Sim, Senhor.
7 Capítulo 7
Notas iniciais
No início da manhã, o próprio Scott ficou encarregado de dar as boas notícias para Sara e Grissom que permaneceram ali o resto da madrugada, a governanta havia reagido bem a cirurgia e ainda estava sob os efeitos da anestesia. O diretor disse que eles estavam liberados para ir até o quarto onde estava Stella.
—Que alivio em saber que tudo ocorreu bem. Ela nos deu um susto. — Concluiu Sara enquanto conversava com Scott. Ela não pode deixar de perceber que o homem pouco lhe dirigia a palavra e poucas vezes a encarava.
—Ela vai precisar ficar de repouso por alguns dias antes de poder retornar as atividades laborativas, quero que ela se recupere bem.
—Vou providenciar todos os meios para que isso aconteça, Scott. – Grissom cumprimentou o velho amigo com um aperto de mão. – Será que agora podemos ir até o quarto onde ela está?
O médico assentiu e indicou que ela estava no quarto 103 e informou a enfermeira que levasse os dois até o local. Duas breves batidas na porta e a enfermeira abriu a porta, Stella já estava acordada e permanecia deitada, um soro estava ligado em seu braço direito e no seu dedo indicador estava plugado o medidor de frequência cardíaca. Com a feição cansada e abatida, a senhora tentou esboçar um sorriso e pediu que eles se aproximassem do leito.
—Como você está, Stella? – Grissom tomou a iniciativa e acomodou-se na poltrona que ficava ao lado de seu leito.
—Um pouco dolorida mas me sinto bem. Me desculpe pelo o trabalho que eu causei a vocês.
—Não houve trabalho algum. Você é praticamente uma integrante da família e por favor quando você não se sentir bem me comunique. Apêndice não é uma doença silenciosa e você já devia estar sentindo os sintomas a alguns dias. Estou certo?
Stella apenas concordou e fechou os olhos novamente. Sara que observava a cena percebeu em como ele mantinha a seriedade ao falar com sua governanta, para Sara aquilo era o mais próximo de “atenção” que ela viu ele dar para uma pessoa que não era membro de sua família.
Grissom levantou-se e parou ao lado de Stella, com as mãos no bolso só então se deu conta que ainda vestia o seu pijama, suspirou fundo e espreguiçou o seu corpo, sua coluna dava claros sinais que ele havia passado muito tempo em uma posição desconfortável.
—Sara eu vou até em casa trocar de roupas e descansar um pouco. Posso deixar com você o dinheiro para o táxi para você retornar para a sua casa, como hoje eu não preciso ir para o laboratório mais tarde eu venho visitar a Stella.
—Retorne com o Grissom, minha pequena. Eu ficarei bem aqui.
—Jamais eu farei isso. -Protestou Sara- Vou ficar com você até você ter alta. Não tem argumento que me tire daqui sem você.
Grissom reparou que a calça bege de viscose que a jovem usava estava manchada de sangue, lembrou que ela havia caído na escada enquanto subia velozmente para buscar seu celular.
—Enfim. Stella eu retorno à noite para ter notícias suas. –Ele segurou a mão da senhora e acarinhou a face da mão dela com o seu polegar, deu uma rápida checagem nos aparelhos que monitoravam sua frequência cardíaca. –Sara se você puder me acompanhar até a porta eu preciso falar com você. Fique bem, Stella.
Sem entender o motivo do pedido de Grissom, ela soltou a mão de Stella e o acompanhou até a porta do quarto e certificando que a porta havia sido fechada, Grissom apontou para a calça dela indicando o sangue seco no tecido.
—Vou pedir para o Scott limpar esse machucado para você. Deve ter se machucado quando caiu da escada.
Sara olhou assustada para sua calça e puxou o tecido até o joelho que revelou um corte um pouco abaixo da rotula, soltou o tecido bege e voltou a encarar o seu patrão. Os mesmos olhos azuis a hipnotizara novamente, agora com uma cor um pouco mais escura revelava todo o cansaço que ele sentia.
—Ei, Sara. Você não ouviu eu te chamar?
Ela balançou a cabeça saindo do seu devaneio e viu novamente a figura do médico ao lado de Grissom. O homem a encarava de uma maneira nada agradável.
—Venha senhorita, eu vou dar uma olhada no seu machucado. –Scott indicou a porta a sua esquerda para Sara e entrou na sala logo em seguida, pediu que ela sentasse na maca e mostrasse o machucado, prontamente ela ergueu o tecido revelando o machucado com o sangue seco. Com muita má vontade ele pegou os equipamentos necessário para fazer a esterilização do corte.
—Nem havia reparado que tinha me machucado. –Essa era a sua tentativa de quebrar a tensão que estava naquela sala.
—O que você é do Grissom? – Scott havia puxado uma cadeira e sentou-se em frente a Sara, pelo o fato de estar mais baixo que a morena que estava sentada na maca ele a encarava de baixo para cima.
—Eu apenas cuido de Emma e Jason. Algo de errado nisso?
Ele molhou uma gaze e passou no ferimento de Sara, aquilo ardia e ela fechou os olhos tentando reprimir a dor, logo em seguida ele secou e espirrou um pouco de antisséptico no local do ferimento, não era um corte muito grande mas provavelmente iria incomodar o andar dela.
—Pronto Sara. Avise a Grissom que isso é uma cortesia de Maggie.
O médico retirou as luvas e jogou no lixo de metal, encarou Sara novamente e retirou-se da sala deixando ela sem entender o que havia acontecido naquele local. Não sabia qual era o tipo de bomba que Maggie havia sido mas provavelmente os estilhaços de toda aquela confusão havia atingido muitas pessoas.
Retornou para o quarto onde Stella estava e encontrou a senhora encarando a televisão que estava ligada no noticiário local.
—Como está, mama?
—Estou bem, minha pequena. Apenas sentindo um pequeno desconforto mas a enfermeira me contou que isso é normal após a cirurgia.
—Você nos deu um baita susto. Por que você não me avisou que estava se sentindo mal esses dias? – Sara que mantinha um tom de voz amoroso queria reprimir a conduta de Stella mas não conseguiria fazer isso, de todas as peraltices e rebeldias que Sara havia aprontado quando era mais nova, Stella nunca advertiu ou brigou com ela de uma forma repressiva.
—Eu achava que não seria nada que devesse me preocupar, estava tomando os meus remédios regularmente e vez ou outra eu tomava um analgésico para aliviar as dores.
Sara acomodou-se na poltrona que Grissom havia sentado, seu corpo também estava muito dolorido, passou o resto da madrugada em claro e tensa com a presença de seu patrão ao seu lado. Em momento algum eles conversaram ou se olharam, permaneceram em silêncio durante todo o tempo, vez ou outra algum médico ou enfermeiro cumprimentava Grissom.
—Stella, você conhece o Dr.Scott?
A mulher virou o rosto para onde Sara estava sentada, ajustou o travesseiro para ficar um pouco mais confortável naquela posição. Pela pergunta de Sara provavelmente ela já havia conhecido o jeito “turrão” do vice diretor do hospital.
—Conheço. Ele foi padrinho de casamento de Maggie e Grissom, um velho amigo da família Woolf. Mas o porquê da pergunta?
—Ele se mostrou bem grosseiro comigo, ficou me encarando enquanto eu estava ao lado de Grissom e depois que ele limpou meu machucado disse que era uma cortesia de Maggie.
—Que machucado? – Stella por puro reflexo tentou levantar-se para saber onde Sara tinha se machucado e acabou flexionando a barriga provocando em si um enorme desconforto, soltou um gemido baixinho e levou a mão ao abdômen. Sara saltou da poltrona e foi ajeita-la na cama novamente, certificou-se que a “peripécia” não houvesse causado nenhuma outra lesão.
—Eu cai quando fui buscar a carteira de Grissom e machuquei o meu joelho, nada de novo para mim que sou bem desastrada. – Achou melhor sentar no próprio leito (mesmo sendo contra a indicação hospitalar) não quis sair do raio de visão da senhora.
—Minha pequena, o Dr. Scott e Maggie são amigos de infância, sempre estudaram juntos e foram juntos para a faculdade de medicina, ele tem muito apreço por ela. Talvez ele tenha julgado mal por ver vocês dois juntos.
Sara recordou-se de ver Grissom soltar sua mão abruptamente quando o médico olhou para eles. Uma nova informação a respeito da “Maggie-Bomb” como Sara havia apelidado a mulher havia sido revelada, tudo o que ela sabia a seu respeito que era ela mulher de Grissom e médica.
...
Stella ainda permaneceu no hospital por mais uma noite, a contragosto de Sara e por imposição de Grissom ela retornou para a casa dele, a morena tentou de todas as formas convencer que seria muito melhor a governanta ficar na casa dela sob os seus cuidados mas Grissom e até mesmo Stella haviam sido contra essa decisão.
Emma e Jason ainda estavam na casa de seus avós, Grissom havia comunicado o ocorrido e tranquilizou ambos que ficaram afobados querendo voltar para casa ver Stella. Por indicação de seus sogros que também eram médicos, iria deixar os dois o resto do fim de semana na casa deles, na segunda de manhã Virginia estava encarregada de leva-los para a escola.
Segundo Robert que conhecia bem a governanta, “ela iria fazer do tempo de recuperação uma fração de segundos só para poder coordenar a casa e estar com as crianças”, e Grissom não tirava a razão dele.
—Stella, você ouviu isso da Dra. Lindsey, do Dr. Scott e agora vai escutar de mim também. É para manter repouso absoluto, ou seja nada e ficar em pé para ver a casa, acompanhar o trabalho da Wanessa, James e de Sara. Já pedi que Emma e Jason ficassem na casa do Robert justamente para fazer ter esse dois dias sem preocupação.
Grissom que havia acomodado sua governanta na cama, estava sentado próximo aos pés dela, em uma das mãos ele segurava a receita e outra uma das caixas do remédio, com a ajuda de Sara eles estavam organizando os remédios dela sobre o criado mudo que ficava ao lado de sua cama.
—Aliás, eu gostaria que Sara ficasse no horário integral aqui em casa enquanto você se recupera. Acho que tem certas atividades rotineiras que seria melhor uma mulher realizar.
Não era a intenção de Sara provocar mas ela revirou os olhos com o pedido de Grissom, mesmo que isso não houvesse passado em sua cabeça ela não deixaria Stella sozinha durante a recuperação. O homem que encarou aquela ação como deboche, mordeu o lábio inferior e coçou o queixo, virou a cabeça lentamente para Stella que terminava de tomar o primeiro comprimido.
—Se você não quiser ficar Sara não tem nenhuma obrigação mas eu acho que você é a pessoa mais próxima de Stella.
—Eu fico sem nenhum problema. – Sara sorriu para Stella que retribuiu logo em seguida. Grissom que não tinha visto Sara sorrir, ou melhor, pouco a via reparou nos seus dentes levemente separados, discretamente ele pode avaliar o rosto dela. Era uma jovem muito bonita e não podia negar que era atraente.
—Fica combinado assim então. Agora eu vou para a cozinha preparar uma coisa leve para você se alimentar, Stella. Tente dormir um pouco, quando tudo estiver pronto eu peço a Sara que te acorde.
—Muito obrigada, Grissom. Não sei como eu posso agradecer tudo o que você fez por mim nesse últimos dias. Vou pedir para Sara te auxiliar na cozinha pois sei que você também deve estar cansado.
Sara que estava terminando de ler a bula do remédio quase engasgou a seco quando Stella disse ela lhe auxiliaria na cozinha, por tudo que era mais temerosa na sua vida estar na cozinha fazia parte do top 3. Era um total desastre, como cresceu comendo comida do orfanato nunca se interessou por culinária, sua alimentação era ditada pelo as grandes marcas de fast food.
Na cozinha ele demonstrava que tinha conhecimento do ambiente, transitava entre os objetos com muita facilidade, ao contrário que ela pensava. Sugeriu preparar um creme de batata com uma porção de peixe assado e antes mesmo que Sara pudesse concordar ou discordar ele já estava retirando os filés de peixe do congelador.
—Por favor, descasque as batatas e coloque uma panela com água para ferver.
Ainda assustada e temendo cometer um desastre na cozinha, ela pegou as batatas no local indicado por ele. Só o fato de segurar aquela faca já lhe causava pânico, sem nenhuma técnica ela começou a cortar a batata, tirando fundos pedaços de batata junto com a casca ela queria livrar logo daquela tarefa.
—Já vi que você não tem noção alguma de cozinha. Me deixe eu te mostrar como se descasca uma batata, desse jeito que você está fazendo precisaremos de ao menos um quilo para poder fazer um pouco do creme.
Ela entregou a faca para ele que indicou que ela só precisaria de calma e precisão para realizar a tarefa. Quando ele olhou a panela deu uma risada baixa ao reparar que a jovem mal havia colocado uma caneca de água para ferver.
—Garota, você sobrevive de que?
—KFC, Pizza Hut, Domino’s e Wendy’s. Ou algo que esteja aberto 24 horas.
Ele riu e devolveu a faca para Sara, por um momento ela sentiu simpatia da parte dele. Talvez antes da Maggie-Bomb explodir devia ter um bom humor e ser mais amigável, provavelmente em alguns momentos ele se permitia tirar a couraça que carregava e ser um pouco como era antes.
Concentrada na tarefa de terminar de descascar aquelas batatas ela pensava em terminar logo com aquela tortura em cozinhar e principalmente ao lado de seu patrão, a cada vez que a faca batia contra a tabua ela se assustava e ele sorria. Faltava pouco para ela acabar com aquilo mas toda a sua falta de habilidade somada ao seu alto nível de desastre resultou em um dedo cortado.
—Ai que merda. – Sara levou o dedo cortado na boca tentando estancar o sangue. – Cortei o meu dedo.
Grissom aproximou-se dela e pediu para ver o corte que ela havia feito – em menos de 48 horas já era o segundo machucado que ela havia feito – por um lampejo de pensamento ele pensou se ela era mesmo a pessoa certa para tomar conta de seus filhos.
—Deixe-me ver, Sara.
Ele esticou a mão para ela, com cabeça pendendo no ombro lançou lhe um olhar sutilmente terno. Sara esticou a mão e mostrou o dedo indicador que ainda sangrava, segurando a mão dela apoiada na palma da mão dele ele analisou o corte. Sem pedir por favor ou ao menos licença, puxou-a pela mão levando ela até o lavabo que ficava próximo a sala.
O local era apertado para duas pessoas o que tornava o contato físico quase necessário.
Por duas vezes eles se esbarraram enquanto entravam no lavabo. Grissom agachou-se e abriu o armário de portas cor de mogno, retirou uma caixa transparente que tinham alguns remédios e curativos.
“Casa de médicos” - pensou Sara.
Com a torneira aberta e segurando o braço de Sara como ela fosse fugir dali, Grissom aplicou o antisséptico vermelho no dedo dela, novamente aquela dor chata e dessa vez ela não disfarçou o incomodo.
—Aguente firme e não morra.
Ela revirou os olhos e logo em segunda ele pegou uma toalha branca para enxugar sua mão, uma rápida remexida na caixa e encontrou um band-aid de algum personagem infantil e colocou sobre o machucado. Secou sua mão e devolveu a caixa para dentro do armário, espalmou sua mão na lateral de suas coxas e apontou para Sara que observava o curativo.
—Poxa, muito obrigada. Ficou bom mesmo o trabalho. — Ela analisava o seu indicador em riste
—Tanto anos casado com uma médica me serviram de experiências.
Ele abaixou a cabeça e ficou olhando para o movimento que fazia com o seu pé. Engoliu a seco e se retirou do lavabo, Sara saiu logo em seguida e viu o homem subindo as escadas cabisbaixo.
—Maggie-Bomb ataca novamente.
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