Sim, Senhor.
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Emma estava com a ansiedade no seu nível máximo, naquele dia seria a apresentação de fim de ano de sua escola. Ela e todas as amigas de sua idade estavam ensaiando a peça Romeu e Julieta e para o total desespero de Grissom ela havia sido escolhido pela a professora para interpretar a pequena Julieta.
—Sarinha, vamos logo.-Emma puxava Sara em direção ao seu quarto, a menina que havia acabado de tomar banho estava enrolada no seu roupão vermelho.- Preciso me transformar na Julieta.
—Eu não acredito que eu tenho uma pequena atriz em casa.
Grissom que estava na porta do seu quarto viu o quanto a menina estava desesperada e ansiosa para o dia da peça, durante todo o banho ela só falava em como queria estar bonita e radiante enquanto estivesse no palco. A todo momento ela repetia as frases da peça e pedia para que ele repetisse as frases de Romeu.
—Minha nossa! Quem foi que tomou banho? Você ou Emma?
Stella que passava na porta do quarto de Grissom espantou-se ao ver a camisa cinza do homem toda molhada, os cabelos penteados para trás indicava que a cabeça também havia sido molhada.
—Emma está tão empolgada que além de tomar banho e me dar banho, molhou o meu banheiro inteiro. Agora eu vou tomar um banho de verdade e me aprontar.
O homem pediu licença e fechou a porta do seu quarto, Stella foi até o quarto da menina e encontro Sara ainda penteando os cabelos caramelos, já vestida com o figurino da peça Emma segurava a barra do vestido e balançava seu corpo de um lado para o outro.
—Uma verdadeira princesa você está, Emma.
A menina virou-se para a porta e sorriu para a governanta. A senhora sentou-se na cama ao lado de Sara que iniciava o processo de trançar o cabelo dela, a pedido da própria Emma faria uma bela trança. Com o auxílio de Stella que ajudava no processo de trançar, Sara finalizou o penteado colocado uma pequenas margaridas artificiais no cabelo.
—Prontinho, minha Julieta. Já pode ir em busca do seu Romeu. – Sara que segurava Emma pelo os ombros enquanto as duas se viam no espelho, a menina que rodou na ponta dos pés deu um salto de alegria quando se viu preparada para a peça.
—Nada disso Emma, você só vai encontrar um “Romeu” quando tiver dezoito anos. –Jason entrou no quarto e jogou-se na cama entre as mulheres, abraçou a cintura de Stella enquanto com a outra mão apoiava o queixo observando sua irmã.
—Meninos são chatos, Jason! Menos você e o papai.
—Continue com esse pensamento por muito tempo, pirralha.
—E vocês meninas? Não vão se arrumar para irem?
—Jason, eu já estou pronta. –Stella aproveitou a brincadeira e apertou o nariz de Jason, era sempre assim, todas as oportunidades que tinha ele gostava de brincar e implicar com a governanta.
—Eu nem reparei. – Ele mostrou a língua para ela que gesticulou com os dedos uma tesoura.
—Eu vou me arrumar agora. Então, Emma tome conta desses dois para eles não briguem.
Emma ergueu os dois polegares e ficou séria, como aquela fosse realmente um pedido sério de Sara. Ela saiu do quarto e foi em direção ao quarto de Stella, a morena havia levado sua roupa para poder tomar banho e trocar-se ali mesmo, desde que Stella havia feito a cirurgia ela mantinha alguns pertences pessoais ali. No banheiro despiu-se rápida e tomou uma ducha quente, gostava muito de tomar banho ali pois a pressão da água do chuveiro massageava sua pele.
O inverno de dezembro mostrava-se menos rígido naquele dia, um sol tímido ainda pairava no céu mas nada que dispensasse os bons casacos de frio.
Com uma calça jeans escura e uma blusa de manga cumprida listrada, ela achou melhor optar pela a sua parka e nos pés um sapato de salto preto, por se tratar de uma festa escolar optou por uma maquiagem bem leve, espirrou um pouco de perfume e finalizou. Voltou para a sala e encontrou todos terminando de se agasalhar, Stella havia pego um grosso sobretudo para Emma que parecia estar embrulhada em um grande edredom.
—Você está bonita, Sara. – Jason elogiou Sara com um sorriso de lado. O rapaz havia aprendido a gostar dela. Fez o elogio sem segundas intenções. – Não acha, pai?
Grissom que terminava de ajeitar o cachecol parou de arrumar a peça em seu pescoço para analisar a jovem, tentou ser o mais discreto possível para analisar, gostou do que viu e sabia que ela era uma mulher bonita, muito bonita por sinal. Ele não respondeu à pergunta que seu filho havia feito, não seria indelicado e nem iria constranger Sara.
—Se todos estão prontos podemos ir. – Ele abriu a porta e deu passagem para todos, quando Sara passou ao seu lado sentiu o cheiro adocicado e aveludado do perfume dela, era um cheiro gostoso e muito elegante e principalmente sensual.
Grissom ficou encantado com o perfume que ela usava, no seu trabalho nunca usava pois atrapalhava nas investigações, então ele mesmo não era adepto ao uso. Dentro do carro o cheiro ficou ainda mais concentrado e ele ficou ainda mais inebriado.
“Será que a pele dela também tem esse cheiro?”
Logo tratou de afastar esse pensamento de sua cabeça, aquilo não era certo e muito menos ético da parte dele. Era um homem casado e tinha grande respeito por isso. Concentrou-se no caminho até a escola de Emma.
A entrada da escola estava apinhada de pessoas, festas de encerramento sempre são grandes atrativos na comunidade, mãe e pais orgulhosos de seus filhos não medem esforços para fazer uma grande festa. Professores e diretores com a sensação de dever cumprido e principalmente crianças aliviadas por finalmente estarem de férias.
—Tenho que encontrar a Srta. Adams, ela vai estar na minha sala com todo o elenco, pai! Vamos logo eu não posso me atrasar.
—Desde quando minha irmã virou atriz renomada para ficar nos dando ordem? – Jason que ainda descia do carro, implicou com a irmã que estava o tempo todo procurando algum colega seu de turma que pudesse estar por ali.
—Ela está crescendo muito rápido, Jay. – Completou Grissom trancando a sua Denalli.- Leve ela até a sala C onde a Srta. Adams. Eu, Stella e Sara vamos logo atrás, não quero que Stella ande depressa.
—Grissom eu já disse que estou recuperada não precisa se preocupar.
Ele nem se deu o trabalho de escutar a senhora, delicadamente pegou o braço dela e colocou entre seu braço e foram andando em direção ao interior da escola. Sara que ficou alguns passos atrás dele reparou em como algumas mulheres o encarava desde que ele havia descido do carro, algumas olhavam discretamente e outras nem tanto. Ela concordava com aquelas mulheres, ele era um homem muito bonito e charmoso mas se elas o conhecessem provavelmente mudariam sua opinião a respeito dele.
Grissom vivia sob o efeito da Maggie-Bomb.
No interior da escola, todo o barulho e conversa que existia do lado de fora havia se intensificado, o local estava lotado e por sorte Jason achou quatro lugares não tão próximo do palco mas com uma boa visão geral. Grissom que antes usava o óculos escuro para diminuir a claridade agora não contava mais com esse recurso, sua enxaqueca estava forte naquele dia mas em nenhuma hipótese poderia deixar de ir naquele evento.
—Está com enxaqueca, né? – Stella tocou o braço do homem que ainda permanecia com os olhos fechados e segurando firme nos braços da poltrona. Ele apenas assentiu com a cabeça e permaneceu calado.
—Pegue.
Ele abriu os olhos e viu Stella segurando um frasco laranja, abriu a mão e ela despejou dois comprimidos na palma da mão dele. Engoliu a seco mesmo e voltar a fechar os olhos.
—Como soube que eu estava com enxaqueca?
—Vi você deitado no divã do escritório com as luzes e cortinas fechadas. Você fez jornada dupla esses últimos dias. Você não é um enigma tão difícil de se decifrar, Gil Grissom.
Ele apenas limitou-se a sorrir com os olhos fechados e segurou a mão de Stella, devia muita coisa a ela. O local estava ficando cada vez mais cheio e barulhento, a todo momento se ouviam mães e pais eufóricos para ver seus filhos se apresentando, para Grissom aquilo tudo não passava de um mero detalhe, desde que havia se tornado pai ir aqueles eventos era apoiar seus filhos e não uma injeção no ego como dos outros pais.
As cortinas se abriram e junto com elas os olhos de Grissom, com um pouco de esforço seus olhos se adaptaram a claridade que vinha do palco. Um menino moreno correu o palco gritando que a peça iria iniciar, empunhando um trompete anunciou que naquele momento Romeu iria até a varanda encontrar com Julieta.
No alto da varanda improvisada, Emma mantinha as duas mãos unidas próxima a sua bochecha, a procura de seu “Romeu” o menino que estava com uma das pernas apoiada no chão na posição de cavalheiro empunhava uma rosa de plástica nas mãos.
—Por que razão, Romeu, és tu “Romeu”? Nega o teu pai e o nome que vem dele, ou então jura que és o meu amor, e eu não mais saberei ser Capuleto.
Grissom que estava na plateia ajeitou-se na cadeira para ver melhor a “atuação” de sua filha, apesar de na última semana ter escutado aquela frase milhares de vezes mas escuta-la recitando ali havia lhe incomodado um pouco, retirou o cachecol que estava ao redor de seu pescoço e inclinou-se um pouco para frente.
—Ouço ainda ou respondo já a isto? – O jovem Romeu parecia estar um pouco nervoso e envergonhado diante da plateia, com um sorriso amarelo encarou Emma que permanecia com o mesmo semblante.
—Não se chamasse. Despe esse teu nome, e em troca desse título acessório, toma-me a mim.
Sara que estava sentada ao lado de Stella reparou quando Grissom começou a movimentar-se desnecessariamente na cadeira, ora ele apoiava o braço na poltrona da frente ora ele jogava o corpo contra o encosto do assento.
Para sorte e alivio de Grissom, a professora havia apenas adaptado um pequeno pedaço do famoso dialogo do livro, a peça infantil consistia em pequenos atos de diversos livros para que então todos os alunos tivessem a oportunidade de protagonizar alguma cena.
—Eu tomo a tua palavra: Não mais serei “Romeu” daqui em diante, batiza-me de novo como “amor”
O menino então levantou-se e foi até perto da varanda, Emma esticou a mão e ele depositou um beijo na face da mão da menina. As cortinas se fecharam e todo o auditório aplaudiu a pequena cena, Jason mais eufórico começou a assoviar alto e logo foi repreendido por Grissom que sentia a cabeça latejar a cada palma dada.
—Minha menina estava linda, não acha Grissom?
—Eu concordo com você, Stella mas ainda bem que essa tortura acabou, Emma é muito nova para conhecer esses romances.
—Parece que tem alguém com ciúmes.
Sara que estava caminhando ao lado dele riu com a careta que o homem havia feito. Estavam indo se encontrar com Emma que estava reunida com o resto da turma após a apresentação. A menina que saiu correndo quando viu sua família se aproximando, jogou-se no colo de Grissom e depositou um beijo na barba que finalmente havia tomado forma.
—Parabéns, minha linda. Você se saiu super bem hoje.
Todos se aproximaram da menina e lhe deram um abraço, Jason pegou sua irmã no colo e girou ela, arrancando várias risadas da menina.
—Olha só quem eu encontro aqui.
Um homem loiro com o cabelo arrepiado se aproximou da família, ele tinha um belo sorriso e parecia ser bem íntimo de Sara que assim que o viu lhe deu um abraço caloroso.
—Hank, que bom te ver. O que faz aqui?
—Vim assistir à peça do meu sobrinho, ele acabou de interpretar o Romeu. E você o que faz aqui?
—Eu vim acompanhar a pequena Julieta hoje.
Emma que estava atenta a conversa sorriu para o homem loiro.
—Quanto tempo eu não há vejo. Ainda está cursando faculdade de física?
—Me formo no ano que vem, finalmente. E você o que está fazendo?
—Estou trabalhando como enfermeiro no Desert Palm, hoje consegui fugir um pouco para poder estar aqui com a minha irmã.
Grissom que estava parado ao lado de Stella também prestava atenção na conversa dos dois, sabia que conhecia aquele homem de algum lugar mas não conseguia saber de onde era. Ficou se perguntando se eles eram apenas amigos ou algo de mais íntimo.
—Acho que te conheço de algum lugar. – Hank apontou para Grissom que cordialmente apertou sua mão.
—Investigador, Gil Grissom.
Sara internamente achou muito sexy o jeito que ele se apresentou para Hank.
—Agora me recordo de você, provavelmente já nos esbarramos algumas vezes no Desert Palm.
—Provável.
—Foi um prazer enorme te reencontrar Sara mas agora eu preciso voltar para o hospital, aquele lugar não para nunca. Vê se não some novamente.
—Anote o meu número, assim não vai ter a desculpa para não me procurar. – Sara revirou dentro de sua bolsa e achou uma caneta esferográfica preta, puxou a mão do paramédico e escreveu o número de seu celular ali. Hank cumprimentou todos ali e sumiu no meio do corredor.
—Namorado, Sara? – Jason que tinha um sorriso nada inocente encarava Sara.
—Fomos bons amigos no período na faculdade, ele se formou antes de mim e depois acabamos perdendo o contato. – Ela falou enquanto observava Hank desaparecer no meio da multidão.
Um senhor de cabelos brancos e ralos se aproximou da família empunhando uma bela câmera fotográfica em mãos, no seu crachá indicava que ele era o fotografo responsável pelas fotos daquele evento.
—O que acham de uma foto como recordação do dia de hoje? – O senhor exalava simpatia e era quase impossível negar aquele pedido.
—Por que não? – Grissom deu de ombros, procuraram uma melhor posição naquele emaranhado de gente no corredor. Ele e Stella ficaram um ao lado do outro e Jason ao lado de Stella e Emma na frente dos adultos
—Venha Sara, você também tem que aparecer na foto. – Jason fez um sinal com a mão para que a morena junta-se a eles. Ela parou ao lado de Jason mas por uma questão de enquadramento e a pedido do senhor ela precisou ficar ao lado de Grissom.
“Novamente esse perfume”
Ela parou ao lado dele e sentiu quando ele timidamente colocou a mão em seu ombro.
“Novamente o contato físico”
Indicando para que olhassem para câmera, em fração de segundos o flash iluminou o rosto deles e queimou os olhos de Grissom. Por um instante ele havia se esquecido da dor que tanto o incomodava mas aquela luz forte em seus olhos voltou a lembra-lo de forma agressiva.
Após a foto, por longos instantes eles permaneceram se encarando. Sara imergida naquele olhar azul e ele preso ao olhar castanho dela. Ela parecia tão delicada e ele tão ferido, ela tão intensa e ele tão fraco, ela decidida e ele totalmente perdido. Por breves segundos
Se você pudesse se controlar
Por um instante
Então você veria que eu seria
Sua desculpa para ter um amante
Sua própria montanha para escala
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