Simpatia

1 O tour da simpatia


Tiago acordou às seis da manhã, como de costume. Sentia-se menos cansado do que o habitual, pois havia dormido extremamente cedo na noite anterior. Desligou o alarme do celular e desbloqueou a tela, para verificar as notificações. Suspirou involuntariamente.

— Pronto pra hj? — dizia a mensagem mais recente. Era Lita, sua colega de trabalho, que na verdade se chamava Amanda. Tiago não conhecia a origem do apelido, mas nunca se deu ao trabalho de perguntar. Somente salvou o contato de Amanda como Lita por insistência da mulher, que até alterara as informações no aparelho enquanto ele não estava olhando.

"Não", respondeu, antes de bloquear novamente o celular e dormir por mais quinze minutos.

Às oito da manhã, Tiago sentou em sua mesa, iniciando mais um dia em sua rotina de trabalho. Por sorte, Lita e ele não trabalhavam no mesmo local, o que tornava tudo mais suportável. Não que Tiago não gostasse dela, ambos eram apenas muito diferentes. Lita adorava falar por horas, contando cada detalhe de sua vida, explicando como era sair de seu estado natal, como era morar sozinha, ou como coisas irrelevantes de seu cotidiano aconteceram, enquanto Tiago preferia não falar a respeito de si mesmo, simplesmente por não achar importante mencionar detalhes de sua vida. Então não ter que ser evasivo durante todo o dia era um alívio.

Embora não estivessem no mesmo ambiente, Tiago e Lita mantinham contato constante durante o dia, via mensagens instantâneas, por questões profissionais. Enquanto isso, eles jogavam um pouco de conversa fora. Em uma dessas conversas, o rapaz cometeu o maior erro de sua vida: prometeu acompanhar Lita em um passeio.

Inicialmente, Tiago achou que se tratava de um passeio comum, como uma caminhada, ou uma visita ao shopping, porém logo descobriu que estava enganado. Lita era extremamente supersticiosa. Sempre mandava correntes para o colega de trabalho, ou falava a respeito de coisas que deveriam, ou não, ser feitas em determinadas datas, ou horários do dia. Isso sempre irritou Tiago, que não acreditava em nenhuma dessas coisas. Na verdade, o rapaz adorava desafiar as crenças da colega. Se ele não deveria entrar em seu local de trabalho com o pé esquerdo, assim ele fazia; se era necessário atravessar a rua para evitar uma escada, ele apressava o passo para passar por baixo do objeto; se ele não deveria dormir com as mãos cruzadas, bem, ele não fazia, mas porque odiava dormir de bruços.

Mas aquele não era um passeio comum. Aparentemente, Lita encontrou em um site uma série de rituais que a ajudariam a trazer renovação para sua vida. Isso incluía um tour estranho pela cidade, visitando locais específicos. O ritual deveria ser feito no primeiro dia útil do ano e iniciar no local de trabalho do indivíduo que o estivesse realizando. Aquele não era o primeiro dia útil do ano, porém Lita acaba de retornar de seu recesso e precisava de um acompanhante, o que fez com ela aguardasse até 22 de Janeiro para fazer tudo. Tiago foi sua cobaia.

Uma hora antes do fim do dia o turno de Tiago acabou. Normalmente, ele sairia apressado em direção ao ponto, para chegar em casa o mais cedo possível, mas permaneceu sentado na cadeira. Tomou um gole de café e aguardou Lita surgir em sua sala. Demorou menos de dez segundos.

— Finalmente! Eu achei que esse dia não fosse acabar nunca! — Disse ela de forma animada, enquanto abria a porta abruptamente. Estava visivelmente entusiasmada. — Eu já realizei o primeiro passo. Deixei cinquenta reais embaixo do meu teclado no fim do expediente.

Algo dizia a Tiago que aquele dinheiro não permaneceria ali por mais de vinte e quatro horas.

— É pra trazer sucesso profissional — continuou Lita — , além de novas possibilidades nesse âmbito.

Tiago franziu o cenho ironicamente e respondeu:

— Então você pensa em sair desse emprego?

Lita contorceu a boca em forma de desdém, indicando que a resposta era óbvia. Infelizmente para Tiago, isso significava um não.

— Certo, pra onde vamos primeiro? Eu quero acabar logo com isso.

Ela coçou o queixo, como se procurasse a informação em um lugar obscuro de mente, e então disse de forma maliciosa:

— Ao cemitério.

Já passavam quinze minutos das dezoito horas quando os dois chegaram ao cemitério. O local era enorme e cheio de lápides e sepulcros, como era de se esperar. Tiago parou na entrada do cemitério, temendo pisar na propriedade. O motivo não era nenhum tipo de superstição, ele apenas não gostava de pensar na morte, pois representava o fim de tudo. Lita parou ao seu lado e segurou o braço direito do rapaz com as duas mãos.

O céu ainda estava claro, mas não havia quase ninguém ali. Com a aproximação do crepúsculo o ambiente parecia o cenário de um filme de terror psicológico. Isso deixou Tiago incomodado.

— Eu resolvi vir aqui primeiro porque dizem que não é bom ir ao cemitério quando escurece — disse Lita, em um tom sério. Tiago ignorou o comentário, mas ficou feliz em saber que ela tomara essa decisão.

— O que você precisa fazer aqui? — Perguntou.

— Bom, tenho que deixar um objeto importante pra mim aqui na entrada — explicou Lita. — Isso vai representar o fim de uma era e o início de outra, saca?

— Na verdade, sim. E o que você trouxe? — Tiago olhou para a bolsa que era carregava no ombro.

Lita retirou uma pedra da bolsa. Tiago teve que fazer um esforço para não rir.

— Uma pedra, Amanda? Você faliu após os cinquenta reais? — Ele finalmente riu.

— Meu irmão me deu antes de eu vir pra cá. Nós encontramos em um igarapé que ficava na minha cidade e ele mesmo poliu.

Observando melhor, a pedra tinha um formato oval que lembrava uma elipse. Tiago tocou no objeto e ficou impressionado com sua maciez. Até desejou que ela não deixasse o objeto de valor sentimental. Mas ela deixou. Lita caminhou até a entrada do cemitério, deixou a pedra no local mais discreto que encontrou e sussurrou algo que Tiago não entendeu, então voltou com uma expressão séria. Pareceu algo difícil de fazer.

Já era noite quando os dois chegaram a uma igreja onde ocorria um casamento. Tiago ficou surpreso com a mudança drástica de cenário para o ritual e se arrependeu de não ter perguntado a respeito do roteiro inteiro.

— Aqui vai ser rápido — disse a colega de trabalho. Ela tirou uma rosa vermelha da bolsa e segurou com as duas mãos.

— Parece que ta tendo um casamento aqui — observou Tiago. Havia muita gente dentro da igreja e algumas pessoas do lado de fora. Todo mundo estava bem vestido e concentrado em alguma coisa. Ele caminhou pela calçada até que pudesse observar melhor o interior. Havia um casal em frente ao púlpito. Ambos fitavam o padre, então Tiago não conseguia ver seus rostos. — Qual é a do casamento? Coincidência?

— Não — respondeu Lita. — Eu tive que descobrir onde estaria ocorrendo um casamento para fazer a terceira parte. No site dizia que a gente poderia fazer essa durante o ano, mas eu sou muito ansiosa.

Tiago sempre se incomodava com as hipérboles que Lita utilizava. Dizer que era ansiosa, ou que era perfeccionista, eram as mais frequentes. Ele sempre a corrigia, mas não falou nada dessa vez. Ele percebeu que a colega o encarava, até que ela finalmente disse:

— Tiago, é por isso que eu precisava de você aqui. Essa parte representa a minha vida amorosa, pra trazer sucesso — ela disse rapidamente. Parecia nervosa e corava levemente. — Eu não tô apaixonada por ti, calma.

Ele arregalou os olhos com o comentário. Nunca havia pensado nisso, mas ficou aliviado que o pensamento tenha sido gerado por causa dessa frase.

— Eu só preciso de um favorzinho — continuou ela.

— Qual? — Ele estava mais desconfortável com o casamento e a conversa atual do que estivera com o cemitério.

— Eu preciso deixar a rosa em frente a igreja durante o casamento e beijar alguém por quem eu nutra carinho — ela disse mais calmamente. — Não precisa ser carinho amoroso, pode ser de amizade mesmo.

Ele não respondeu. A ideia era absurda demais para que ele sequer dissesse não. Ela pareceu ler seus pensamentos.

— Eu não te contei antes porque sabia que ficaria assim. Me desculpa, mas isso é realmente importante pra mim. Vai representar uma fase boa amorosamente. Eu prometo que não conto para ninguém.

— Amanda, eu não quero te beijar, me desculpa — ele finalmente respondeu. Ela o encarou por algum tempo e abaixou a cabeça. Tiago não sabia dizer se ela estava chorando.

Ambos sentaram na calçada por alguns minutos. Primeiro ficaram em silêncio, até que ele perguntou se estava tudo bem. Ela disse que sim, mas não olhou para o colega. Após mais alguns minutos Tiago começou a se sentir culpado. Lita ainda segurava a rosa, que agora estava um pouco amassada. O casamento ainda estava ocorrendo. Tiago sempre achou esses eventos demasiadamente demorados.

— Olha... — Começou ele. Sabia que iria se arrepender do que estava prestes a dizer. — Tudo bem. Mas isso é importante pra mim, só quero que saiba disso. Eu realmente não queria que ocorresse dessa forma.

Ela o encarou e não pareceu feliz com a resposta.

— Desculpa, eu não devia ter feito isso. Você não precisa fazer.

Antes que pensasse realmente no que estava fazendo, Tiago a beijou. O beijo durou alguns segundo, o suficiente para ele sentir a textura dos lábios de Lita. Eram macios e se moviam suavemente. Quando eles se afastaram, ela disse:

— Obrigado, mas só é válido se eu deixar a rosa na frente da igreja primeiro.

Tiago ficou tão vermelho que poderia ser confundido com um tomate. Lita riu alto, chamando a atenção de algumas pessoas que passavam por ali. Ela deixou a rosa em frente à igreja e dessa vez tomou a iniciativa do beijo. O segundo beijo soou diferente para Tiago, pareceu mais intenso, como se uma energia penetrasse seu corpo. Eles se afastaram e ele sentiu um calafrio. Devia ser a noite.

— Estamos chegando no último local — disse Lita, para o alívio de Tiago. Já era pouco mais das oito da noite, quando chegaram ao bosque. Os dois haviam cruzado a cidade de ônibus, o que tornava o passeio ainda mais demorado.

— E o que a gente vai fazer no bosque? — Perguntou ele. Não queria especular.

— Bom, o bosque vai representar a minha conexão com a natureza e o planeta. Vai trazer coisas boas para mim, se tratando do ambiente onde moro, ou os locais que frequento. Além disso, vai melhorar minha relação com meus amigos e colegas.

Parecia que ela havia pesquisado por horas a respeito disso. Tiago se impressionava com a determinação dela, embora ainda não acreditasse em nada daquilo. Felizmente para ele, o bosque era um local seguro, devido ao policiamento do local. Seria terrível se fossem mortos em um lugar de tão fácil omissão de cadáver.

No bosque, o rapaz descobriu o que deveriam fazer.

— Fala sério — protestou ele. — Eu não quero subir em árvore nenhuma. Eu tô cansado e com fome.

— Você é pior que uma criança, garoto.

Antes de cumprirem a última parte do ritual, decidiram comer alguma coisa. Compraram dois sanduíches e comeram rapidamente. Ao menos o bosque não era tão distante da casa de Tiago, ele refletiu aliviado.

— E então, ta curtindo o passeio? — Perguntou Lita.

— Sim, eu nunca me diverti tanto na minha vida — replicou ele, antes de morder o pão recheado com carne, queijo e salada. Sua nuca coçava. Ele pediu outro sanduíche antes de irem para o bosque.

Tiago ajudou Lita a subir na árvore mais baixa que encontraram. Em seguida, de forma mais ágil do que esperava, seguiu a colega até o galho onde ela estava. Lá em cima, temendo que alguém visse aquele comportamento estranho e achasse que fosse uma espécie de perversão sexual, Tiago se manteve em silêncio.

Lita abraçou o tronco da árvore e sussurrou alguma coisa para a planta.

— Qual é dessas palavras mágicas? — Perguntou Tiago. Ela o encarou irritada, fez "shhhh!" com a boca e voltou a conversar com a árvore. Ele não perguntou mais nada.

Quando finalmente saíram do bosque, Lita abraçou Tiago, contente.

— Muito obrigada! Eu não sei o que faria sem você aqui.

— Tudo bem, só não vamos repetir isso nunca mais, por favor.

Ela riu. Eles esperaram seus respectivos ônibus, que, dessa vez, seriam diferentes. Quando o transporte dela chegou primeiro, ela se despediu.

— Olha, não pensa que eu esqueci do teu aniversário amanhã, viu? — Disse ela, apressadamente. — Até amanhã. Cuidado na volta.

O ônibus de Tiago demorou mais dez minutos. Quando ele finalmente chegou a sua casa, tomou o banho mais demorado de sua vida. Já eram quase onze da noite. Após o banho, ele jantou, comendo o máximo de proteína que conseguiu e verificou o celular enquanto digeria a comida. Lita já estava em casa. Faltavam cinco minutos para a meia-noite. Em cinco minutos Tiago estaria completando mais um ano de vida. Ele bloqueou a tela do celular e encarou a parede de sua sala. Decidiu ir até o quintal e passar a virada do dia observando o luar.

Lá fora, pôde ver como a Lua estava linda. Completamente cheia, não se escondia atrás de nenhuma nuvem. Várias estrelas brilhavam ao redor do satélite natural, embora as luzes da cidade atrapalhassem a beleza dos astros. Um minuto para a meia-noite. Tiago riu do seu dia. Como as pessoas poderiam ser tão alienadas?

A coceira em sua nuca aumentou e ele, sem aguentar mais, coçou o local com seu pé esquerdo. O alívio foi encantador. O rapaz estava sentado no chão, com as mãos apoiadas na grama. Do fundo de sua garganta, sentiu como se algo quisesse sair e não pudesse ser contido. Uivou alto e por vários segundos. Os cachorros que estavam nas residências mais próximas começaram a latir. O pelo castanho de Tiago parecia absorver a luz do luar. Ele se sentia uma planta fazendo a fotossíntese, enquanto crescia mais forte.

Era meia-noite. Enquanto passava a língua por suas presas e encarava a Lua, Tiago só conseguia pensar em Lita. Talvez conseguisse encontrar seu endereço, já que o cheiro dela o impregnava. Uivou novamente, antes de pular o muro de sua casa e correr pela cidade, seguindo uma trilha com o olfato.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!