Acordou sobressaltada. O mesmo pesadelo. De novo. Pela quinta vez só naquela semana. O pior era não se lembrar de nada. Sabia que era o mesmo pela sensação que deixava em seu peito. O aperto, a sensação de asfixia, a solidão. E a última era o que realmente a perturbava.

Levantou silenciosamente da cama. Calçou os chinelos e foi ao banheiro de sua suíte. Abriu a torneira e permitiu que a água deslizasse por seu rosto enquanto dava leves borrifadas. Desligou a torneira, pegou uma toalha que estava ali perto e enquanto enxugava o rosto permitiu-se uma avaliação de sua aparência atual.

Não era velha, mas também não era o que se podia chamar de jovem. Caucasiana, quarenta anos, promoter de uma das mais badaladas casas de eventos da cidade... Era o que se podia chamar de uma mulher bem sucedida profissionalmente. Profissionalmente... Então seus olhos miraram o jornal jogado na pia do banheiro há duas semanas. Na capa uma enorme nota sobre o casamento do renomado empresário espanhol S.L.

Lágrimas saltaram de seus olhos e sentiu os joelhos se flexionarem até estar sentada no chão frio de seu banheiro no apartamento duplex em que morava localizado em um dos melhores bairros da cidade. Sozinha. Flashes invadiram sua memória de como chegara ali.

Fora uma garota demasiado sonhadora na faculdade de Direito. Tinha pretensões de mudar o mundo. Ou ao menos colocar uns bons vagabundos atrás das grades. Queria ser delegada!

Sonhos! Evaporados no instante em que pôs os olhos nele. Estudante de Letras. Totalmente relaxado com a própria aparência e, por isso mesmo, tão atraente.

Foi um rompante romântico. E como todo romance que se preze: foi trágico! Ela engravidou já no terceiro mês de namoro. Deixou a faculdade, pois não poderia bancar os estudos e seus pais lhe expulsaram de casa quando receberam a notícia da gravidez.

Alugou um muquifo que chamou de lar, pois tinha amor. Mas o amor não resistiu às provações daquela realidade difícil. Sem dinheiro, com a saúde abalada e um namorado que não entendia o que significava responsabilidade, acabou sofrendo um aborto no segundo mês de gestação.

Abandonou o namorado e resolveu procurar um emprego. Garçonete. De delegada a garçonete! Ela não queria mais além. Sem perspectivas, só pensava no fim sem, no entanto, possuir coragem suficiente para adiantar-lhe a vinda.

Assim conheceu S.L. Seu mentor, seu amigo, sua tábua de salvação. Ele era o dono da boate em que trabalhava e tinha grandes planos para o local. Ela lhe auxiliou a concretizá-los e tornou-se então sua sócia. Mas ela também sentiu a gratidão dele virar algo mais. Algo ao qual ela não estava preparada nem disposta. Prometera nunca mais entregar-se a outro homem. Ninguém mais iria magoá-la. Diversão era o que eram agora. Brinquedos insignificantes que lhe abrasavam as noites frias e ponto!

Mas S.L. não poderia nunca ser isso, mas também não poderia ser mais. Impasse, afastamento silencioso e definitivo. Não houveram palavras, súplicas, desespero...Nada! Ele lhe repassou a outra parte da empresa e se foi. Simplesmente... se foi. Outros projetos ele lhe dissera. Mas ela sabia: outros amores era o que era. Alguém disposta a retribuir o que ela desdenhara.

Perdera o filho anos antes, a confiança no outro em si mesma, de certo modo. Não se julgar merecedora de afeição matou-lhe ano após ano. E agora ela finalmente criara coragem para concluir seu ciclo de dor. No seu banheiro, sozinha. Uma lâmina e uma dor.

“Quando uma pessoa pensa em suicídio, ela quer matar a dor, mas nunca a vida”

(Augusto Cury)

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