Simetria
3 Desafiar
Notas iniciais
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É a sua triste realidade
É a sua bagunçada árvore genealógica
E apenas lhe restam todas essas dúvidas
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Davi deslizou a lâmina ao longo da pele. Concentração máxima. Não podia piscar. Não podia respirar. Não podia…
“Ai!” exclamou, jogando o Gilette sobre a pia. Analisou seu rosto no espelho; agora tinha um tímido corte na bochecha. Um pouco de sangue ali borbulhava, ansioso para tomar corpo e escorrer até o queixo. Patético. Incompetente.
Poucas convenções sociais causavam-lhe tamanha cólera quanto se barbear. Não sabia exatamente se isto era consequência de seu pequeno trauma de infância ou não. Talvez, apenas admirava o magnetismo animal dos homens barbudos e sua capacidade de atrair elogios do sexo oposto, ainda que ele próprio negasse gostar de chamar atenção em demasia. Enfim, não podia ser de todo ruim para a imagem de um rapaz ostentar seus pelos faciais quase como um caractere sexual secundário. As mulheres arrancavam tudo à cera quente, e ele por sua vez tornava-se o Náufrago. Ou não. É, possivelmente não.
Emplastou mais trechos do rosto de creme, passando a lâmina logo em seguida. Ufa, ao mínimo desta vez não fora ferido em batalha. Intentou agilizar seu método, visto que a mãe tomava café bem cedo e ele não queria conversar com ela após seu retorno do trabalho. Dona Rita já não era das mais maleáveis em seu estado usual, que dizer quando exausta de tanto impedir que pirralhos enforcassem um aos outros com o fio do mouse. Por esse exato motivo, queria se apresentar bem como ela gostava: limpinho, alinhado e com cara de bebê. Talvez assim suas chances de ser chutado para fora de casa reduzissem um tanto em porcentagem.
O telefone tocou ao longe, culminando em um pequeno susto que fez ele passar creme na lente do óculos. Jesus, como ele conseguia ser tão idiota? Como ele conseguia confundir sua pele com uma placa de vidro? Imbecil.
Limpou a bagunça que fizera, atrasando mais ainda seu trabalho. Acidentes como este faziam ele considerar seriamente o uso de lentes de contato — exceto que ele tinha plena consciência de que não conseguiria colocar aquela merda sobre o olho sem se cegar durante o processo.
Mais alguns minutos transcorreram até que Davi tornasse a seu ofício. Novamente, creme na outra bochecha, Gilette empunhada como arma, total foco, total empenho…
“Davi Reis! Abre essa porta agora!” Irrompeu uma voz histérica acompanhada de pancadas sucessivas na porta do quarto. O resultado desse escândalo? Davi quase morreu de susto, levando consigo mais pedaços de pele.
“Puta merda!” gritou de dor, tentando amaciar a região machucada, sem muito sucesso.
“Mal criado! Respondão! Deixa eu entrar agora, garoto!”
Ah, não. Rita achara que o palavrão havia sido direcionado a ela. Davi já podia oficialmente dar seu dia como terminado. Arrastou-se do banheiro até o quarto feito prisioneiro amarrado a seus grilhões, e destrancou a porta com a sensação de que tudo ainda podia ficar pior. O que não esperava, contudo, era que tudo podia ficar muito pior.
Quando deu por si, estava sendo agredido. Golpe atrás de golpe desferido por um objeto maligno, que parecia muito com um… Chinelo? Ele estava apanhando de chinelo?
Rita urrava como que possuída, deixando Davi sem reação por alguns segundos. Em dado momento, tomou coragem e arrancou o chinelo do alcance da mãe, erguendo-o acima de suas cabeças. Rita pausou por um instante e estendeu a mão.
“Me dá de volta,” ordenou. Tinha os cabelos mais selvagens que nunca, compactuando com um certo brilho maníaco em seu olhar.
“Não! Você não pode me dar chinelada! Eu tenho vinte anos!”
“Não interessa se você tem vinte anos! Eu que te sustento, você mora debaixo do meu teto, então me deve respeito!”
“Mas eu trabalho e ajudo a pagar as contas. Eu também te sustento!”
Bem, talvez esse argumento fosse forte demais. Após alguns tempos sem nada retorquir, Rita fez sinal com um dedo e retomou o início da conversa.
“Me dá o chinelo de volta!”
Em resposta, Davi atirou o calçado pela janela, admirando muitíssimo o ruído do choque entre a borracha e o piso do quintal. Finalmente, impusera sua vontade! Não era mais criança, logo por que aceitar ser tratado como tal? Sim, esta era atitude digna de um homem. Yeah! Passou a mão pelo rosto tal qual um artista de televisão, sentindo-se todo um rebelde sem causa. Onde estava sua jaqueta de couro e sua moto roubada para ele aterrorizar Rio de Janeiro afora? Cadê as mulheres brotando da terra e gritando seu nome escandalizadas?
“Davi,” Rita falou irritada “o que você tá fazendo?”
Boa pergunta: o que ele estava fazendo? Resposta: alisando a face e sujando as mãos em consequência. Otário.
“Por que você me bateu?” disse enquanto esfregava a mão na bermuda, manchando-a de branco. “Você nunca me bateu!”
“Por que você bateu no seu professor? Você também nunca foi de bater em ninguém!”
Davi gelou. Definitivamente não esperava por tal réplica. Como Rita descobrira essa falha em seu currículo sem que ele próprio anunciasse? Injetou o máximo de energia que pode em seu sistema nervoso, examinando quaisquer evidências que houvessem possibilitado o vazamento da informação. Paralisou ao relembrar a tal ligação telefônica de poucos minutos antes, e uma lâmpada acendeu sobre si.
“Mãe,” sussurrou em tom quase profético “quem te ligou agora de manhã?”
Ela se limitou a convergir um olhar glacial na direção do filho, contendo mais significações que qualquer dialeto já existente. Não suportando toda a cobrança mais que explícita nessa mirada, Davi abaixou o rosto até que visualizasse bem as mãos. Caso não estivessem enlameadas de creme, ele bem desataria a roer as unhas, hábito nada incomum em sua rotina.
“Eu só queria entender,” Rita finalmente findou o silêncio “porque você fez uma burrice dessas. O reitor intimou você a ir na sala dele. Eu espero que você tenha noção de que ele vai te expulsar, isso se não te processarem também, porque agressão é crime, ou nunca te ensinaram isso?”
Aflito. Davi estava aflito. A voz da mãe ecoava em seus ouvidos como uma melodia desafinada, destas que arranham seus acordes até causar a mais nervosa das inquietudes. Ele precisava urgentemente roer as unhas. Roer. As. Unhas.
Correu até o banheiro, ignorando os gritos de Rita — “Você vai me deixar falando sozinha?”. Lavou o rosto, o pescoço, as mãos, a alma, enfim, de lá não saiu até que sua pele fosse novamente mais um instrumento a serviço de suas manias.
“O professor não vai me processar.” Retornou ao quarto, mordiscando as unhas. A mãe estava sentada em sua cama. Seu rosto estava tingido de um atípico vermelho.
“Quem te garante? O São Judas Tadeu que teu pai prendeu na parede?”
“O Herval.” Agora sim impusera respeito! “Ele me disse que não pode dar danos materiais porque eu não quebrei nenhuma parte do corpo do Solano. No máximo danos morais, mas um processo desses não vai dar em nada, então…”
“O Herval é advogado, por acaso?!” ela berrou. Sempre fora muito afeita ao seu parceiro de ONG, mas todo o desespero maternal a sufocá-la não permitia que desse qualquer valor ao conhecimento de outrem.
Perante a ignorância cega de Rita, Davi sentiu um pouco de sua paciência esvair-se.
“Não, mãe. Ele só fez metade do curso de Direito.”
“Não interessa! E você ainda não me respondeu porque bateu no seu professor!” Ela se levantou da cama, buscando o filho com tamanha rapidez que ele pensou que tornaria a apanhar. Seu primeiro reflexo foi inclinar-se subitamente para trás. O que ele não esperava, contudo, era que seu cachorro tivesse adentrado o quarto e postado-se bem atrás dele. Quando deu por si, tropeçara sobre o bicho e caíra de bunda, metade do corpo sobre o piso e metade imprensando o pobre animal.
Talvez fosse o fato de ter tombado da forma mais imbecil possível — ou de ele sempre ser tão desastrado que parecia ter pernas de geleia. Talvez fosse o fato de estar esborrachado no solo — ou de ele sempre ser tão insuficiente que parecia parte intrínseca do chão. Talvez fosse o fato de a mãe ajudá-lo a se levantar — engraçado, ela não esperara nem que ele tentasse se erguer sozinho. Talvez fosse tudo isto adicionado à sua falta de sorte, à sua falta de atrativos, à sua falta de, bem, tudo. Era uma galáxia cheia de planetas com órbitas bizarras e planetas em colisão e buracos negros gigantes.
Em resumo: ele era um merda, e talvez por todos essas razões citadas sentia-se mais ridículo que nunca.
Fez certo carinho no cachorro para compensar sua queda. Gostava mais dele que de muita gente.
“Vai, Chew, depois eu te dou um osso.” Feito grande entendedor da linguagem humana, Chewbacca abanou o rabo e foi embora de pronto. A propósito, pronunciar o nome do bicho atentara-o para o fato de que se aproximava o momento de reassistir a hexalogia de Star Wars. Aquele box de DVDs era seu melhor amigo em tempos de crise, fazendo ele lembrar que a força estava com ele — por mais estranho que isso pudesse soar.
Pulou na cama e fechou as pálpebras. Rita apenas ficou olhando. Respirou fundo. Em dada expiração, sabe-se lá qual, frases inteiras resolveram sair junto com o ar, o que obviamente não rendeu boa história.
“O Solano me deu zero na prova só porque não vai com a minha cara. Aí eu fiquei nervoso, ele me provocou, eu perdi a cabeça…” Suspirou, massageando as têmporas. “Mãe, eu cansei. Eu cansei da faculdade, eu cansei da rotina, eu também cansei de…” Pausou. Não podia continuar.
“Cansou de quê?” Sentiu o peso do corpo da mãe sobre o colchão.
“Não… Esquece.”
“Fala logo, Davi!”
“Eu já falei pra esquecer…”
“Pior do que já tá não tem como ficar, então é melhor falar tudo logo de uma vez!”
Ele pensou em apontar que sempre havia como piorar, mas já que ela tanto insistia… Inspirou fundo.
“Eu também cansei de você e o meu pai querendo mandar em mim toda hora.”
Abriu os olhos e deparou-se com o choque estampado no rosto dela. Sim, ele conseguira! Conseguira externar para a mãe o pensamento que estava a causar-lhe tamanha adversidade. Estufou o peito. Finalmente, finalmente! Era doce o gosto da libertação, doce em demasia, até mesmo viciante. Agora que começara, não queria mais parar.
“Eu sei que você não vai gostar, mas… Ah, eu acho que a faculdade não era o meu lugar, não combinava comigo, sabe? E eu também não sei se Engenharia da Computação é tão boa assim, quer dizer, eu gosto dessas coisas, eu gosto de programação, de tecnologia, mas faltava o humano, faltava… Olha, agora eu posso me dedicar mais à ONG, a gente pode fazer uns projetos maneiros…”
Rita cortou a fantasia do filho.
“Então você não quer mais estudar?”
Mesmo com a interrupção retirando-lhe um pouco do vigor, ainda havia uma centelha de esperança, e Davi agarrou-se a ela.
“Eu não sei… Eu acho que eu preciso descobrir, sabe? Experimentar umas coisas diferentes…”
“Experimentar o quê?”
Segunda vez. Já estava a ficar irritante. Davi bufou.
“Não sei, coisas.” Quando viu que a mãe calara a boca, retomou a dianteira da conversa. “Eu acho que eu vou fazer isso mesmo, sabe, ir seguindo e ver no que dá, ver se eu encontro a minha praia.”
Silêncio. Ele segurou a mão de Rita.
“Você entende, mãe?”
Ela se levantou e saiu do quarto. O quê? Que maneira indigna de finalizar um assunto de tamanha importância! Davi já estava prestes a retomar a penosa saga de barbear o rosto quando a mãe adentrou novamente o recinto, carregando uma vassoura e um balde cheio de produtos de limpeza. Ela postou toda sua parafernalha bem ao lado da cama e apontou diretamente para o rosto do filho.
“À noite eu vou sentar com o teu pai e a gente vai resolver essa questão. Enquanto isso, o senhor vai limpar a casa inteira, e eu acho bom fazer direito. Aqui não tem folga pra preguiçoso não.”
Deu as costas e arriscou alguns passos resolutos rumo à saída. Não podia fitar Davi por muita eternidade, visto que ele certamente a enredaria com sua doçura e a persuadiria a crer até que branco era preto. Após tamanha dedicação e investimento de sua parte, era no mínimo injusto vê-lo dar tão pouco valor à glória alcançada. Ela não o criara para ser mais um ocioso a permear as estatísticas do governo. Ela não o criara para pagar de rebelde injustiçado pelo sistema. Ela não o criara para que destruísse cada lição ensinada ao longo de vinte anos de criação. Ela não o criara para — sentiu uma mão em seu ombro. Virou-se quase de imediato.
“Você e meu pai não têm de resolver nada,” Davi falou em tom contido, lutando para não demonstrar a raiva que começava a nascer dentro de si. “Eu já resolvi. Eu vou tirar um tempo pra mim.”
Rita sentiu um bolo formar-se na garganta. Quando falou, a voz saiu embargada.
“Obrigada por ter me consultado quando tomou essa decisão. Eu agradeço muitíssimo pela sua consideração.”
Davi tomou o rosto dela nas mãos, intentando leve carinho. Não podia permitir que a ira dominasse suas ações; estava somente buscando a melhor forma de expressar seus desejos sem ferir quem tanto amava, afinal.
“Eu precisava disso, eu sei que não foi a forma mais correta, mas…” Respirou fundo e repetiu sua frase de poucos minutos antes. “Você entende, mãe?”
Rita livrou-se do toque envolvente do filho, indicando com a cabeça o material de limpeza ao pé da cama.
“Quero essa casa brilhando até a noite.”
Enquanto assistia à mãe ir embora, Davi apenas conseguia pensar que nunca antes sentira tanta decepção.
***
“A senhora pode fazer o favor de olhar para mim quando falo com você?” Pamela exclamou enquanto saía da delegacia, correndo para alcançar a filha.
Por algum motivo, essa exigência estupidamente unilateral soou bem como um sermão de jardim de infância. Seria o uso de ‘senhora’, a exigência de contato visual ou algum fator de linguagem corporal? Bem, independente dessas minúncias, Megan deixara de ser uma criança há decênios — na verdade, suspeitava nunca ter vivido a infância em sua essência mais pura. Qual a utilidade, portanto, de querer impor um diálogo de forma tão hierárquica?
“Agradeça que estou deixando você falar,” disse sem olhar para trás.
Pamela puxou-a pelo braço, forçando que se encarassem de fato. Havia tanto arrependimento naquele olhar que Megan não conseguiu fitá-la por mais de um segundo. Para seu horror, desviar a mirada fizera que visse uma corja de fotógrafos escondidos pelos cantos, aproveitando-se de momento tão íntimo para obter furos jornalísticos. Nojo. Ódio. Deu o dedo do meio para toda essa classe asquerosa e arrastou a mãe até o veículo que as esperava.
A partir do instante em que se sentaram, o véu do medo medo envolveu-as em sua seda macia e delicada. Por que esclarecimentos quando era tão mais agradável se render ao conforto do silêncio? Por que se desculpar quando Pamela podia simplesmente segurar a mão da filha e esperar que ela se comovesse com seu carinho? Ah, talvez Megan fosse o erro, uma criatura em demasia complicada para aquela realidade automática que seu próprio padrasto ajudara a construir; aperta esse botão e voltarás ao início de tudo, desliza essa seta e terás o brilho mais luminoso a irradiar sobre ti.
Como bom ser humano que era, Megan tinha pena de quem a subestimava a tal ponto. Umas poucas carícias não seriam suficientes para calar suas lamúrias. Arrancou a mão de Pamela que descansava sobre a sua e esquivou-se até estar imprensada na janela.
“Não encosta em mim,” decretou. Pode ver os ombros da mãe murcharem com a negativa, mas ela ainda assim tentou mais uma vez se aproximar.
“Sweetie, meu amor.” Correu os dedos pelos cabelos macios da filha. “Sei que você está triste comigo, mas precisamos conversar. Eu posso te explicar tudo…”
“Qual parte de ‘não encosta em mim’ você não entendeu?”
Dor. Rejeição. A mão de Pamela foi deslizando vagarosamente até descansar em seu próprio colo. Ela iniciou a mexer com as unhas, desenhando-lhes o formato da base. Quando tornou a procurar por Megan, esta observava a paisagem decadente da Avenida Brasil.
“Sabia que já teve uma novela com o nome Avenida Brasil?” Arriscou essa tentativa mísera de conversa. Talvez, uma abordagem indireta fosse a mais eficaz. Sem contato físico, claro.
“Really?” Ela ainda mirava através do vidro. Parecia achar tudo aquilo muito patético, mas Pamela ignorou essas minúncias.
“Sim. Foi um sucesso, infelizmente não da Parker TV, mas mesmo assim… Teve aquele ator que parece com o seu pai, o Murilo…”
“Ele não é meu pai.”
O som do silêncio tornou a dedilhar sua enigmática melodia. Como um velho amigo, destes tão pertencentes a nós quanto nosso próprio espírito, tomou a liberdade de envolvê-las em sua disritmia. Aconselhou que alucinassem feito esquizofrênicas, que lutassem feito inimigas, que necrosassem feito carne apodrecida ao relento. Em que resultou? Em uma menina e uma mulher dançando juntas a cantiga da mudez… Ou seriam duas meninas? Ou a mulher na verdade era a menina e a menina era uma criança e suas vidas eram igualmente quietas, como os ecos do silêncio?
Suspiraram ao mesmo tempo, reiniciando mais um ciclo de sons. Estavam muito atentas à respiração uma da outra, analisando cada inspirar, cada expirar.
Foi Pamela quem findou a inércia.
“Você não devia falar assim, you know. Jonas nunca deixou nada lhe faltar.”
Megan riu. Desde quando prover necessidades básicas e alguns luxos era suficiente para satisfazer uma pessoa? Como diria uma banda à qual ela se afeiçoara no Brasil: “A gente não quer só comida/A gente quer prazer/Pra aliviar a dor”. Ainda que não fosse uma miserável de terceiro mundo, inspiração dos Titãs para escrever a música, ela concordava em muito com esse ponto de vista. Como Pamela dissera tamanho desatino?
“Já que Jonas é um homem tão generoso” Ela enfim se virou para encarar a mãe “por que você não passa mais tempo em casa curtindo o seu hubby?”
Pronto. Atingira uma questão sensível, visto que Pamela estremeceu e pontuou seu olhar a muitas estradas de distância dali. Enquanto aspirava ao outro lado da janela, tornou-se miúda, muito pequena demais, os ombros encolhidos e os lábios finos feito linha reta. Por dentro, Megan havia de decidir se sentia nojo dessa postura de fragilidade ou se sorria de satisfação por causar a outrem a mesma dor que ela própria sofria. Decidiu que este último pensamento poderia ser a chave de um bom método vingativo — afinal, que mais a mãe merecia naquele momento senão um estilo preciso de castigo? Ora, se carregava tamanho pesar dentro de si, certamente havia decepado algum pedaço de sua moral, resultando na culpa desenhada em cada linha de expressão, em cada ruga, em cada mancha do rosto. Quando tornou a verbalizar seu padecer, foi infeliz na escolha de argumento.
“Nós dois andamos ocupados,” afirmou sem muita convicção, pouco imaginando que torturava a filha além da medida. Claro, se estavam atarefados demais para dar atenção um ao outro, que dizer à cria? Despertou-se assim aquela ideia de desforra dentro de Megan, e ela decidiu: feito braço de uma Inquisição contemporânea, decretaria a punição adequada à pecadora, bem como sua merecida tortura.
Assim o fez.
“Por que andam tão ocupados? O Jonas eu até entendo, porque ele sempre foi um workaholic, e um merda também.” Pamela virou a cabeça para encará-la, os olhos arregalados. “Agora, você? Que obrigações você tem? Depois de vinte anos sem trabalhar, era de se esperar que sua vida não tivesse tanto hype.”
Outro ponto vulnerável: Pamela abandonara quaisquer projetos individuais após o nascimento da filha e o casamento com Jonas. Ele jamais estimulou um retorno da esposa aos holofotes, afinal, fora arquitetado pela cosmogênese para brilhar sozinho, não dividir atenção com outro ser humano, especialmente com a própria esposa. Esta deveria ser seu trampolim, jamais uma possível concorrente. Caso Pamela pensasse em responder o questionamento da filha, teria de admitir que realmente fazia nada — quer dizer, nada que pudesse ser divulgado. Na ausência de coragem para externar o que acontecia consigo, ela se limitou a mexer com as mãos, as quais subitamente pareciam tão mais interessantes.
“Pensando bem,” Megan continuou “a minha pergunta foi desnecessária. Eu já sei o que você anda fazendo, anyway.”
Pamela tornou a fitá-la com assombro.
“Sa-sabe?” A voz falhou.
“Sei.” Voltou a apreciar a paisagem concreta do Rio de Janeiro.
Nada mais. O que se passava? Pamela podia esperar qualquer comportamento, menos este. Viu-se quase ansiando pela humilhação, como que isto pudesse corrigir os ditos impulsos libertinos que a acalentavam toda. Ela necessitava de um tapa na face, senão que mais lhe restaria além de quedar impura para sempre? Puxou Megan pelo ombro.
“Filha, fala comigo, por favor!” Acarinhava o rosto dela com descontrole, até deixando-lhe marcas vermelhas nas bochechas. Para sua surpresa, Megan terminou por gostar desse contato, dessa forma desesperada e febril com que era tocada. Sentia como se fosse importante na vida de alguém a ponto de abalar sua razão, e quão magnífico podia ser esse pensamento! Magnífico e também enganoso, faz-se necessário dizer. Assustada com tudo isto, ela intentou escapar.
“O que foi, mãe?!”
Pamela perdeu a lucidez.
“Oh, Megan, my love…” Agarrou-se à filha, sufocando-a até que cessasse a respiração. “Me desculpa, me desculpa, I’m sorry, por favor, me desculpa!” Abraçou-a sem pudor, sem disciplina, sem etiqueta. Quase lhe fraturou as costelas, também chorou muito, chorou toda a água dos oceanos, lágrimas salgadas de remorso, e de repente não mais era uma estrela, era uma mulher esfarrapada de tanto errar e urrar e esperar que alguém a remendasse inteira. Implorava perdão por motivos que nem ela sabia bem quais eram — fraqueza como pessoa, ausência como mãe, deslealdade como esposa?
Essa doente troca entre as duas não findou até o motorista avisar que haviam chegado em casa. Apenas então Megan teve coragem de desatar-se dos braços de Pamela. Como fora fraca! Deveria tê-la empurrado, de certo! Isto, precisava ser bruta, precisava ser dura. Saiu do carro com toda pompa e não olhou para trás.
Ao final, não conseguira revelar o que tanto a angustiava: a suspeita de que Pamela Parker arranjara um amante. Porém, se tivesse feito assim, talvez se deixasse levar pelos desabafos da mãe e acordasse a compaixão que escondia dentro de si. Não podia deixar isto acontecer. Não, não podia. Seria um absurdo!
Se há um alerta que pode ser feito a você agora, caro leitor, é precisamente esse: Megan Lily até gostava de ser bondosa, mas gostava mais ainda de ser cachorra. O mundo que se esforçasse para girar na mesma velocidade dela, e as estrelas que não inventassem de brilhar mais que ela lá no alto do céu. Ponto final, nada mais a dizer.
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Tem que ser agora ou eu vou perder para sempre
Para mim é estranho, essa sensação é estranha
E não vai mudar para ninguém
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O som da campainha ecoou por todo o apartamento. Teve certa dificuldade para alcançar os dois ruivos adormecidos na sala — não pelas dimensões do recinto, visto que este era minúsculo, mas pela quantidade de móveis e objetos e roupas mal espalhadas ao longo do lugar. Mesmo com tais empecilhos, o barulho chegou estridente aos ouvidos dos irmãos, causando muita irritação para ambos.
“Vai você, Vander.”
“Não, vai você.”
“Eu vou contar pro Pádua que você roubou o celular dele.”
“Calma, leque, eu já tava indo.”
Caminhou até a porta, abrindo-a logo em seguida. Não encontrou visitante dos mais agradáveis, ao menos não em sua percepção. Afinal, o que Davi Reis fazia ali à meia noite? Mal podia crer que interrompera suas soníferas divagações para encarar a face repugnante do desafeto.
“Cacete, nem de madrugada tu para de encher o saco?”
Arrastou-se até o colchonete em meio a resmungos e deitou-se novamente. Em poucos segundos, roncava como que nunca houvesse sido acordado.
Davi sentiu a visão tremer. Ainda não tivera tempo de mensurar o desatino de dispor-se a conviver com o ser humano imprestável que era Vander. O que estava fazendo com sua vida? No dia anterior, ainda nutria insatisfação com o ritmo de seu caminhar, mas nos moldes da tolerância passiva ao marasmo. De súbito, esse hábito concreto amoleceu até tragá-lo feito areia movediça, e ele não sabia mais distinguir o que acontecia à sua volta. Na cadência de poucas horas, fora expulso da faculdade e decidira sair de casa. Por que ele, logo ele, sempre um jovem tão caseiro e sensato e certinho? Por que ele, logo ele, sempre tão amado por mãe e pai? Havia de ser um ingrato frente as oportunidades da vida!
Adentrou o apartamento, fechando a porta atrás de si e cuidando para não pisar em um prato de comida jogado no chão. Já estivera ali muitas vezes, mas sempre conseguia se surpreender com tamanha semelhança com um lixão.
Cutucou Mosca com a sola do sapato, e ele abriu as pálpebras com dificuldade. Traços desfocados tomaram forma até que a imagem de Davi finalmente se materializasse. Ainda deitado, o ruivo indagou:
“Que caralhos você tá fazendo aqui?”
O cumprimento não foi muito gentil, mas ainda assim deu início a uma longa conversa. Davi tratou de explicar o incidente passado em seu quarto, quando Rita descarregou toda incompreensão sobre o filho. Em seguida, veio o relato da ida à faculdade, o qual apenas reforçou que Davi estava fora da instituição. Por fim, houve o retorno ao lar, trazendo consigo mais uma discussão com a mãe. Esta não foi tão distinta da anterior, mas suficiente para atiçar a insatisfação que Davi sentia. Amava a mãe e sabia ter sido muito bem criado por ela, mas era um adulto e assim devia ser tratado. Machucava não obter apoio às decisões importantes que estava tomando, todas parte de seu crescimento pessoal. Afinal, ele tinha ou não o direito de perseguir a felicidade até que ela não mais pudesse fugir de seu alcance?
“Deixa eu ver se entendi,” Mosca concluiu em certo momento. “Você inventou do nada que ia sair de casa, fez as malas e foi embora?”
“Mais ou menos isso.”
Silêncio.
“Olha, não tô querendo te expulsar, mas…” O ruivo pigarreou. “Por que você não pediu ajuda do Herval? Aqui não tem muito espaço, acho que dá pra perceber.”
Davi observou seu entorno sob ótica mais esmiuçada. De alguma forma, o volume de quinquilharia presente no recinto parecia ter duplicado desde sua última visita, transcorrida poucos dias antes. Bufou ao perceber uma cueca jogada em cima da pia.
“Eu fui na Plugar atrás do Herval, mas ele não atendeu a campainha.”
Mosca encarou-o alarmado.
“Ele não tava em casa, então?”
Davi deu de ombros.
“Sei lá. Não falo com ele desde ontem. Queria saber porquê aquele vacilão foi embora correndo no meio da festa do Pádua.”
Os dois amigos desabaram em silêncio, cada qual com sua mania particular: um roía as unhas, o outro coçava o queixo. Tal mudez terminou por selar um acordo entre eles, visto que Davi logo posicionava suas poucas malas de frente à porta do lavabo, único cômodo adjacente à união de cozinha e sala. Será que o banheiro era limpo com uma frequência no mínimo semanal? Bem, melhor não dissecar esses detalhes.
Um som agudo alertou que Davi recebera uma mensagem no WhatsApp. Era Dante.
“Oi, filho. O show atrasou e eu vou ter que dormir aqui em Caxias mesmo. Beijo.”
Ah, ele não seria presenteado com boas vindas quando voltasse de seu concerto, isto era garantido. Lamentava a briga que se instalaria após seu retorno — Rita odiava a frequente ausência de Dante graças à sua profissão de músico. Mesmo sendo um marido fiel e amável, suas muitas turnês não colaboravam. Mulheres são criaturas complexas, pensou Davi. Não que ele as conhecesse com propriedade, óbvio; sempre fora inseguro demais para experimentar vários amores. Talvez seu pai estivesse certo, afinal: ele precisava se comportar como um jovem, não como o provedor do lar.
Contudo, o rosto da mãe teimava em atordoá-lo quando menos esperava, e ele questionava se fizera bem em abandoná-la tão rápido. Pior: ele pulara a janela mais uma vez e fora embora sem avisar de sua decisão, ao menos não oralmente. Apenas deixou uma carta sobre a mesa da cozinha, explicando para os pais que se sentia sufocado e desejoso de viver com mais autonomia, mas não tinha coragem de expressar isto da forma correta. Dissertou páginas afora, tentando tornar clara toda a confusão que o acometia no momento. Ao final, enfatizou que os amava muito e que iria visitá-los no dia seguinte.
Esta última parte fora pensada e repensada. Não era lá de grande rebeldia sair de casa e tornar ao ponto original para justificar seus atos, já que ele era maior de idade e independente. No entanto, Davi era naturalmente um homem de coração mole, então seu egocentrismo não duraria mais que umas poucas horas. Somente esperava que ver o rosto da mãe não destruísse seu objetivo.
Após mais algumas palavras trocadas com Mosca, vestiu um pijama e deitou-se no sofá. Pôs seus fones de ouvido para abafar os roncos dos amigos e enfiou o rosto debaixo de um travesseiro.
Naquela noite, ficou feliz de sonhar com o caos.
***
Megan caminhou um tanto, mas logo retrocedeu a passos largos. Jamais conseguiria prosseguir sozinha.
Tornou ao carro e abriu a porta com impaciência. Desatou a buscar e buscar e buscar. Calmante, certo, vodka, certo, cigarros, certo. Todos estes elementos haveriam de fazer-lhe excelente companhia. Destacou um comprimido da cartela e meteu-o na boca, intentando degluti-lo apenas com sua saliva. Quando este processo mostrou-se ineficaz, contou com a ajuda da bebida, que fez o medicamento escorregar pela garganta, como que não houvesse nada mais natural para seu organismo que ingerir mais e mais remédios. A noção de ser indestrutível foi tão intensa que ela atirou a garrafa agora vazia ao longe, vibrando com o barulho de vidro estilhaçando. Contribuíra para sujar mais um pouco aquela rua imunda e de nome esquisito — Estrada da Soca.
“Muito prazer, Taquara,” murmurou ironicamente e acendeu um cigarro. Preferia maconha, mas a maldita pendência moral que tinha com o avô ainda atava suas mãos, logo se limitou às drogas lícitas. Deu umas tragadas enquanto caminhava até seu destino, que terminou por ser um típico pé sujo que sequer possuía um nome, ao menos não explícito. Ela não se importou muito com esse fato — nunca fora muito afeita ao refinamento de sua classe social.
Adentrou o recinto, espiando todos os cantos até encontrar exatamente quem procurava. Lá estava o rapaz de músculos rijos e volumosos que conhecera no Facebook– Megan fez questão de tomar o celular e conferir a foto de perfil dele para ter certeza. Pessoalmente, ele parecia ainda maior, mesmo que seu rosto carregasse traços de menino. Bagunçava os cabelos meio loiros de forma meticulosa, cuidando para que ficassem corretamente desalinhados. Em resumo: era um playboy filhinho de mamãe desejoso de aparentar muito mais idade e sex appeal do que realmente possuía. Não que esse início de contato não pudesse ser interessante, claro. Megan não era de descartar possibilidades sem uma boa averiguação.
Caminhou como que não houvesse visto ninguém e apoiou os cotovelos na bancada do bar. Sabia que, desta posição, era claramente visível pelo alvo em questão. Portanto, tratou de correr os dedos pelas ondas loiras, fazendo que tomassem um cascatear sensual que apenas parava no fim de suas costas. Também ajeitou o vestido até que ele ficasse o mais curto possível sem revelar nada além do aceitável. Era um modelo preto e justo, destes que deixam pouco — senão nada — à imaginação. Apagou o cigarro e digitou uma mensagem no celular:
“Já estou aqui. Não me viu ainda?”
Sorriu consigo. Amava ser abordada pelo sexo oposto tanto quanto amava fazer de tudo para enlouquecer um homem — era apenas uma questão de preferência momentânea. Naquele átimo tão frágil de sua vida, queria ser procurada, queria receber todo cortejo que merecia. Quando sentiu duas mãos firmes pegarem sua cintura e implorarem que ela se virasse, percebeu que ele havia captado seus sinais. Permitiu que seu corpo fosse girado, de modo que as costas terminassem pressionadas contra a bancada e ela encarasse o homem à sua frente.
“Prazer, Megan,” sussurrou enquanto tomava a mão dela e dava um beijo na pele macia. Megan mal conteve uma risadinha. Homens podiam ser muito óbvios em suas tentativas de levar uma mulher para a cama — ou para o banheiro, que seria o destino final de ambos se aquela conversa corresse bem.
“Nossa, quanto cavalheirismo,” comentou entre risos. “Devo retribuir?”
Foi a vez dele de sorrir.
“Por favor.”
Megan ficou na ponta dos pés para dar um beijo no rosto do rapaz, deixando que seus lábios descansassem ali por alguns segundos. Em seguida, murmurou ao pé do ouvido:
"Muito prazer, Danilo."
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