Sim, Senhor.
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Naquela noite ele não tinha cabeça e nem condições de retornar para o laboratório, se ele estivesse no seu local de trabalho sua mente e sua concentração não estariam naquele ali, enviou uma mensagem para Catherine avisando que não iria para o laboratório e depois iria explicar melhor a situação para sua amiga.
A verdade é que ele não tinha para onde ir.
Não queria voltar para casa por que seria certo que teria mais uma grande discussão com Jason e isso era tudo o que ele não queria.
Nesse momento ele se culpava por não ter sido tão franco com seus filhos sobre a ausência de Maggie, tudo o que eles sabiam era a história contada de uma maneira superficial, na época ele optou por não bombardear seus filhos com a verdade.
Ele estava desorientado naquela cidade onde as luzes estavam acesas 24 horas, onde as pessoas buscam o tempo todo por diversão, o local onde as pessoas não dormem. Se tudo o que acontece em Vegas permanece em Vegas, naquele momento ele queria reconstruir sua vida longe dali, assim como Maggie.
Quando se deu por conta já estava na saída da cidade, pegou o acesso e caiu direto em uma highway, a estrada não tinha muito trafego, Grissom abriu a janela do carro e desligou o ar condicionado, o vento gelado cortando em seu rosto o acalmou por um instante, os cabelos que já apresentavam sinais grisalhos estavam avoaçados e por breves segundos ele fechou os olhos.
Quis se desligar da Terra.
Olhou para o céu e viu como longe das luzes da cidade o céu estava estrelado. Abriu o compartimento interno de seu carro e viu um CD que seu sogro havia gravado para ele alguns anos atrás, Bob com seu o senso de humor ácido sempre falava que Grissom precisava buscar os novos clássicos.
Colocou o CD no som do carro e aproveitou para se livrar do colete de nylon que era de uso obrigatório fora do laboratório, já sentia sufocado o suficiente com as palavras que Jason havia falado. Pegou o seu celular que estava no banco do carona e desligou, não queria que ninguém se importasse com ele naquele momento. Determinados machucados só se curam com a solidão.
Pisou um pouco mais fundo no acelerador e viu quando o velocímetro marcou 130 km/h, não era prudente fazer aquilo mas a adrenalina o fez sentir um pouco mais vivo. Não se lembrava das músicas que tinham naquele CD pois não era adepto a escutar música enquanto dirigia, pulou algumas faixas e gostou quando o solo da guitarra do Robert Smith iniciou no som, já havia escutado algumas vezes aquela música e a letra veio a “calhar” com tudo o que estava acontecendo.
Eu pediria desculpas
Se eu achasse que isso faria você mudar de ideia
Mas eu sei que desta vez
Eu falei demais, fui indelicado demais
Maggie estava deitada ao lado de Grissom, eles tinham acabado de concluir a difícil tarefa de fazer Emma dormir em sua nova cama, a menina de quatro anos ainda não tinha se adaptado a ideia de dormir naquela cama em seu novo quarto. Todas as noites Grissom e Maggie permaneciam ao lado dela, contando histórias ou até mesmo espremidos os três na cama de solteiro até a pequena falante dormir.
—Achei que Emma fosse se adaptar rápido ao novo quarto.
Grissom que estava sentado apoiado as costas no encosto da cama descruzou os braços e começou a fazer carinhos com as pontas dos dedos ao longo das costas de Maggie que estava deitada de bruços.
—Quebramos um vínculo dela com o quarto de bebê que ela tinha, meu amor. É normal que ela se assuste com o novo.
—Eu sei mas não gosto de ver ela chorando quando percebe que saímos do quarto.
Maggie virou-se e ficou encarando Grissom, sabia que ele não dormia bem até ter certeza que a menina também havia caído no sono, ela amava o jeito que ele tinha de amar e cuidar das pessoas e isso a havia encantando desde o primeiro encontro.
—Meu amor, crescer é assim mesmo.
Ele pendeu a cabeça sobre o ombro e ficou encarando a mulher.
—Posso te perguntar uma coisa? Mas você tem que me prometer que não vai me julgar ou pensar que eu sou louca.
Grissom esticou os lábios e meneou a cabeça positivamente. Maggie era rainha em fazer perguntas sem conexão ou sentido mas ele se divertia com isso, ela tinha uma alma muito livre e tinha pensamentos nada convencionais.
—Se você tivesse uma oportunidade de recomeçar a sua vida do zero. Você recomeçaria?
—Como assim? Largar tudo o que eu sou e o que eu tenho?
—Sim, vida nova.
—Isso inclui não ser casado com você e não ter os nossos filhos.
—Uhum.
Maggie sentou-se de frente para Grissom e ficou esperando a resposta, pode perceber em como o semblante dele estava sério com a pergunta. Pegou a sua mão e entrelaçou o seus dedos, sem pedir licença deitou-se em seu peito ainda aguardando a resposta.
—Não tem o por que eu desistir de tudo o que eu tenho, sou casado com uma pessoa incrível, tenho dois filhos maravilhosos e um emprego muito bom. Então minha resposta é não.
Eu tento rir disso tudo
Cobrindo com mentiras
Eu tento rir disso tudo
Escondendo as lágrimas em meus olhos
Pois garotos não choram
Garotos não choram.
Seus dedos tamborilavam o volante do carro de acordo com as batidas da bateria, lembrou-se que conhecia aquela música, ocasionalmente ouvia essa música vindo do quarto de Jason que tinha os mesmos gostos que seu avô Robert. Olhou no velocímetro e este já marcava 155km/h, o vento atingia o seu rosto de forma mais forte mas ele gostava.
Começou a pensar em como havia se tornado amargurado depois da partida de Maggie, a todo custo ele tentava encontrar um culpado de sua vida ter virado aquele pandemônio, se ele tivesse reparado em todos os sinais que Maggie dava ao longo dos tempos, ele era capaz de solucionar os casos mais complicados mas não foi capaz de fazer uma leitura de sua esposa.
Jason e Emma não tinham culpa alguma do que havia acontecido mas era inevitável que toda aquela história não os afetasse de alguma forma, como ele contaria para eles que Maggie simplesmente havia ido embora e deixado somente uma carta e um bilhete.
Não tinha explicações para aquilo.
Ela havia ido embora e deixado ele com uma granada prestes a explodir nas mãos.
Como contar para uma rapaz de 14 para 15 anos e uma criança de 4 anos que sua mãe não voltaria mais para casa?
Ele apertou as mãos com um pouco mais de força no volante. Ele não devia ter omitido a verdade de seus filhos, principalmente de Jason que na época já tinha idade o suficiente para ter discernimento para entender. A mentira dele o fez sair como o carrasco daquela história, deixar Jason acreditar em somente um lado da história havia sido o seu primeiro erro.
Eu diria a você que eu te amava
Se achasse que você ficaria
Mas eu sei que é inútil
E que você já foi embora
Era fim do seu turno e pelo o horário era também o fim do plantão de Maggie, pensou em fazer uma surpresa para sua esposa que não via a dois dias por desencontros dos trabalhos. Na recepção foi avisado que ela estaria na sala de descanso junto com os outros médicos plantonistas.
Avistou ao lado de Scott, os dois estava vendo algo de interessante no notebook pois em momento algum eles perceberam a presença dele na sala.
—O que estão fazendo?
—Oi Grissom nem vi que tinha estava aqui.
Scott chamou ele para se sentar perto de Maggie, ele e sua esposa trocaram um beijo rápido e ele parou na frente do notebook, na tela mostrava paisagens de Havana, as cores tropicais e a beleza do local chamaram a atenção de Grissom.
—Pensando em conhecer Cuba, Scott?
—Planejando as minhas próximas férias, meu caro. – Scott piscou para Maggie que retribuiu o gesto para o amigo.
—Eu não vejo a hora de ter férias também, as vezes a rotina me deixa tão entediada. — Maggie jogou a cabeça para trás e soltou o ar dos pulmões, desfez rabo de cavalo que prendia os seus cabelos e balançou as madeixas cor de caramelo.
—Não sei se vamos ter a oportunidade de conhecer Havana mas férias logo logo você vai ter.- Concluiu Grissom enquanto se levantava. — Eu já estou indo, você quer uma carona?
Maggie permaneceu sentada, olhou no relógio e viu que seu plantão já havia terminado mas ainda teria uma reunião com os diretores gerais do hospital.
—Pode ir, eu ainda preciso resolver mais alguns assuntos aqui e sei que você deve estar bem cansado. Venha, eu te acompanho até o estacionamento.
Grissom despediu-se de Scott com um aperto de mão, ele e Maggie caminharam de mãos dadas pelo os corredores, alguns funcionários cumprimentavam o casal, já nos estacionamento trocaram mais um beijo rápido.
—Vou chegar a tempo de levar Emma e Jason para a escola. –Sorriu orgulhoso.- Vou pedir para Stella preparar um café reforçado para gente.
—Faça isso, querido. Prometo que eu não vou demorar, hoje são apenas burocracias.
Ele abraçou a esposa pela cintura e apertou o corpo dela contra o dele. Ele amava-a muito e era muito feliz ao seu lado, o que ela havia feito com ele em poucos anos era o que mais o deixava contente.
—Acho melhor eu ir indo, ainda preciso conversar com meus pais a respeito das minhas famigeradas férias.
Ela abriu um sorriso e esticou a língua arrancando uma risada de Grissom. Apesar da pouca diferença de idade entre os dois, Maggie sempre manteve o espirito de moleca.
—Ei, Maggie. Amo você.
Maggie que já estava um pouco mais afastada de Grissom, limitou-se a sorrir e piscar para o marido, deu as costas e retirou um envelope branco de seu jaleco, com o seu nome completo escrito no verso no envelope, bateu o objeto na palma da sua mão e entrou para o hospital.
Julguei mal o seu limite
Fiz você ir longe demais
Não te dei valor o suficiente
Pensei que você precisasse mais de mim.
Era um daqueles fins de semana que os meninos ficavam doidos para chegar a hora de ir para casa dos avós. Robert e Virginia sempre inventavam uma desculpa para festejar alguma coisa com os netos e naquele dia Robert havia armado uma barraca no quintal para eles dormirem ali.
Maggie estava parada ao lado de seus pais finalizando a montagem da barraca, Emma no colo de Grissom perguntava o tempo todo quando eles poderiam brincar e ele tentava acalmar a ansiedade da pequena já Jason estava encarregado de levar os colchonetes para fora.
—Venha aqui, Emma. Vamos finalmente poder brincar na barraca.
Robert estava em pé ao lado da barraca de lona, Jason terminava de posicionar os colchonetes e Virginia aproveitava o fim de tarde fresco e terminava de organizar uma bela mesa de guloseima para os seus netos, uma variedade de pães e bolos estavam dispostos ao lados dos diversos sucos.
Maggie sentou-se naquele banco de madeira que estava ali desde a sua infância, seus pais nunca mudaram de casa apesar de todo o crescimento que tiveram ao longo do tempo nunca quiseram deixar as boas memórias para trás. Sorria enquanto via a euforia de seus filhos brincando com seu pai na barraca, Emma já estava sentada no colo de Robert enquanto Jason escutava atento uma das estonteantes histórias que só seu pai sabia contar.
Sua mãe empenhada como sempre foi procurava fazer o melhor para a sua família, desde o seu marido Grissom até seus filhos, Virginia amava agradar quem ela amava.
Os anos haviam passado para o seus pais, eram as mesmas pessoas mas o vigor já não era o mesmo. Amava muito eles, amava a pessoa quem eles a ajudaram ser. Partir iria doer em ambos mas era uma ferida que precisaria ser aberta. Olhou para cada um que estava naquele jardim, não tinha nenhuma câmera em mãos mas quis capturar cada rosto naquele momento, era essa a imagem que queria levar.
—Ei pessoal, vou precisar ir até o hospital. Surgiu uma emergência com um paciente meu.
—Mas você não está de férias, querida? – Grissom surgiu no jardim segurando mais um bolo que sua sogra havia feito. – Realmente precisa sair?
—Sim, esse paciente estava internado e teve uma piora, eu conheço bem o quadro dele e acho mais seguro eu fazer a avaliação.
—Você quer eu te leve?
—Não, meu amor. Fique aqui com meus pais e as crianças, eles vão precisar.
—Precisar de quê?
—De você – Ela sorriu.- Sabe como com meus pais não existe a palavra “não” quando o assunto e Jason e Emma.
Eles sorriram e Maggie tomou a iniciativa de abraçar seu marido, um abraço apertado como a última coisa que ela pudesse agarrar nesse mundo fosse ele, queria poder sentir a pele dele contra a dela, queria que aquele perfume pudesse transferir todo para a sua roupa, queria poder socar seu peito quantas vezes fosse necessário.
Queria ele entendesse que ela havia chegado no seu limite e a culpa nunca seria dele.
Somente dela.
Seus filhos vieram a seu encontro a pedido de Robert que havia escutado que sua filha iria sair, Jason deu um abraço rápido e Emma como sempre amorosa demorou um pouco mais no abraço. Maggie não queria dar para aquele momento um ar de despedida então aproveitou ao máximo daqueles momentos rotineiros.
—Preciso ir agora.
Grissom acompanhou sua esposa até o seu carro, a brisa do fim de tarde estava gostosa como a companhia naquela casa. Se ele soubesse que aquele seria o último momento que veria sua esposa teria pedido para ficar ou de repente teria ficado com ela um pouco mais, quem sabe até a levaria no local onde ela escolheu para desaparecer da vida dele.
Era apaixonado por ela.
—Ei Griss. – Ela afagou o rosto liso de seu marido. –Você é a pessoa mais incrível que eu conheço, sabia?
—Eu pensei no que você me pediu. Vou conversar com xerife para reduzir as minhas jornadas no laboratório ou ao menos tentar evitar trazer extra para casa. – Ele puxou a mão que afagava seu rosto e encostou seus lábio na palma da mão.
—Faça isso, meu amor. As crianças vão amar essa ideia. Agora eu realmente preciso ir. Vai ficar bem sem mim?
—Eu sei me virar.
Ela deu partida no seu carro e pelo o retrovisor viu a casa de seus pais sumirem no horizonte, foi até a sua casa onde deixou o seu carro na garagem, com uma pequena mochila chamou um carro em direção ao aeroporto, já com a sua passagem em mãos foi indicada que o voo em direção a Havana sairia no portão 28.
Agora eu faria qualquer coisa
Para ter você de volta ao meu lado
Mas eu só fico rindo
Escondendo as lágrimas em meus olhos
Pois garotos não choram garotos
Ele não tinha ideia em que lugar ele havia parado, encontrou um bom local para estacionar no deserto, tinha certeza que ninguém iria aparecer ali. Saiu do carro e sentou-se no capô, o céu estrelado em companhia da Lua clareava todo aquele deserto. Ele queria estar ali, precisava estar sozinho. Nada daquilo fazia muito sentido.
—Maggie, por que você foi fazer isso?
Ele esticou-se encostando seu corpo no para-brisa do carro, fechou os olhos com força e quis muito que Maggie estivesse ali, queria que ela estivesse ali para explicar tudo o que aconteceu, por que ela decidiu ir embora sem ao menos dar uma chance para ele tentar consertar tudo.
Perguntas.
Perguntas
E mais perguntas.
A solução que ela encontrou para mudar a rotina não incluía a sua família.
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