Sim, Senhor.
24 Capítulo 24
Notas iniciais
Não houve qualquer cerimônia.
Não houve conhecidos se despedindo de Laura, não houve discursos embargados pela emoção e nem abraços calorosos na beirada da urna. Era somente Sara parada vendo os funcionários descerem o corpo de sua mãe naquela manhã chuvosa, empunhando um guarda-chuva preto, não tinha preparado nenhum discurso de despedida.
Agachou-se e segurou a terra molhada em sua mão, apertou até o sangue parar de circular pelo o nó de seu dedo. Jogou por cima do caixão enquanto os funcionários aguardavam o que parecia ser um adeus, pegou uma única tulipa branca que tinha comprado previamente e jogou próxima a terra. Levantou-se e fez um sinal com a cabeça indicando que poderiam acabar de enterra-lá.
“Onde quer que você esteja, descanse de todos os problemas”.
Sara virou as costas e foi direto para o aeroporto, não havia necessidade de ficar em Reno mais que o necessário. O voo de uma hora e meia e estava em Las Vegas novamente, pegou o seu carro que estava no estacionamento e foi direto para o seu apartamento, lembrava-se de ter pego no sono “ao lado” de Grissom — preferia acreditar que não tinha acalentada nos braços dele — e pela manhã acordou apenas com a companhia de Stella.
Em seu apartamento, sua secretária eletrônica indicava três novas mensagens mas não tinha qualquer disposição para falar com alguém. Seu estômago doeu e só então atentou-se que não tinha comido nada naquele dia, foi até a cozinha e espantou-se com a quantidade de comida que havia ali mas não lembrava-se de ter comprado nada daquilo. Torceu o nariz e decidiu comer o chocolate que estava em cima da mesa.
O seu celular começou a tocar e ela relutou muito antes de atender, queria um pouco de sossego naquele momento. No visor o nome de Stella piscava incessantemente e acabou dando-se por vencida.
— Como você está querida?
— Cheguei a pouco tempo. Estou bem, ainda digerindo tudo isso mas bem.
— Precisa de companhia? Todos aqui estão querendo ir te visitar.
Ela fechou os olhos com força, pensar em ter a casa cheia a deixava desconfortável mas precisava admitir que a presença deles seria reconfortante.
— Acho que agora seria bom ter um pouco de companhia.
— Vou falar com eles, daqui a pouco chegamos ai.
Click
Optou por tomar uma ducha quente antes das visitas chegarem, um longo banho ajudou aliviar seus músculos que estavam tensos desde a notícia da morte de sua mãe. Optou por uma roupa confortável e pés descalços, foi para sala e pegou em sua bolsa dois analgésicos de Grissom, engoliu a seco. A mala com alguns pertences de Laura ainda estava jogada ao lado do porta, no manicômio judicial havia sido informada que separaram os seus pertences pessoais e outros documentos, olhar para aquele objeto no chão era materializar sua mãe naquele cômodo.
Não tinha ideia de qual seria o fim daquela mala, havia incerteza sobre abrir para verificar o que Laura deixou para trás. Suspirou fundo e levantou-se para atender o interfone, Zac havia informado que tinha chegado um “grupo consideravelmente grande", autorizou a entrada da família Grissom’s e retornou para a sala para recebê-los.
A primeira ir ao seu encontro foi Beth, de uma forma que Sara considerava ser humanamente impossível ela tornou o seu abraço ainda mais caloroso e afetuoso.
— Como você está querida?
— Ainda estou digerindo tudo, Beth. Não sei como eu vou reagir quando acabar.
Beth deu passagem para Jason abraçá-la, o abraço foi tímido e rápido mas mesmo assim ela se sentiu confortada pelo o rapaz. Aquela era a maneira dele de dizer “fica bem” ou “vai passar”.Emma aproximou-se de Sara com os braços esticados, no fim de tudo era o abraço da menina pelo o qual ela mais ansiava ; a amizade que elas nutriam era pura e sem esperar nada em troca.
— Oi, Sarinha. Fica bem, viu? — Sara agachou-se para ficar na altura dela. Emma limpou uma lágrima que escorreu na face dela. — Estou aqui com você agora.
— Obrigada, você não sabe como é importante você está aqui. — Levantou-se e indicou o sofá para todos se sentarem, sentiu a falta de Grissom quando conseguiu visualizar toda a sua sala.
— Como foi em Reno?
— Foi tudo rápido, Stel. Não houve nenhuma formalidade ou despedidas, fui fazer a minha parte e pronto. Fui verdadeira com a Laura até o último momento.
— Era tudo o que você pode dar, querida. Não se preocupe, não haverá julgamentos. — Beth segurou sua mão e fez um carinho com o dedo.
— Você já se alimentou? Hoje pela manhã você apenas bebericou um pouco de suco e nem mexeu nos pães. Não é saudável que fique muito tempo sem comer. — Stella havia reparado que cozinha parecia estar da mesma forma que ela deixou quando foi embora. Sabia como Sara reagia aquelas situações, depois que foi enviada para o orfanato a menina emagreceu 6 quilos.
— Eu não estou com muito apetite, comi um pedaço considerável de chocolate. — Sorriu para Emma que fez uma careta travessa ao saber que tinha doce na casa. — Apenas para manter a minha glicose no lugar.
— Sara arruma as melhores desculpas para não precisar comer. — Jason concluiu e foi ficar ao lado de Stella que estava debruçada no balcão que dividia a sala e a cozinha.
— Eu sei, Jay.- Disse encarando Sara. — Vou preparar um sanduíche para você e sem desculpas para comer.
A morena apenas assentiu e trouxe Emma para um novo abraço, a menina retribuiu e sentou-se apegada a cintura da babá.
— Querida, entendemos que precisa do seu espaço nesse momento mas se você quiser ficar lá em casa conosco vai ser um prazer.
— Vamos para lá, Sarinha. Você pode ficar no meu quarto.
— Muito obrigada, D.Beth e Emma. — Ela suspirou. — Eu prefiro ficar por enquanto aqui, não me entendam mal mas eu preciso passar por esse luto sozinha.
— Sei que você não responde a mim mas tenho certeza que Grissom dará a você o tempo necessário. Não se preocupe, eu liguei para os meus colaboradores e avisei a eles que precisei adiar o meu retorno.
— Muito obrigada, de verdade. — Sara sentiu uma fagulha de afeto ascender no seu coração. Stella sempre foi o seu referência de família e carinho mas começava a sentir a mesma coisa com Beth.
…
Grissom terminava de concluir o último relatório do seu caso em aberto, por conta das dores ele ainda evitava o trabalho em campo. Emergido em sua sala não reparou quando seu velho amigo Brass entrou e sentou-se à sua frente. O capitão conhecia as manias do supervisor, sempre muito atento a seu trabalho, ele pouco se importava com o exterior quando estava preso em seus pensamentos.
Reparou como os anos havia passado para ele, depois da partida de Maggie ele emagreceu a ponto de regularizar o seu abdômen; os cabelos começavam a ganhar fios grisalhos e olhos azuis ficavam cada vez mais escuros pelo o cansaço da vida.
— Me admirando em silêncio, capitão? — Grissom terminou de assinar o papel e levantou a cabeça, encontrando uma expressão engraçada no rosto de seu amigo.
— Desenvolveu a habilidade de dupla concentração?
— Senti o seu olhar pesado, apenas. — Jogou a caneta sobre a mesa e reuniu todas as folhas assinadas dentro da pasta parda, esticou a coluna e corrigiu a postura para conversar com Brass. — Perdido no laboratório?
— Vim apressar o Nick com processamento de uma evidência, o xerife já está mordendo os meus calcanhares por causa desse caso.
— Os policiais precisam entender que temos que fazer a análise com cuidado para não prejudicar o serviço deles.
— A burocracia não tem paciência, Gil.
Ele precisou concordar com o capitão, por mais que eles precisassem de tempo para entregar as evidências com a maior precisão, as leis e burocracias faziam o relógio correr mais rápido que o normal.
— Como você está, Grissom? Tenho te observado mais calado que o habitual.
— Estou bem. — Na realidade ele tinha se fechado um pouco mais de uns meses pra cá e com o incidente da foto de Maggie ele retraiu mais ainda. Ele não sabia lidar com todos aqueles sentimentos novos que estavam surgindo.
— Não me parece. Vejo o mesmo Grissom que surgiu depois da ida de Maggie.
— Capitão! — Não esperava por aquela afirmativa. Feridas abertas sempre estão sujeitas a toques.
— Eu sei que você odeia que entre nesses assunto mas eu sou seu amigo de longa data. Não posso simplesmente ignorar o que está acontecendo.
Grissom levantou-se e foi até a porta, certificou-se que o corredor estava vazio antes de trancá-la e fechar as persianas. Brass era o seu braço direito, amigo e muitas vezes o seu “peculiar” psicólogo. Em seu interno sabia que se não fosse pelas longas conversas com Brass não conseguiria passar por isso de uma forma tão centrada.
— Recebi isso a um tempo. — Ele pegou em sua pasta um envelope
— O que eu estou vendo é uma foto recente da Maggie? — Brass analisou a foto atônito, seus anos como supervisor e capitão haviam ensinado a nunca se surpreender com o ser humano mas nunca se acostumou com os diferentes requintes de crueldade. — Foi ela quem te enviou isso?
— Eu não sei, recebi em um envelope sem remetente.
— Seus filhos viram isso?
— Não! Óbvio que não! Jason e Emma levaram muito tempo para superar toda essa história e eu não vou estragar tudo isso.
— Sensato. — Brass devolveu a foto para o supervisor. — Grissom está na hora da sua vida andar. Não sei em que parte do mundo essa mulher está, por mim ela poderia estar no inferno que não faria diferença alguma mas ela está vivendo a vida dela. — Elevou o tom de voz, nunca teve problemas com a esposa e mãe de seu afilhado mas jamais a perdoaria
— Brass, meça as palavras para se referir a ela. Por favor. — A tonalidade de Grissom era serena, não queria reprimir apenas evitar que ele esquentasse os ânimos.
— Eu não consigo, me desculpe. — Ele controlou o tom de voz e acalmou-se. Reconheceu que apesar do problema, seu amigo ainda era casado com ela.
— Não foi nada fácil receber essa fotografia.
— Devia olhar para essa foto e ter coragem de deixá-la para trás. Não pense que eu não reparei na aliança que ela usa mas logo te aviso que isso nada significa.
Grissom calou-se, rodou a joia em seu dedo e ficou encarando o objeto dourado. Usava aquela aliança por pura conveniência.
— Acredite em mim, eu estou tentando. Só estou fazendo isso no meu tempo e da minha forma.
— Que leve meses ou anos mas faça isso. Você merece, Gil. — Brass espalmou as mãos na perna e levantou-se. Seu corpo implorava por descanso. — Viva a sua vida e esqueça os erros do passado.
O supervisor acompanhou seu amigo até a porta, trocaram um breve aperto de mão e Brass seguiu o lado oposto de Grissom. Conferiu o seu relógio e viu que marcavam 02:46, mordeu o lábio inferior e mentalizou o que poderia fazer durante o seu intervalo, foi até a sala de conveniência e serviu-se com um pouco de café, ao experimentar o sabor seu rosto retorceu em uma careta.
Depositou a xícara no balcão e saiu em rumo ao corredor, estava com fome e precisava se alimentar. Optou em dirigir alguns minutos até uma lanchonete que ficava alguns minutos do laboratório. No estacionamento enquanto destrancava seu carro, viu Hank atravessando os carros indo em sua direção.
— Dr. Grissom. — Hank parou próximo ao carro de Grissom com um sorriso irônico nos lábios. Pela as roupas que vestia, estava em horário de trabalho. O supervisor fez uma ligeira análise mental se estava envolvido em algum caso que o paramédico tivesse trabalhado.
— Precisa de algo?
— Soube que a mãe de Sara morreu.
— Notícias correm rápido. — Ele suspirou e colocou a mão nos bolsos de sua jaqueta. — Algo mais?
— Como ela está? — A faceta irônica do rapaz estava incomodando Grissom. Era evidente para o perito que ele pouco se importava com o acontecimento, estava ali somente para incomodá-lo.
— Devia pergunta-lá.
— Vocês são tão próximos, achei que devia saber. Aliás. — Hank deu um passo à frente e Grissom retirou as mão da jaqueta e as cruzou na altura do peito. — Está indo para o apartamento dela agora?
— Eu não sei se lembra devido estar completamente alcoolizado quando foi na porta da minha casa, mas eu deixei bem claro que eu não sou um homem de relevar minhas ameaças.
— Pensando em cumprir?
— Isso é uma cortesia. Agora se não tiver mais o que me perguntar ou importunar eu preciso sair.
— Mande um abraço para Sara, Dr.Grissom. E faça bom aproveito dela.
Grissom reduziu o espaço que tinha entre os dois, levou a mão aberta em seu rosto e coçou o queixo. Se tivesse alguns segundos de insanidade iria desferir bons socos na cara do rapaz, não permitiria que ele desmerece a imagem de nenhuma mulher na sua frente, ainda mais no caso de Sara.
— Sabia qual a nossa diferença, Hank? Eu não sou um moleque como você é. Não preciso ficar te caçando para fazer provocações
— Você está muito diferente, Dr. Grissom. — Ela sorriu e encarou olhando por baixo. — Se fosse em outra época você iria explodir.
— Não vou ficar aqui caindo nas suas provocações.
— Achei que fosse cumprir as suas ameaças.
— Lembre-se, eu não sou moleque como você é. — A única forma de encerrar aquela conversa seria ele saindo dali, tentou abrir a porta do carro mas foi impedido pela a mão de Hank que segurou.
Brass que havia entrado no estacionamento, reparou que Gil parecia ter uma conversa nada amistosa com Hank. Desceu do carro e foi em direção aos dois que pareciam estar a uma fagulha de armar uma confusão.
— Tudo bem, Gil? — Encarou o paramédico e em seguida olhou para o supervisor que ainda encarava o rapaz.
— Sim, Jim. Estou acostumado a lidar com adolescentes. — Grissom desviou o olhar e encarou o capitão. Brass só precisou encarar o supervisor para ver que seu olhos azuis estavam inflamando raiva.
— Hank, circula! Entra no laboratório e vai fazer o seu serviço.
O loiro assentiu ao capitão e saiu caminhando para a recepção. Grissom e Brass acompanharam com o olhar até ele sumir pelo saguão do prédio.
— Problemas com ele?
— Problemas?! — Grissom soltou uma risada irônica. -Meu sobrenome é problemas.
…
A semana havia se passado e as únicas notícias que Grissom tinha a respeito de Sara era através de sua mãe e Stella que a visitavam todos os dias pela manhã. A corregedoria estava andando no laboratório como sua sombra e ele não podia em momento algum se ausentar, seus turnos estavam sendo esgotantes e ele sempre chegava em casa precisando descansar.
No fundo ele sabiam que ambos precisavam de um tempo. Via que estava andando em um terreno totalmente desconhecido, embora não tivesse certeza a respeito dos sentimentos que nutria por ela sentia uma necessidade de ajudá-la e estar perto dela.
Depois toda a parte burocrática resolvida e concluída ele podia-se dar o luxo de descansar e relaxar, ele merecia isso e sua família também. Olhou em seu relógio e julgou que pelo o horário poderia fazer uma visita a Sara. Chegou ao seu prédio e aguardou a autorização para entrar, estacionou o seu carro na garagem e foi em direção ao apartamento e tocou a campainha esperando por ela.
— Espero não ter vindo em um horário ruim.- Grissom estava com as mãos no bolso de sua calça e abriu um pequeno sorriso na lateral do rosto. — Saí do laboratório agora.
— Entre. Acordei faz um tempo ou melhor — ela sorriu — levantei agora. Passei a noite em claro.
— Posso voltar outra hora se quiser.
— Entre! — Sara puxou Grissom pelo o braço de uma forma delicada e fechou a porta atrás dele. Indicou o sofá para ele sentar-se e ela se acomodou em uma pequena poltrona.
— Como você está? — Ele apoiou os braços na coxa e segurou a sua cabeça entre as mãos.
— Digerindo tudo isso ainda. — Ela suspirou e cruzou os braços.- Laura já tinha partido faz um tempo mas perdê-la assim foi dolorido demais.
— Não somos programados para o fim. Apesar de ter perdido o meu pai muito cedo e uma circunstância completamente diferente da sua, eu ainda sinto a presença dele comigo. — Grissom pegou a sua carteira em seu bolso e retirou uma pequena foto de dentro do objeto de couro e esticou para Sara. — Minha mãe me conta que o meu jeito é muito parecido com o meu pai, alguns gestos e manias. Perdi as inúmeras vezes que pegue D.Beth me admirando com a desculpa de estar matando as saudades do meu pai.
Sara sorriu ao ver a fotografia amarelada que Grissom carregava em sua carteira, ele e o seu pai estavam sentados no banco de um espaço jardim, ambos sorrindo. Os cabelos encaracolados dele lembravam muito aos cabelos de Jason, ele havia sido uma criança com bochechas proeminentes e um sorriso tímido.
— Única fotografia que eu tenho com ele. Minha mãe me conta que ele não era adepto a retratos e com muito esforço ela conseguiu tirar essa foto. Segundo ela mais difícil foi fazer o meu pai sorrir.
— Vocês são muito parecidos. Se existe algum céu ou outro lugar para onde vamos depois da morte, ele está lá orgulhoso de você.
— Tenho certeza que todo esse tempo que Laura passou longe de você, ela se orgulhava de quem você é.
— Me esforcei para ser o oposto dela. — Ela esticou a fotografia e ele retornou com o objeto para a carteira. Ficaram em silêncio absorvendo a última fala de Sara, era evidente que ela ainda era ressentida com a mãe mas isso não a impedia de viver o seu luto.- Me desculpe, acho que foi desnecessário a minha fala.
— Sinta-se a vontade para falar. Não vim até aqui para te julgar.
— Vamos deixar esse assunto de lado, preciso retomar a minha vida e voltar para o meu trabalho.
— Tire o tempo que for necessário. Pedi a minha mãe e a Stella que deixasse isso bem claro com você.
— Agradeço mas eu realmente estou pronta para voltar.
— Quando quiser. — Deu de ombros.
— Posso te servir alguma coisa? Esses dias sua mãe e Stella tem vindo me fazer companhia pela manhã enquanto Emma e Jason estão na escola, precisei me virar na cozinha para poder servir algo para elas.
— Não é necessário. Você já comeu alguma coisa?
— Na realidade eu não tenho tido fome esses dias.
Grissom observou Sara e viu como ela tinha perdido peso, seu rosto estava apático e seus olhos não transmitiam qualquer sinal de luz.
— Eu aceito um pouco de café se você me fizer companhia.
— Você venceu. Vou preparar algo para comermos então.
— Eu te ajudo a preparar.
Sara levantou-se e seguiu para cozinha com Grissom logo atrás de si. O cômodo era pequeno e cabiam duas pessoas mas de uma forma não tão confortável. Grissom apoiou-se perto da porta e reparou uma embalagem laranja de medicamento sobre o balcão com o seu nome, pegou e reparou que não havia nada.
— Isso por acaso era meu? — Questionou enquanto indicava com o dedo o frasco vazio. — Alguém te deu isso?
— Eu peguei no lavabo da sua casa.- Ela falava devagar como uma criança que procura as melhores palavras para dar desculpa aos pais. — Espero que não tenha se importado, eu posso te devolver o valor e te dar a minha palavra que não irei fazer mais isso.
— Calma. — Ele riu e colocou a embalagem novamente no lugar. — A questão não é você ter pego e sim o perigo que é tomar esse medicamento sem uma prescrição médica. Eu uso para as minhas enxaquecas e é a minha única salvação.
— Isso não vai se repetir.
— Assim eu espero.- Balançou a cabeça em negativa e a reprimiu com o olhar. — O que eu posso ajudar?
— Está tudo sobre controle. — Ela abriu a geladeira e retirou alguns ovos para fazer mexidos. Era um total desastre na cozinha e aquilo era algo mais prático que ela poderia servir. Fechou a geladeira e encontrou Grissom a encarando. — O que foi?
— Nada. — Ele despertou do seu devaneio e só então se deu conta que estava a admirando com um sorriso abobalhado no rosto. — Certeza que não precisa de ajuda?
— Bem, já que insiste. Se não se importar coloque as xícaras e os pratos na mesa por favor. Estão guardados no armário aqui. — Indicou o móvel acima de sua cabeça. Grissom entrou na cozinha e reduziu ainda mais o espaço para locomoção, quando esticou os braços acabou encurralando Sara entre o seu corpo e a pia.
Grissom abaixou o seu olhar e viu Sara o olhando, desceu as mãos até a lateral do corpo dela. Engoliu a seco e umedeceu os lábios, tocou a sua face com o polegar e fez um carinho na pele macia. Ela não recuou, fechou os olhos e apoiou seu rosto na palma da mão dele. Sentiu o polegar deslizar até os seus lábios, delicadamente ele desenhou o formato de sua boca com a ponta de seu dedo.
Era algo magnetizado, de uns tempos eles tinham a noção que se estivessem muito perto algo poderia acontecer.
A mão que antes deslizava pela a face, escorregou até a nuca e a puxou para perto de si. A união dos lábios havia sido tão explosiva quanto da primeira vez, as bocas entreabertas estavam sedentas por mais espaços a serem exploradas. O contato da língua havia sido quente, Sara apertou os músculos do braço dele e ambos intensificaram o beijo. O sabor refrescante da menta era um convite malicioso por mais.
Ela levou seus dedos em sua nuca e deslizou de uma forma que provocou arrepios, os batimentos cardíacos estavam descompassados mas eles continuavam se arriscando. Permaneceram unidos até o findar do fôlego, Sara ainda conseguiu passar a língua sobre o lábio dele como um gesto final. Grissom apoiou sua testa na dela, respirou fundo antes de abrir os olhos.
— Acho que temos dificuldade em obedecer nossas próprias ordens.
— Mentimos bem. — Sara abraçou o corpo de Grissom que a envolveu em seus braços, acariciou seus cabelos e a velou em silêncio. Ficaram juntos abraçados até o interfone tocar, ele conferiu o relógio e provavelmente seria a sua mãe e Stella. Ela atendeu e autorizou a entrada das senhoras no prédio.
— Onde fica o seu banheiro?
— Final do corredor, segunda porta a direita.
Ele meneou a cabeça em afirmativa e antes de sair ele beijou sua testa e logo em seguida piscou. Quando Grissom saiu do campo de visão de Sara, ela levou a mão ao rosto tentando entender o que tinha acabado de acontecer mas ela não teria muito tempo para racionalizar.
— Bom dia, Sara.- Stella foi a primeira a entrar e abraçá-la, seguida por Beth que repetiu o mesmo gesto. — Como você está?
— Calma, confortada e pronta para retomar a rotina.
— Fico feliz em saber.- Falou Stella enquanto desfazia o abraço.
Grissom que estava no banheiro reconheceu a voz das duas mulheres, lavou o rosto com a água gelada e secou o rosto com a toalha disposta no banheiro. A primeira vez que beijou Sara a sua reação imediata foi o remorso mas daquela vez ele fazer novamente, o beijo era bom e sentiu-se embaraçado por não ter vergonha de admitir aquilo para si.
— Bom dia, senhoras. — Beth e Stella surpreendeu-se com a presença dele. Se entreolharam e Stella tinha mais motivos para estar desconfiada daquela visita inesperada.
— O que faz tão cedo aqui, Gil? — Beth indagou curiosa.
— Terminei as inspeções com a corregedoria e passei aqui somente para ver como Sara estava mas já estou de saída.
— Não quer aproveitar e tomar o café da manhã com a gente?
— Obrigada, Sara. Eu comi antes de sair do laboratório.
— Tem certeza, Grissom?
— Sim, Stella. Vou para casa descansar e colocar os pensamentos em ordem. — Ele olhou para Sara rapidamente.- Essa semana não foi nada fácil. Muito obrigado pelo o convite, Sara. Aguardo você amanhã.
“e com prazer vou quebrar meu coração por você”
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