, tenho a solução para nossos problemas, mia madre ligou pedindo para ficar com as crianças esse final de semana!
-GRAZIE MIO DIO – eu quase gritei.
Era todo o que precisávamos, um final de semana tranquilo só para nós, em nossa casa e a uma praia para ir descansar. Logo tratamos de deixar o David ali, plantado e surpreso. Ivy ia contando um pouco da apresentação que David tanto a elogiava. Em casa ainda cheguei a brincar de videogame com as crianças, ainda em meu puro propósito de fazê-las gastarem energia totalmente para que eu pudesse ter uma noite com a minha italiana.
E estava dando certo, às dez horas todos os três se encontravam em seus quartos dormindo feito uma pedra. Tomei um longo banho com Ivy, um daqueles banhos gostosos e demorados por ser cheio de abraços, toques e beijos.
-Mal acredito que conseguimos um final de semana – Ivy murmurou enquanto deitava na cama.
-É nesses momentos que esqueço todos os defeitos de minha sogra e a amo sinceramente – brinquei ajeitando-me ao lado dela.
-Você ainda não esqueceu o natal de cinco anos atrás – ela acusou.
-Claro que não, ela estava tentando empurrar aqueles homens para você só porque descobriu que a gente brigou sei lá por qual motivo mais.
-Pelo menos ela aceitou e agora ama as crianças a tal ponto de esquecer qualquer coisa. Queria que meu pai seguisse esse exemplo.
Ela suspirou e me abraçou apertado. Laura, a mãe dela, demorou um pouco para aceitar. Mas abastou Alexia nascer para a senhora italiana se derreter de amores por sua primeira neta. Fred ainda continuava um conquistador e quebrador de corações, apesar de desconfiarmos de que ele estava ficando sério com uma moça. Laura se mostrou uma verdadeira sogra complicada, mas uma perfeita avó. Ivy afastou qualquer pensamento de minha cabeça quando começou a dar beijos e mordidas em meu pescoço, aos poucos indo para cima de mim...
-Mamma! – Daniel exclamou da porta – Eu tive um pesadelo!
Ivy resmungou baixo para que apenas eu escutasse e afastou-se com pesar de mim. Daniel e Leonard estavam parados na porta, cada um abraçado com seu bicho de pelúcia favorito. O olhar assustado de Daniel amolecia qualquer reclamação que um dia tivesse existido em minha garganta.
-Eu não vou deixar o Dan sozinho – Leonard logo se justificou.
-Mamma! Posso dormir com vocês também? – Alexia surgiu atrás dos meninos com um olhar pidão irresistível.
Olhei para Ivy logo a vendo chamar as crianças. Era um adeus para nossa noite juntas e um olá a uma noite de aperto e briga por espaço na cama. As crianças logo saltavam para a cama, Daniel fez questão de deitar ao meu lado para que eu o abraçasse. Alexia ficou próxima de Ivy e Leonard adorava ficar no meio dos irmãos para perturbá-los durante a noite. Daniel contou que sonhou com um monstro que devorava todos os seus brinquedos e ficava colocando medo nos irmãos. Para acalmá-los eu comecei a cantar baixinho músicas tranquilas e algumas de ninar. Como estavam cansados não tardaram a adormecer. Busquei o olhar de Ivy e o descobrir sonolento e carinhoso enquanto me observava com um sorriso bobo nos lábios.
-Obrigada por ter me dado uma família tão linda – ela murmurou esticando a mão por sobre os corpos pequenos das crianças.
-Obrigada por existir, sem você nada disso aconteceria – respondi de volta pegando a mão dela e entrelaçando nossos dedos – Não se arrepende da confusão que é nossas vidas?
-É uma delicia, não me imaginaria fazendo outra coisa – Ivy admitiu e bocejou – Canta para mim?
Sorri de lado e comecei a cantar I wont give up e a observei adormecer com um sorriso nos lábios por estar cantando uma de nossas músicas. Não dormi prontamente, fiquei ali admirando as pessoas mais importantes de minha vida. Esse poderia ter sido apenas mais um dia comum de minha vida, mas ainda assim eu agradecia por cada minuto ao lado deles, por cada momento que tinha com Ivy. Eu era simplesmente feliz, apesar de todos os defeitos que minha vida tinha e que deixava claro que os felizes para sempre era apenas contos de fadas. Isso não queria dizer que não teria os meus momentos de alegria e de puro êxtase. Mas eu tinha certeza de uma coisa, que tudo isso era por um motivo.
Porque eu SIMPLESMENTE amava aquela mulher, tudo isso se tornou vivo e real. Foi esse amor intenso, minha teimosia e a nossa fé uma na outra que abriu caminhos que foram difíceis de serem seguidos, mas que simplesmente dava certo no final, de um jeito ou de outro. Se iria ser sempre assim? Não, porque a vida é cheia de surpresas, mas o mais importante era ter força e alguém importante por quem lutar. Eu fui uma garota que tinha começado com nada, abandonada a própria sorte... E agora tinha uma família e a mulher de minha vida. Eu não poderia pedir por mais nada além disso.
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